A pergunta prometia deixar ferida. Denunciar Camões ou João de Barros seria coisa tolerada por um país que já não puxa o fôlego para encher o peito de orgulho; agora Eça, o grande pantomineiro, o monóculo que nos habituámos a usar para exibir argúcia mordaz e capacidade de encontrar os podres da nossa sociedade? Eça é o responsável por desvendar as nossas pequenas patifarias e reciclá-las em riso medicinal; se o purgante traz também doença, se deixa de haver em Eça a pureza malvada que denuncia os maus costumes para trazer também ele o vício nas gargalhadas, o que é que nos resta?

É natural, então, que o povo tenha gritado como se de um assalto se tratasse quando uma doutoranda da Universidade de Massachussets Dartmouth se atreveu a proferir uma public lecture sobre o tema “São os Maias de Eça de Queiroz um romance racista?”. Afinal, acusar Eça é roubar-nos esta última réstia de dignidade desesperada de quem tem pelo menos aquela supina prova de inteligência preguiçosa, a capacidade de encontrar o ridículo que nos circunda.

Com a persistência de quem se viu espoliado do tesouro pátrio, ligámos o Zoom e assistimos à lição, prontos para defender a honra da família com o vozeirão corajoso que a distância prometia ampliar. A palestra, no entanto, pôs água na fervura capaz de fazer borbulhar o Atlântico. A exposição foi serena, cuidadosa e afrouxava qualquer tentativa de estribilho. Numa reprodução contemporânea de Alves e companhia, poderíamos ter saído convencidos, prontos para começar uma amizade escorada no repúdio do racismo latente dos Maias.

Se a conferência se resumisse a um tom de voz, teria o nosso claro aplauso. Infelizmente, a música trazia letra.

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