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Eça de Queiroz nasceu a 1845 e morreu em 1900. A primeira edição de "Os Maias" foi publicado em 1888

Eça de Queiroz nasceu a 1845 e morreu em 1900. A primeira edição de "Os Maias" foi publicado em 1888

Eça de Queiroz, "Os Maias" e uma pergunta sobre racismo /premium

Uma palestra online da Universidade de Massachussets Dartmouth, nos EUA, discutiu a hipótese de o clássico da literatura portuguesa ser racista. Mas terá apresentado argumentos válidos?

A pergunta prometia deixar ferida. Denunciar Camões ou João de Barros seria coisa tolerada por um país que já não puxa o fôlego para encher o peito de orgulho; agora Eça, o grande pantomineiro, o monóculo que nos habituámos a usar para exibir argúcia mordaz e capacidade de encontrar os podres da nossa sociedade? Eça é o responsável por desvendar as nossas pequenas patifarias e reciclá-las em riso medicinal; se o purgante traz também doença, se deixa de haver em Eça a pureza malvada que denuncia os maus costumes para trazer também ele o vício nas gargalhadas, o que é que nos resta?

É natural, então, que o povo tenha gritado como se de um assalto se tratasse quando uma doutoranda da Universidade de Massachussets Dartmouth se atreveu a proferir uma public lecture sobre o tema “São os Maias de Eça de Queiroz um romance racista?”. Afinal, acusar Eça é roubar-nos esta última réstia de dignidade desesperada de quem tem pelo menos aquela supina prova de inteligência preguiçosa, a capacidade de encontrar o ridículo que nos circunda.

Com a persistência de quem se viu espoliado do tesouro pátrio, ligámos o Zoom e assistimos à lição, prontos para defender a honra da família com o vozeirão corajoso que a distância prometia ampliar. A palestra, no entanto, pôs água na fervura capaz de fazer borbulhar o Atlântico. A exposição foi serena, cuidadosa e afrouxava qualquer tentativa de estribilho. Numa reprodução contemporânea de Alves e companhia, poderíamos ter saído convencidos, prontos para começar uma amizade escorada no repúdio do racismo latente dos Maias.

Se a conferência se resumisse a um tom de voz, teria o nosso claro aplauso. Infelizmente, a música trazia letra.

Poderia ser interessante usar "Os Maias" como pretexto. Se estabelecêssemos que a linguagem das sociedades é tendencialmente racista, poderíamos usar "Os Maias", na impossibilidade de analisar toda a linguagem de todos os tempos, como exemplo.

Explicava a oradora que lera Os Maias à luz dos estudos raciais. Visto com estas novas lentes, os Maias revelar-se-iam estruturalmente racistas: associariam a dicotomia branco/negro à civilização ou selvajaria e revelariam uma desmedida preferência pela “brancura”, também ela racista.

Isto é, dentro da ideia de que há racismo voluntário e racismo involuntário, aquele que perpetua sem consciência os estereótipos que legitimam e permitem a propagação do racismo, os Maias seriam uns perpetradores inconscientes.

Tomando como legítimo este racismo involuntário ou, pelo menos, dado o contexto da época, não muito consciente, surge ainda assim um problema. É que, se a consciência não tem um papel diferenciador na análise do comportamento, aquilo que se está a analisar nunca é a obra. Isto é, se em Eça de Queiroz não se vê a alma cruelmente ativa e exploradora de um negreiro, se está previamente estabelecido que há uma linguagem dominante que perpetua o racismo, então só haveria duas hipóteses. Ou Os Maias seria um romance ativamente anti-racista, em que, mais do que o incesto, pesasse na alma de Carlos da Maia o fardo do homem branco, ou então seria, como tudo o resto, racista. É claro que a ideia a que o racismo inconsciente leva, de que só pode haver anti-racistas ou racistas, é perigosa; mas se além de perigosa for verdadeira, então a pergunta sobre se os Maias são racistas é inútil. “É Os Maias um romance escrito em Português?” é, se assumirmos que há racismo inconsciente, uma pergunta com o mesmo nível de complexidade.

Ainda assim, poderia ser interessante usar Os Maias como pretexto. Ao estabelecer que a linguagem das sociedades é tendencialmente racista, podemos usar Os Maias, na impossibilidade de analisar toda a linguagem de todos os tempos, como exemplo. Aí, então, a análise da palestra da Universidade Massachussets Dartmouth podia ter cabimento (se é que a expressão, por pressupor que há uma hierarquia entre tamanhos, em que os mais pequenos são normativos e os maiores devem ficar de fora, é legítima).

A ideia de analisar a obra de Eça neste prisma, do ponto de vista literário, é interessante, porque são interessantes todas as análises que nos permitam descortinar lugares comuns da nossa consciência

Explica a palestrante que, ao longo d’Os Maias, há uma associação, na linguagem do narrador, entre a cor preta ou a escuridão e ideias ou sentimentos negativos. Pedro da Maia tem “crises de melancolia negra”, Maria Monforte, que tem olhos azuis, encoleriza-se e estes passam a parecer “negros de cólera” e há uma “escada escura e feia” e quartos “alegres, forrados de papéis claros”.

A ideia, do ponto de vista literário, é interessante, porque são interessantes todas as análises que nos permitam descortinar (se é que a expressão, por implicar que quem tem cortinados em casa esconde alguma coisa, é legítima) lugares comuns e associações básicas da nossa consciência. Negar valor a este trabalho é negar também o valor de Levi-Strauss ou de Marcel Mauss na identificação das associações mais básicas da vida em sociedade, seja a partir de contrastes culinários, como a ideia de que leite e álcool não se misturam, por exemplo, seja a partir desta associação entre claridade e beleza ou iluminação (no sentido de alguma coisa bem explicada, clara) e escuridão e feiura. Mas se a identificação destes lugares comuns é interessante, também é necessário explicar, em primeiro lugar, que esta identificação provem de estereótipos raciais, e em segundo que estes estereótipos literários são construídos e arbitrários.

Isto é, parece-nos claro que a “escuridão” está associada a estados mentais noturnos. Não só porque as metáforas relacionadas com feitios lunares e solares vêm de geografias e tempos que tornam pouco provável que o parco contacto com negros se refletisse no vocabulário, como porque é fácil encontrar a genealogia da metáfora. Associar a penumbra ao medo, ao imprevisível, àquilo que nos angustia, deve-se obviamente ao facto de a noite ocultar os objetos, de nos levar a uma espécie de cegueira que funciona como uma desvantagem e como um perigo para nós.

Mais, parece-nos claro que a metáfora pode ter um reconhecimento imediato quase universal e, nesse sentido, ser verdadeira. Isto é, não basta, para apontar a ilegitimidade de uma metáfora, mostrar como ela não é natural. É claro que a melancolia de Pedro não tostou até que lhe caísse cinza pelas narinas; o problema de avaliarmos metáforas pelo lado moral é que a metáfora é um recurso que não pode ser ativo; não é um recurso transformador, é um recurso que funciona de uma forma passiva, assumindo o quadro de sentido comum. Ora, este quadro pode ser verdadeiro ou falso. O sentido moral de uma metáfora está tanto na visão do mundo que expressa como na sua eficácia.

O problema destas leituras contextualizadas, que assumem que se traz mais riqueza a um texto se ele for lido a partir de um ponto de vista, está no facto de ser sempre possível encontrar aquilo que queremos, embora seja difícil com isso darmos uma ideia da dimensão do assunto.

Percebemos que um santo cumpridor do jejum quaresmal prefira, no almoço de Páscoa, admitir que comeu “como um ateu”; a metáfora, porém, não resulta. E se em certos casos, como neste, ou noutros, até piores, porque não têm que ver com comportamentos, que são escolhidos, mas com características de nascença, que não escolhemos, é legítimo admitir que a visão da vida expressada pela metáfora é desadequada ou contrária às nossas convicções, noutras, as mais inconscientes, seria importante perguntar o que é que as motiva. Isto é, não basta descobrir que associamos a primavera à alegria para considerar a associação ilegítima. O que é que provoca essa associação? A ideia de que a escuridão está associada a estados mentais depressivos ou até à maldade é por si só ilegítima porquê? A ideia de que as estruturas do pensamento são preconceitos e não vantagens precisa de ser provada com uma eficácia que não nos parece ainda alcançada.

É claro que o assunto pode ficar mais complexo. Podemos admitir que as metáforas da escuridão se devem ao binómio noite/dia, não protestar contra o racismo estrutural da natureza e da rotação da terra, e mesmo assim rejeitar estas metáforas. Podemos reconhecer que a natureza ou a sociedade nos dá uma pré-consciência de que a escuridão é negativa e que isso se torna problemático quando há uma parte da população mundial que é negra. Isto é, como há uma tendência na linguagem para olhar para o negrume como algo mau, se continuarmos a usar essa linguagem, ela contaminará a imagem que temos das pessoas negras.

Mesmo que não admitamos a existência de barreiras no pensamento e que aceitemos que esta passagem das coisas e do estado de espírito para o modo de olhar para as pessoas é natural, continua a ser difícil sustentar esta ideia porque ela admite precisamente o que antes rejeitara. Para que esta passagem seja líquida é preciso que a metáfora seja mais natural do que estamos dispostos a admitir. Para o facto de que as paredes escuras serem percebidas como feias levar a que as pessoas negras fossem percebidas como feias seria necessário que a qualidade penetrasse de tal forma na essência da cor que não admitisse variação. Ora, esse é, parece-nos, um dos pontos mais fracos da argumentação. Não basta que o negrume esteja associado ao feio ou ao mau para que haja uma tendência racista; é necessário que não esteja associado ao bom e que o branco não esteja nunca associado ao mau. E embora a palestrante identifique várias passagens em que a brancura está associada à beleza feminina, também os cabelos negros da filha de Maria Eduarda são belos (apenas por contraste, diz a oradora, mas é claro que a graça do cabelo negro na pele branca não está no facto de um ser feio e a outra bela) e também a palidez pouco saudável do Eusebiozinho é feia.

A lente aproximada para um problema não traz contexto, retira-o, e esse é o maior problema da leitura sobre o racismo de Os Maias.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

É claro que a palidez e a brancura estão associadas a uma alegria e a uma robustez saudável que todo o romance vê na educação inglesa. A questão é que em Eça as cores não são definidoras, mas assumem a expressão da carga de sentido que Eça lhes quer dar. Da mesma maneira que uma brancura é saudável, robusta, inglesa, como em Maria Eduarda ou no jovem Carlos, também pode ser enfermiça, enfezada e doentia como no pobre Eusebiozinho. Para que o estereótipo resultasse não poderia ser nem tão variável, nem poderia ser determinado por aquilo que quer dizer.

O problema destas leituras contextualizadas, que assumem que se traz mais riqueza a um texto se ele for lido a partir de um ponto de vista, está no facto de ser sempre possível encontrar aquilo que queremos, embora seja difícil com isso darmos uma ideia da dimensão do assunto. Seria obviamente possível estudar a castidade nas ruas de Sodoma e encontrar um pobre Ló capaz de provar a existência de homens justos na cidade. Daí não se pode, porém, considerar Sodoma uma cidade casta. A ideia de que é o leitor que escolhe o modo de ler, de que não há no livro nenhuma ideia fundamental, um modo indicativo sobre como deve ser lido, torce os livros a ponto de se transformarem naquilo que quisermos. O facto de ser academicamente possível encontrar elementos de qualquer tema num livro não substitui uma espécie de ética da leitura que nos deveria levar a considerar como principal aquilo que de facto é o principal no livro. Fazer de Os Maias um romance racista é trazer ao livro uma carga que é absurda dada a dimensão do livro.

E se este método já é perigoso pelo maneira como distorce a importância dos assuntos, é também infeliz porque impede a perceção das subtilezas. Um dos pontos mais “chocantes” no racismo de Eça vem da boca de João da Ega, que numa clara boutade, se pronuncia contra a “mania burguesa” de querer reduzir “todas as raças ao mesmo tipo de civilização”, que levaria a que, em pouco tempo, um viajante fizesse “enormes sacrifícios” para ir a Tombuctu, onde encontraria “pretos de chapéu alto, a ler o Jornal dos Debates”. Prossegue, mais tarde, numa apologia da escravatura, que fizera do Império Romano e da civilização dos plantadores de Nova Orleães as únicas “com razoável comodidade”, e cuja decadência levava a que nesse momento ninguém tivesse “o seu arroz bem cozido”.

Não é contestar a existência de racismo, um problema social e moral, é contestar a sua conversão numa teoria analítica que está armadilhada pelo facto de nela estarem confundidos valores de natureza metodológica com valores de natureza moral.

Ora, que a tolice da ideia não seja imediata aos olhos de quem lê, que se veja uma expressão séria de racismo numa crítica claríssima da leviandade e das opiniões pour épater de João da Ega (crítica acentuada pelos risinhos tolos de D. Maria, deliciada a ouvir as atoardas), só pode ser explicado pela vontade de ler o livro de uma maneira já pré-definida.

Só a vontade de querer encontrar a superioridade do branco sobre o negro pode levar a que não se veja o gozo com o catolicismo mórbido na comparação, feita pela criada, entre a beleza pálida do Napolitano e a de Cristo. A pretensa largueza de vistas trazida pelos métodos contextuais é contrariada pela dificuldade em pôr as coisas em perspetiva. A lente aproximada para um problema não traz contexto, retira-o, e esse é o maior problema da leitura sobre o racismo de Os Maias.

É, obviamente, absurdo escrever meia dezena de páginas para explicar a alguém porque é que esse alguém não se deve sentir insultado. Antes de uma guerrilha ideológica, esta é uma questão de urbanidade: parece-nos uma questão do mais elementar bom senso não tratar as pessoas como elas não gostam de ser tratadas ou fazer por não incomodar alguém com aquilo que o incomoda, mesmo que o assunto nos pareça pouco importante. O problema, porém, não é esse: é que a tentativa de transformação deste incómodo numa método de análise sujeita-o a regras e a críticas que fogem a este âmbito. Não é contestar a existência de racismo, um problema social e moral, é contestar a sua conversão numa teoria analítica que está armadilhada pelo facto de nela estarem confundidos valores de natureza metodológica com valores de natureza moral. E se vários séculos de pensamento caminharam para separar estes dois aspetos, parece-nos perigoso este ressurgimento.

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