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Ferreira teve de explicar a frase de Jerónimo depois de uma ação em que percorreu quatro quilómetros de bicicleta

JOSÉ FERNANDES/OBSERVADOR

Ferreira teve de explicar a frase de Jerónimo depois de uma ação em que percorreu quatro quilómetros de bicicleta

JOSÉ FERNANDES/OBSERVADOR

Jerónimo lançou confusão em Lisboa. PS só dá pelouros com acordo, BE quer entendimento formal /premium

Líder do PCP rejeitou coligações formais em Lisboa e incendiou a esquerda. Ferreira veio explicar-se, PS desconfia da mudança de tom e BE chega-se à frente para acordo formal na câmara.

Com cinco palavras apenas, Jerónimo de Sousa condicionou todo o primeiro dia de campanha eleitoral à esquerda em Lisboa. “Nós não faremos coligações pós-eleitorais”, prometia o líder dos comunistas à Rádio Renascença, numa entrevista publicada na segunda-feira. Para uma frase, ondas de choque e reações em todos os partidos, incluindo o próprio: a declaração de Jerónimo obrigou o candidato do PCP, João Ferreira, que já estava no terreno, a servir de intérprete; colocou dúvidas na cabeça dos socialistas, que só querem distribuir pelouros na condição de haver um acordo de base; e lançou a semente para as primeiras provocações do Bloco de Esquerda, que nos bastidores assume ambicionar de novo um acordo escrito e formal. E no PS surge um aviso entre-dentes.

A primeira peça, que acabou por desencadear um verdadeiro jogo de xadrez à esquerda, foi a declaração de Jerónimo. Em entrevista, as palavras do líder soavam duras: não só a CDU (PCP+PEV) rejeitaria acordos pós-eleitorais com o PS como se deveria concentrar em mostrar-se como alternativa. Isto depois de uma sucessão de semanas em que tem sido notada a disponibilidade de João Ferreira para chegar a acordo com o PS depois das eleições, ainda sem se conhecerem os moldes — isto, claro, no caso de Fernando Medina ganhar mas precisar de outro partido para governar, como aconteceu há quatro anos.

Foi essa declaração que acabou por obrigar João Ferreira, logo de manhã, vindo de quatro quilómetros percorridos de bicicleta entre Entrecampos e Benfica, a estacionar e fazer de intérprete aos jornalistas. “Uma coisa são coligações”, outra é assumir pelouros, e para isso o PCP está disponível, frisava. Ou seja: os comunistas continuam interessados em partilhar a governação da cidade, mas não em assinar acordos mais alargados, como o Bloco fez em 2017.

JOSÉ FERNANDES/OBSERVADOR

A explicação parecia bater certo com a tese de João Ferreira em entrevista ao Observador, na semana passada, quando assumiu que há quatro anos o PS tinha querido “amarrar” os comunistas a um acordo idêntico ao do Bloco, que preveria a aprovação de todos os Orçamentos do mandato — e, para um compromisso a esse nível, o PCP continua a estar indisponível.

João Ferreira: “Não nos peçam para garantir a aprovação de todos os orçamentos na câmara”

PS estranha. Sem acordo formal, entendimento é difícil

O tom duro de Jerónimo e a imediata explicação de Ferreira logo lançaram a confusão nas hostes de Fernando Medina. Depois dos sinais positivos dados nas últimas semanas, a diferença entre as declarações do líder e do candidato desorientou os socialistas. Na candidatura de Medina, apurou o Observador, foi notada a mudança de tom e desconfia-se que possa existir uma estratégia por acertar entre os interesses do PCP nacional e o do PCP Lisboa, que o PS continua a acreditar estar interessado num entendimento que envolva pelouros.

A dúvida é clara: estará Jerónimo de Sousa a fazer o papel de polícia mau, evitando palavras como “coligações” ou “acordos” que colem o PCP em excesso ao PS em período eleitoral? Ou estarão os comunistas a nível nacional de facto sem vontade de chegar a acordo e, nesse caso, terá Jerónimo vindo pôr ordem na casa, constatando uma abertura exagerada nas declarações de Ferreira?

Medina andou pelas ruas da Graça, no coração de Lisboa, e atirou ao PCP

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Seja qual for o caso, na comitiva socialista, a conclusão é uma só: se o PCP quer pelouros, terá de aceitar um acordo político. Ou seja, pode nem haver coligação, mas um acordo político, escrito ou não, tem de existir para que os comunistas possam ver distribuídos pelouros pelos seus futuros eleitos.

Ainda da parte da manhã, o assunto já tinha chegado à campanha de Medina, que no Largo da Graça falava aos jornalistas e anotava: o PCP “orienta-se pelo que é melhor para o PCP” e “já há quatro anos tinha acontecido o mesmo na fase da campanha e depois foi aquilo que se viu”. O que se viu foi que os comunistas acabaram por não se entender com o PS — ambos trocam culpas nesse capítulo — e os bloquistas ficaram com o papel de parceiro de governação na cidade. Não houve acordo com os comunistas, com quem, agora, Medina diz ter “áreas de convergência e também muitas áreas de diferença. São projetos políticos autónomos, cada um tem de assumir as suas responsabilidades antes depois das eleições”.

BE volta a “privilegiar” acordo escrito

E a verdade é que o Bloco não só fez acordo com o PS há quatro anos como continua disponível para renovar os votos. Nas hostes bloquistas, a declaração de Jerónimo regista-se com ironia, lembrando que o PCP também preferia chamar “posições conjuntas” aos acordos parlamentares que criaram a geringonça e que, por isso, a recusa em usar a palavra coligação ou acordo formal pode não passar de uma teimosia. Ainda assim, do lado do BE, a posição é clara: “Privilegiamos acordos formais, com prazos e objetivos”, explica um dirigente. Ou seja: tal como há quatro anos, o BE quer chegar a um acordo escrito com o PS, que permita depois escrutinar e responsabilizar as forças pelos resultados.

Catarina Martins esteve ao lado da candidata, de visita a uma casa pronta para entrar nos programas de arrendamento acessível

JOSÉ FERNANDES/OBSERVADOR

O facto de já o ter feito há quatro anos e de querer um projeto de continuidade, por oposição à falta de garantias do PCP, não significará que o acordo PS/PCP está morto antes de nascer ou que, pelo menos, será muito mais fácil que PS e BE se entendam? “Será mais fácil [um acordo com o PCP] quanto mais força tiver a CDU. Assim será mais fácil ter responsabilidades maiores”, resumia João Ferreira, na mesma ação matinal.

BE ironiza sobre “hesitações” do PCP, Ferreira muda o foco

Entretanto, esta tarde, Catarina Martins esteve com a candidata de Lisboa, Beatriz Gomes Dias, a visitar uma casa que vai ser entregue para arrendamento acessível na Avenida da República. E se Gomes Dias foi mais cautelosa, até por saber que o BE assinou o acordo com o PS que previa 6 mil fogos de arrendamento acessível e que a execução ficou muito aquém disso, Catarina não teve pudores em disparar: o que “falhou” foi o PS, que tem uma “teimosia terrível”.

E o que o Bloco quer é continuar a fazer a pressão possível dentro do Executivo, com acordos “estratégicos”, mas sem aceitar um pelouro só para “dizer que o tem”. Com uma farpa que parece dirigida aos comunistas: o Bloco quer que o PS continue sem maioria absoluta e explica os seus planos para esse cenário… sem “hesitações”.

O dia acabaria mesmo com João Ferreira a tentar matar o assunto: depois de ter sido questionado pelos jornalistas na ação da manhã, ao final do dia, numa arruada morna em Benfica, o candidato comunista falou diante da comitiva e recusou deixar-se acantonar “nesta discussão: aceitam ou não pelouros?”. Segunda resposta do dia: “Aceitamos, mas batemo-nos pela Câmara”. De novo, a tentativa de frisar que o PCP é alternativa e que não pode ser associado ao PS… pelo menos para já.

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