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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Eles querem o regresso dos reféns e o fim da guerra em Gaza. "Se o Bibi de hoje conhecesse o de antes, dava-lhe uma chapada"

Milhares saíram à rua em 2023, contra a reforma judicial. Os reféns e Gaza continuam a mobilizar os ativistas, que desprezam o primeiro-ministro. Mas o movimento já não tem o mesmo fôlego de outrora.

Reportagem dos enviados especiais do Observador a Israel

“O país não é só meu, é vosso também, têm de lutar por ele. Enquanto estão sentados no café, o governo vai roubando o nosso país. É muito bom estar sentado a comer, mas não chega. Juntem-se a nós.”

São estas a palavras que Kátia Amorza grita com a ajuda de um megafone aos israelitas que aproveitam a quente noite de quinta-feira, antes do Shabbat, na viva cidade de Telavive. Judia e brasileira de nascimento, apaixonou-se pelo país aos 16 anos, quando veio trabalhar num kibbutz. Depois de o seu casamento de 15 anos ter acabado, decidiu voltar a Israel e estabelecer-se cá. Agora, vive numa tenda em frente ao Knesset, o Parlamento israelita.

Não vive ali por ter perdido a casa, mas por convicção política. Quando a reforma judicial proposta pelo governo de Benjamin Netanyahu rebentou, em janeiro de 2023, mergulhou no ativismo. Quando o 7 de outubro aconteceu, ofereceu a sua experiência como chef de cozinha para dar comida aos que tiveram de abandonar as suas casas. Agora, está em mais um protesto nas ruas da cidade, pela libertação dos reféns e pelo fim da guerra em Gaza.

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A marcha começou na Praça Yitzhak Rabin, o antigo primeiro-ministro assassinado em 1995. A praça encheu-se de pessoas de todas as idades, a maioria com t-shirts que exigem o regresso dos reféns. Teve um primeiro momento de discursos, onde o nome de Netanyahu foi invocado e vaiado pela multidão. É quinta-feira, dia 3 de julho, e este é mais um dos protestos que recomeçaram a 27 de junho, depois do fim da guerra com o Irão. Têm habitualmente a participação de líderes políticos e familiares de reféns ainda em Gaza.

Depois dos discursos, as centenas de participantes juntam-se à marcha pelas ruas de Telavive, num protesto em tudo semelhante a qualquer outra manifestação. Há cânticos e palavras de ordem que pedem “democracia”, “tragam os reféns de volta”, “fim à guerra em Gaza” e “nunca desistiremos até isto melhorar”. Os cartazes são criativos, alguns em inglês: “Presidente Trump, seja um mensch e traga-os para casa”, lê-se num, com recurso à palavra em yiddish que significa “pessoa honrada”. Outro, em hebraico, diz “Chega de derramar o sangue de inocentes”. Um homem de fato-macaco laranja, como se fosse um prisioneiro, usa uma máscara de Benjamin Netanyahu e traz um cartaz que diz “Trump, seal the deal” — “Trump, fecha o negócio”.

Kátia resume ao Observador por que saiu da sua tenda no bairro de Givat Ram, em Jerusalém, para vir até outra cidade protestar. “É preciso acabar com a guerra, porque é o mais importante para ajudar a trazer os reféns de volta. Esta é uma guerra inútil, que só mata civis, crianças e os nossos soldados”, afirma. A revolta é sobretudo dirigida contra o primeiro-ministro: “Isto é tudo para segurar Netanyahu na sua cadeira. Mas ele quando sair vai ser julgado, porque é um criminoso de guerra.”

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Reforma judicial, reféns e Gaza. “Isto está tudo ligado” — por Benjamin Netanyahu

Tudo começou em janeiro de 2023. Nesse mês, o ministro da Justiça Yariv Levin anunciou uma reforma judicial que limitaria os poderes do Supremo Tribunal, num país que não tem uma Constituição. Nessa noite, Michal Beinisch ligou à mãe, Dorit, a primeira mulher a ocupar o cargo de juíza-presidente do Supremo Tribunal de Israel. “Disse-lhe ‘As pessoas não vão entender, isto é uma linguagem legalista…’ E depois aconteceu uma coisa mágica. As pessoas entenderam.”

Esta analista financeira trabalhou mais de dez anos em bancos de investimento como o Barclay’s e o Lehman Brothers, até ter criado a sua própria start up, especialista em contratos swap. É no seu escritório que recebe o Observador, para contar como mergulhou no ativismo. Esteve lá no protesto que reuniu cem mil pessoas em Telavive e nos outros, que chegaram a atingir uma participação de quase 200 mil pessoas nas semanas seguintes.

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Não tardou a que vários setores da sociedade aderissem ao movimento. Trabalhadores de empresas tecnológicas, médicos, economistas e até militares na reserva — encabeçados pelo movimento “Brothers and Sisters in Arms” (“Irmãos e Irmãs de Armas”) — se envolvessem. “Lembro-me de estar num protesto em lágrimas, a pensar ‘Não sou só eu, há mais que entendem’”, conta Michal. “Vão falar sobre este movimento durante muitos e muitos anos.”

“E depois veio o 7 de outubro.” A analista financeira abraçou a causa do regresso dos reféns, como se vê pelo grande anel preto e amarelo que tem no dedo, onde está escrito “Tragam-nos para casa”. O movimento da reforma judicial reinventou-se. Michal e outros criaram aquilo a que chamaram “Gabinete de Guerra”, uma sala no Centro de Convenções de Telavive a partir de onde coordenavam a resposta à necessidades. “Quando o ministro dos Transportes não pôs os comboios a funcionar no Shabbat, nós levámo-las de carro. Comprámos-lhes coletes à prova de bala, em colaboração com o Exército. Fomos ter com as pessoas retiradas que foram levadas para o norte, para Elat no sul, para perto do Mar Morto… Respondemos a qualquer necessidade que tinham: comida de bebé, meias, o que fosse. Ao fim de cinco dias era preciso lavar roupa: arranjámos-lhes máquinas de lavar.”

A transformação do movimento, diz, explica-se por um propósito: “Servimos para responder ao interesse maior de Israel: primeiro era travar a reforma judicial e protestar; depois era ajudar as famílias dos reféns. Isto é ser patriota.”

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Ami Dror concorda. É um dos líderes vindos da área tecnológica (tem uma empresa que dá formação em código) que se envolveram no movimento, em ambos os momentos, e explica que não são antagónicos: “É evidente que o país está dividido entre aqueles que servem o país e os que o usam. Não é uma divisão entre esquerda e direita ou entre colonos e manifestantes.”

Ami fala com o Observador na Praça Kikar HaChatofim, entretanto renomeada Praça dos Reféns. Não é difícil perceber porquê: há laços amarelos, símbolo do movimento, por todo o lado; vende-se merchandising que diz “Tragam-nos para casa”; e há até um túnel que funciona como réplica do local onde estão os reféns do Hamas, que inclui colunas para replicar os sons que ouvem e tornar a experiência mais realista. Cada bocado das paredes está coberto de mensagens de esperança para os reféns que as pessoas escrevem à mão.

Há também um piano, com letras garrafais em cima que dizem “Não estão sozinhos”, que qualquer um pode tocar — como o homem que lá está neste momento e que é presença habitual. O instrumento é uma homenagem a Alon Ohel, um dos reféns raptados no festival Nova, que é pianista. Alon ainda está em Gaza.

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Ami Dror explica que, inicialmente, a maioria da população israelita estava a favor da guerra no enclave, como reação ao 7 de outubro. Mas, com o passar do tempo, essa posição mudou, assegura. “Estamos a combater em Gaza para destruir os monstros do Hamas, mas a guerra arrasta-se. O objetivo de uma guerra deve ser o de chegar a uma solução diplomática. E Netanyahu prolonga-a porque está refém dos extremistas [no seu governo].”

Não é que Ami esteja contra outras ações militares do governo israelita. “Acho que os ataques ao Líbano e ao Irão foram bons, já deviam ter acontecido há anos. Mas Gaza eles usam para se manterem no poder”, afirma.

“Quando regressou ao poder, Bibi decidiu fazer uma aliança com os partidos religiosos. ‘Faço qualquer coisa por vocês, se me mantiverem no poder”, explica o empresário, referindo-se aos líderes dos partidos de extrema-direita que apoiam o governo e, em particular, os seus líderes, Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir — que Ami diz não serem capazes “nem para gerir um McDonald’s”. “Há um culto que segue Netanyahu e o governo. O Smotrich e o Ben-Gvir não querem saber dos reféns, o que querem é tomar Gaza e tudo o resto.”

A revolta já lá está há anos, mas aumentou com o recente Qatargate — um escândalo que deu conta de que vários conselheiros próximos do primeiro-ministro estavam ativamente a trabalhar para o regime do Qatar (país mediador no conflito em Gaza e também o sítio onde vivem membros da liderança do Hamas), a troco de pagamentos. “Ajudar o inimigo é um crime grave, pode ser-se condenado a 15 anos de prisão. Netanyahu não foi acusado. Como é possível? Ele pelo menos sabia”, diz Amir.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 8.º e último episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui, o quinto aqui, o sexto aqui e o sétimo aqui]

Sabe do que fala, ou não tivesse trabalhado anos com Benjamin Netanyahu, no primeiro mandato do primeiro-ministro (1996-1999), como chefe da sua equipa de segurança do Serviço Secreto, a protegê-lo. “Houve coisas boas em trabalhar com ele”, admite. Mas são precisamente as qualidades que via no primeiro-ministro que agora o assustam, tendo em conta a situação atual: “Eu conheço-o. Ele mantém todas as bolas no ar e depois lida com cada uma de forma muito inteligente. No último segundo, no limite, ele decide o que fazer.”

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O mesmo, diz, irá aplicar-se à guerra em Gaza e ao regresso dos reféns. “Netanyahu não é Putin. Ele vai aceitar um acordo à última hora”, prevê. Depois, podem seguir-se eleições antecipadas em que se forme um governo que já não inclua os partidos de Smotrich e Ben-Gvir. As sondagens, porém, apontam que neste momento Bibi não conseguiria ainda uma maioria. Mas Ami acha que isso pode mudar: “Ele é muito bom a fazer campanha.”

Por enquanto, a guerra vai-se arrastando. “Isto é tudo político, não é sobre os reféns”, garante o empresário. Em tempos, relembra, o partido Likud era “centrista” e Netanyahu também. “Encontrou-se com Arafat mais de 20 vezes e deu à Palestina muito mais território do que qualquer primeiro-ministro antes dele”, diz Ami.

O que mudou então? Netanyahu radicalizou-se? Para este antigo funcionário de Bibi, não é uma questão ideológica, mas prática. “Ele acompanha as sondagens a toda a hora e vê que há uma mudança demográfica, porque os mais radicais são os que têm mais filhos.” Perante isso, adaptou o discurso. “Netanyahu apaixonou-se com o conceito de ser primeiro-ministro. E quando alguém fica no poder demasiado tempo, começa a ser corrompida”, diz. “Se o Bibi que trabalhou comigo conhecesse o de agora, dava-lhe uma chapada.”

Michal também fala num governo “incapaz” e na ideia de que “tudo está ligado” — a reforma judicial, a demora em conseguir o regresso dos reféns e o arrastar da guerra em Gaza. “Os reféns são o mais importante. Não conseguirei viver com a ideia de que alguns não regressarão”, confessa. Mas isso não significa que a sociedade civil deva baixar os braços, defende. “Se dissermos ‘Oh, o primeiro-ministro é imune a isto’ e pararmos, estamos a normalizar tudo. E agora há alguma pressão para que ele termine a guerra e traga os reféns de volta.”

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“As pessoas estão exaustas.” Uma manifestação tensa, mas que desmobilizou ao fim de duas horas

Horas depois, a pressão seria explícita no protesto que começou na Praça Yitzhak Rabin. Por várias vezes, a manifestação ameaçou tornar-se violenta. Primeiro, foi queimada uma mochila no meio da estrada. Depois, a multidão desviou-se para uma rua que não estava prevista no plano original: os manifestante queriam protestar à porta da sede do Rosh Yehudi, o grupo de judeus ortodoxos que no ano passado tentou realizar uma oração num espaço público em que homens e mulheres deviam estar separados, contra a posição da Câmara Municipal de Telavive que é contra a imposição de espaços segregados por género.

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“Eles estão a fazer muito mal à democracia”, comenta com o Observador uma das manifestantes. A tensão aumenta, com a polícia a falar ao megafone a pedir ao grupo para se retirar daquele local. Acabam por aceder e regressar ao plano inicial, mas não sem agitação. A certa altura, um agente da polícia e um jovem manifestante discutem de forma agressiva e o agente tenta agarrá-lo, mas ele consegue fugir. Frustrado, o polícia rasga com força a faixa que segue à cabeça da manifestação. São os próprios colegas que o retiram do local e o tentam acalmar.

A esta altura, a maioria dos manifestantes já abandonou o grupo e seguem agora apenas algumas dezenas, com destaque para a bandeira do movimento Antifa na frente. Fazem nova paragem: desta vez em frente à sede do Likud, o partido de Netanyahu. A decisão é particularmente delicada, porque a 10 de junho um grupo de 60 manifestantes já tinha tentado invadir o edifício, o que provocou uma resposta firme da polícia e declarações de Benjamin Netanyahu contra os “rufias”. A brasileira Kátia fazia parte do grupo que foi detido e libertado no dia seguinte.

▲ A brasileira Kátia fazia parte do grupo que foi detido e libertado no dia seguinte.

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Contudo, o aumento do contingente policial vai fazendo desmobilizar grande parte dos manifestantes que ainda permanecem no protesto. “O que a polícia está a fazer é ilegal, porque dizem que estamos a fazer barulho, mas isso é legal até às 23h”, comenta um dos manifestantes com o Observador. Apesar disso, decide ir embora nesse momento.

Vai-se ouvindo a palavra “fascistas” por parte de um ou outro manifestante, mas a tensão já se dissipou. Alguns habitantes de Telavive fazem a sua corrida noturna habitual, mas nem se dão ao trabalho de se desviar, passando por entre os manifestantes. Uma agente da polícia fuma descontraidamente um cigarro em vez de ter a mão na arma. Na Praça Mikhoel, os poucos manifestantes que restam já falam relaxados entre si numa esquina e não erguem qualquer cartaz. São 22h30. O protesto, que durou pouco mais de duas horas, acabou.

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Ami e Michal são dois dos líderes informais do movimento, mas reconhecem que este já não tem a força de antes. “As pessoas estão exaustas. Juntem a isso os reservistas, que ficam 12 a 18 meses fora. Voltam e não têm emprego, a família está em cacos, eles estão traumatizados. Não podemos esperar que voltem e vão protestar”, diz Michal. “Pessoas que protestaram ao meu lado com cartazes nas mãos já não conseguem mais. Não aguentam, estão devastadas. A única coisa que ainda as mobiliza são os reféns.” Até ela própria diz já não ter tantas forças: “Não quero ter de fazer isto todos os dias da minha vida.”

Nenhum deles participou na manifestação daquela quinta-feira, preferindo participar na nova mobilização marcada para o sábado seguinte. O protesto do dia 3 de julho não fez manchete nos jornais israelitas.

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