Índice
Índice
Reportagem dos enviados especiais do Observador à Síria
Passava pouco das nove da noite. Lá fora, os aviões da Força Aérea de Bashar al-Assad rondavam o mosteiro. Os padres e freiras de Mar Yakoub começavam a habituar-se à nova realidade, desde que a guerra civil síria tinha começado. Mas, até agora, este mosteiro no meio do deserto, perto da aldeia de Qarah onde se escondiam alguns rebeldes, só tinha sido atacado uma vez, com pequenos mísseis que atingiram a torre romana do século I.
“Eu vinha a sair. Ao passar o corredor, o porteiro disse-me: ‘Pronto, é o habitual, vão dormir’.” A irmã Myri ia com outra freira. No momento em que iam atravessar a porta, “boom”. “Poeira por todo o lado.” Ninguém ficou ferido e o resto da noite foi passado a limpar. Myri não tem dúvidas: “Nessa noite, fomos guardados pelos anjos.”
Myri é a única freira portuguesa na Síria neste momento. Chegada em 2008, viveu durante toda a guerra aqui, no mosteiro de São Tiago Mutilado. À altura, ganhou um hábito que ainda hoje mantém: ter sempre preparada uma mochila com roupa interior, produtos de higiene e uma capa quente, para o caso de ser preciso fugir. Mas nunca o chegou a fazer. Nos momentos mais críticos, a madre da Congregação das Monjas da Unidade de Antioquia disse ao grupo: “Quem quiser partir, que parta”. Alguns fizeram-no; Myri, cujo nome de baptismo é Maria Lúcia, decidiu ficar.
▲ Irmã Myri no deserto perto do mosteiro
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Da faculdade de Veterinária para um mosteiro na Síria onde a missa se celebra debaixo de terra
O vento frio do deserto que sopra parece que corta os ossos. É meio dia e meia e a irmã Myri toca o pequeno sino que chama a comunidade para a missa. Ao todo, são menos de dez religiosos, entre homens e mulheres, de sítios tão diferentes como Bélgica, Venezuela — e Portugal.
Descem as escadas para a capela escura, iluminada por pequenas velas finas. O padre Jean está pronto para presidir à cerimónia de rito bizantino. As freiras alinham-se nos lados da pequena nave, em frente aos missais escritos em francês e árabe. Entre eles está Angie, a pequena menina de sete anos cuja família não tinha condições, e que o mosteiro aceitou criar.
▲ Angie foi acolhida no mosteiro por a sua família não ter condições para a criar
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
São duas horas de celebração em que o incenso é constantemente espalhado pelo ar. O mosteiro não funciona em regime de clausura, mas os seus habitantes saem pouco. A maior parte do tempo é passado a rezar ou a fazer atividades como tratar do jardim e fabricar terços à mão.
Terminada a missa, o grupo prepara-se para o almoço. Depois, Myri caminha um pouco mais connosco pelos claustros. Leva-nos à gruta onde está a peça dourada do Santíssimo Sacramento, uma parte do edifício com séculos de história, e baixamo-nos para não bater com a cabeça no teto da passagem. Ali, a freira portuguesa revela-nos um pouco mais sobre a sua história.
Maria Lúcia nasceu em 1981 em Lisboa e cresceu no Milharado, no concelho de Mafra. Sempre foi crente e participava nas atividades da paróquia, mas nunca imaginava que um dia se tornaria freira e, muito menos, que acabaria a cumprir a sua missão num mosteiro do outro lado do mundo. Quando um dia na confissão um padre lhe perguntou se já tinha pensado nisso, ficou chocada. Prosseguiu com a vida normal para uma rapariga da sua idade e foi para a Universidade. “Há quem tenha vocação de pequenino, para mim foi trabalhado cá dentro até haver uma revelação. Quando eu estava na faculdade, a estudar para ser veterinária, se me dissessem que vinha para um mosteiro destes eu dizia ‘O quê??’ Até para mim não era claro.”
▲ A missa mosteiro dura cerca de duas horas
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Mas Myri sabia que algo se passava dentro de si. “Toda a gente via que eu era diferente das outras raparigas. O mundo não me interessava. Não me via a casar, não ligava se parecia bonita…” O clique foi-se fazendo em vários momentos. Primeiro, numa ida ao estrangeiro à Jornada Mundial da Juventude, que pagou com o dinheiro que ganhou em trabalhos de verão numa fábrica de vassouras e na agricultura. “Lancei o desafio a Deus: ou me fazes ver qualquer coisa ou eu deixo a Igreja. E ele fez.”
Não revela qual foi essa experiência pessoal. Mais tarde, numa viagem a Jerusalém, voltou a ter uma experiência semelhante em frente ao Muro das Lamentações. Ficou ali “na Terra Santa” como freira num convento de regime mais fechado, durante sete anos. Mas isso não chegou para a preencher. “Aquela vida não era para mim, eu precisava de mais. Depois vim para aqui, era suposto ser só um mês, mas algo não me deixava partir.” Ficou em Mar Yakoub até hoje. “Não sei porquê, mas Deus enviou-me para o Médio Oriente.” Passaram-se 17 anos.
▲ A missa mosteiro dura cerca de duas horas
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
O mosteiro era suspeito de albergar rebeldes, mas não o fazia. Em vez disso, tratava-se das ovelhas
A Síria que encontrou quando chegou não é a Síria de hoje, garante. “Mudou imenso. Antes da guerra era um país que não tinha dívida externa, a maior parte das pessoas vivia bem e havia imensos estrangeiros, o mosteiro nunca se esvaziava, o ano todo! Veio a guerra, isso acabou.”
À medida que o conflito se intensificava, Mar Yakoub também ia sentido os seus efeitos. “Mas Deus protegeu-nos”, diz. “O regime bombardeava-nos porque achava que tínhamos alguma coisa a ver com os rebeldes. Mas não era verdade, a única ligação que tivemos foi uma vez em que demos guarida a algumas famílias deles que ficaram no anexo uma noite. Foi perigoso.” A vida na aldeia de Qarah tornava-se mais e mais precária. Alguns fugiam para o Líbano, cujas montanhas ficam a poucos quilómetros. Outros habituavam-se a viver com a presença na aldeia do grupo radical da Frente al-Nusra.
No mosteiro, os padres e freiras saíam cada vez menos, mas a guerra teimava em afetar as suas vidas. Passeando pela propriedade de 30 hectares é inevitável dar com isso. No meio da planície árida do deserto, encontramos Ibrahim, que trabalha como pastor para o mosteiro, cuidando das ovelhas que os religiosos criam.
▲ A irmã Myri mostra o resultado de um dos ataques durante a guerra à torre romana do mosteiro, do século I
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Um dia, em novembro de 2013, o regime entrou em Qarah. Ibrahim decidiu fugir da sua quinta e, quando entrou no carro, perguntou-se para onde devia ir. Pensou de imediato no mosteiro e, sob uma chuva de tiros, conduziu até lá. O tio, que já lá vivia e trabalhava em projetos de ajuda humanitária com os religiosos, perguntou-lhe à chegada “Porque é que vieste para aqui, és louco?” Ibrahim respondeu-lhe “Vim para morrer contigo”. Não morreu. Continua aqui até hoje, tratando dos animais e de qualquer outro pequeno trabalho de manutenção que surja. Hoje está a marcar os cordeiros que nasceram há pouco — a maioria ainda tem parte do cordão umbilical.
Myri mantém uma breve conversa com ele em árabe — ao fim de 17 anos, tem dificuldades em ler e escrever, mas consegue falar fluentemente — e depois regressa connosco ao mosteiro. “O que mais gosto na Síria é a relação entre as pessoas”, afirma, acrescentando que é um local onde muitas coisas “se resolvem com uma taça de café”. “E também gosto das raízes, isso respira-se aqui. É também por isso que aqui se está sempre em guerra.”
▲ Ibrhaim com um cordeiro acabado de nascer
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
As ameaças aos cristãos em paredes de igrejas que deixam a irmã Myri ansiosa com o futuro da Síria
É hora de jantar. O grupo reúne-se numa sala e convida os hóspedes a juntarem-se à “refeição frugal”, como lhe chamam, de sandes recheadas com tabbouleh. Oferecem um pequeno bombom a cada um no fim. Myri não vai telefonar à família — só o faz uma vez por mês, cerca de hora e meia de conversa. Durante a guerra, a internet naturalmente falhava. “Acho que os meus pais se perguntavam: ‘Será que ela vai morrer?’”. Maria Lúcia foi recentemente a Portugal para ir ao funeral do pai; habitualmente, só visita Lisboa para renovar o passaporte.
Na sala de jantar, a irmã Marie-Claude aproveita para fazer uma apresentação em powerpoint sobre a história do cristianismo na Hungria, tema sobre o qual leu recentemente. Todos escutam com atenção, enquanto vão beberricando chá preto em copos de metal. Terminado o momento, o grupo senta-se para fazer perguntas aos estrangeiros. Estão sedentos de informação do exterior e de uma experiência diferente naquela noite: “O que estão a achar do país? O que pensam sobre o fim da guerra? Por que outros países já passaram?”, dispara Marie-Claude, com os olhos penetrantes e curiosos a tentar perscrutar-nos por trás dos óculos.
▲ À hora de jantar eles reúnem-se para uma "refeição frugal"
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Myri está obviamente aliviada com o fim da guerra — “os rapazes iam todos para o Exército uns sete ou oito anos e adiavam as suas vidas” —, mas o medo entra-se-lhe no peito quando pensa no novo Governo. Apesar de os religiosos sublinharem que querem manter boas relações com a comunidade árabe, estão receosos com a situação dos cristãos no país, assustados com os ataques a outras minorias, como os alauítas, e de olho em sinais como o atentado à igreja cristã de Mar Elias no verão.
“Os cristãos estão à espera: qual é o barco que nos leva daqui? Os jovens querem ir embora, porque a insegurança é permanente”, diz Myri, que fala num “êxodo” em curso. “Há uns meses, o nosso bispo fez um pequeno almoço com todos os consagrados. E o espírito que se vivia nesse dia… Eles estavam desesperados, tensos. Tinham sido ameaçados, em duas ou três igrejas escreveram ‘Vocês vão ver o que vos vai acontecer’, ‘Daqui até ao Eufrates vocês vão desaparecer todos’.”
▲ O mosteiro fica junto à fronteira com o Líbano
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
A única esperança para os cristãos na Síria, diz, é a comunidade internacional, que indiretamente pressiona o regime para que proteja esta minoria. “Mas há milícias que foram doutrinadas durante anos. Não é seguro. Um dia destes somos nós.”
O serão acaba cedo em Mar Yakoub. Todos se preparam para ir para a cama, onde os esperam vários cobertores para lidar com os quatro graus que se sentem lá fora. Myri leva os visitantes até ao edifício que fica do outro lado do pátio principal, onde os hóspedes ficam alojados.
Gostaria de voltar um dia a Portugal, país do qual sente saudades — tanto da comida, como da mãe e da irmã, como de estar num sítio que considera um lugar predestinado e escolhido por Deus. “Mas o que eu penso não tem muito valor”, afirma, com uma pequena gargalhada. A sua profunda fé diz-lhe que ainda deve ficar aqui, neste Médio Oriente que aprendeu a amar, e que deve responder ao chamamento que lhe é feito. “Quando entregamos a nossa vida nas mãos de Deus, estamos dependentes”, diz. À entrada do convento, é possível ver o pedaço de cimento esventrado na portão de Mar Yakoub, onde em 2013 caiu a terceira bomba.
O Observador viaja a convite da Fundação AIS — ACN Portugal