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Fernando Correia: "Enviei o meu livro ao Fidel Castro" /premium

É hoje a "voz" de Bruno de Carvalho e tem o objectivo de "preservar" o presidente do Sporting. Mas Fernando Correia, 82 anos, jornalista, é mais que isso. E conta tudo em entrevista de vida.

Educado por três mulheres num prédio da Calçada de Santo Amaro, em Alcântara, crescendo de curiosidade debruçada sobre uma janela alta com vista para o rio, Fernando garante que aquela educação, “assertiva”, o fez, já adulto, alguém sensível, capaz de “superar as adversidades todas”. A primeira adversidade, uma “insatisfação” que perdurou por anos e anos, foi ter que abandonar o curso de Medicina. “Desde muito pequeno, desde que me entendia enquanto gente, sempre foi a minha grande paixão, tinha um certo fascínio pela bata.” Nunca a vestiria. “Estava preparado para iniciar o meu primeiro ano de Medicina quando houve um problema familiar grave que fez com que deixasse o curso e arranjasse um emprego depressa.”

Empregou-se como amanuense numa dependência do Ministério da Economia. Mas detestava o emprego, a rigidez do horário, ele que nunca foi de horários rígidos mas de trabalhar sem olhar a horas, detestava tanto que voltaria aos estudos, agora de noite, acabando, algum tempo depois, por ganhar uma bolsa de estudo em Cambridge, vivendo durante dois anos em Inglaterra. Voltou. Até podia ter ingressado na BBC. Mas começou a trabalhar para o Secretariado Nacional de Informação, lendo a propaganda do regime – ele que foi, na clandestinidade, militante de um partido de esquerda e se opunha ao Estado Novo – nos chamados postos amadores. Lá, no Secretariado Nacional de Informação, aprendeu os “mistérios” que a voz tem. E acabaria aprovado, “em primeiro lugar”, para locutor da Emissora Nacional.

Mais do que um locutor, Fernando Correia tornar-se-ia repórter. Repórter de guerra. “E isso transformaria a minha vida. Percebi que estava a reportar uma guerra sem nenhum sentido, a fazer reportagens com soldados a morrer sem saber bem porque é que morrem. Eles não sabiam porque lutavam sequer. Não sabiam nada de nada.” Insatisfeito, tantas vezes censurado, procurou Artur Agostinho e pediu para abandonar a reportagem e enveredar pelo desporto. E experimentou o relato desportivo. Foi o que fez na Emissora Nacional até à revolução de Abril. Depois, acabou saneado. “Fiquei muito magoado mesmo. De tal forma magoado que me vim embora por minha vontade.”

Depois do Quelhas e do saneamento seguiu-se o Rádio Clube Português. Abandonou o desporto e apresentou o programa — uma referência radiofónica que inspiraria Emídio Rangel e a fundação da TSF — Dimensão Três. Não por muito tempo. Regressou ao desporto, “obrigado”. Igrejas Caeiro, à frente do Rádio Clube de então, acusava-o de “só passar música da Revolução que agredia os ouvintes”, terminando com o programa e promovendo Fernando à função de editor de desporto. Desta vez, primeiro no Rádio Clube, depois na Comercial e na TSF, para não mais o deixar de ser. Ainda tentou. Mas não podia. “Percebi que as pessoas se habituaram de tal maneira ao Fernando Correia no futebol, que tinha ficado preso numa engrenagem da qual já não era possível sair. Já não era possível sair. Já não era, já não era…”

Fez muito. Quase tudo. Reportagens, entrevistas, relatos desportivos, escreveu (e escreve) livros. “Nem sempre fiz tudo o que queria”, lamenta. Agora, e sem muito o que perder, aceitou, sem hesitar, ser porta-voz de Bruno de Carvalho no Sporting. Porquê? “Aceitei porque sou sócio do Sporting desde que nasci. E aceitei porque, ainda que o Bruno às vezes se possa exceder — ele sabe qual é o meu pensamento a esse respeito: acho que podia ser mais reservado –, e às vezes excede-se porque tem o coração ao pé da boca e é do Sporting, sempre o apoiei e agora que ele precisa de mim não lhe poderia voltar as costas.”

Ao fim de 82 anos de vida e 61 anos de profissão no jornalismo, a voz é a mesma do começo: serena, colodadíssima, grave. Fernando Correia vai continuar a usá-la. “Acho que sou útil.”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Apresentando-o: repórter, locutor, escritor. É tudo isto.
Sim…

Perdeu-se um médico?
[Risos] Eu acho que sim, acho que sim. O que não sei é se se perdeu um bom médico ou não. Mas sei que se perdeu a vocação. E a vocação era fazer o curso de Medicina. Enfim… [pausa] não foi possível. E também estou feliz com a carreira que segui — uma carreira quase ocasional. Agora, a Medicina, e desde muito pequeno, desde que me entendia enquanto gente, sempre foi a minha grande paixão, tinha um certo fascínio pela bata. Acho que queria ser médico para ser útil.

Às vezes a Medicina, a Advocacia, são uma imposição do pai, da mãe. Mais até naquele tempo do que hoje. Neste caso nunca foi…
Não, não. Não. Era mesmo vocação, ninguém nunca me impôs nada. Às vezes, lá em casa, até se riam por eu ter aquela fixação por ser médico. Mas a vida não permitiu que seguisse Medicina. Também não sei se se ganhou um jornalista. Não sei… Mas sinto que fiz uma carreira, sobretudo na rádio, muito proveitosa. Acho que foi boa.

Já falaremos do acaso que o levaria ao jornalismo. Mas antes queria saber a razão pela qual diz que “a vida não quis” que se formasse em Medicina?
Naquela altura o percurso académico começava no ensino primário, depois o curso liceal e, depois, a admissão à faculdade. Ou seja, quando se chegava ao antigo sétimo ano de liceu, tinha que se fazer exame de admissão à faculdade. Eu fiz à Faculdade de Medicina, fui aprovado e estava preparado para iniciar o meu primeiro ano de Medicina quando houve um problema familiar grave, mesmo muito complicado, que fez com que deixasse o curso e arranjasse um emprego depressa. E arranjei. Tinha que ajudar a minha mãe, que tinha ficado sozinha comigo. Ele precisava de um apoio e, portanto, sacrifiquei-me por ela.

Que primeiro emprego foi esse?
Empreguei-me numa dependência do Ministério da Economia. Consegui arranjar esse emprego por concurso. Era uma espécie de amanuense, entrava às nove e saía ao meio-dia, entrava às duas e saía às cinco. Uma coisa que para mim era um horror. [Risos] Nunca gostei de horários — e muito menos da obrigação de cumprir aqueles horários. Até sou capaz de não olhar a horários e trabalhar 24 horas seguidas se precisar de trabalhar. Agora, a obrigatoriedade de entrar sempre à mesma hora e sair sempre à mesma hora não era para mim.

"A medicina, e desde muito pequeno, desde que me entendia enquanto gente, sempre foi a minha grande paixão, tinha um certo fascínio pela bata. Acho que queria ser médico para ser útil."

E o que é que fez? 
Voltei a matricular-me, agora à noite, porque queria prosseguir os estudos.

Mas não era Medicina…
Não, não. Até porque não havia nenhum curso noturno de medicina. Matriculei-me no Instituto Britânico, para tirar o curso de inglês, e na Alliance Française, para tirar o curso de francês. E concluí-os, estudando à noite e trabalhando lá na dependência. Depois tive a sorte de ganhar uma bolsa de estudo para Inglaterra, para Cambridge, uma bolsa de estudo de dois anos. Nessa altura a minha mãe tinha a vida mais equilibrada e isso permitiu-me ir. Fui, mas fui sempre com uma grande preocupação por ela. Estive lá os dois anos, aprendi mesmo muito e até podia lá ter ficado, porque um dos professores de Cambridge trabalhava na BBC e houve a possibilidade de ir para lá.

Mas não chegou mesmo a trabalhar na BBC? Tenho ideia que sim…
Não, não. O trabalho era… esporadicamente, digamos assim. Nunca propriamente um trabalho continuado. Mas foi assim: não aceitei o convite da BBC, atraído pela preocupação com a família, e vim logo para Portugal. Curiosamente, quando cheguei houve um concurso do Secretariado Nacional de Informação, que era ali no Palácio Foz, para locutores, locutores que tinham de ler notícias nos chamados postos amadores — a Rádio Graça, a Rádio Voz de Lisboa, o Clube Radiofónico de Portugal e a Rádio Peninsular. Na verdade, não era bem um noticiário, noticiário. Os locutores andavam de estação em estação a ler o que o Secretariado Nacional de Informação enviava.

Trocando por miúdos: o que lia era a propaganda do regime salazarista.
A propaganda, a propaganda. Sim. E estive ali a trabalhar durante oito meses, mais ou menos oito. Depois surgiu um concurso para a Emissora Nacional, que é agora a RDP, e concorri. Fiquei aprovado em primeiro lugar. E trabalhei na Emissora até ao 25 de Abril.

De visita a Cuba após o 25 de Abril. "A visita deixou-me tantas marcas que acabaria por escrever um livro ["Cuba: Primeiro Território Livre da América", em setembro de 1975], o primeiro."

Certamente que lhe perguntam isto a toda a hora. Quando concorreu à Emissora e, antes disso, ao Secretariado Nacional de Informação, tinha já a voz, grave, colocadíssima, que hoje tem? Ou seja: o que pergunto é se tinha noção que a voz seria uma ferramenta?
Sim. Tinha, tinha. Aprendi muito sobre a voz no Secretariado Nacional de Informação. Mas, antes disso, já tinha apresentado festas. Sempre que havia uma festa lá no liceu, o Liceu Camões, era eu que apresentava. Gostava daquilo. Gostava muito. Tinha uma certa uma atração por falar. Por comunicar. Depois, no Secretariado Nacional de Informação, tive dois professores de teatro radiofónico, dois atores, o Pedro Lemos, do Teatro Nacional D. Maria II, e o Manuel Areno, também de lá, que me ensinaram os mistérios da voz, a colocá-la, a interpretar, a compreender a respiração diafragmática, a por a voz na cabeça — como eles diziam –, e foi tudo isso que fez com que, chegado a esta fase, ao fim de 82 anos de vida e 61 anos a trabalhar com a voz, continue a falar com a mesma voz do princípio.

A propósito da Emissora Nacional — já falaremos da forma como de lá parte, “saneado”, magoado. O que fez foi sobretudo reportagem. Muita reportagem. Longe estava de se virar para o lado desportivo do jornalismo…
Sim, sim. Entrei para a Emissora Nacional e entrei apenas como locutor, o chamado pivô de emissão. Apresentava os noticiários, alguns programas também. Isto no começo. Depois tornou-se mais abrangente e comecei a fazer reportagens. Parece que tinha algumas qualidades, que era polivalente, e resolveram aproveitar isso. Uma das coisas que acabo por fazer, a partir de 1961, é a Guerra Colonial. Fiz muitas reportagens com a partida dos soldados para África. E acabei por ser enviado para lá durante três, quatro meses. Torno-me repórter de guerra. E isso transformaria a minha vida.

Transformaria? 
Não era aquilo que queria. Era contra. O meu pai tinha sido preso pela PIDE. Sabia perfeitamente o que era a Democracia. O meu avô tinha sido um grande amigo do pai do Mário Soares — chamava-se João como o neto –, era republicano. Então, fui criado no seio de uma família que era contra o Estado Novo.

E tinha noção que aquela era, e desculpe-me a expressão, uma guerra estúpida, fratricida…
Exatamente. Exatamente… Lá, percebi que estava a reportar uma guerra sem nenhum sentido, a fazer reportagens com soldados a morrer sem saber bem porque é que morrem. Eles não sabiam porque lutavam sequer. Não sabiam nada de nada. É evidente que isso me magoaria. E quando voltei a Lisboa fiz reportagens com as chegadas, ao Cais de Alcântara, dos caixões que transportavam os soldados mortos na guerra. Não era aquilo que queria.

Muitas reportagens acabam censuradas. 
Sim, sim. Sim. Muitas vezes. Quando regressei fui procurar as reportagens e a maioria não foi emitida. Ou se foi, foi amputada no essencial. A Emissora Nacional era a voz do regime. Era natural a censura. Mas para mim não era, para mim não. Não aceitava. E passados dois, três anos, pouco tempo antes do Mundial de 1966, fui ter com o Artur Agustinho, que era o homem grande da casa, toda a gente respeitava muito, e pedi-lhe, como ele tinha sido meu professor durante o estágio, para ir para o desporto. Não queria continuar a pactuar com aquela “ratoeira”. E comecei a fazer futebol. Nunca tinha feito. Nem tinha pensado fazer. Isso é que é engraçado.

"[Em África] percebi que estava a reportar uma guerra sem nenhum sentido, a fazer reportagens com soldados a morrer sem saber bem porque é que morrem. Eles não sabiam porque lutavam sequer. Não sabiam nada de nada. E quando voltei a Lisboa fiz reportagens com as chegadas, ao Cais de Alcântara, dos caixões que transportavam os soldados mortos na guerra. Não era aquilo que queria."

Tinha jeito?
Treinei. Treinei muitos. Primeiro a fazer relatos para mim próprio, depois fui fazendo, a pouco e pouco, reportagens pequenas, entrevistas pequenas, ficava atrás da baliza, até que um dia comecei a fazer relatos. Achava graça. Achava graça… A rádio tinha uma força enorme. Praticamente não se via futebol na televisão em Portugal, porque praticamente não existia televisão e a televisão só transmitia futebol de tempos a tempos em diferido. Então, a rádio tinha uma força enorme, as pessoas estavam na bancada a ver e tinham o rádio encostado ao ouvido para seguir o relato. Era engraçado. Ao mesmo tempo comecei também a fazer o programa da manhã na Emissora Nacional, um programa de cabine — que não me obrigou a sair para o exterior –, comecei a apresentar os espetáculos de variedades da Emissora, e desviei-me do jornalismo, da reportagem. Mesmo assim, ainda me enviaram para o Brasil com o Américo Thomaz, acompanhar a trasladação dos ossos do D. Pedro. E enviaram também com o Marcelo Caetano a Inglaterra, quando o Caetano fez uma visita oficial a Londres e foi assobiado, atiraram-lhe ovos e tomates para cima. Fiz a reportagem. E foi cortada, obviamente. [Risos]

Mas falemos então do 25 de Abril. De certa forma acabou por ser saneado na Emissora Nacional. Mas o Fernando não era propriamente um reacionário, um apaniguado do regime. O que é que se passou ao certo?
Não era [reacionário]. Até vou confidenciar — e nem gosto muito desta “bandeira” mas é verdade — que fui militante de um partido de esquerda na clandestinidade. Portanto, o que me aconteceu foi um absurdo.

Mas o que é que se passou?
Fui saneado. Aquando da constituição da primeira comissão de trabalhadores da Emissora Nacional fui saneado. A comissão era composta com colegas da Emissora. Um deles até está preso. Acho que está. É o Arlindo de Carvalho. Ele depois foi ministro da Saúde, houve confusões e prenderam-no [n.d.r.: na realidade, Arlindo de Carvalho nunca foi preso, responde apenas em julgamento pela co-autoria dos crimes de burla qualificada, abuso de confiança e fraude fiscal agravada, num esquema que alegadamente envolveu a estrutura diretiva do BPN; além do mais, Arlindo de Carvalho garante que não só nunca pertenceu a nenhuma comissão de trabalhadores como, entre 1972 e 1977, foi funcionário da Setenave, ou seja, não estava na Emissora Nacional]. Não sei se ele pagou o mal que me fez ou não. Mas também não lhe quero mal nenhum. Não sou vingativo.

Mas ficou magoado à época. 
Fiquei. Fiquei muito magoado mesmo. De tal forma magoado que me vim embora por minha vontade. O capitão de Abril que estava a tomar conta do Emissora disse assim: “Oh Fernando, vais três meses para casa, a receber ordenado por inteiro, e daqui a três meses voltas”. Eu disse-lhe que não. “Não, não quero assim, agradeço mas o que me estão a fazer é uma pulhice”. E saí. À maluca. [Risos] Era jovem ainda. No dia seguinte fui para o Rádio Clube Português.

O que não faltava era quem o quisesse, portanto. 
Foi logo no dia seguinte, a convite de grandes senhores da rádio, o Matos Maia e o António Miguel. E estava lá muito feliz quando a rádio foi unificada. Portanto, voltei para o mesmo sítio, para a Rua do Quelhas. [Risos] Depois, quando se fundou a Rádio Comercial, e quando houve a separação das rádios, preferi ir para a Rua Sampaio e Pina e ficar na Rádio Comercial. Por uma razão lógica: se tinha saído da Emissora para ir para a Sampaio e Pina, à época para o Rádio Clube Português, não fazia sentido estar outra vez no Quelhas. Nessa altura já estava tão embrenhado no futebol que já só fazia desporto, era editor.

Ainda durante a visita a Cuba, aqui com três dirigentes do desporto cubano. "Os cubanos estavam felizes. Havia abertura. Qualquer pessoa discutia -- discutia no bom sentido -- no meio da rua."

Mas antes disso fez bastantes reportagens, reportagens importantes, não desportivas. Esteve em Cuba, por exemplo, e conhece Fidel Castro. Verdade?
É verdade. Estive em Cuba. E é verdade que conheci Fidel. A visita foi longa e deixou-me tantas marcas que acabei por escrever um livro [“Cuba: Primeiro Território Livre da América”, em setembro de 1975], o meu primeiro livro. Cuba ainda vivia naquele espírito da revolução. E o livro também foi escrito com o mesmo espírito. É natural. O que vi foi um povo muito, muito culto, muito embrenhado e interessado em recusar vir a precisar dos americanos, um povo muito fiel as símbolos todos da revolução. Porque tinham atravessado um mau bocado com… com, com…

Com Fulgencio Batista, sim.
Com o ditador, com o Fulgencio. E gostei muito de lá estar. Os cubanos estavam felizes. Havia abertura, havia cultura. Qualquer pessoa discutia — discutia no bom sentido — no meio da rua. E lia. Via pessoas sentadas nos bancos a ler, a ler, a ler. Isso para mim era fantástico.

E que memória é que tem do encontro, ainda que breve, com Fidel? 
Foi breve. A única coisa que lhe disse foi que tinha uma honra muito grande em conhecê-lo. E depois que pensava escrever um livro sobre a visita e que lhe enviaria um exemplar. E enviei. Ele foi receber a embaixada portuguesa, visitámos o que quisemos, sem imposições, sem restrições. Era livre, Cuba era livre.

Voltemos então ao desporto. 
Eu fui editor de desporto por obrigação…

Obrigação?
[Risos] Sim. Quando a rádio foi unificada e o Rádio Clube Português volta para o Quelhas, eu voltei para fazer o programa chamado Dimensão Três. Era todos os dias entre as nove e o meio-dia. Acho que, sem querer, abri caminho para a fundação TSF. Porque aquelas três horas de emissão eram aquilo que a TSF foi depois. Mas isto não é por acaso. Uma das pessoas que trabalhou comigo, que foi admitido por mim, foi o Emídio Rangel.

Que depois fundaria a TSF. Em 1988. 
Sim. E o Emídio ficou a trabalhar comigo. Era um grande homem de rádio. E acho que ele bebe um bocadinho ali a fonte para a TSF.

Explique-me melhor. Era um programa inovador, é isso?
Era, era.

Na linguagem…
Na linguagem. Tinha dimensão literária, teatral, desportiva, infantil. Estavam a trabalhar comigo pessoas fantásticas: o professor Manuel Sérgio, o Teatro Ádóque e o Teatro Infantil de Lisboa, o Amadeu José de Freitas, a Isabel da Nóbrega — que era a companheira do José Saramago –, depois tinha também o folclore com João Viegas, que era casado nessa altura com a Tonicha. Enfim, um programa abrangente. E o Igrejas Caeiro, que tinha saído do “exílio”, digamos assim, e era presidente da Emissora, um dia chamou-me e acusou-me de só passar música da revolução, que “agredia os ouvintes” com aquela música. “Oh Fernando, tu ficavas bem era no desporto”, disse-me o Igrejas Caeiro. Tirou-me do programa e acaba com o programa. E promoveu-me a chefe do desporto, editor.

Ah, daí a tal “obrigação”, fazer desporto por obrigação. Alguma vez pensou recuar? Fazer outra coisa que não desporto? 
Pensei. Mas percebi que as pessoas se habituaram de tal maneira ao Fernando Correia no futebol, que tinha ficado preso numa engrenagem da qual já não era possível sair. Já não era possível sair. Já não era, já não era. A única “chicotada”, digamos assim, que eu dei, uma chicotada inovadora, foi quando fui para a TSF apresentar o programa Bancada Central. Mas mesmo assim fui ser editor de desporto, outra vez editor. Foi um programa que durou muito tempo e se tornou uma referência da rádio.

Era um programa de rádio, sim, mas era também um programa de debate. Hoje, quando vê a realidade dos programas de debate, sobretudo na TV, um freak show com um registo “bélico”, o que é que tem a dizer? Incomoda-o?
Claro. Penso que aquilo que se faz atualmente na televisão é a exploração das audiências. Portanto, quanto mais disparatado ou agreste ou mal educado for, mais audiências tem. Isto significa que as pessoas querem nivelar por baixo, não por cima. E isso dói-me. Porque em Portugal ainda continua a existir um grande défice cultural. Ainda continua. Antigamente havia um défice de instrução. Agora há escolaridade, e é obrigatória, mas não há “culturização” obrigatória. Tem que se apoiar as artes, o teatro, o cinema, promover a música. E isto não é ser de esquerda ou direita. É ser a favor da cultura deste povo. Se o povo português tivesse mais cultura estes programas não existiriam, programas que não servem para nada a não ser para um despique de audiências, ver quem tem mais àquela hora, não existiram. Os programas são totalmente iguais, com toda a gente a dizer mal. Ninguém constrói. Só se ofendem. Não é a minha forma de estar na comunicação. E não é o que fiz no Bancada. As pessoas podiam discutir ideias, e isso é válido, as pessoas podiam estar em oposição, mas havia respeito.

Na TSF, em 2002, durante a emissão do programa Bancada Central. ""Os programas [desportivos] hoje são totalmente iguais, com toda a gente a dizer mal. Só se ofendem. Não é a minha forma de estar."

Estava já na TSF quando infelizmente perdeu um grande amigo: o Jorge Perestrelo. Isto em 2005. Chegou nessa altura ponderar abandonar o relato desportivo, não chegou?
Sim. Sim, sim. Habituámo-nos tanto um ao outro, e à forma de ser um do outro — embora tivéssemos diferenças na forma de relatar –, que quando ele partiu, partiu alguma coisa de dentro de mim. É verdade, é. Na altura, à porta da igreja, disse que com a ida do Jorge foi muito de mim. Muito de mim. E ponderei não fazer mais. Os últimos jogos que fiz com o Jorge foram durante o Euro 2004. Mas depois a TVI, quando adquiriu os direitos da Champions League, convidou-me pare relatar e relatei. Estou há 14 anos lá, nesta fase mais como comentador. Só agora é que suspendi a colaboração para ajudar, ou tentar ajudar, o Sporting.

Falemos então do Sporting. Hesitou em aceitar o convite de Bruno de Carvalho para ser porta-voz do presidente?
Não hesitei. E aceitei porque sou sócio do Sporting desde que nasci. Sou o sócio 211. Essa é a minha primeira razão: aceito por sentir o Sporting de forma diferente, sinto-o há uma quantidade de anos. Depois, aceitei porque julgo que o problema agora está em unir o Sporting e não em separar. E aceitei porque, ainda que o Bruno às vezes se possa exceder — ele sabe qual é o meu pensamento a esse respeito: acho que podia ser mais reservado –, e às vezes excede-se porque tem o coração ao pé da boca e é do Sporting, sempre o apoiei e agora que ele precisa de mim não lhe poderia voltar as costas. Ele convidou-me para ser porta-voz da administração da SAD e do Conselho Diretivo. Sinto que, assim, posso preservá-lo. Se falo eu não fala ele. E é completamente diferente falar eu ou falar ele. Não quer dizer que ele não saiba falar. Mas eu não me excedo. E comunico o que a administração escrever comigo, ajustamos os pontos que há para ajustar e vou transmitir isso às pessoas. Mas esta não é a primeira vez que trabalho no Sporting…

Foi diretor do jornal do Sporting durante quase 20 anos. Certo?
Certo, certo. E naquela estava lá a ajudar o clube também. Não hesitei em aceitar, não. E também nesta altura da minha vida o que é que eu perco? Fiz uma carreira, uma carreira bonita. Então resolvi, de forma altruísta, de forma até mais clubista que altruísta, dar uma ajuda ao meu clube. Vou tentar ajudar. Sei que é utópico pensar que toda a gente vai estar de acordo. Mas ao menos que concordem no essencial. E o essencial é querer o Sporting ganhador. Imagine que o Bruno de Carvalho perde as próximas eleições. Para onde é que o Sporting vai?! É isso que o Benfica, por exemplo, deverá querer, aplaudir, por aquela grande rivalidade que há desde a fundação. Mas isso é útil ao desporto português? Não é. Com certeza que não é.

Mas reprova tudo o que tem acontecido? Desde logo a invasão da Academia de Alcochete e as agressões aos atletas e equipa técnica? Há jogadores a rescindir os contratos: o Patrício e o Podence. Outros podem seguir-se. O Fernando acredita que o presidente Bruno de Carvalho pode reverter este cenário que se instalou?
Claro que reprovo a invasão. E é claro que ele [Bruno] pode reverter a situação. Só precisa de querer. Bruno de Carvalho quer aqui os jogadores, gosta deles, são jogadores bem pagos, jogadores que o Sporting quer negociar e que podem ser mais-valias, em “segundas núpcias”, para o Sporting. Mas [o presidente] quer fazer tudo isto de comum acordo. O que não pode suceder é aparecer um empresário [Jorge Mendes] a dizer que são sete milhões para ele e só 11 para o Sporting. Não pode. Não pode… Mesmo que o Sporting ainda tenha contas para acertar com esse empresário. Há aqui qualquer coisa que está a escapar. E o jogador, talvez sem querer, pode ser prejudicado, pode ser manipulado e prejudicado. Porque mesmo que o tribunal demore algum tempo a decidir, esse jogador pode ter que indemnizar o Sporting com o valor da cláusula de rescisão. A cláusula do Bruno [Fernandes], por exemplo, é de cem milhões de euros. E certamente não é clube para onde eles vão que indemniza o Sporting. Isso é que era bom! E depois, como é que é?! Têm que chegar a acordo. Sentem-me. Conversem olhos nos olhos. E isto pode classificar-se como ingratidão. Não acredito que seja. Mas pode ser. Por exemplo: o Patrício viveu desde pequenino no Sporting. Está há tantos, tantos anos no Sporting e é agora que despreza todo o tempo bom que passou no Sporting? Por causa de uns arruaceiros que entraram na Academia e que sabemos perfeitamente que não foram mandados lá por ninguém da Direção?

"Aceitei [ser porta-voz] porque, ainda que o Bruno [de Carvalho] às vezes se possa exceder -- ele sabe qual é o meu pensamento a esse respeito: acho que podia ser mais reservado --, e às vezes excede-se porque tem o coração ao pé da boca e é do Sporting, sempre o apoiei e agora que ele precisa de mim não lhe poderia voltar as costas. Sinto que, assim, posso preservá-lo. Se falo eu não fala ele."

Para fecharmos o assunto Sporting. Disse-me que Bruno de Carvalho tem “o coração ao pé da boca”. É fácil dizer-lhe que se “excede” — a expresão é sua — e que tem de manter-se calado? 
Bruno de Carvalho pode e deve aparecer quando houver um assunto de gravidade ou de peso no Sporting. Pode e deve. Agora, ele aparecia diariamente a fazer comunicados, posts no Facebook… Não faz sentido. Ele sabe que não faz. E diz-me que não quer mais isso. Se houver questões diárias a transmitir, eu transmito. Ele tem que estar tranaquilo e resolver os problemas, que são muitos, que o Sporting tem. Se me chamou foi por algum motivo. Ele próprio reconhece que precisa de alguém. Mas tem que cumprir. E até agora tem respeitado. Agora o que é preciso é ver para onde é que os sportinguistas — que estão a ser instrumentalizados, alegadamente pelo presidente cessante da Mesa da Assembleia Geral [Jaime Marta Soares] — querem ir. Porque quem os está a instrumentalizar está a fazer muito mal ao clube. E pergunto: quem é que quer neste momento tomar conta do clube?

Quem?
[Pausa] É apetecível. É apetecível. Porque tem as contas em dia. Tem jogadores de grande qualidade. Ganha em todas as modalidades. Mas quando era preciso aparecer — e o Sporting não era assim como é agora — ninguém apareceu. E digo mais: se houver eleições a breve prazo, e se Bruno de Carvalho concorrer, estou convencido que os sportinguistas vão reconhecer nele o seu presidente.

Assunto fechado. Sigamos… O Fernando mantém, desde há muito, e percebe-se nesta conversa, uma postura de cavalheirismo, sensibilidade. Isso está relacionado com o facto de ter sido, durante a infância, educado por três mulheres: a mãe, a tia e a avó? 
[Risos] É capaz. Tem força, tem. Houve algumas divisões familiares entre o meu pai e a minha mãe. E acabei por ser criado por elas. É uma boa dedução. A minha educação tem muito a ver com isso, tem a ver com respeito. Porque a mulher impõe sempre mais respeito do que o homem. As mulheres têm uma forma de agir muito mais correta, muito mais assertiva. Isso teve influência na minha educação e sou muito grato à minha mãe e à minha avó. Fizeram de mim um homem sério e capaz de superar as adversidades todas que surgem. E também um homem de grande sensibilidade. E coloco, por exemplo, toda essa sensibilidade nos livros que escrevo. Curiosamente, o próximo livro é sobre a violência doméstica contra as mulheres.

Falando de escrita. Na autobiografia [“O Que Eu Sei de Mim”], recentemente editada, partilha um episódio curioso da infância. Em casa, por vezes, ficava amarrado à cadeira. Porquê?
[Risos] Assim à primeira vista parece grave. Mas tem uma explicação. A minha avó morava num segundo andar da Calçada de Santo Amaro, em Alcântara. Um segundo andar alto, muito alto. Eu gostava muito de ir para a janela, porque da janela da minha avó avistava-se o Tejo, a outra margem, o campo do União de Lisboa… E a minha mãe temia que me debruçasse na janela e caísse. Como ela tinha que trabalhar em costura e bordados, amarrava-me por uma perna à perna de um móvel, para não cair.

Ainda assim, revoltado, atirava os soldadinhos de chumbo pela janela…
[Risos] Exatamente. De raiva atirava-os cá para baixo. E depois ficava a chorar porque não os tinha para brincar. Mas acabou por não me marcar negativamente.

Na década de 1980 com a mulher, Vera, após ter recebido o Prémio Gandula. "A doença [de Alzheimer] é uma doença de tal forma horrível que acaba por ser apelativa ao amor."

Já marcante foi certamente, e também o contou em livro [“Piso 3, Quarto 313”], a doença da sua mulher, Vera, que sofre de Alzheimer e está internada. Fê-lo, escreveu-o, para alertar para a doença?
Sobretudo isso. Sobretudo. Não fazia muito sentido devassar a minha vida. Nem era cordial que o fizesse.

E hesitou em escrever.
Hesitei. E perguntei às minhas filhas se o devia fazer. Escrevi-o com a finalidade de alertar as famílias para a doença, alertar para como se deve proceder com os doentes. É fundamental. E é fundamental tentar perceber se estão com a doença de Alzheimer e atacar logo de início, porque logo de início consegue-se pelo menos que não evolua e consegue-se ter mais qualidade de vida — o que já não foi possível com ela [Vera]. Em relação aos cuidadores, a verdade é que a maioria não está preparada para isto. Vi coisas muito desagradáveis. Não estamos preparados em Portugal para a doença mental. Alerto para isso nesse livro. Apesar de contar a minha história, é sobretudo um alerta para os familiares e cuidadores. É um livro de amor, sobretudo.

Muitas vezes, quando visita a Vera, depara-se com pacientes que não têm visitas. Estão abandonados. É duro…
Infelizmente estão. São quase todos mulheres. Pessoas que estão lá há muitos anos, abandonadas. Não têm ninguém. Nós, que estamos lá para visitar objetivamente uma pessoa, acabamos por ser a grande companhia destas mulheres, é preciso falar, acarinhar, para elas poderem ter um bocadinho de relação com o mundo. Às vezes já não sabem o que é o mundo. E isso preocupa-me muito.

Diz que a sociedade portuguesa não está preparada para a doença mental. E o Fernando: estava preparado para assistir à degradação, progressiva, veloz, da saúde da Vera?
Não. Foi um desafio a nós próprios. Nos primeiros tempos, quando ela começou a ter sintomas, não percebia. Não estava preparado nem dispunha de informação suficiente sobre o que era o Alzheimer. Agora tenho. Muita. Eu próprio talvez nem sempre tenha procedido bem em relação a ela. Não sei se procedi ou se não. Posso alguma vez ter sido mais “agreste”. Porque não compreendia a doença. Mas a doença é uma doença de tal forma horrível que acaba por ser apelativa ao amor. Ou seja, trata-se um doente sempre com ternura, compreensão, amor. Isso é fundamental. Os disparates que está a fazer para ela não são disparates. O cérebro comanda-a assim. Em vez de ser agreste, ralhar, tem que se ensinar, reeducar.

Quando o livro sobre toda esta vivência com um paciente com Alzheimer foi publicado, sei que guardou um exemplar em casa, na cabeceira da Vera. Mesmo estando internada naquele momento. Porquê? 
Acho que temos sempre esperança que descubram a cura para a doença. Acho que sim. Mas em relação a ela não vejo que haja já cura. Mas, sim, é verdade que lhe deixei o livro na cabeceira. Porque sinto que tenho que respeitar o seu lugar. É a mãe de três filhos meus. Isso está num plano tão elevado que não podemos desprezar só por causa da doença.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Uma última pergunta. Falámos do muito do que fez. Muito ficou certamente por contar numa vida tão preenchida. Fez sempre tudo o que queria?
[Pausa] Acho que foi muito veloz. E nem sempre fiz tudo o que queria, não. Há sempre mais coisas que queríamos ter feito. A minha insatisfação de vida, a principal, começou talvez no dia em que não consegui ser médico.

E voltamos ao início da conversa.
É verdade. [Risos] Essa insatisfação prolongar-se-ia pela vida fora. A certa altura ainda pensei matricular-me outra vez e fazer o curso. Mas já estava de tal forma envolvido na literatura, no jornalismo, tanto falado como escrito, que deixou de ser uma insatisfação. Aceitei. E o que quero agora é sempre tentar fazer mais, melhor. Quero continuar a ajudar. Acho que sou útil.

[Artigo editado às 14h50 de dia 10 de junho, com a reacção de Arlindo de Carvalho às referências feitas por Fernando Correia.]

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