Primeira pergunta sobre a reunião de Luís Montenegro com a UGT, que não conseguiu fazer com que a central sindical se retirasse da greve geral contra a nova lei laboral. Primeiro selecionado para responder: Gouveia e Melo. O almirante, contudo, quis marcar a sua entrada no debate com uma queixa. A de se “andar a discutir muito os temas da governação e das legislativas e não as da Presidência”, deixando assim de fora as suas propostas, “fruto do seu distanciamento político-partidário”, frisou de novo. E ficou também uma vez mais a garantia: “Nunca serei uma marioneta na Presidência, nem uma força de bloqueio.”
Feito o introito, Gouveia e Melo fez questão de explicar que se tem “mantido em silêncio” sobre o tema, porque a lei está em negociações e qualquer “declaração pode afetar essas negociações”. Ainda assim, voltou a repetir que “precisamos flexibilizar a lei do trabalho sem atacar o núcleo mais importante, os direitos dos trabalhadores”, ou seja, sem colocar em causa a “coesão social”. E, segundo ele, “o veto político deve ser excecional.”
Sobre a lei laboral, Jorge Pinto começou por recordar o dia em que passavam “dez anos do Governo da geringonça”, anos que, defendeu, “devolveram confiança aos trabalhadores e devolveram direitos que tinham sido perdidos em anos excecionais”. Dito isto, aproveitou para atacar os seus adversários mais à esquerda, Catarina Martins e António Filipe, “pessoas que estiveram nessa solução e que deviam fazer algumas auto-críticas”. Como são “pessoas que até estão nestas eleições”, prometeu, “quando tiver debates com eles” falará no assunto. O candidato apoiado pelo Livre disse ainda que “há dúvidas constitucionais no pacote laboral” e que o “vetava” se fosse Presidente.
Em temas mais inesperados, Jorge Pinto defendeu o rendimento básico incondicional e o uso das novas tecnologia, mas sempre criando soluções criativas para não despedir trabalhadores — “Os desafios são novos e é preciso novas respostas”. Já Gouveia e Melo é pela Inteligência Internacional, para se poder ter uma economia mais ativa, mas tendo algum cuidado com utopias — “Vai haver uma simbiose entre o que as máquinas e os seres humanos farão. E vai ser muito produtiva”, disse. Grande diferença: o candidato apoiado pelo Livre lembra para a necessidade de controlo do algoritmo, porque não se pode “aceitar que as nossas crianças sejam alimentadas por uma espiral de ódio” e quer que esse controlo seja “público e estatal”. Gouveia e Melo recorda que “a última utopia foi o marxismo-leninismo, que levou milhões para a miséria e transformou sociedades livres em sociedades autocráticas.”
Até que a discussão chegou à Operação Marquês. Ambos concordaram no excesso de tempo do processo. “Demore o tempo que demorar, tem de ser feita Justiça. Mas mais de dez anos para julgar um caso é excessivo”, disse Gouveia e Melo, logo apoiado por Jorge Pinto: “Não é sustentável estarmos há mais de 10 anos” para ter uma decisão deste julgamento.
Mas aqui chegados era impossível não perguntar sobre o apoio, acabado de anunciar, de José Sócrates ao almirante. E foi quando Gouveia e Melo se irritou. “Sócrates votará em quem desejar. Não tenho nada que ver com isso. Parece-me uma pergunta provocatória e até deslocada neste debate. É politiquice e espuma dos dias. Dá a sensação que tenho alguma relação com José Sócrates. Não o conheço”, disse de rajada, não deixando o moderador (José Alberto Carvalho) falar: “Não se importa que mostre o meu incómodo”. E mesmo depois de Jorge Pinto recordar que quando foi “militante do PS” mandou “um email a dizer que não apoiava a recandidatura de Sócrates a secretário-geral, muito antes de todos os escândalos”, o almirante deixou de protestar e mostrar má cara. E acabou com um lamento: que não se tivesse falado da Ucrânia.
Resultado: o pior debate até agora nas notas Observador.
Um painel de avaliadores do Observador dá notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos 28 debates televisivos para as eleições presidenciais e um texto de avaliação ao próprio confronto. A média vai surgindo a cada dia de debates, no gráfico inicial, que abre este artigo. Amanhã, quarta-feira, não há debates, que regressam quinta, na RTP, com o confronto entre Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo (como todos os restantes, às 21h00). Pode ver o calendário completo dos debates aqui.
Jorge Pinto, 7,5 – Gouveia e Melo, 6,5
Helena Matos — Isto não foi um debate. Foi sim uma palestra. Os dois conferencistas partilharam com sensibilidade e simpatia as suas ideias e perspectivas que a julgar pelo que disseram não são assim tão diferentes.
Gouveia e Melo, tal como aconteceu no debate com Catarina Martins, faz questão de afirmar que não é marxista mas afinal Jorge Pinto também parece que não é. Quanto à dissolução da Assembleia da República, foi a vez de Gouveia e Melo tratar de atenuar as diferenças que possam existir entre ele e Jorge Pinto sobre este assunto. Jorge Pinto pelo seu lado não manifestava qualquer vontade de debater com Gouveia e Melo, antes pelo contrário o candidato do Livre avisou logo que vai sim confrontar os dirigentes dos partidos da geringonça por lhe terem posto fim. Até o Elon Musk veio à baila. Debater com Gouveia e Melo é que não lhe ocorria. A conversa ia tão pacata que Jorge Pinto até aproveitou para recordar que venceu um prémio de melhor ensaio atribuído pela Sociedade Portuguesa de Filosofia.
O paradoxo deste alegado debate foi tal que Gouveia e Melo foi derrotado não por Jorge Pinto mas sim por José Sócrates: quando confrontado com o apoio que José Sócrates lhe manifestou pouco tempo antes deste debate começar, Gouveia e Melo mostrou-se agastado. Ora não é possível nem desejável que um presidente da República não controle a sua irritabilidade, comportamento que nada tem a ver com autoridade.
Em resumo, espero que os dois candidatos tenham uma santa noite. Pela parte que lhes toca fizeram tudo para que o sono chegasse cedo.
Luís Rosa —O debate fica marcado pelo claro incómodo de Henrique Gouveia e Melo com o apoio de José Sócrates à sua candidatura — a notícia do dia. Gouveia e Melo não só ficou incomodado com esse tema, que surgiu no final do debate, como, irritado, ainda tentou dar um raspanete no moderador José Alberto Carvalho por fazer uma pergunta obrigatória e óbvia face às declarações de Sócrates. Pior: ainda quis escolher o tema sobre o qual queria falar (a Ucrânia, no caso). O problema de Gouveia e Melo ficar irritado com perguntas de jornalistas sobre a Maçonaria (como aconteceu na entrevista ao Observador) e sobre o apoio de José Sócrates, não tem relevância pelos jornalistas. Tem relevância pelo lado autoritário que mostra do candidato Gouveia e Melo.
Gouveia e Melo esteve mal no ponto Sócrates mas esteve bem no tema da Justiça quando disse que a Justiça processual se sobrepõe à justiça material e que essa é a explicação para a demora na tramitação dos autos da Operação Marquês. É verdade, como os mais de 100 recursos e incidentes processuais interpostos por Sócrates provam.
À parte dessa questão, vimos um debate estranho. Um debate em que se esperaria diferenças claras entre os candidatos mas, à medida que o tempo passava, transformou-se mesmo numa espécie de conversa de amigos — aliás, Jorge Pinto ficou estranhamente calado sobre o caso Sócrates, o que demonstra uma certa simpatia do Livre sobre Gouveia e Melo. Enquanto Jorge Pinto tinha posições claras (não está em causa se são certas ou erradas) sobre o Código do Trabalho, já Gouveia e Melo mantinha o seu habitual discurso redondo para agradar a tudo e a todos (a favor da flexibilização da legislação do trabalho mas “sem colocar em causa o núcleo dos direitos dos trabalhadores”). Isto é, o militar na reserva persiste, de forma insustentável, em esconder a sua posição sobre se promulgaria o Código do Trabalho. Porquê? Porque não quer influenciar as negociações em concertação social. Uma posição sem sentido quando um candidato presidencial deve explicar o seu pensamento político de forma clara e extensiva — muito mais sobre matérias que terá de promulgar, caso ganhe as eleições.
O momento em que Jorge Pinto ganha o debate surge quando obriga Gouveia e Melo a tomar uma posição política face “à internacional reacionária” da extrema-direita, a uma possível “revisão drástica da revisão constitucional apenas à direita e à extrema-direita” e à “indigitação do primeiro-ministro” apenas nos resultados eleitorais (uma alusão a uma vitória do Chega). Gouveia e Melo toma apenas uma posição sobre a revisão constitucional feita à direita, e sem que o tema tenha sido do conhecimento prévio dos eleitores, para dizer que concorda com Pinto e que se decidirá pela dissolução do Parlamento nesse caso. Ou seja, o candidato que se diz do centro garantiu que dissolverá o Parlamento se uma maioria constitucional (com mais de dois terços dos deputados) da AD, Chega e IL acordarem uma revisão constitucional. Só não disse o que fará, no caso da direita voltar a ter dois terços nas eleições seguintes que nasceriam dessa dissolução do Parlamento: demite-se face à sua perda de autoridade política?
A propósito deste tema deixo uma recomendação de leitura sobre revisão constitucional e outras matérias de direito constitucional: uma entrevista a Gonçalo de Almeida Ribeiro, ex-vice-presidente do Tribunal Constitucional, ao programa “Justiça Cega” da Rádio Observador.
Miguel Pinheiro — Este debate entre Jorge Pin~pwçljcilehbvjd&lkjenc/. Desculpem, adormeci. O que eu queria dizer era que este debate entre Jorge Pinto e Henrique Gouveçoijdsc 089cui/%oilj2bdibervpkec. Desculpem, aconteceu outra vez. É agora: este debate entre Jorge Pinto e Henrique Gouveia e Melo foi a coisa mais chata que aconteceu no universo desde que Andy Warhol lançou o filme “Empire”, que consistia num plano fixo a preto e branco do Empire State Building que se prolongava por oito horas e cinco minutos. Os dois candidatos falaram sobre “utopia”, sobre “ódio” — e, se o debate pudesse ter durado uma hora, atirar-se-iam sem dúvida a declarações sobre as flores, sobre o sol e sobre as vaquinhas. Desesperado, o moderador, José Alberto Carvalho, tentou puxar por eles — mas, claramente, isto não dava para mais.
Miguel Santos Carrapatoso — Um longo e interminável bocejo. O encontro — chamar-lhe “confronto” seria manifestamente exagerado — entre Jorge Pinto e Henrique Gouveia e Melo pode ser resumido a um conjunto de banalidades sobre inteligência artificial, rendimento básico incondicional, a ascensão do populismo, o progresso da humanidade e o sentido da vida. Pelo meio, Henrique Gouveia e Melo lá fez meia crítica sobre a reforma laboral, voltou a falar da ameaça do marxismo-leninismo — alguém lhe deve ter dito que sempre que tiver qualquer pessoa vagamente de esquerda pela frente deve tocar a sineta — e deixou claro que dissolveria a Assembleia da República se houvesse uma revisão constitucional só à direita. As pernas de Montenegro, que já disse mil vezes que a revisão da Constituição não é uma prioridade, devem ter ficado a tremer. Por falar em tremer: começa a ser particularmente gritante a dificuldade de Henrique Gouveia e Melo em lidar com perguntas de jornalistas. Minutos depois de José Sócrates ter declarado o apoio ao almirante, era do mais elementar bom senso perguntar a opinião do visado. Gouveia e Melo não gostou nada do atrevimento e tentou dar um ralhete ao moderador. Alguém lhe devia explicar que, em democracia, não existe exatamente uma cadeia de comando entre jornalistas e figuras políticas. É a vida.
Recorde aqui:
o debate entre André Ventura e Marques Mendes
o debate entre Cotrim Figueiredo e Jorge Pinto
o debate entre Catarina Martins e Gouveia e Melo
o debate entre Gouveia e Melo e Cotrim Figueiredo