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Francisco Pinto Balsemão nunca deixou de dizer que era jornalista.
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▲Francisco Pinto Balsemão nunca deixou de dizer que era jornalista.

INACIO ROSA / LUSA

▲Francisco Pinto Balsemão nunca deixou de dizer que era jornalista.

INACIO ROSA / LUSA

Foi jornalista, foi político, mas foi o empresário que ganhou. Quem foram os aliados, rivais e inimigos de Balsemão nos negócios

Balsemão foi jornalista, gestor e político. Fundador do Expresso e da primeira tv privada, foi enquanto empresário que marcou as últimas décadas, criando o primeiro grande grupo de media em Portugal.

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Quem foi seu aluno no curso de Comunicação Social na Universidade Nova de Lisboa poderia ouvir Francisco Pinto Balsemão falar com entusiasmo sobre os grandes grupos de media internacionais. Desde o magnata inglês dos jornais populares, Robert Maxwell, ao australiano que conquistou a América com a Fox, Rupert Murdoch, passando pela gigante alemã Bertelsmann e por Silvio Berlusconi, que saltou do maior grupo de media para o Governo italiano (um percurso inverso ao seu). Quando chegava ao mercado português falava do Estado e da Igreja como os maiores patrões no setor dos media.

Balsemão tinha lançado o jornal mais influente no pós-25 de Abril que se consolidou enquanto foi primeiro-ministro. Quando regressou, reformado da política ativa, a sua ambição era maior.

Estávamos entre o final da década de 1980 e no início dos anos noventa. Os jornais do Estado estavam a ser privatizados e tinha sido aprovada a abertura da rádio e da televisão aos privados. A comunicação social, que sempre foi vista como um caminho para o poder, passou também a ser um negócio. Mas enquanto outros investiram e venderam ou desistiram, Balsemão foi o único a querer, e a conseguir, ser o grande empresário português do setor. Independente de outras empresas e sem abdicar do controlo do seu grupo.

Jornalista, fundador do Expresso, político, fundador do PSD e ex-primeiro-ministro e empresário, dono de um dos maiores grupos de media em Portugal, Francisco Pinto Balsemão morreu esta terça-feira, 21 de outubro, aos 88 anos.

Morreu Pinto Balsemão, dono da SIC e Expresso e um dos fundadores do PSD. Tinha 88 anos

Começou no jornalismo, passou pela política e acabou empresário

A ligação de Pinto Balsemão aos media começa na família. O tio Xico era o maior acionista do Diário Popular desde a década de 1940. O próprio pai era um pequeno acionista. Quando entrou no jornal, em 1963, não tinha “funções definidas, mas foi jornalista, secretário da direção, diretor-sombra, administrador e acionista. Envolveu-se em tudo, desde reportagens internacionais até à organização do jornal, à contratação de colunistas e formação de jornalistas e não escapou a alguns encontros com a PIDE. Foi um período de politização que levou Pinto Balsemão a sair do jornal e integrar a ala liberal com Francisco Sá Carneiro.

O nascimento do Expresso em 1973 é também um projeto político, na medida em que “foi fator de coesão” de “uma terceira via —  entre os que viriam a ser fundadores do PPD”. Mas a principal motivação foi provar a si e à família que era capaz de lançar um projeto inovador e de sucesso. Inspirado nas edições alargadas dos jornais de “qualidade” que eram publicados no domingo no Reino Unido, a oportunidade surgiu com a mudança na lei de imprensa em 1972 que abriu a porta à criação de empresas jornalísticas, dispensando a autorização do Governo à escolha do diretor.

Depois do encaixe que fez na venda das ações no Popular que tinha herdado do pai, Balsemão poderia ter lançado sozinho o seu novo projeto, mas quis sócios. Pinto Balsemão ficou com 51% do capital da empresa, a Sojornal, e os restantes 49% foram distribuídos pela Renascença Gráfica detentora do Popular e de uma impressora que era presidida por António Ruella Ramos, “velho amigo”. Outro “velho amigo”, Luiz Vasconcellos ficou com 15%. Vasconcellos era o maior acionista de duas agências de publicidade e detentor da Sociedade Nacional de Sabões que passaria para a mulher após a separação. Outro acionista fundador foi a família Botelho Moniz que controlava o Rádio Clube Português, o principal grupo de rádio privado que foi nacionalizado após o 25 de Abril.

Com um mínimo de 60 mil exemplares vendidos por semana e investimento publicitário garantido, Balsemão diz que o Expresso foi um projeto ganhador. Nasceu com um capital de 6.000 contos em 1973 nunca mais foi pedido dinheiro aos acionistas. O semanário ganhou músculo no período pós-revolucionário num panorama marcado pela intervenção estatal na maioria dos jornais (via nacionalizações).

Após a revolução, Balsemão chegou a ser deputado da assembleia constituinte pelo PPD, partido do qual foi um dos fundadores, mas escolheu o jornalismo. O rumo mudou em 1979 com a vitória nas eleições da Aliança Democrática (que juntou PPD, CDS e PPM ). Trocou o fato de jornalista pelo de político, mas quando foi nomeado ministro adjunto do primeiro-ministro (Sá Carneiro) não imaginava que chegaria mais alto cargo executivo do país.

Balsemão escolheu para diretor Marcelo Rebelo de Sousa que já escrevia no jornal e a direção empresarial ficou com Luiz Vasconcellos. O empresário e amigo (pai de Nuno Vasconcellos) viria a ser o seu braço direito e esquerdo, primeiro no Expresso e mais tarde na SIC.

Balsemão despede-se do cargo de diretor na convicção de que vai voltar ao jornal do qual se mantém o maior acionista. Jorge Galamba Marques, que foi diretor de publicidade do Expresso, diz ter “pena de que o Francisco Balsemão não se tenha dedicado só à comunicação social. Era aí que ele era bom. Tinha jeito para aquilo. Nasceu para aquilo, não nasceu para outras coisas.» Citado na biografia não autorizada do empresário feita por Joaquim Vieira, destaca ainda que era inegável que Balsemão era admirado pela sua equipa e que estimulava o ambiente de trabalho na redação. «Ele era um senhor em comunicação social», assegura Jorge Galamba Marques. «Como patrão do setor, não houve melhor.»

Balsemão viria a defender no Governo a privatização das empresas de imprensa nas quais o Estado perdia mais de um milhão de contos por ano. E tentou concretizar a ideia de Sá Carneiro de entregar a canal 2 à Igreja Católica, mas o projeto chocava com a Constituição. Seria preciso esperar por 1989 e pela revisão feita durante o primeiro Governo de Cavaco Silva para ficarem consagradas as privatizações, incluindo dos jornais públicos, e a abertura da rádio e televisão ao setor privado.

▲ O trio que lançou o Expresso. Marcelo Rebelo de Sousa, Pinto Balsemão e Augusto Carvalho. Os três seriam diretores (mas o último por muito pouco tempo)

ANTT, PIDE-DGS

Olhando para trás e para a cobertura noticiosa e opinião publicadas nos três anos e meio que esteve no poder, o empresário (ou político) pensa “sinceramente que o Expresso exagerou”, quer em matéria de notícias (escolha, localização e títulos), quer em matéria de opinião. Mas reconhece que no verão de 1983 a empresa estava bem com as tiragens acima dos 80.000.

A ambição de criar um grande grupo de media

Quando regressa ao Expresso, Balsemão deixou de escrever e de estar envolvido nas decisões editoriais regulares. Uma das razões que aponta nas suas memórias era a vontade (estava disponível) para criar “um projeto mais vasto e ambicioso” porque já “cheirava à televisão privada”.

A ambição levou-o a procurar contactos e potenciais aliados fora de Portugal — ter sido primeiro-ministro foi um trunfo valioso — e para tal foi importante o seu envolvimento durante anos no comité diretivo o grupo Bilderberg onde privou com a nata de políticos e empresários mundiais. Balsemão foi durante anos responsável por convidar os portugueses que iriam falar nos exclusivos eventos do grupo.

O grupo que viria a ser conhecido como a Impresa cresceu com pequenos passos.

O vespertino A Capital é o primeiro jornal a ser privatizado em 1988. A dona do Expresso ganha o concurso superando os concorrentes. Um deles é o Correio da Manhã, a Presslivre de Carlos Barbosa que mais tarde viria a concorrer contra Balsemão no concurso para a TV. Apesar de ter sido um “bom negócio” para o empresário, o jornal acabou por ser uma das vítimas da crise da imprensa, então alimentada pela fuga do investimento publicitário para a TV. Quando a Capital fechou já não era do grupo.

Mas entre o final da década de 1980 e início da de 1990, a imprensa era um negócio atrativo porque a publicidade crescia com o crescimento da economia e dos rendimentos que, à boleia da entrada na UE, trouxeram novos padrões de consumo que era preciso anunciar. Dos jornais para as gráficas era um passo que fazia sentido. Numa altura em que as rotativas eram um investimento pesado, mas fundamental para a impressão de papel em qualidade e a cor, o grupo criou a Imprejornal que mais tarde vendeu à Mirandela.

O grupo investiu em jornais regionais, gratuitos e entrou na distribuição de filmes ao lado da Castello Lopes e Valentim de Carvalho, o que valeu mais pela presença nos mercados internacionais do que pelos lucros. Investiu nas revistas com uma parceria com os brasileiros da Abril Morumbi e na distribuidora VASP.  Foi adquirindo títulos especializados como o jornal Blitz e a revista Autosport e foi engordando na área das revistas com a Exame e a Caras. Em 1999, uma aliança com o grupo suíço Edipress, traz a revista Visão, além do Jornal de Letras e da TV Mais. Este núcleo de publicações viria a ser vendido à TIN de Luís Delgado, empresa que anos depois está em processo de insolvência.

Os concorrentes e a “maior crise” do Expresso: o Público

Ainda antes da televisão, Balsemão teve de enfrentar várias ameaças ao domínio do Expresso, mas só uma o atingiu.

Afastado das funções editoriais, e depois da zanga com Marcelo e de uma nega de Fernando Ulrich quando foi sondado, a escolha para novo diretor recaiu sobre Augusto de Carvalho (que estava desde a fundação do jornal) que viria a sair pouco tempo depois, em conflito por causa de uma entrevista a Samora Machel. O cargo fica para José António Saraiva.

No mesmo ano, 1983, nasceu um novo semanário para promover um bloco político de direita que entrava na esfera do Expresso. Marcelo Rebelo de Sousa era um dos fundadores com Daniel Proença de Carvalho e José Miguel Júdice. O Semanário, conta Vicente Jorge Silva citado por Joaquim Vieira, assustou Balsemão. Mas não havia razão para o susto. Em 1987 o Expresso era o semanário líder de vendas com mais de 100 mil exemplares e o principal jornal de referência. Ainda no mesmo espaço político nasce, em 1988, o Independente. O diretor do semanário era Paulo Portas que tinha como ambição ultrapassar o Expresso em vendas. Não conseguiu, apesar do inegável sucesso editorial.

A maior ameaça estava para vir. Para o empresário, a “crise do Público”, “foi uma das mais graves que sofremos”. O projeto nasceu dentro do próprio Expresso e provocou uma fratura da direção e da redação. Vicente Jorge Silva e Jorge Wemans, então membros da direção do Expresso, queriam lançar um diário dentro do grupo. A ideia era “tentadora”, mas depois de fazer umas contas e sondar o mercado publicitário, concluiu-se que o projeto não era viável e que podia até penalizar o Expresso nas vendas e publicidade.

Balsemão conta a conversa que teve com o financiador do Público, Belmiro de Azevedo. “Se quer guerra, vamos para a guerra”.  “Vamos para a guerra”, respondeu o empresário da Sonae. Apesar de considerar que “foi das decisões mais acertadas” que tomou em “toda a minha vida” não investir num diário, Belmiro de Azevedo, citado por Joaquim Vieira, diz que Balsemão se arrependeu muitos anos mais tarde e que chegou a ponderar comprar o jornal… mas não houve acordo.

▲ O dono da Sonae que financiou o Público projeto de vários "dissidentes" do Expresso

André Kosters/LUSA

Nas suas memórias lamenta ter sido apanhado de surpresa pelos promotores, que continuaram a trabalhar no Expresso, depois de terem dito que desistiram do diário. “Continuaram a ganhar o seu salário calmamente, enquanto preparavam um produto concorrente e aliciavam o pessoal da casa para ir com eles”. Foi um rombo sério pelo número e pela qualidade dos que saíram. Entre chefias e jornalistas, o Expresso terá perdido metade da redação. Balsemão reagiu, segurando os jornalistas que ficaram com salários mais altos e contratando outros, alargando o quadro de pessoal num jornal que, como outros na altura, abusava do recurso a recibos verdes.

O Público, lançado em 1990, “abalou o Expresso. Mas não fez cair dos seus alicerces (…) Conseguirmos controlar os danos. Arrisco-me a dizer que situações graves deste tipo são úteis para nos obrigar a pensar, a sair da zona de conforto”.

Seria preciso esperar 15 anos para surgir outra ameaça ao domínio do Expresso. O Sol nasce em 2006 com o dinheiro do BCP então comandado por Paulo Teixeira Pinto e vai buscar alguns jornalistas históricos, com destaque para o diretor que mais anos esteve à frente do Expresso. A movimentação levou a mais uma regeneração da redação e da direção. Tal como Paulo Portas, também José António Saraiva (que morreu este ano) falhou a meta auto-imposta de ultrapassar as tiragens do Expresso.

A 14 de janeiro de 1986 um acontecimento muda o rumo da campanha das presidenciais: a inesperada agressão a Soares na Marinha Grande. Nas urnas, o socialista e Zenha lutam por um lugar na segunda volta frente a Freitas. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui.]

Amigos e rivais na primeira televisão privada

Com a posição consolidada na imprensa, faltava a Balsemão dar o salto de escala que só a televisão podia permitir. E para o dar o empresário deixou passar oportunidades de regressar à política — como cabeça de lista do PSD às eleições europeias — por considerar que era incompatível com um projeto que seria uma decisão política.

O principal obstáculo era a dimensão do investimento necessário e o risco financeiro envolvido, o que obrigava ter parceiros. E parceiros portugueses, uma vez que o concurso estabelecia um teto para a participação estrangeira no capital. Balsemão recorreu a um amigo de longa data, Luís Corrêa de Sá, que o ajudou, assume, a evitar as limitações que a lei impunha ao investimento estrangeiro em empresas de comunicação social e a garantir os fundos necessários para concorrer.

Corrêa de Sá terá assumido o papel de testa de ferro na operação de venda de 40% da Controljornal ao grupo Pallas, em troca de uma comissão. Na biografia não autorizada, Joaquim Vieira descreve uma operação camuflada que envolveu um fundo localizado numa offshore. E cita um comunicado interno que anuncia o investimento da Pallas, um grupo financeiro internacional que integra trinta instituições bancárias, seguradoras, financeiras e industriais europeias, americanas e japonesas, numa sociedade controlada por Corrêa de Sá, “meu amigo e familiar e que esteve presente desde a fundação do Expresso.”

Segundo Joaquim Vieira, o “controlo da SIC por Balsemão era assegurado por participações em cascata, que lhe permitia dominar uma empresa com um investimento relativamente pequeno da sua parte, não correspondendo de forma alguma, no caso da SIC, à maioria do capital da estação”.

Balsemão veio a retomar esta participação, mas o dinheiro colocado pelo grupo Pallas — dois milhões de contos (10 milhões de euros) — foi determinante para construir a SIC. E este terá sido quase o único contributo próprio que o empresário mobilizou ao longo dos anos, com a exceção de um aumento de capital realizado em 2002, já com a Impresa em bolsa, em que teve de colocar alguns milhões de euros para segurar a maioria.

Para lançar a SIC foi criada a Soincom que começou por ter 25% da SIC, limite previsto na lei. Balsemão e os seus parceiros tinham 51,8% e o resto foi distribuído pela Impala de Jacques Rodrigues — o segundo maior acionista com 26,7% — e por outros acionistas menores, como a Porto Editora e a Costa do Castelo, os acionistas fundadores do Expresso e até a Projornal proprietária do jornal e da Rádio TSF.

Mas faltava encontrar os restantes 75%. Balsemão explica que procurou diversificar os setores, tendo reservado 15% para um grupo internacional. Foi bater à porta dos bancos da família Espírito Santo que tinha acabado de recuperar o BES. Entraram ainda o Fonsecas Burnay, ainda público, e a seguradora que o grupo Mello viria a comprar (a Império), bem como o BPA e a Gestifundo, a empresa financeira de João Rendeiro. Balsemão assume ter ligações de amizade com vários dos investidores, como empresas do norte que eram lideradas por seus antigos governantes ou a Inapa do “fiel amigo” Vasco Quevedo. A lista inclui ainda a presença simbólica da Universidade Nova e de grupos concorrentes, como a Lusomundo e Jornalgeste de Luís Silva que, veio pela mão de Salgado e do  grupo Mello. O sócio estrangeiro que viria a ser o campeão das telenovelas que eram as campeãs de audiências: a brasileira Globo.

Encontrados os sócios, Balsemão viveu alguns sustos na véspera de entregar a candidatura. Entre os seus investidores estavam bancos e seguradoras que ainda não tinham passado para mãos privadas e o secretário de Estado do Tesouro, Elias da Costa, tentou dar ordens para as empresa públicas se afastarem da candidatura. Numa altura em que não havia telemóveis e os contactos passavam pelas secretárias, o presidente da Império, António Esteves — um “gentleman e homem de coragem” —  mandou dizer que estava de férias. Pedro Rebelo de Sousa, que estava à frente do Banco Fonsecas e Burnay, atendeu Elias da Costa e ficou aflito, mas arranjou uma saída com o apoio de Vasco de Mello. Se não o deixassem ficar na SIC, o banco Mello entrava.

Berardo. O raider que trouxe capital e agitação e que causou alívio quando saiu

Dos muitos potenciais candidatos à televisão privada — falou-se do magnata inglês dono do Daily Mail (Robert Maxwell) e da Sonae — apareceram três candidatos a duas licenças

A Igreja, a quem já tinha sido prometido um canal pelo PSD, e um grupo liderado por Daniel Proença de Carvalho, que tinha sido diretor da RTP durante o Governo de Pinto Balsemão, e Carlos Barbosa, empresário dono do Correio da Manhã. Na leitura de Balsemão, “este projeto não tinha como projeto de televisão grande consistência, mas tinha peso nos media e capacidade de acesso e influência junto do poder político e económico”.

A proposta da SIC (Sociedade Independente de Comunicação) foi considerada a mais sólida e bem fundamentada, depois de avaliados critérios de viabilidade económica, meios técnicos, horas de emissão e programação. A decisão do Conselho de Ministros não foi unânime. Uma das poucas que dividiu este órgão, segundo durante a governação de Cavaco Silva. Mas as dúvidas centraram-se na atribuição de um canal à Igreja, com o ex-primeiro-ministro a admitir nas suas memórias que a decisão pode ter sido influenciada pela relevância da instituição na sociedade.

O anúncio foi feito por um jovem Luís Marques Mendes, então porta-voz do Conselho de Ministros, em fevereiro de 1992.

SIC e TVI são os vencedores do Concurso Público para novas licenças de Televisão

Quando acabou a corrida pela licença, começou a corrida pela primeira emissão. A SIC também ganhou ao avançar em outubro de 1992. A TVI lançou-se em fevereiro de 1993.

É nesta fase ainda de dúvida sobre o sucesso da SIC, que entra um novo sócio. Segundo Balsemão, Berardo aparece em cena quando a estação precisava de mais um aumento de capital, para além dos que já tinham sido pedidos aos acionistas. Nem sempre com adesão. O investimento do empresário madeirense na SIC em 1994 enquadra-se na “estratégia do raider” que entra para sair com mais dinheiro do que meteu quando entrou. Muitas vezes pago pelos acionistas maioritários que oferecem um prémio para se livrarem do incómodo minoritário.

Sabendo dos problemas do dono da SIC, o madeirense estava disponível para ficar como uma pequena participação que comprou em 1993 que chegou aos 18% do capital da SIC ao comprar as ações que foram vendidas por sócios fundadores como a Império e a Inapa. Os sete anos que esteve na SIC — onde fazia o papel de polícia mau, deixando para o seu representante na administração, Francisco Capelo, o papel de polícia mau — foram “agitados”.

Balsemão confessa o alívio que lhe deu a saída de Berardo em 2000, mas faz questão de o distinguir positivamente de outro acionista bem mais indesejável que teve na mesma altura. Aponta ao madeirense duas qualidades “que nunca encontrou em Jacques Rodrigues”. Tem sentido de humor — e invoca um episódio em que Berardo lhe ligou para dizer que estava na piscina quando ele — Balsemão — estava no escritório a trabalhar para ele. E gosta de arte.

As memórias passam com rapidez pelo episódio que levou à demissão do então diretor adjunto do Expresso,Joaquim Vieira, por ter alterado uma notícia sobre o investimento de Berardo na SIC contra a vontade do diretor José Manuel Saraiva.

Na biografia não autorizada que viria a escrever sobre o antigo empregador, Joaquim Vieira dá mais detalhes. De fecho no dia em que a notícia da entrada de Berardo na SIC lhe foi ditada ao telefone pelo diretor, José António Saraiva, Vieira explica que o buraco dado pelo paginador para a notícia tinha espaço a mais. Nos tempos em que não havia internet nem google, teve que preencher esse espaço com recurso ao arquivo. E optou por citar uma notícia o Independente sobre processos de evasão fiscal contra o novo acionista da SIC, para “evidenciar a autonomia editorial do Expresso”. Para Saraiva, o seu adjunto alterou uma notícia contra as suas ordens expressas e pede a demissão de Vieira, que Balsemão aceita.

O livro de Joaquim Vieira foi publicado em 2017. O autor foi alvo de um processo de difamação posto por Balsemão e que ganhou quando o Tribunal da Relação reconheceu o direito do autor da obra à liberdade de expressão e criação. Nas suas memórias, Balsemão descarta o livro como uma “deplorável pseudobiografia minha”.

As ambições do patrão da Impala que não deixou saudades

Para Balsemão, Jacques Rodrigues era mais perigoso porque tinha mais poder. Era o segundo maior acionista com 26,7% do capital, e corria em pista própria. Ou seja, queria ter benefícios para o seu grupo, a Impala.

Apesar da dimensão expressiva das tiragens de algumas publicações, como a famosa revista Maria, o investimento publicitário fugia aos temas tratados. A partir do seu lugar no conselho de administração, Jacques Rodrigues queria influenciar a programação da SIC, “com os seus conceitos de entretenimento e informação”. E tentou promover as iniciativas da Impala na grelha da estação, como a atribuição dos prémios de uma revista. “Pelo excesso de quantidade e ausência de qualidade”, não atingiam o patamar pretendido na SIC. Balsemão conta que o lançamento dos Globos de Ouro, em parceria com a Caras, para um público diferente do da Impala foi a gota que fez transbordar o copo, levando Jacques Rodrigues a publicar conteúdos contra si e contra o diretor da SIC. O que o levou a propor a destituição do patrão da Impala da administração em 1996 numa série de assembleias gerais extraordinárias. “Nunca mais o vi e não tenho saudades”.

Para Balsemão as “guerras” com Berardo e Rodrigues foram úteis para quando teve de travar “uma das maiores e mais dolorosas batalhas da minha vida empresarial”.

O choque frontal com Luís Silva e “uma pistola em cima da mesa”

Nas suas memórias, Balsemão perde algum tempo a explicar a associação falhada ao seu concorrente nos media que, no papel, começou por fazer todo o sentido. “O argumento era sólido e convincente”: o Coronel Luís Silva geria as duas empresas em nome da mulher (que era quem tinha o capital), tinha excelentes contactos internacionais com os grandes produtoras de audiovisual “e podia ser-nos muito útil, não só na aquisição de filmes e séries, mas também na abertura das portas de televisões estrangeiras”.

Por esta altura, a Jornalgeste já era dona dos jornais privatizados JN e DN e estava a caminho de comprar a TSF. Mas o investimento na SIC durou pouco tempo.

“O coronel LS [Luís Silva] cedo mostrou, com toda a franqueza, diga-se em abono da verdade, ao que vinha. E eu não gostei. Queria construir comigo uma sociedade à qual a SIC cedesse os negócios de venda de publicidade e compra de programas”. A gestão dessa sociedade seria feita para garantir lucros, sem acautelar os mesmos resultados na SIC onde estavam os outros acionistas.

Luís Silva “começou a conversa em tom áspero: Era aqui que o Senhor Bordalo, meu sogro, e o Sr. Cupertino de Miranda se reuniam. Só que cada um deles tinha uma pistola em cima na mesa”. Balsemão “estupefacto” não percebeu “se era uma manifestação de guerra (Silva foi militar de carreira na força aérea) do género “Isto só vai ao tiro” ou uma declaração de paz. Sem ter a certeza se estava perante uma “tentativa de intimidação”, afirma que teve a presença de espírito para responder: Hoje não trouxe a minha pistola. Mas, se o Sr. Coronel trouxe a sua, faça o favor de a pôr em cima da mesa”.
Memórias de Francisco Pinto Balsemão

Recorda uma reunião realizada num escritório na Praça da Alegria onde Luís Silva “começou a conversa em tom áspero: Era aqui que o Senhor Bordalo, meu sogro, e o Sr. Cupertino de Miranda se reuniam. Só que cada um deles tinha uma pistola em cima na mesa”.

Balsemão “estupefacto” não percebeu “se era uma manifestação de guerra (Silva foi militar de carreira na força aérea) do género “Isto só vai ao tiro” ou uma declaração de paz. Sem ter a certeza se estava perante uma “tentativa de intimidação”, afirma que teve a presença de espírito para responder: Hoje não trouxe a minha pistola. Mas, se o Sr. Coronel trouxe a sua, faça o favor de a pôr em cima da mesa”.

Argumentou que enquanto gestor tinha obrigações perante todos os acionistas, e por isso, não podia aceitar a proposta. Luís Silva terá retorquido que como seriam os dois que iriam “verdadeiramente trabalhar para garantir o êxito do projeto” mereciam uma recompensa. A conversa não prosseguiu e o BES e o grupo Mello recompraram a posição do coronel.

Joaquim Vieira acrescenta outro episódio à relação entre os dois empresários.  Balsemão teve negociações muito avançadas para comprar a TSF à Projornal e ao grupo Fnac, mas quando chegou à altura de convencer os donos da cooperativa fundadora da rádio, Emídio Rangel que era o diretor e acionista, exigiu um preço alto. O negociante de Balsemão, Luiz Vasconcellos recusou, e num intervalo de um dia, apareceu um comprador que deu um bocadinho mais: Luís Silva “boicotou” o negócio a Balsemão, mas isso não o impediu de contratar a estrela da rádio jornal para liderar a informação da SIC.

O gigante brasileiro que foi conquistado através do filho

Na busca pelo sócio estrangeiro, uma aventura falhada acabou por dar frutos.

Quando lançou a Publivídeo no final da década de 1980, Balsemão conheceu grandes empresários internacionais. Entre estes estavam Jean-Luc Lagardere, o patrão do grupo francês Matra que também era dono da Hachette (editora de jornais) e da Rádio Europe 1. Já de olho na televisão, a pequena empresa portuguesa entrou com uma posição “mínima” no consórcio liderado por Lagardére que concorreu à privatização da TF1, principal canal francês. Perdeu a corrida, mas Balsemão construiu pontes com outros investidores – entre eles estava o filho mais velho do dono da Globo – Roberto Irineu Marinho.

A língua comum e o sucesso das novelas brasileiras eram um argumento de peso. A conversa decisiva aconteceu com Roberto Marinho, já então com mais de 80 anos, mas que continuava a gerir o “seu império de imprensa, rádio e televisão”. O então homem mais poderoso do Brasil ouviu, fez perguntas, “mas jogou à defesa” porque tinha investido através do filho na Europa, ao comprar a Tele Monte Carlo, e o investimento correu mal por causa da concorrência feroz de Silvio Berlusconi.

Através do filho, “um espírito aberto” que vivia em Roma, Balsemão conseguiu conquistar a Globo para acionista da sua televisão. Mas conta que Marinho pai hesitou à última hora, obrigando a um raide de telefonemas para a Angra dos Reis onde a família Marinho passava férias.

▲ Pinto Balsemão foi o portqdor da condecoração de Roberto Marinho, o fundador e dono da Globo, atribuída por Mário Soares

AGÊNCIA GLOBO

Balsemão atribui as dúvidas de Roberto Marinho à intervenção de Abel Pinheiro, o filho da empresária portuguesa Fernanda Pires da Silva (conhecida por ser a dona original do autódromo do Estoril). E não é meigo para Abel Pinheiro a quem aponta ter “destruído tudo o que a mãe construiu”. Na sua versão, Pinheiro não lhe perdoou ter ficado de fora do negócio e terá por isso procurado usar a sua influência junto da família Marinho para convencer o magnata a recuar. Balsemão conta ainda que Pinheiro foi dizer à família Marinho que Cavaco Silva teria dito que ele nunca teria um canal de televisão, o que o então primeiro-ministro lhe garantiu não ser verdade.

Quando investiu na SIC, a rede brasileira cedeu qualquer envolvimento na gestão, em troca de um chorudo contrato de venda de programas (novelas) que durou anos. E só uma vez levantou a voz contra, ameaçando sair e romper com o acordo de fornecimento de programas. Isto aconteceu em 1996 quando a estação decidiu vender meia hora de tempo de antena à IURD. O Programa o Despertar da Fé dava à SIC 240 mil contos por ano. A Globo já sofria com a concorrência no Brasil da TV Record que com uma crescente influência conseguia pôr os seus fiéis dentro da estrutura política brasileira. Apesar de lhe custar perder a receita, Balsemão deu ordem para acabar com o programa que tinha aliás pouca audiência. Uma decisão que, acredita, “contribuiu decisivamente para uma aproximação Marinho/Balsemão que ainda hoje é forte e amiga”.

A Globo vendeu a sua participação na SIC em 1999, quando uma crise cambial abalou a economia do Brasil e os bancos que financiaram o grupo brasileiro o obrigaram a desfazer-se das ações. Isso não comprometeu o contrato exclusivo para as novelas. Balsemão reconhece que não ficou satisfeito com o desinvestimento, mas manteve boas relações com a família Marinho e ainda terá tentado convencer Roberto Irineu a voltar a investir na SIC.

A razia de José Eduardo Moniz e a oportunidade dada por Vale e Azevedo

No primeiro ano de emissão, a SIC não conseguiu apanhar a RTP. José Eduardo Moniz diretor poderoso da RTP abriu os cordões à bolsa financiada pelo Estado e “fez uma razia”, comprando todos os programas de ficção e entretenimento estrangeiros para tirar armas à concorrência privada. A SIC tinha as novelas da Globo, mas só conseguiu segurar o exclusivo anos depois do arranque.

Balsemão confessa que ainda ponderou contratar José Eduardo Moniz — que foi um dos portugueses que levou às reuniões do Grupo Bilderberg — mas “apercebi-me de que ele estava acima de tudo interessado em ficar na RTP e destruir as veleidades das nóveis e ingénuas televisões privadas”. A escolha de Emídio Rangel para diretor de informação foi evidente perante o sucesso editorial da TSF. E quando Maria Elisa Domingues falhou em cima hora o compromisso para a direção de programas (voltando para a RTP) foi Rangel que assumiu o cargo de diretor-geral.

A aposta em formatos de entretenimento nacional, como o Chuva de Estrelas, e o exclusivo das novelas da Globo, só concretizado em 1995, ajudaram a conquistar a liderança. As suas memórias são, no entanto ,seletivas quando destaca alguns programas e omite outros como o Big Show SIC, formato criado pelo produtor brasileiro Ediberto Lima que veio da Globo para a SIC produzir o que então se chamou “Televisão em Movimento”. Ediberto Lima não consta das citações, apesar da referência a alguns dos seus outros programas. Como ativo “mais valioso” em 1995, indica os Malucos do Riso.

O desporto foi uma das áreas onde foi difícil entrar, sobretudo na área que mais audiências atrai. Balsemão descreve os almoços que teve com dirigentes de grandes clubes. De Jorge de Brito a Sousa Cintra, passando por Pinto da Costa. Os três estavam descontentes com o monopólio que tinha então a RTP na transmissão dos jogos, mas nem por isso venderam jogos à SIC. Só em 1997 com a chegada de um novo presidente ao Benfica é que surgiu uma “oportunidade”.

João Vale e Azevedo ofereceu-se para vender à SIC os direitos dos jogos na Luz. Era uma proposta tentadora apresentada pelo “sorridente e confiante” novo presidente que Balsemão até conhecia por o ter promovido a subsecretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros. “Nunca detetei falhas nem desvios nos documentos de análise ou pareceres que me enviou”.

O preço era “elevado, mas comportável” e compensou. Com a ajuda de meios técnicos inovadores, Balsemão fala no ano “esplendoroso” de 1999 quando três jogos do Benfica atingiram uma audiência de mais de dois milhões de pessoas. Mas durou pouco. Depois de vicissitudes várias que não explicita, Balsemão diz que teve que ceder os direitos a Joaquim Oliveira. A SIC ressentiu-se logo em 2000 e nunca mais conseguiu recuperar uma posição marcante neste campeonato.

A figura do fundador da Sport TV suscita “sentimentos contraditórios” a Balsemão. Por um lado é “rude”, uma faceta que cultiva, gerando desconfianças no primeiro contacto. Mas quando se passa esse limiar, “tem muitos e bons amigos que o apreciam” e um grande sentido de humor. Com os direitos dos jogos e a publicidade nos estádios, Joaquim Oliveira ganhou influência a nível internacional e construiu em Portugal uma rede de contactos e influências que “utilizou sem abusar excessivamente — quem não se recorda dos seus jantares de aniversário com a presença de todos (ou quase todos porque Balsemão não ia) os mais relevantes representantes do poder político e económico?”

O Big Brother que Rangel propôs comprar para meter na gaveta

A Impresa e o seu acionista chegam ao novo milénio com boas razões para celebrar. A empresa foi dispersa no mercado de capitais com sucesso no verão de 2000. A SIC era então líder das audiências, chegou a ter 50% de share. Mas nem tudo estava sólido. A crise das empresas de TMT afetou a cotação das empresas de media. No caso da Impresa, os investidores olhavam sobretudo para as audiências de televisão. E para quem tinha liderança a vantagem na captação de receitas da publicidade era muito mais significativa.

A maré virou contra a SIC quando a TVI roubou a liderança com o polémico Big Brother, um programa que Emídio Rangel se tinha recusado a produzir. Segundo a biografia não autorizada, o então diretor da SIC deixou passar o formato por “razões éticas” relacionadas com a exposição da empresa ao mercado de capitais. Rangel chegou a propor a Balsemão comprar o formato da Endemol e deixá-lo na prateleira, o que foi recusado porque o preço era “altíssimo”, conta este.

Foi um erro que se pagou caro e que fragilizou o diretor-geral a Emídio Rangel. Nem a aposta sucessiva em reality-shows mudou a corrente. Balsemão atribui a explosão do Big Brother nas audiências da TVI ao pontapé do Marco. E descreve em tom desgostoso reality shows como o Bar da TV e Confiança Cega, “conteúdos caros e de baixo nível” que “em nada contribuíram para estancar a descida das audiências”. Emídio Rangel sai em setembro de 2001, depois de “vários episódios desnecessários”. Um deles tem a ver com o Bar da TV e a divulgação em direto e sem autorização de uma conversa dos pais que tinham vindo buscar a filha, uma das concorrentes. O produtor do programa, Ediberto Lima, explicou anos mais tarde que estava desesperado para ultrapassar as audiências do Big Brother. Conseguiu durante um ou dois programas, mas a polémica foi tão intensa que chegou ao Parlamento e valeu uma multa à SIC.

Ediberto Lima que tinha vindo da Globo para a SIC demite-se.

O terceiro grande projeto de Balsemão. A SIC Notícias e a fratura na SIC

Apesar de perder durante quase duas décadas para a TVI, a SIC esteve na vanguarda do lançamento de canais temáticos no cabo. A seguir ao “Expresso e à SIC”, Balsemão considera a SIC Notícias “como o terceiro grande projeto que conseguiu levar a cabo e que se manterá, assim espero, como um baluarte do jornalismo em Portugal”.

Tudo começou com uma oportunidade que agarrou quando o projeto lançado pela TV Cabo de um canal só de notícias inspirado na CNN — o Canal de Notícias de Lisboa — falhou na “qualidade e nas audiências”. O processo negocial foi complicado que deu 60% à SIC, deixando a poderosa ficava como acionista e com a responsabilidade pela publicidade.

O primeiro estúdio da SIC Notícias nasceu da ocupação do bar da SIC, o que não deixa ter algum simbolismo porque o nascimento do canal de notícias foi epílogo de uma crise que viria a abalar toda a estação. Começou com uma divergência sobre o funcionamento interno—  com Emídio Rangel a defender um “modelo separatista” — com duas redações e dois diretores — que causou muita discórdia interna e levou a saídas de peso. Entre as quais a de Pedro Norton, então gestor da SIC Notícias, de Nuno Santos e Ricardo Costa. Balsemão infringiu nestes casos uma regra tem sempre seguido, com muito poucas exceções. “Quem sai, não volta”.

Mas muitos não voltaram. A SIC dispensou cerca de 40 pessoas nesse período e alguns saíram pelo próprio pé. Visto como o protagonista do sucesso da SIC, Emídio Rangel, demite-se do cargo de diretor-geral no verão de 2001. É o epílogo de uma sucessão de crises que se acumulavam. Desde os programas “caros e baixo nível” que não resultaram até à crise interna causada pela SIC Notícias. Rangel foi para a RTP ser diretor geral. Ficou apenas por um ano, mas levou várias caras da estação, como Alberta Marques Fernandes e José Alberto de Carvalho e José Fragoso.

▲ A amizade com Emídio Rangel ficou abalada depois da saída da SIC e da ida para a RTP

Manuel Moura/Lusa

A sua saída suscita uma reflexão de Balsemão sobre como os cortes profissionais abalam as relações pessoais. “Tive pena que as minhas relações pessoais com Emídio Rangel se tivesse deteriorado. Com o andar dos tempos, habituei-me, no entanto, a verificar que muitas pessoas que comigo trabalharam intensamente e com quem julgava ter criado laços pessoais de comunicação, e mesmo de amizade, muda, de atitude, de dia para a noite, em 24 horas, quando deixam de trabalhar comigo”.

Balsemão mantinha boas relações com a poderosa PT —  Zeinal Bava gostava de ter boa imprensa — e isso ajudou a lançar mais canais —  SIC Radical, SIC Mulher, SIC Internacional (dos que tem mais receitas). Mesmo sem a liderança no canal generalista, a SIC era o grupo dominante na produção de conteúdos audiovisuais e as receitas cobradas pelas operadoras de cabo e pelo canal internacional passaram a representar 50 milhões de euros por ano.

A SIC demorou 18 anos a recuperar a liderança na televisão generalista à boleia da contratação de Cristina Ferreira, a grande estrela da TVI, e com Daniel Oliveira como diretor-geral. Pinto Balsemão reconhece o efeito Cristina nas audiências, apesar da recuperação do primeiro lugar já estava em curso, “deu uma boa ajuda”. Mas critica que o seu comportamento que “foi tudo menos exemplar” com a SIC, considerando que “a sofreguidão de protagonismo de Cristina acabará por prejudicá-la”.

A apresentadora rasgou o contrato com a SIC para voltar para a TVI onde é agora acionista e diretora. E foi condenada na justiça a pagar uma indemnização de mais de três milhões de euros à antiga empregadora. As duas partes chegaram a um acordo no ano passado cujo montante não foi revelado.

As queixas do BCP e do BES e a ameaça à publicidade

Enquanto empresário e presidente da Impresa, Balsemão descreve duas tentativas de pressionar o grupo por causa de notícias e/ou opinião no Expresso que chocaram com interesses económicos.

O então maior banco privado, o BCP, cortou duas vezes o investimento no Expresso. Segundo o testemunho de Balsemão, o presidente do banco Jardim Gonçalves envolvia-se pessoalmente, convidando-o para almoçar no próprio banco. Mas antes “folheava, lentamente, um dossiê com recortes de prosas do jornal que, em seu entender, continham informação errada ou opiniões com as quais não concordava. Terminado esse ritual, no qual Balsemão evitava defender-se para não vestir o papel de culpado, argumentava que o banco não podia colocar mais publicidade. Balsemão discordava e iam almoçar. Mas o BCP voltava ao Expresso porque precisava, conclui.

A situação mais grave veio a acontecer com o Banco/Grupo Espírito Santo cuja rutura com o grupo (jornais e SIC) veio a ser pública. O Expresso, mais concretamente, dois artigos de opinião, irritaram Ricardo Salgado e José Maria Ricciardi.

Em abril de 2004, a propósito da venda da Galp, um artigo questionava a venda de ativos a estrangeiros, acusando o GES de “atitudes pouco nacionalistas”. O GES era um dos candidatos à compra da Galp, integrado num consórcio que incluía o fundo internacional Carlyle associado a empresários americanos do setor petrolífero. Do outro lado estavam dois grupos nacionais, o grupo José de Mello, e um consórcio que envolvia acionistas da Superbock e o BPI. À data, o BPI era um dos principais acionistas da Impresa, dona da SIC, e Fernando Ulrich um aliado sólido e antigo de Balsemão. Este consórcio ganhou a Galp, mas o negócio desfez-se por causa de uma decisão da concorrência europeia.

O outro caso relatado pelo Balsemão é de 2005 e envolve Ricciardi que era criticado no processo de venda da Lusomundo Media (à Controliveste de Joaquim Oliveira, o empresário que ganhou relevo com a Sport TV). E uma notícia sobre o suposto envolvimento do BES no caso criminal que ficou conhecido como o mensalão no Brasil.

A iniciativa de resolver a crise veio do banqueiro que, diz Balsemão, se arrependeu e contactou um grande amigo comum, o advogado André Gonçalves Pereira para mediar a paz. A solução foi um comunicado conjunto negociado entre os dois num almoço no buffet do Hotel Ritz que Salgado pagou. Quando o banqueiro comunicou a regularização imediata do investimento publicitário no grupo, ouviu a resposta de que tal não seria possível porque o grupo “estava cheio até janeiro”. Era outubro. Nas memórias, Balsemão reconhece que teria sido possível, mas quis marcar uma posição face a um “anunciante poderoso”.

Confiança, traição, vitória e reparação. Um drama em 4 atos

Um autêntico drama shakesperiano (assim o classifica Joaquim Vieira) desenrola-se depois da morte de um dos maiores aliados e fiel colaborador de Balsemão no Expresso.

“Quando Luíz Vasconcellos morreu, em princípio de 2009, Nuno entrou em órbita, estimulado e excitado pela ambição, alimentada por Mora, de ser um grande empresário TMT (Tecnologia, media e tecnologia). Convenceu-se de que tinha influência política, sobretudo junto de Sócrates, o apoio financeiro de Salgado, da PT e da mãe, com peso suficiente para ser o proprietário das duas estações privadas”, escreve Balsemão.

O pai Luíz Vasconcellos era o homem da confiança que desde o início da década de 1980 se dedicou a tempo inteiro à gestão Expresso. Em algumas áreas, era mesmo o principal executivo e de uma lealdade à prova de bala.

Sobre o filho, a quem chama “nuninho”, Balsemão é implacável. Começa com “algumas dificuldades de adaptação e de rendimento nas escolas para onde o mandaram (Estoril, Bélgica, Estados Unidos)”, avança para tentativas de investir o dinheiro da mãe que “correram mal”, sem esquecer a ajuda do pai para arranjar emprego na consultora, Andersen. É ai que encontra Rafael Mora, um espanhol com um currículo pouco conhecido que “desenvolvia a sua estratégica como aquelas aranhas inteligentes, diligentes e mortíferas que vemos nos documentários da National Geografic.”

Mora usou a consultora Heidrick para entrar nas empresas e escolher os novos talentos. Rapidamente chegou às pessoas e às empresas com mais poder e a “partir daí conseguia ter influência efetiva e quase permanente nas empresas porque os gestores tinham sido escolhidos com a sua ativa e determinante colaboração”.

Nuno Vasconcellos emerge no combate à OPA da Sonae sobre a PT, ao alinhar pelo núcleo de acionistas liderado por Ricardo Salgado. Numa carreira relâmpago construída com o dinheiro do BES (e do BCP) e a habilidade de Rafael Mora para se infiltrar nas grandes empresas, tornou-se um dos maiores acionistas da PT e da então Zon. Ao comprar o Diário Económico em 2008, a Ongoing alimenta grandes ambições no setor da comunicação social. tirando partido da fragilidade financeira crescente das empresas do setor.  A Impresa com uma dívida de mais de 200 milhões de euros era um alvo, apesar da dívida da Ongoing ser muito maior, (mas, não estando na bolsa, não tinha a mesma exposição).

Nuno, de quem Balsemão foi padrinho de casamento, passou de afilhado e amigo a capitalista amigo. Herdeiro da posição da Sociedade Nacional de Sabões na holding que controla a Impresa, Nuno Vasconcellos tinha direito de preferência se alguém quisesse vender e foi aumentando a sua posição.

Quando atingiram os 20%, Vasconcellos e Mora deixaram de ser acionistas aliados para se sentirem donos e quererem “impor nos conteúdos, sobretudo do Expresso e da SIC, a divulgação de notícias, muitas delas meros boatos para não lhes chamar fake news, do que lhes interessava, a omissão das novas noticias e opiniões que não lhes interessava”. Chegaram a tentar despedir jornalistas

O choque só se dá quando Nuno Vasconcellos convida Balsemão para almoçar no restaurante que durante anos esteve associado a conversas com fontes do Expresso, o Pabe, e propôs-lhe realizar um aumento de capital de 70 milhões de euros para limpar a dívida da Impresa, reforçando a sua posição acionista para metade. A operação incluía um empréstimo a Balsemão para este poder manter 50% do capital. E Vasconcellos terá até proposto um período de carência no pagamento da dívida. “Tem até morrer para me pagar” (JV), Se não pagasse, a dívida convertia-se em ações para a Ongoing.

Mas na Impresa de Vasconcellos, quem mandava era ele assumindo o cargo de presidente executivo, com dois vices — Pedro Norton (da Impresa) para a imprensa e José Eduardo Moniz (da Ongoing) para a televisão com um salário milionário (que o próprio Vasconcellos se ofereceu para pagar). Balsemão passava a chairman e não haveria lugar para os filhos do fundador. A proposta não era negociável e se Balsemão recusasse, a Ongoing avançaria para a compra da TVI à Prisa, com Moniz atrás.

“Embora já contrariado e irritado pela tentativa de usurpação que a proposta significava”, Balsemão disse que não e argumentou que a Impresa ia conseguir gerir a dívida. Pediu a demissão dos dois gestores da Ongoing, o que Vasconcellos acedeu. Mas a guerra estava a começar e teve vários episódios na imprensa e na justiça com processos e contra-processos e até uma ação a pedir a destituição de Balsemão e da sua equipa por gestão danosa.

Balsemão acusa ainda a Ongoing de estar por trás de uma campanha de difamação com recurso a “métodos criminosos” que passaram por contratar uma empresa para intervir no ordenamento das notícias mais vistas nos sites para promover o que lhe era favorável e desvalorizar a Impresa e a reputação do seu acionista. A elaboração do relatório sobre a vida privada de Balsemão foi imputado a Jorge Silva Carvalho, ex-diretor dos serviços de informação do Estado.

A Impresa ganhou a batalha jurídica contra e o Expresso até “beneficiou jornalisticamente” ao publicar uma investigação à contratação pela Ongoing de Jorge Silva Carvalho. Em 2016, o ex-espião viria a ser condenado de vários crimes, entre os quais o de devassa da vida privada por meio informático por causa da informação que recolheu sobre Pinto Balsemão.

No mundo dos negócios, a Ongoing também foi derrotada. A compra da TVI só podia avançar se vendesse a posição de 20% na Impresa. O que não conseguiu. “Fomos salvos pela ERC”, diz Balsemão que atribui ao regulador então presidido por Azeredo Lopes o mérito de ter travado a compra da TVI. A derrota total viria anos depois com o descalabro financeiro da Ongoing, arrastada pela queda do BES e da PT.

"Do outro lado, das traseiras do palco, podemos ver um aparentemente triste Nuno Vaconcellos, olhando para a mota de água, que foi o único bem que descobriram para executar as dívidas acumuladas de 1100 milhões de euros que a Ongoing deixou, mas conformado com a triste sina de ter de viver financiado pela ainda considerável e intocável fortuna, sediada em paraíso incerto, da mãe Belucha.”
Memórias de Francisco Pinto Balsemão

Balsemão faz um mea culpa e admite que foi “usado e utilizado num plano mais amplo que a Impresa” e reconhece que “durante anos estivemos sob a influência e o encanto da Heidrick and Struggles na descoberta de jovens talentos. Claro que isso era facilitado pela influência de Luíz Vasconcellos, que como é natural queria ajudar o filho. (…) Mas isso não é desculpa”.

Mas reserva as palavras mais duras e irónicas das suas memórias para a dupla.

“Nas traseiras do palco, estão de um lado Rafael Mora, cada vez mais gordo em todos os sentidos da palavra, resplandecente como se nada fosse com ele, e que vai saltando de lugares assinalados do palco que dizem Ongoing, Pharol (sucessora da PT), e Oi. E da Oi (operadora brasileira) para um aparente nada, sempre recebendo de mãos gentis e veladas hospedeiras, sacos de dinheiro que vai juntando ao já arrecadado”.

Do outro lado, das traseiras do palco, podemos ver um aparentemente triste Nuno Vasconcellos, olhando para a mota de água, que foi o único bem que descobriram para executar as dívidas acumuladas de 1100 milhões de euros que a Ongoing deixou, mas conformado com a triste sina de ter de viver financiado pela ainda considerável e intocável fortuna, sediada em paraíso incerto, da mãe Belucha.”

“Não somos engolíveis”. A  entrada na bolsa e a eterna batalha para não ceder controlo

Balsemão nunca quis abrir mão do controlo do grupo que criou e que conseguiu até agora segurar com uma combinação equilibrada entre parcerias e parceiros aliados e uma estrutura de detenção de capital em cascata, que lhe permitiu controlar sem um grande investimento pessoal. Desde o dinheiro que meteu para financiar o Expresso, 51%, Balsemão só terá voltado a colocar alguns milhões de euros na Impresa em 2002 quando teve de segurar a maioria. O patrão da Impresa tinha fama de sovina em muita coisa na gestão do grupo, apesar de não regatear quando estavam em causa matérias de relevância editorial.

O capital foi sendo trazido por investidores e parceiros, alguns amigos, bancos e bancos com amigos. A SIC foi financiada pelo negócio com a Pallas que na prática passou pela venda de uma parte do Expresso ao grupo espanhol, blindada por um acionista (amigo) português.

Em 2000, aproveitando os ventos favoráveis que embalavam as empresas do setor TMT (tecnologia, media e telecom) a Impresa vai para a bolsa. Sobre a preparação desta operação, Balsemão revela “duas visitas interessantes” que recebeu para lhe dar conselhos. Zeinal Bava e Jardim Gonçalves. O então administrador financeiro da PT e o fundador do BCP tinham o mesmo objetivo: convencer a Impresa a desistir, em troca “condições vantajosas”. A PT fez uma proposta quase irrecusável para comprar a SIC. Eram os tempos em que uma ação da PTM valia 140 euros na bolsa e dinheiro não faltava. Balsemão hesitou mas avançou e pôs à venda 49%, mantendo o controlo.

Em declarações feitas à data da estreia em julho de 2000, o presidente da Impresa afastou a entrada de novos parceiros no capital da holding, sublinhando o desejo de permanecer autónomo: «não somos engolíveis». Admitia sim associações, eventualmente com cruzamento de participações em sociedades e negócios concretos, como a que existe com a PT Multimedia para a TV cabo.

A oferta em bolsa foi um sucesso com um encaixe de 250 milhões de euros que foi dividido entre os bancos que saíram (e que terão ficado com a maior parte), mas também entre acionistas originais, quadros da Impresa e o próprio Balsemão. Mas o esforço financeiro feito para comprar a totalidade do capital da SIC numa altura em que o ativo estava muito valorizado deixou um rasto de dívida avultada que até agora não foi resolvido.

O empresário aproveitou uma mudança na lei aprovada em 1999 que lhe permitiu garantir, através da Soincom, 51% da SIC, comprando as posições de vários acionistas financeiros. BES, Totta e BPP aceitam trocar ações da empresa dona da SIC por ações da Impresa que estava a caminho do mercado de capitais.

É mais ou menos por esta altura que o BPI se torna no segundo maior acionista da SIC, ao ficar com a participação que era de Joe Berardo e que reforçou para mais de 40%quando se chegou à frente para ficar com as ações da Globo.

O banco estava impedido de manter mais de 20% da estação, e tinha de vender, mas quando as negociações com a alemã RTL falharam surgiu a questão que Balsemão coloca nas suas memórias “E por que não vender tudo à Impresa? Isso para mim, que sempre gostei de chegar aos 100% era música celestial. Além disso, a SIC vivia uma época de grande prosperidade. O EBITDA atingia 40 milhões de euros, com uma margem à roda dos 20%. Podíamos pagar com o pelo do próprio cão, sobretudo se o BPI nos emprestasse o dinheiro em boas condições”.

O aliado BPI e o amigo Ulrich

Quando descreve os esforços para encontrar os parceiros para lançar a SIC Balsemão confessa a “surpresa” que sentiu quando o BPI, depois de comprar o Banco Fonsecas e Burnay, recusou ficar acionista. E descreve uma reunião “inesperadamente dolorosa com os meus amigos Artur Santos Silva e Fernando Ulrich (mal sabiam eles que o BPI iria ter 40%). Ao contrário de Vasco Mello, que cumpriu e ficou acionista até 1999, “um excelente aliado”.

Mas o BPI ia regressar em força à SIC, pouco tempo depois, em resultado de um outro negócio que foi uma guerra entre os patrões da imprensa. De um lado estava a Lusomundo de Luís Silva e do outro lado estava Paulo Fernandes da Cofina. O capital da Investec estava dividido entre Joe Berardo e Jacques Rodrigues (e algum capital disperso na bolsa). Os três eram ou tinham sido sócios incómodos para Balsemão e o ativo em jogo era precisamente a segunda maior fatia do capital da SIC.

Berardo fez um acordo com Luís Silva para vender as suas ações na Investec, mas só tinha 40%, o que levou a Lusomundo a fazer um acordo também com o segundo maior acionista, a Impala que tinha 10%, mas a Investec estava na bolsa e a dupla Cofina/BPI lançam uma OPA. A Lusomundo é obrigada a fazer o mesmo, elevando o preço, e assim sucessivamente. Até que a Impala decide vender à Cofina/BPI que desta forma ganha a Investec. A televisão ficou para o BPI e a Cofina, dona do Correio da Manhã ganhou o Record e a revista Máxima. A Lusomundo perde a corrida para entrar na televisão e Luís Silva antecipa-se à crise que viria a abalar a imprensa, vende o grupo à PT no que foi então considerado um “grande negócio” — para o vendedor que passou de empresário a investidor.

2000 é um ano da viragem no setor dos media. A Impresa vai para a bolsa tornando-se na primeira empresa pura de média cotada. A operação foi montada pelo BPI que ficou também como acionista de referência da Impresa por troca das ações na SIC, O banco tornou-se também no principal financiador, depois de ter emprestado dinheiro à Impresa para esta comprar a posição que detinha na SIC e que não podia manter sem isso o obrigar a reforçar os rácios de capital.

Fernando Ulrich, amigo de Balsemão e colaborador dos primeiros anos do Expresso, seria administrador. Esta dupla presença (no capital e na gestão) “deu-nos um conforto de que necessitávamos”, confidencia Balsemão.

Anos mais tarde quando foi preciso gerir os destroços da guerra com a Ongoing, conta Joaquim Vieira, foi o presidente do BPI a fazer uma oferta irrecusável em nome de um grupo de private equity para comprar por 50 milhões de euros os mais de 20% que a holding de Vasconcellos detinha na Impresa em janeiro de 2014.

O apoio do BPI só perdeu força quando Ulrich, deixou de ter funções executivas. O banco, controlado desde 2016, pela espanhola CaixaBank alterou a estratégia para Portugal, limitando o crédito às empresas e focando-se nas famílias e na habitação. A dimensão da dívida da Impresa no balanço do banco começou a dar nas vistas e o banco pressionou Balsemão a vender o negócio das revistas. Em 2017, a gestão executiva do BPI passa para o espanhol Pablo Forero. Ulrich fica como chairman.

Nesse verão, a Impresa é obrigada a cancelar uma emissão obrigacionista por falta de procura dos investidores e é noticiado o fecho da revista Visão. Mas todos os títulos de imprensa do grupo — à data muitos — estão em risco, com a exceção do Expresso.

O presidente executivo faz um comunicado a confirmar que a Impresa se irá focar “nas componentes do audiovisual e do digital, em detrimento das revistas”. É assinado por Francisco Pedro Pinto Balsemão. Será o filho de Balsemão a protagonizar a venda do negócio das revistas à Trust in News de Luís Delgado em 2018 que evitou (ou pelo menos adiou) o colapso destas publicações. A Impresa recebeu 10 milhões de euros por estes ativos e, sobretudo, livrou-se do dano reputacional que traria uma decisão interna de cortes ou fecho de publicações. Ainda que Luís Delgado não tenha pago tudo — a Impresa é credora da TIN em cerca de 4,2 milhões de euros, podia ter sido pior.

O lesado do BPP que foi “promover” o livro de Rendeiro

“Ximbalau” é a palavra escolhida para Balsemão classificar o que lhe aconteceu a si e a muitos outros no Banco Privado Português. “Eu fiz e faço parte do contingente de lesados do BPP”.

João Rendeiro foi um dos investidores iniciais da SIC (ainda enquanto dono de Gestifundo que vendeu ao BCP) e Balsemão iria, a título pessoal, investir no banco de João Rendeiro do qual chegou a ser presidente do conselho consultivo. Balsemão foi um dos “milionários” que confiaram a gestão do seu património ao Banco Privado, ao lado da família Vaz Guedes (dona da Somague que venderia à Sacyr), António Serrenho dono da CIN e o proprietário dos hotéis Dom Pedro, Stefano Saviotti.

MANUEL MOURA/LUSA

João Rendeiro com dois fundados do Banco Privado Português (BPP). Um deles foi Balsemão. Ao meio está Raul Capela, banqueiro que fundou o Banif

“Devo dizer que durante anos, as coisas correram bem ou pareceram correr bem” e o “private banking onde, infelizmente, apliquei uma parte das minhas economias, também proporcionava proveitos razoáveis”. Rendeiro oferecia aos seus investidores a possibilidade de aplicarem fundos em empresas veículo que, por sua vez, investiam em empresas da bolsa sob o seu comando partilhando os lucros com os investidores. Balsemão diz que ganhou “bom dinheiro” com dois deles — na Jerónimo Martins e na Somague — mas perdeu nos outros três.

E localiza o problema no veículo criado para investir no BCP, numa altura em que João Rendeiro entrava na luta de controlo do banco do lado de Paulo Teixeira Pinto. As ações foram compradas a um preço inflacionado por essa luta e os investidores desse veículo perderam muito dinheiro. Balsemão está convencido que “o desastroso falhanço do Privado Financeiras (o veículo que investiu no BCP) foi uma das principais causas das dificuldades e posterior falência do BPP”.

Mas não poupa o seu ex-presidente a quem acusa de ter “uma ambição desmedida de se tornar um dos homens mais relevantes homens de negócios em Portugal e em Espanha e, como tal socialmente reconhecido e respeitado.” Ter influência grande no BCP — como viria a conseguir outro ex-parceiro de negócio Joe Berardo — era “fundamental para concretizar esse desígnio”. Tal como era, ser um mecenas das artes, e ter sucesso em Espanha onde Balsemão se empenhou nos contactos pessoais para apoiar a entrada do BPP, o que lhe valeu embaraço quando o banco caiu.

Para além de perder os 20 milhões de euros em ações do BPP, só conseguiu recuperar metade das poupanças e aplicações feitas com o banco, graças à uma solução criada para resolver esta situação com dinheiro do fundo de garantia de investimento.

O BPP estava a viver “momentos dramáticos” com um João Rendeiro desesperado a fazer aumentos de capital e a acreditar que o investimento no BCP era um grande negócio.

Para a história, fica o “momento mais simbólico”, mas também “patético”. A 24 de novembro de 2008 estava já pré-anunciada a falência do BPP e foi esse o dia em que Rendeiro ia lançar um livro para o qual convidou a personalidades de todo o país. A obra “Testemunho de um banqueiro – a História de quem venceu nos mercados” não podia ser mais contrária à história recente do banco e do banqueiro.

Balsemão, um oradores da sessão, recebeu um telefonema de Rendeiro que o dispensava de aparecer. Mas fez questão de ir. Quando teve de promover a obra, Balsemão explicou que quando tinha sido convidado não sabia das dificuldades do banco que, atribuiu à descida dos ratings e à crise do subprime, afastando qualquer ligação às fraudes do BPN. Falou sobre o livro, mas recusou falar aos jornalistas que acorreram ao evento.

Rendeiro agradeceu-lhe, mas “não ficou eternamente grato”, como o tem demonstrado ao longo dos últimos 13 aos. “Penso que é uma pessoa completamente insensível e persistentemente egocêntrico. Isso não o ajuda a distinguir o bem do mal e permite-lhe, julga ele, ficar em permanência ancorado no seu egoísmo”. Palavras escritas antes da morte de Rendeiro numa prisão na África do Sul após ter fugido de Portugal para evitar cumprir uma pena de prisão.

A sucessão

Foi a guerra da Ongoing que levou Balsemão a pensar no futuro e na sucessão. Colocou os filhos na estrutura de cascata através da qual controla o capital da Impresa, não sem procurar blindar a possibilidade de um deles vender a terceiros.

Pinto Balsemão deixou a presidência executiva da Impresa em 2012, passando a ser chairman. Mas a sua intervenção executiva nos anos que antecederam a sua saída já era limitada aos temas editoriais e de conteúdos. A parte mais administrativa e financeira estava com Luís Vasconcellos que apesar de doente prolongou o trabalho na empresa, a pedido de Balsemão, tendo morrido pouco depois de ter abandonado as funções.

O sucessor no cargo, Pedro Norton, era quase como se fosse família. O pai foi um grande amigo de Balsemão que era padrinho de batismo e teve uma longa carreira no grupo, apesar de algumas zangas que o levaram a sair, mas a voltar. Acabou por divergir, muito por causa da intransigência do acionista em abrir mão do controlo numa altura em que a Impresa estava muito pressionada pela dívida, devido à perda de receitas que afetou o afetou o negócio dos media, e precisava de capital fresco.

Ao longo dos anos, Balsemão foi recusando ofertas quase todas para a comprar a SIC. Mesmo sem ser líder, a estação fazia muito dinheiro, graças aos canais de cabo que foi o primeiro a negociar com a PT, e às chamadas de valor acrescentado. Foram aparecendo algumas propostas de estações europeias e até de fundos americanos. Balsemão recebia toda a gente e dizia que sim, mas queria manter o poder de decisão. Quando os investidores lhe diziam que queriam nomear um administrador financeiro, as conversas acabavam.

“Penso que a partir de determinada altura, Pedro Norton começou a entender que a Impresa só se salvaria se houvesse um forte aumento de capital. Sabendo que eu não aceitaria ficar em posição minoritária, foi-me dando conta, com total honestidade, das suas preocupações e de algum desalento, sugerindo que eu deveria arranjar um substituto para ele”.

A saída de Pedro Norton antes do fim do mandato foi preparada com antecedência e terá sido gestor a recomendar a escolha de um dos filhos e até a indicar o candidato mais preparado. O nome de Francisco Pedro, que já era administrador da Impresa, foi conversado com a mulher e os outros filhos concordaram até porque “também era o único que se manifestara claramente interessado e disposto, com coragem, a dar o peito às balas”.

Dona da SIC e do Expresso teve prejuízos de 66 milhões em 2024 e admite vender sede para baixar dívida

Já este ano, Francisco Pedro Balsemão acabou a dar várias entrevistas para explicar os que serão os piores resultados da história da Impresa (de 2024). Os prejuízos de 66 milhões de euros resultaram sobretudo de uma desvalorização do principal ativo, a SIC, que reflete a perda de valor e receitas do mercado de televisão. Foi um operação adiada por algum tempo, a última avaliação tinha sido feita e 2011. O CEO da Impresa não escondeu o mau resultado, o culminar de um triénio negativo, e reconheceu a necessidade de cortar a dívida. A empresa vai entrar “num novo ciclo” com um apertar do cinto que prevê reduzir os custos em 10% até 2028 e o sucessor de Balsemão admite vender a sede para ter encaixe, mas os principais ativos do grupo “não estavam à venda”.

Mas depois de falhar a venda da sede ao BPI e com a pressão financeira a crescer, foram conhecidas negociações com o grupo da família Berlusconi para comprar uma participação na Impresa que pode implicar a mudança do controlo acionista. A acontecer será uma viragem de 180 graus sobre o que o empresário sempre defendeu para o grupo de cujo o controlo nunca quis abdicar.

Auditor avisa que dona da SIC tem de reestruturar, vender a sede ou encontrar novo investidor

Num ano que fica marcado pelo fim da vida do político e empresário, a voz de Francisco Pinto Balsemão fez-se ouvir num podcast inovador que usou a inteligência artificial para reproduziu as memórias que publicou em livro no ano de 2021. O último capítulo da sua história chegou esta terça-feira com a morte aos 88 anos.

Acrescentada a referência à participação da família Botelho Moniz no arranque do Expresso. 

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