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As notas dos debates. Entre Justiça, corrupção, sistema, xerifes e marionetes, Mendes venceu Ventura por décimas

Corrupção e Justiça. Quem é mais independente e quem faz parte do sistema. Um Xerife da República e uma marioneta do Governo. Um debate duro em poucos temas. Em que Mendes se destaca por muito pouco.

Neste artigo seguimos em direto o debate

Corrupção e Justiça. Quem é independente e quem faz parte do sistema. E o BES, ah, o BES. Quase que se podia resumir desta forma o debate mais aceso desta maratona de 28 frente a frente televisivos entre os candidatos presidenciais, que opôs Marques Mendes a André Ventura. O primeiro tema foi a cerimónia do 25 de Novembro e Mendes entrou a atacar, dizendo que Ventura “comemora o 25 de Novembro porque não gosta do 25 de Abril” e viu isso no “detalhe” do líder do Chega ter retirado os cravos do púlpito. Além disso, acusou Ventura de ser um “falso candidato à Presidência”, que “engana os eleitores”.

A resposta, no tom do costume, não se fez esperar por parte de André Ventura, que começou por dizer que voltaria a tirar cravos: “Hoje não deviam estar, eram rosas brancas, estou farto que a esquerdalhada faça o que quer no Parlamento”, atirou logo, para depois dizer que o 25 de Abril foi “o dia que salvou a liberdade”, mas que também trouxe “expropriações, vergonhosa independência das colónias e tudo o que aconteceu depois” e que o 25 de Novembro foi a “garantia de que a liberdade se efetivou”.

Fechado o tema, começou depois a batalha da independência e de quem é mais patriota. Ventura gritou que “é deputado com muito gosto” e disse a Mendes para não fingir que “é independente e está acima dos partidos” porque “foi político toda a vida, desde 76”, apontando até que o candidato que o PSD apoia estava a “jogar em casa” porque era comentador na SIC naquela mesma mesa e com a mesma moderadora, Clara de Sousa. Lembrou ainda que ambos eram conselheiros de estado, mas que ele, Ventura, tinha sido “eleito” e Marques Mendes “nomeado pelos amigos”.

O caso Angola, arrastou o tema da corrupção. Marques Mendes disse que Ventura fez “teatro” e atirou-lhe com a frase: “Só lhe dá jeito criticar o PR porque lhe convém. Ventura é um político, não é um magistrado. Políticos não são polícias para mandar prender alguém, isso era a PIDE”. Ventura não se ficou e respondeu que “Marques Mendes esteve com Fidel Castro, está habituado a dar–se com ditadores”, dizendo-se “farto de andar a defender corruptos e ladrões”, como Lula da Silva, quando foi recebido em Portugal. Marques Mendes acabou a lembrar-lhe o sentido de Estado e de que não era “candidato a xerife da República”.

Mantiveram-se depois no tema Justiça por largos minutos, com Marques Mendes a avançar com uma medida para a área, caso seja eleito Presidente. Dizendo que “a Justiça está doente”, garantiu que a primeira reunião do Conselho de Estado será sobre o assunto, pela primeira vez em Portugal. Falará antes com os agentes da Justiça (presidente do Supremo Tribunal, provedora da Justiça e diretor da PJ) e tem quatro prioridades para que não seja “apenas conversa”: combater a morosidade da Justiça, combater as manobras dilatórias de que se “abusam aos pontapés”, combater o facto de haver uma Justiça para ricos e outra para pobres e o “cancro” do excesso de corporativismo no Ministério Público.

Ventura disse imediatamente que um Conselho de Estado não resolve “absolutamente nada” e avançou com a sua solução: “É preciso agarrá-los e acabar com eles, é o que temos de fazer”, disse, crente de que há uma epidemia de corrupção e que “não quer ser o candidato do sistema ou do mi-mi-mi”. O líder do Chega comparou ainda Mendes a Gouveia e Melo: “Estão na mesma lógica: atacar a Justiça que investiga os políticos corruptos”. O debate ia em tão alto volume que não bastou Mendes lembrar que discordou de Marcelo quando não reconduziu Joana Marques, nem recordar o que fez em termos de ética, incluindo o afastamento de candidatos que eram do PSD, como Isaltino Morais ou Valentim Loureiro das autárquicas, criando “enormes problemas” para si próprio no partido.

E quando se referiu ao caso “de comédia e tragédia” de Miguel Arruda no Chega, entre outros casos do partido de Ventura, Mendes ouviu uma resposta: “É comparar um roubo de malas no aeroporto contra o roubo de malas de dinheiro há 50 anos”. E não ajudou Mendes não ter resposta sobre o que fazer caso tivesse de lidar, como Presidente, com Montenegro arguido. Foi comparado a “uma marionete do Governo”.

O desvio de tema veio, contudo, com uma frase de efeito eficaz: Mendes disse que Ventura, depois do PCP, tem “a nova cassete da política” portuguesa, fala sempre do mesmo, para disfarçar a “ausência de soluções”, “ora é o Bangladesh, ora é a corrupção”. Mas André Ventura interrompeu-o para dizer que Passos Coelho preferiria apoiá-lo, atacou-o com o caso BES e a recomendação sobre o banco estar bem, e terminou com a frase: “Para a sua casta de elite posso não ter nível, mas sou a voz do povo português”.

Um painel de avaliadores do Observador dá notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos 28 debates televisivos para as eleições presidenciais e um texto de avaliação ao próprio confronto. A média vai surgindo a cada dia de debates, no gráfico inicial, que abre este artigo. Amanhã, quarta-feira, não há debates, que regressam quinta, na RTP, com o confronto entre Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo (como todos os restantes, às 21h00). Pode ver o calendário completo dos debates aqui.

Marques Mendes, 13 – André Ventura, 12,75

Alexandra Machado — A Justiça, mas mais do que isso a corrupção, foi o tema dominante. E esse é terreno de André Ventura, mas Marques Mendes tinha-o preparado e tirou da manga a sua proposta de convocar o primeiro Conselho de Estado sobre Justiça (deixando Ventura sem jeito quando recordou que o líder do Chega pediu um Conselho de Estado sobre segurança) dizendo claramente os temas que pretendia que se discutisse nessa reunião e quem ouviria primeiro. Por isso, num dos temas preferidos de Ventura foi Marques Mendes a assumir a rédea. Era o que precisava. Ventura voltou às suas frases feitas sobre corrupção mas os seus adversários têm de começar a perceber que atirar o tema Miguel Arruda não o derrota (atrevo-me a dizer que pelo contrário).

Além de entrar no “terreno” de Ventura, Marques Mendes tinha uma estratégia de atacar a forma (e algum conteúdo) do seu adversário – com algumas frases trabalhadas como “político não é polícia”, “tem a cassete”, é um “falso candidato a Presidente”, não é ”xerife da República”.

Por isso (ou por tática) Ventura até conteve o habitual rolo compressor neste confronto com alguém com quem esteve há alguns anos do mesmo lado da bancada.
Marques Mendes começou o debate bem – arrancou com o 25 de Novembro – e era fácil lembrar a Ventura que por várias vezes desrespeitou regras parlamentares (cartazes nas varandas, atirar papéis no hemiciclo), quando o líder do Chega disse, com algum desplante, que quer é respeito por regras e ordem… para justificar ter tirado os cravos vermelhos da cerimónia porque se tinha considerado que era dia de rosas brancas.

Se André Ventura começou pior, terminou por cima, controlando bem o tempo em que confrontou Marques Mendes com os seus comentários, primeiro a propósito dos incêndios (acusando-o de ter dois pesos e duas medidas na crítica a António Costa e na defesa de Luís Montenegro – e aqui Marques Mendes fugiu ao tema, parecendo, também, ter sido apanhado surpreendido com o tema Spinumviva), mas principalmente quando lançou a “bomba” BES, lembrando o que disse Luís Marques Mendes, enquanto comentador, sobre o BES, antes da queda do banco. Ventura ganhou no timing, porque lançou o tema no final, já não havendo tempo para Marques Mendes se explicar (e havia justificação). Ventura ainda tirou um Passos Coelho da cartola, colando-se ao ex-primeiro-ministro que é da família política de Marques Mendes. Passos Coelho ainda não assumiu publicamente qualquer apoio presidencial.

E a última frase foi de Ventura: “Sou candidato das pessoas, Marques Mendes é das elites”. Funciona para o seu eleitorado (e é isso que lhe interessa). Era um frente a frente difícil para Marques Mendes que não começou da melhor maneira estes debates. No de hoje foi o estadista de serviço (perante Ventura não é difícil, em particular na política externa) e não foi derrotado e era só isso que precisava.

Filomena Martins — Foi um daqueles debates onde não faltou barulho, mas houve finalmente contraste político. Ventura entrou em palco com a cassete do costume (a que Mendes chamou, depois da do PCP, a nova cassete política do País): o sistema, a corrupção, as negociatas, Marques Mendes como “o pior do regime” e a promessa messiânica do “murro na mesa”. Antes de começar já proclamava que este podia ser “o debate da segunda volta”. Exagero? Sim. Mas eficaz para aquecer o ringue.

Marques Mendes, porém, não veio encolhido. Sereno, cirúrgico, com aquele tom de professor que já viu demasiadas manobras para se assustar. Mas quando Ventura tentou colar-lhe o rótulo de presidente-comentador, Marques Mendes não se lembrou de devolver o golpe, lembrando que o adversário também passou anos a comentar — até futebol. E fez o que Ventura detesta: tratou-o como um ator previsível, preso à própria retórica.

O momento simbólico foi o do 25 de Novembro. Mendes reivindicou a democracia plural e acusou Ventura de conviver mal com o 25 de Abril. Ventura respondeu com flores: “Hoje é dia de rosas brancas, não de cravos”. O ataque à “esquerdalhada” voltou, embalado na promessa de ordem. Mendes aproveitou: disse que Ventura é “um falso candidato presidencial”, mais interessado em palco (e nas legislativas) do que em Belém.

Depois veio Angola. A cena do “calado em Luanda” virou arma de Ventura, mas Marques Mendes devolveu com precisão: o verdadeiro silêncio, disse, foi o do líder parlamentar do Chega, Pedro Pinto. Aqui Ventura perdeu o pé. Entre Fidel Castro, Salazar e Madrid, trocou indignação por confusão. Mendes fixou-o no essencial: “O senhor quer mandar prender pessoas — isso é coisa da PIDE”.

O bloco da corrupção foi o mais quente. Ventura disparou o catálogo habitual — elites, casta, 50 anos de roubalheira, confisco imediato. Mendes respondeu com história: casos enfrentados, posições tomadas contra o partido, defesa da ética e da justiça independente. Desmontou Ventura sem gritar — e isso irritou-o ainda mais. Ao ponto de quase  defender o caso Arruda, “um roubo de malas no aeroporto, contra 50 anos de roubos de malas de dinheiro”.

No fim, Ventura saiu com nota 11: combativo, ruidoso, eficaz para a sua base, mas repetitivo e preso às contradições. Marques Mendes leva 13: firme, preparado e mais presidencial. Ventura voltou a lançar fogo-de-artifício; Mendes fez política. O futuro dirá quem ganhou mais. Hoje pareceu que foi Marques Mendes. Não caiu em nenhum alçapão (apesar da armadilha da recomendação ao BES, de que se saiu com um drible) e seguiu sempre em frente com coerência.

Helena Matos — Uma colher de sistema por dia nem sabe o bem que lhe fazia. A André Ventura porque o acalmava. A Marques Mendes porque assumindo uma colher diária reduzia a sobredose de sistema que transparece das suas palavras. Quem terá convencido Marques Mendes que é eficaz repetir “eu vou dizer-lhe com toda a clareza…” face a um André Ventura torrencial, com a agravante que depois não é tão claro assim?

André Ventura conseguiu liderar o debate, os assuntos, a agenda, os temas e sobretudo o tempo. O líder do Chega tem uma grande preocupação nestas eleições: o seu eleitorado vai comportar-se como fez nas legislativas ou nas autárquicas? Por isso André Ventura, enquanto líder do Chega, falou eficazmente para o seu eleitorado. Já o candidato presidencial André Ventura esse ficou para depois ou seja para a segunda volta se lá chegar.

Marques Mendes apostou numa pose institucional o que nele não tem nada de artificial. Mas António José Seguro que também fez a mesma opção pela pose institucional foi muito mais eficaz a neutralizar a verborreia torrencial de Ventura. A dado momento parecia que Marques Mendes estava ausente.

Em resumo, André Ventura falou eficazmente para o eleitorado do Chega. Marques Mendes falou bem, às vezes até bastante bem, mas não se percebeu para quem falou. Ou mais exactamente, Marques Mendes falou mais para os telespectadores que para os eleitores. Convém nunca os confundir.

Pedro Jorge Castro — Ganharam os dois nas suas corridas particulares, daí o empate, que premeia a eficácia política de ambos face aos seus objetivos.

Marques Mendes marcou pontos para o seu eleitorado e ganhou quando entrou ao ataque a acusar Ventura de não gostar do 25 de abril. Ganhou quando expôs o adversário como falso candidato a Presidente. Ganhou quando apontou a incoerência de Ventura face ao silêncio de Pedro Pinto em Angola. Ganhou quando não deixou passar a insinuação de que teria interesses em Angola. Ganhou quando apontou a falta de sentido de Estado de Ventura — e com a tirada do xerife de Estado, que não existe. Ganhou quando anunciou um Conselho de Estado sobre corrupção — e quando recordou a corrupção no tempo de Salazar e a censura que a camuflou. Ganhou quando apontou que as interrupções constantes de Ventura são sinal de fraqueza. Ganhou quando recordou o que fez aos presidentes de câmara suspeitos quando era líder do PSD. Ganhou quando conseguiu impor-se a Clara de Sousa no limite do tempo para ainda tentar rebater o ataque fatal sobre o caso BES. Mas sobretudo ganhou quando ficou calado a ser alvejado em todas as falanges de todos os dedos e aguentou a tomar notas sem se irritar.

Ventura marcou pontos para o seu eleitorado e ganhou quando tentou mostrar-se como o candidato da ordem — apesar de o murro na mesa contra os cravos ter saído um bocadinho ridículo. Ganhou com o contraponto entre o facto de estar no Conselho de Estado por ter sido eleito — enquanto o adversário está por nomeação do Presidente. Ganhou quando recordou que Marques Mendes era comentador naquele mesmo cenário com Clara de Sousa. Ganhou quando invocou a memória dos ex-combatentes e dos que regressaram de África. Ganhou quando recordou as propostas para aumentar as penas para crimes de corrupção e alargar prazos de prescrição. Ganhou quando caricaturou as respostas “Ah é a típica conversa do populismo” e com o contraste entre o “candidato mimimimi” e “o murro na mesa”. Ganhou quando insistiu nos escândalos de Angola, Brasil e Espanha. Ganhou quando se desviou de Miguel Arruda e das malas do aeroporto com Miguel Albuquerque e as malas de dinheiro do PSD. Ganhou quando acusou Marques Mendes de não ser independente face a Montenegro. Ganhou quando infligiu o rude golpe de perguntar onde está Passos Coelho — que não apoia Marques Mendes, tal como uma parte do PSD. Ganhou quando atirou com o comentário sobre o BES no fim do debate e deixou Marques Mendes atrapalhado, apontando-o como candidato das elites. Ganhou de cada vez que não interrompeu e sobretudo quando disse esta frase histórica e inédita na sua boca: “Eu deixo-o terminar”.

Ventura cimenta-se como o candidato mais difícil de enfrentar em debates e continua a aquecer para um próximo confronto com Montenegro — o duelo que lhe interessa. Marques Mendes sobrevive ao momento mais tenso desta corrida presidencial e mantém as hipóteses de passar à segunda volta — onde pode ter de reencontrar o adversário desta noite. Se assim for, provavelmente não vai ser bonito de ver, mas voltará a ser intenso.

Recorde aqui:

o debate entre Cotrim Figueiredo e Jorge Pinto

o debate entre Catarina Martins e Gouveia e Melo

o debate entre Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo

o debate entre André Ventura e António José Seguro

o debate entre Marques Mendes e António Filipe

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