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DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR

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Haraquiri de Cotrim, desnorte de Mendes e dilema de Montenegro alimentam sonho de Ventura

Erros dos adversários e eleitorado fidelizado dão conforto a André Ventura. Líder do Chega começa a orientar a campanha para se afirmar como campeão das direitas e fazer xeque a Luís Montenegro.

“Só espero que você não ganhe. Sabe porquê? Porque eu quero-o como primeiro-ministro.” Ao ouvido de Ventura, Isabel, vendedora de fruta e legumes no Mercado de Portalegre, resumiu em poucas palavras o maior dilema que o candidato apoiado pelo Chega carrega nesta eleição. O maior dilema ou a maior ambição, dependendo da perspetiva. É uma evidência para todos que vencer as próximas eleições presidenciais — cenário que nenhuma sondagem até aqui realizada suporta — atrasaria, para dizer o mínimo, a chegada ao cargo de primeiro-ministro, a sua indesmentível ambição. Por outro lado, o simples facto de passar à segunda volta faria dele o grande líder da oposição e um verdadeiro candidato a primeiro-ministro.

Seria, com as devidas distâncias, o momento Le Pen de Ventura. Em 2002, Jean-Marie Le Pen ultrapassou o socialista Lionel Jospin, que nunca considerou sequer essa hipótese, e passou à segunda volta das eleições presidenciais francesas, onde foi derrotado pelo conservador Jacques Chirac. Apesar de tudo, conseguiu mudar para sempre a paisagem política daquele país. Nestas eleições presidenciais, Ventura tem uma oportunidade semelhante: ser o campeão das direitas numa eventual segunda volta contra António José Seguro, cenário que, neste momento, se afigura como mais provável.

Para isso, claro, tem de eliminar a concorrência. Aos olhos de Ventura, Henrique Gouveia e Melo era uma ameaça, porque tinha condições teóricas para captar muito do voto antissistema que costuma alimentar o Chega. Mas guinou para o centro, entre o PS e o PSD, e por lá ficou. O almirante, de resto, deixou de atacar o líder do Chega, focando-se essencialmente em Mendes e Seguro e mantendo uma espécie de pacto de não agressão com Ventura.

Luís Marques Mendes era e é um adversário a ter em conta nesta corrida, mas a campanha do social-democrata tem mostrado dificuldades — que Ventura foi aproveitando, sobretudo na fase inicial. “Se o doutor Marques Mendes está aparentemente em fase descendente, a ele próprio se deve por ter optado por uma estratégia diferente de colar-se ao Governo”, chegou a dizer Ventura, sugerindo que existe algum desnorte na campanha do social-democrata e desvalorizando desde então o adversário.

Noutra ocasião, quando Luís Marques Mendes tentou introduzir o tema do Orçamento do Estado na campanha, Ventura voltou a carregar contra o adversário. “É o típico exemplo de quando um candidato começa a perder o controlo das coisas, começa a disparatar e dizer coisas sem sentido. Mal começa a descer nas sondagens traz o Parlamento e o Orçamento para a campanha.”

João Cotrim Figueiredo tem sido a surpresa destas eleições, mas, no arranque da segunda semana de campanha, cometeu o haraquiri de assumir que não exclui a hipótese de votar em Ventura numa segunda volta. O líder do Chega só tem precisado de ficar de cadeirinha a assistir aos erros dos adversários, que passaram grande parte da primeira metade da campanha numa troca de acusações permanente.

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O campeão das direitas contra o PS

Em boa verdade, Ventura corre em duas pistas: ter o melhor resultado possível na primeira volta, com o descanso das sondagens a mostrarem que não vencerá à segunda, e crescer enquanto líder da oposição para preparar o futuro. Em boa verdade, o líder do Chega foi transparente e nunca escondeu ao que vinha. No dia em que apresentou a candidatura deixou claro: “Estas eleições presidenciais não foram uma escolha minha, não são o meu desejo, mas são, neste momento, a melhor forma de liderar a oposição em Portugal.”

Quando se vai cruzando com pessoas que assumem vê-lo mais como primeiro-ministro do que como Presidente da República, André Ventura tem argumentado que, neste momento, a prioridade é “abanar o país”. Mas tem tido objetivamente dificuldade em separar os planos. De resto, num dos pouquíssimos comícios da campanha eleitoral onde podia ter aproveitado para atacar os rivais diretos, fez um discurso de candidato a primeiro-ministro.

Nessa altura, atacou a ministra da Saúde, o primeiro-ministro, o Governo e o Presidente da República. Foi dizendo que os portugueses pagam “muito mais impostos do que deviam e mesmo assim o Estado não funciona”, que os “emigrantes [ficaram] sem médicos de família” e os “imigrantes que chegam têm médico de família”. Transformações que não estão ao alcance, nem dependem de um Presidente da República.

O plano traçado já está em andamento. À entrada para a segunda volta das presidenciais, com os candidatos a acelerarem a dramatização, Ventura não perdeu tempo e lançou o repto a Luís Montenegro: “Seria interessante saber o que é que o primeiro-ministro e líder do PSD fará perante um socialista e alguém com quem fez acordos na área da imigração, na área da nacionalidade, na área da descida de impostos, todas as medidas da habitação que o Governo queria aprovar, aprovou por causa do Chega.”

Ao colocar Luís Montenegro em xeque, André Ventura começa a cozinhar o futuro, com a clareza de que, no dia seguinte às eleições, terá de voltar a vestir oficialmente o fato de líder da oposição e começar a preparar um próximo embate legislativo frente a Luís Montenegro. Aliás, para aumentar a pressão face ao primeiro-ministro, o líder do Chega não só o desafiou a dizer o que faria no cenário Ventura-Seguro na segunda volta como assumiu que, no seu caso, tudo faria para não permitir que um socialista tivesse caminho livre para regressar ao Palácio de Belém.

Dizê-lo desta forma não é um problema para Ventura. Pelo contrário. A ideia de qualquer pessoa que se diga de direita tem nele o candidato certo para derrotar o adversário socialista permite construir uma narrativa sólida para a segunda volta. E isso vai colocar muita pressão no Governo e no eleitorado da AD.

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Montenegro em xeque

Ainda que o “André Ventura — candidato” vá argumentando a importância de vencer estas eleições presidenciais, o “André Ventura — líder da oposição” vai caminhando com os pés na terra sempre que diz que há uma “tendência” para “vencer a primeira volta” e para “poder não vencer a segunda”. E foi exatamente nesse equilíbrio que percebeu a vantagem que podia ter a médio/longo prazo.

O presidente do Chega sabe que uma segunda volta entre António José Seguro e André Ventura seria uma dor de cabeça para Luís Montenegro. Não só porque significaria que Luís Marques Mendes, o homem em que o líder do PSD apostou para esta corrida a Belém, teria ficado pelo caminho, como faria com que a AD fosse muito pressionada a declarar apoio a um dos candidatos — podendo obviamente optar por não o fazer. Ao antecipar a difícil equação e encostar Luís Montenegro à parede, André Ventura tem consciência de que pode acabar por retirar vantagem desse dilema.

Ventura vai tentando forçar a mão a Montenegro. Mais do que visar os rivais diretos, o líder do Chega tem atingido sobretudo o Governo. Ao contrário do que aconteceu noutras campanhas, dispensa ataques ferozes aos adversários para reinar acima do caos. Tem procurado os problemas do dia a dia para captar o eleitorado do Chega que lhe permitiu um resultado histórico nas últimas legislativas, mas sem a violência verbal e virulência de outras corridas eleitorais.

Da imigração à corrupção aos problemas “reais” do país, da saúde à habitação, André Ventura vai assegurando que quer andar na rua a discutir “coisas que importam às pessoas” e vai prometendo que tem soluções para resolver as dificuldades, que “não se vai esquecer” e que vai “mudar” o rumo do país.

Nos últimos dias, no entanto, tem-se visto uma ligeiríssima variação de discurso, com Ventura a diminuir a intensidade das críticas: havendo uma luta esquerda-direita na segunda volta, o líder do Chega sabe que precisará do eleitorado da AD, pelo que não pode hostilizá-lo abertamente.

Aliás, Ventura já fez questão de recordar nesta campanha como tem sido um parceiro confiável de Montenegro em muitas matérias. Nos acordos para a regulação da imigração, na lei da nacionalidade, nos impostos e até ao aprovar das medidas da habitação. Lembrando que há “causas em comum” e que a AD e o Chega já conseguiram entendimentos “em prol do país” e “afastando-se deliberadamente do PS”, Ventura vai tentando confortar esses mesmos eleitores.

Em todo o caso, é altamente improvável que, derrotado Luís Marques Mendes, Luís Montenegro venha dizer publicamente que apoia André Ventura ou qualquer outro candidato — mesmo que do outro lado esteja António José Seguro. Mas até esse cenário oferece vantagens ao presidente do Chega: ganhará margem para dizer que o líder do PSD traiu o eleitorado de direita e poderá vestir, em definitivo, o fato de líder da oposição.

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