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Scott Olson/Getty Images

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Entre gritos e insultos, nem Trump nem Biden conseguiram pensar /premium

Trump e Biden protagonizaram aquele que foi para muitos o pior debate de sempre. Gritos, insultos e acusações, algumas falsas, deixaram pouco espaço para a política a 34 dias das eleições.

Ao início, nem sequer havia som. O moderador, o jornalista Chris Wallace, da Fox News, subiu ao palco do debate e dirigiu-se para a plateia de sensivelmente 90 pessoas — e, em casa, ninguém ouvia nada. Silêncio absoluto. Por momentos, pensou-se numa repetição do cenário de 1976 em que o republicano Gerald Ford e democrata Jimmy Carter ficaram sem som e o debate teve de ser interrompido.

Mas, sem grande atrapalho, o som voltou. E o que trouxe consigo não foi nada bom.

[Pode rever aqui o debate desta terça-feira na íntegra]

Rapidamente, já com o som restabelecido, chegou aquele que foi, provavelmente, o mais barulhento, truculento e agressivo dos debates presidenciais de que há memória nos EUA. Durante 90 minutos, Donald Trump e Joe Biden enfrentaram-se. entre trocas de insultos e interrupções constantes. Se a falta de som remetia para 1976, a animosidade que se ouviu assim que os decibéis dispararam é inédita — e traz dúvidas sobre os 34 dias que restam até às eleições e ainda mais sobre os que se vão seguir ao 3 de novembro.

A certa altura do debate, o moderador conseguiu impor a sua voz sobre a dos dois candidatos e disse-lhes: “O país estaria mais bem servido se deixarmos que cada um fale com menos interrupções. Peço-vos que façam isso”.

O que fizeram foi bem diferente.

Biden quis ser presidencial, mas caiu na ratoeira de Trump

A equipa de Joe Biden fez questão de passar à imprensa norte-americana uma mensagem bem clara: a de que o candidato democrata se preparou para este debate com o objetivo de falar sobre os temas e não sobre Donald Trump. E, no limite, Biden nem falaria para Trump. A ideia era olhar nos olhos dos espectadores em casa e falar diretamente para cada um deles.

Donald Trump tinha uma estratégia diferente. Concentrado em apostar nos pontos fracos do seu adversário, que tem vindo a expor ao longo de meses, o republicano demonstrou logo desde o início que objetivo era o de fazer pressão constante sobre Joe Biden. E, se fosse preciso, nunca tirar os olhos de cima dele — e garantir que, ao fazer o mesmo, os espectadores vissem todas as falhas que ele próprio vê no ex-vice-Presidente.

Mas uma coisa é a teoria, outra coisa é a prática.

Antes deste debate, Trump e Biden estiveram juntos em público apenas uma vez: na tomada de posse do atual Presidente, a 20 de janeiro de 2o17. Naquela manhã, não passaram de um aperto de mão e de rápidas palavras de circunstância. De resto, nunca trocaram uma palavra em frente ao público. E, como tal, não era certo que cada um conseguisse manter a sua estratégia com firmeza nesta estreia.

Aqui, Joe Biden foi o primeiro a desviar-se do seu caminho — e, assim, a enredar-se na teia urdida por Donald Trump para fazê-lo desviar-se das suas ideias ensaiadas e dos temas que estudou, puxando-o antes para um bate-boca de 90 minutos.

Biden ainda resistiu. Antes da marca dos 20 minutos, depois de Trump acusá-lo de ser refém da ala esquerdista do Partido Democrata e de querer criar um sistema de saúde socialista (uma proposta à qual ele sempre se opôs, incluindo nas primárias), o ex-vice-Presidente disse aquilo que, provavelmente, já tinha treinado: “Não vou estar a denunciar as mentiras dele, porque toda a gente sabe que ele é um mentiroso”.

Biden estava, pois, decidido a fazer de conta que Trump não estava ali ao seu lado. Mas não é assim que um debate funciona e o republicano fez questão de lembrá-lo, ao fazer interrupções constantes — indo sempre mais além do moderador na inquirição ao seu adversário. “Honestamente, você está a fazer mais interrupções do que ele”, disse Chris Wallace a certa altura a Donald Trump.

Foi isso que ficou claro quando, no tema inicial, o Supremo Tribunal, Joe Biden foi chamado a responder se apoiava a tática do court-packing, já defendida por alguns democratas — que, perante a nomeação de mais uma juíza conservadora para o Supremo Tribunal, têm vindo a dizer em público que podem adotar aquela tática de criação de mais lugares naquele órgão de justiça. caso venha a coincidir uma presidência democrata e uma maioria no Senado da mesma cor.

Joe Biden, até aqui, tem recusado apoiar ou recusar essa tática — e, neste debate, não foi diferente. Em resposta, Chris Wallace insistiu na pergunta. Mas mal se ouviu, porque Donald Trump já perguntava por cima: “Vai encher os tribunais? Vai encher os tribunais? Vai encher os tribunais?”.

Foi aqui que Biden sucumbiu e, ainda sem olhar para Donald Trump, disse um exasperado: “Pode estar calado, homem?”.

Mais à frente, perante nova barragem de interrupções de Donald Trump contra Joe Biden, o ex-vice-Presidente parou de falar e deixou sair: “É difícil dizer qualquer palavra com este palhaço“. E, depois, de mãos levantadas, acrescentou: “Desculpe, com esta pessoa”. “Pessoa” essa a quem ainda chamou de “palhaço” outra vez ao longo do debate. “Você faz alguma ideia do que é que este palhaço está a fazer?”, perguntou Biden diretamente ao moderador. Não teve resposta.

Muitas vezes, as interrupções de Trump não tiveram seguimento — Joe Biden tentou continuar o seu discurso, tentando falar por cima sem quebrar o seu raciocínio. Conseguiu fazê-lo na maior parte das vezes, mas, noutras, deixou que o Presidente dos EUA o interrompesse.

Num desses momentos, Donald Trump aproveitou para atirar uma farpa muito provavelmente estudada, quando apanhou Joe Biden a dizer talvez uma das frases mais fortes entre as que disse no debate, quando o tema era a pandemia: “Muitas pessoas morreram e muitas mais vão morrer, a não ser que ele fique muito mais inteligente e muito depressa”.

Trump agarrou, mas não por onde Joe Biden queria. “Usou a palavra inteligente?”, retorquiu, ironicamente. “Você acabou o curso como um dos piores alunos do seu ano, por isso nunca use a palavra ‘inteligente’ comigo, porque não há nada de ‘inteligente’ em si”, disse Trump. “Você não fez nada em 47 anos”, acrescentou, referindo-se ao tempo que Joe Biden leva de Washington D.C., desde que foi eleito senador pelo Delaware.

O que sobrou de política entre os gritos

No meio dos gritos, houve alguma política, que o moderador procurou forçar no embate de 90 minutos. Aqui, tal como na troca de insultos, Donald Trump não tirou os olhos de Joe Biden e Joe Biden não tirou os olhos de Chris Wallace e da câmara que focava nele.

O primeiro tema foi o Supremo Tribunal e a nomeação da juíza conservadora Amy Coney Barrett para assumir o lugar que ficou vago com a morte da liberal Ruth Bader Ginsburg. Este é um tema onde os dois lados da política norte-americana têm telhados de vidro — e, como tal, ambos os candidatos procuraram, mais do que defender o seu lado, atacar o oposto.

Com a juíza Amy Coney Barrett no centro, começou a batalha pelo Supremo Tribunal — onde todos têm telhados de vidro

Joe Biden abriu esse precedente acusando Donald Trump de se querer, com um Supremo Tribunal mais conservador, “livrar do Affordable Care Act”, o sistema de saúde instituído por Barack Obama (tanto que é conhecido como Obamacare) e que Donald Trump prometeu, há quatro anos, abolir. No final de contas, isso não veio a acontecer — houve, isso sim, algumas alterações, como o fim da obrigação legal de ter um seguro de saúde, instituída por aquele regime de saúde.

Donald Trump aproveitou rapidamente para acusar Joe Biden de querer acabar com os seguros privados e de querer seguir a linha de Bernie Sanders. “O seu partido é socialista e querem dominá-lo, você sabe disso, Joe”, disse Donald Trump. O democrata respondeu-lhe: “Eu sou o Partido Democrata agora, o programa do Partido Democrata é o que eu aprovei”. E puxou a discussão para a Covid-19: “As 200 mil pessoas que morreram no turno dele, o que é que isso quer dizer se ele acabar com o Affordable Care Act?”. E insistiu: “200 mil mortes, mais de 7 milhões de infetados nos EUA. Temos 4% da população mundial, 20% das mortes. 4 mil pessoas por dia estão a contrair a Covid-19. Quando ele foi confrontado com os números, disse que ‘é o que é’. É o que é porque você é quem é”.

"200 mil mortes, mais de 7 milhões de infetados nos EUA. Temos 4% da população mundial, 20% das mortes. 4 mil pessoas por dia estão a contrair a Covid-19. Quando ele foi confrontado com os números, disse que ‘é o que é’. É o que é porque você é quem é."
Joe Biden

Quando o tema foi a pandemia da Covid-19, Trump apontou para o seu adversário e disse: “Se lhe tivéssemos dado ouvidos, o país tinha ficado aberto e milhões de pessoas tinham morrido, não 200 mil”. O Presidente recusou responsabilidade pela gestão da pandemia, dizendo que “isto foi culpa da China”.

“Quando fala de números, não sabe quantas pessoas morreram na China, na Rússia ou na Índia”, acrescentou ainda Donald Trump.

Chris Wallace perguntou ainda ao Presidente sobre aquilo que se tornou num tema fraturante nos EUA: o uso de máscara. Em público, é raro Donald Trump usá-las — ao passo que Joe Biden tem-no feito mais frequentemente.  Tudo isto surge num contexto (ou talvez seja a sua causa) em que, de acordo com uma sondagem do Pew Research Center, apenas 29% de republicanos disseram usar “sempre” máscara, ao passo que 63% de democratas responderam o mesmo.

OLIVIER DOULIERY/AFP via Getty Images

Agora, Trump disse: “Acho que as máscaras são okay. Tenho aqui uma máscara. Ponho uma máscara quando acho que é preciso. Eu uso máscaras quando é preciso. Não é como ele. Sempre que o vemos, aparece de máscara. Pode estar a falar longe de toda a gente e aparece com a maior máscara que já vimos”.

Na economia, continuou a falar-se indiretamente da pandemia.

“Construímos a maior economia da História, fechámo-la por causa da praga da China. Quando a praga chegou, fechámo-la, o que foi muito duro de fazer psicologicamente. Ele não queria fechar, o que seria muito errado. Teriam morrido 2 milhões de pessoas”, atirou Trump.

Perante esta afirmação, Joe Biden fez uma inflexão para onde queria chegar — a notícia do The New York Times que, tendo tido acesso às declarações fiscais que Donald Trump tem recusado divulgar (rompendo com o que é uma tradição entre todos os candidatos presidenciais desde Richard Nixon, alegando que está sob auditoria e que só depois de esta terminar partilhará esses documentos), escreveu que em 10 de 15 anos o republicano não pagou quaisquer impostos e que, tanto em 2016 como em 2017, pagou apenas 750 dólares de impostos sobre os seus rendimentos singulares.

“Vocês aí em casa, que vivem em Scranton, em Claymont e todas as pequenas cidades e cidades de trabalhadores na América, como é que se estão a dar? Este tipo pagou um total de 750 dólares em impostos."
Joe Biden

“Vocês aí em casa, que vivem em Scranton, em Claymont e todas as pequenas cidades e cidades de trabalhadores na América, como é que se estão a dar?”, perguntou Joe Biden de olhos na câmara. E depois disparou, com a notícia do New York Times em mente: “Este tipo pagou um total de 750 dólares em impostos”.

Trump voltou a negar aquelas acusações. “Paguei milhões de dólares”, disse, quando Chris Wallace lhe perguntou quanto tinha pagado de impostos em 2016 e 2017. Mas acrescentou: “Eu não quero pagar impostos. Antes de vir para aqui, era um empresário privado. Como todos os privados, a não ser que sejam estúpidos, veem as leis, e é o que é”. E, depois, referindo que o sistema que lhe permitiu ter benefícios fiscais foi criado durante o tempo de Barack Obama (que é, por inerência, também o tempo de Joe Biden), Donald Trump disse que, se essas benesses desaparecerem (como Joe Biden disse que faria), o efeito para economia será devastador. “Querem acabar com os meus impostos? Digo já: vai perder metade das empresas que estão aqui, vão sair para outros sítios e irá ter uma depressão como nunca antes”, avisou.

"Você nem sequer pode dizer a palavra 'autoridade', porque se disser vai perder os seus apoiantes da esquerda radical."
Donald Trump

Houve também tempo para discutir sobre as tensões raciais e a violência policial nos EUA. Joe Biden foi o primeiro a falar. “Este é um Presidente que tem usado tudo para passar uma mensagem subliminar de racismo para gerar ódio e divisão racistas”, referiu Joe Biden.

Chris Wallace deu uma oportunidade a Donald Trump para condenar inequivocamente a violência de grupos de extrema-direita, como os das manifestações de 2017 em Charlottesville ou a milícia que fez dois mortos durante os motins de Kenosha em julho deste ano.

“Está disposto a condenar?”, lançou Chris Wallace repetidamente. Só após alguma insistência, Donald Trump respondeu: “Estou disposto a fazer isso. Mas diria que quase tudo o que vejo é da direita, não é da esquerda”. Chris Wallace tornou a insistir e Donald Trump respondeu: “Quem é que quer que eu condene?”. E depois, olhando para as câmaras, disse então: “Rapazes, cheguem-se para trás e fiquem em stand by“.

Olivier Douliery-Pool/Getty Images

Donald Trump aproveitou o embalo para focar no seu adversário e acusá-lo de defender os “antifa” e de ter chamado “super-predadores” a afro-americanos na altura em que foi aprovada a lei do crime de 1994 (a expressão foi, isso sim, utilizada por Hillary Clinton, embora seja verdade que Biden aprovou aquela lei que levou à prisão em números desproporcionais de afro-americanos por posse de droga em pequenas quantidades) e acusou-o de ter pejo em falar bem da polícia.

“Você nem sequer pode dizer a palavra ‘autoridade’, porque, se disser, vai perder os seus apoiantes da esquerda radical”, atirou, instando ainda Joe Biden a nomear um grupo de polícias, fosse um sindicato ou outra organização, que estivesse ao seu lado. O democrata não lhe respondeu, preferindo antes recorrer à metáfora das maçãs, que sempre usa quando este é o tema: “A maioria dos agentes de autoridade do país são homens e mulheres bons e decentes. Arriscam as suas vidas todos os dias para tratar de nós. Mas há algumas maçãs podres”.

“Espero que sejam eleições justas. Se forem eleições justas, estou 100% disponível. Mas se vir dezenas de milhares de boletins de voto a serem manipulados, não posso alinhar com isso."
Donald Trump

Por fim, houve ainda espaço — mas pouco, porque o relógio foi andando e o debate nem por isso — para falar sobre a integridade e a segurança das eleições. Aqui, Trump lançou várias dúvidas sobre o voto por correspondência com boletins não solicitados — isto é, boletins de voto por preencher que são enviados por correio por uma das campanhas para casa dos cidadãos. “Isto vai ser uma fraude como nunca se viu”, disse.

Sobre a sua disponibilidade para aceitar um resultado que aponte para a sua derrota, Donald Trump voltou a não ser taxativo — e a deixar no ar a possibilidade de não aceitar o resultado, tal como já tinha feito em 2016, caso venha a perder: “Espero que sejam eleições justas. Se forem eleições justas, estou 100% disponível. Mas se vir dezenas de milhares de boletins de voto a serem manipulados, não posso alinhar com isso”.

Já Joe Biden procurou desfazer aquela ideia do Presidente.  “Isto é tudo para dissuadir as pessoas de votarem, porque ele quer assustar as pessoas e dizer que as eleições não vão ser legítimas”, disse. E, virado para a câmara depois, acrescentou: “Vão votar. Vocês vão determinar o resultado destas eleições. Votem, votem, votem. Se no vosso estado podem votar antecipadamente, votem. Se pode votar pessoalmente, vote. Vote da melhor maneira para si”.

Um debate para nunca mais repetir

Ainda meio mundo estava a perguntar ao outro o que é que se tinha passado neste debate, o jornalista da ABC News George Stephanopoulos disse as seguintes palavras quando a emissão foi para estúdio: “Digo isto enquanto pessoa que vê debates presidenciais há 40 anos, enquanto alguém que já moderou debates presidenciais, enquanto alguém que já preparou candidatos para debates presidenciais, enquanto alguém que já cobriu debates presidenciais: este foi o pior debate presidencial que alguma vez vi na minha vida”.

George Stephanopoulos esteve longe de ser a única pessoa a chegar à conclusão de que este debate não foi normal.

"Foi um insulto para o público e um triste exemplo do estado da democracia americana cinco semanas antes das eleições."
Dan Balz, correspondente sénior do Washington Post

Dan Balz, correspondente sénior do Washington Post para a presidência dos EUA, também não poupou nas palavras: “Foi um insulto para o público e um triste exemplo do estado da democracia americana cinco semanas antes das eleições”. Na crónica do The New York Times, a descrição foi esta: “Numa troca de palavras caótica de 90 minutos, os dois nomeados dos principais partidos expressaram um grau de acre desprezo um pelo outro inédito na política moderna americana”. No Washington Times, diz-se como “reinou o caos” e que “a América embarcou uma sessão de políticos a irem à loucura”. Na The Atlantic, o jornalista disse com toda a franqueza que espera que não haja mais debates antes das eleições: “Se houver, não vou desperdiçar nem mais um minuto da minha vida a vê-los”.

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