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João Maria Tudela, o cantor romântico que era um agente secreto

Conquistou corações com a música, viveu como um playboy e escondia vários segredos. Esta é a história de vida de João Maria Tudela, um dos personagens do Podcast Plus “O Misterioso Engenheiro Jardim”.

Tudo começou com um telefonema. João Maria já conhecia aquela voz que lhe ligava do outro lado, embora já não estivesse com o homem há algum tempo. Feitas as reintroduções, recebe um convite para se encontrarem no hotel Ritz, em Lisboa, onde o homem estava alojado.

Não estão muito tempo no hotel. Saem e descem a pé até à rua Barata Salgueiro, onde entram num bar. A dada altura, João Maria percebe que aquela não era apenas uma conversa de circunstância, para recordar os tempos em que ambos se tinham cruzado em Moçambique.

O homem que lhe tinha ligado a pedir um encontro, e que agora tinha à sua frente no bar, era nada menos do que o engenheiro Jorge Jardim, provavelmente o homem mais poderoso de Moçambique naquele tempo: administrador de empresas, presidente da Associação Comercial da Beira, do Aeroclube, do Clube Náutico, dono de jornais. A lista de cargos era quase interminável. E, para além disso, tinha também uma vida dupla longe dos olhares do público: há anos que era uma espécie de agente secreto ao serviço do governo português, participando em missões arriscadas um pouco por todo o mundo.

A dada altura, Jorge Jardim perguntou-lhe o que pensava sobre o futuro de Moçambique. João Maria é sincero: diz que o único caminho que vê é uma independência do território, onde brancos e negros pudessem conviver pacificamente. Era tudo o que Jardim queria ouvir. Estava ali para fazer uma proposta que seria irrecusável. Afinal, o homem que tinha acabado de contatar tinha exatamente o perfil que o engenheiro andava à procura.

Por essa altura, João Maria dirigia uma agência de publicidade e relações públicas em Lisboa, chamada “Delamouti”. Uma empresa que tinha fundado com Pedro Moutinho, conhecido locutor de rádio e televisão naquele início dos anos 70.

Mas era muito mais do que isso. Era também um dos cantores mais famosos do país. Nome artístico: João Maria Tudela.

[Já saiu o quinto episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto episódio]

De “Kanimambo” a desafiar a ditadura

João Maria de Oliveira Pegado Bastos Carreira nasceu em Moçambique a 27 de Agosto de 1929, na cidade de Lourenço Marques, a atual Maputo. A mãe pertencia a uma família aristocrata que se tinha radicado em Moçambique.

Em 1944 envia-o para Coimbra, para estudar direito. Mas, de acordo com os relatos da época, João Maria sempre se dedicou mais à boémia do que propriamente à vida académica. E é em Coimbra que começa a descobrir a música, cantando por brincadeira nas festas estudantis.

Nunca chega a acabar o curso de direito. Em 1950, por exigência da família, regressa a Moçambique e começa a trabalhar. Está quatro anos na companhia de seguros “Império” antes de ir para a petrolífera Shell, onde trabalha durante sete anos como responsável comercial. O filho, João Maria Carreira, que tem o mesmo nome do pai, garante que “a experiência profissional que mais o marcou para o resto da vida foi essa experiência na Shell, que era um trabalho partido entre Moçambique e a África do Sul. Viajava muito ou de carro ou de avião, andava sempre de um lado para o outro e chegou a ter um papel importante na direção comercial”.

Mas João Maria nunca esqueceu a música, garante também o filho. “Sempre foi um hobby. Até então nunca foi um cantor profissional, a música era um passatempo, uma coisa que gostava de fazer.”

▲ Ilustração de João Maria Tudela na capa da revista "Álbum da Canção"

No regresso a Moçambique, começa a ir ao Rádio Clube interpretar canções ligadas à tradição do fado de Coimbra. Em 1957 grava mesmo o primeiro LP com uma editora sul-africana, que teve como título “Sundown at Lourenço Marques”. E dois anos depois, em 1959, grava a música que o iria levar ao estrelato.

“Kanimambo até era o lado B do vinil, era a segunda música, mas acabou por ser a música mais conhecida. Kanimambo significa ‘obrigado’ num dos vários dialetos que se falam em Moçambique. Essa música teve um impacto gigante na carreira e na vida dele, tanto em Moçambique como em Portugal, como penso que em todas, na altura, antigas colónias portuguesas. O meu pai dizia que só em Portugal abriram mais de 200 casas, restaurantes, cafés, discotecas com o nome Kanimambo.”

Depois do sucesso de “Kanimambo”, João Maria decide tornar-se cantor profissional. E adota “Tudela” como nome artístico, em homenagem ao homem que considerava como um verdadeiro pai. “A minha avó, mãe do meu pai, tem um primeiro casamento com o avô Bastos Carreira, de quem o meu pai é filho, que era comandante da marinha mercante. E houve um certo dia que em Maputo, na altura Lourenço Marques, ele entrou num barco e desapareceu. A minha avó ficou sozinha com o meu pai. Passados uns anos, conhece um segundo senhor, cujo apelido era Tudela. E casou-se com ele. E o avô Tudela tem um filho com a minha avó, a quem chamaram Rodrigo. Portanto, o meu pai tem um meio-irmão. Mas o ‘pai Tudela’, como o meu pai lhe chamava, tratou sempre o meu pai como se fosse o seu primeiro filho”.

Em 1961, por essa altura já um cantor conhecido, Tudela decide fixar-se em Portugal. Começa a ser frequente ouvi-lo na rádio e vê-lo na televisão. Percorre o mundo a cantar para as comunidades portuguesas. Chega mesmo a cantar em cruzeiros.

Os anos 60 são a década da consagração. Em 1966, participa pela primeira vez no Festival da Canção (na altura designado de “Grande Prémio TV da Canção Portuguesa”) onde interpreta duas músicas: “Outono” (que conquista o quarto lugar) e “Ai, Gracinha” (que acaba por ficar em sétimo.) Nesse ano, o festival foi ganho por Madalena Iglésias, com a música “Ele e ela”. Dois anos depois, volta a participar com a música “Ao Vento e às Andorinhas”. Concorreu contra outros nomes fortes, como Simone de Oliveira, José Cid, Tonicha ou António Calvário. Ficou em quinto lugar, num festival que foi ganho por Carlos Mendes, que interpretou “Verão”.

É por essa altura que começa também a ter contacto com figuras da área da música e da cultura que se opõem à ditadura do Estado Novo, como José Carlos Ary dos Santos, Mário Castrim, Alice Vieira e Fernando Tordo.

Em 1968 é convidado para cantar no programa “Natal dos Hospitais”. Era um dos mais populares programas de variedades naquela altura, e o único que não tinha censura prévia. Interpreta “Cama 4, Sala 5” (de Nuno Nazareth dos Santos, com letra de José Carlos Ary dos Santos). A música era uma clara crítica ao regime e ao acesso aos cuidados de saúde. “Cantarei livremente / E direi ao meu povo / Que não caia doente / Que não morra de novo”. Na primeira fila, o presidente da RTP, Ramiro Valadão, e o secretário de Estado da Informação e Turismo, César Moreira Baptista, não escondem o incómodo. Resultado: o tema seria censurado e, para além desta única atuação ao vivo, nunca é gravado. O cantor chega mesmo a ser proibido de trabalhar na RTP.

Em 1969, grava um LP com músicas que têm, entre outros, poemas de Manuel Alegre (“Liberdade” e “Ratos”) ou José Gomes Ferreira (“Fuzilaram um homem num país distante”.) Até que, no início dos anos 70, lhe surge o convite mais inesperado. De um homem que, tendo vindo do interior do Estado Novo, estava agora também querer traçar um caminho próprio: o engenheiro Jorge Jardim.

O braço direito do “senhor engenheiro”

“Imagino que a conversa tenha sido qualquer coisa do género: ‘Somos dois portugueses, moçambicanos, e queremos o melhor para Moçambique. E, portanto, o convite do engenheiro Jorge Jardim ao meu pai foi se estaria interessado em colaborar com ele para promover uma solução pacífica para uma independência multirracial do território”, afirma João Maria Carreira, filho de Tudela.

É certo que Jardim era alguém muito ligado ao regime e tinha sido muito próximo de Salazar. Mas unia-os uma ideia nova: a de que o território onde o cantor nasceu, e que o engenheiro adotou como seu, poderia caminhar para uma independência. E é assim que Jardim recruta Tudela para a sua rede de agentes e informadores, prometendo-lhe também duas coisas que sabia que o cantor nunca iria recusar: iria ganhar muito dinheiro e viver uma vida de luxo e glamour.

Tudela, que até então não tinha qualquer experiência no mundo da espionagem, aprende com Jardim o essencial para as novas funções. Deve saber passar mensagens em código e até mesmo, qual James Bond, saltar de um avião caso seja necessário. Anos mais tarde, numa entrevista, o próprio João Maria Tudela iria recordar: “Até tive de aprender a saltar de paraquedas e não me esqueço do primeiro salto. Fui empurrado por uma das irmãs Jardim!”. Na altura, as filhas de Jorge Jardim (que, no total, teve 13 filhos, entre eles 9 raparigas) causavam furor em Moçambique por saltarem de paraquedas e pilotarem aviões.

Tudela tinha o perfil ideal para o que Jardim pretendia, afirma hoje o filho do cantor, João Maria Carreira. “Tinha a vantagem de viajar muito. E não nos podemos esquecer de que, na altura, a informação não circulava com a mesma facilidade com que acontece hoje. E, portanto, usar essa cobertura de um artista que se passeia pelo mundo, com uma grande facilidade em deslocar-se de um lado para o outro com um pretexto artístico, poderia ser interessante para outro tipo de atividades não divulgadas ao público, não é?”

Em conversas do dia a dia com outras pessoas, Tudela referia-se sempre a Jardim como “o senhor engenheiro”. Mas, nas operações secretas, tudo era feito através de nomes de código. Jardim tanto podia ser o “Pacheco” como, noutras situações, o “Imperador”. “E o cantor também podia ter diferentes nomes, consoante os contextos”.

“O meu pai tinha quatro ou cinco nomes de código diferentes para cada país. Para os americanos era o ‘Sinatra’, por exemplo, mas se estivesse em Londres já tinha outro nome de código. O mesmo acontecia para os franceses, para os árabes, e eventualmente, para lá daquilo que foi na altura o muro de Berlim, também tinha um outro nome de código”, afirma João Maria Carreira.

“Até tive de aprender a saltar de paraquedas e não me esqueço do primeiro salto. Fui empurrado por uma das irmãs Jardim!”
João Maria Tudela

Jardim nunca deixava nada ao acaso e desconfiava sempre de tudo. O filho do cantor recorda uma história curiosa que envolve uma carta. “Uma carta que o engenheiro Jorge Jardim escreve, na presença do meu pai, para a mulher dele. No final despede-se e escreve qualquer coisa como: ´Meu amor, aqui fica uma prova da nossa paixão: envio-te uma madeixa do meu cabelo’. Só que ele não pôs madeixa nenhuma de cabelo lá dentro… E quando a mulher abre a carta efetivamente estava lá um bocado de cabelo. Aqui a piada é tentarmos agora imaginar, naquela altura, um ou vários inspetores da PIDE abrirem a carta, lerem a mensagem no final e pensarem: ‘Meu Deus, o que é que aconteceu ao cabelo?!’.Cortarem uma madeixa do seu próprio cabelo, colocarem dentro do envelope. E, portanto, aqui temos um bom exemplo da perspicácia, e também do sentido de humor, do Jorge Jardim”.

Com o tempo, Tudela vai tornar-se numa espécie de braço direito de Jorge Jardim. Vai mesmo ser essencial num plano montado pelo engenheiro para promover Moçambique a nível internacional, e que envolve os concursos de beleza.

Missangas, minissaias e uma gravata Dior

O concurso de Miss Portugal tinha sido recuperado em 1970 pelo jornal Diário Popular e era organizado por Vera Lagoa, a polémica, e temida, cronista do social. Quando, no ano seguinte, é aberto às colónias, Jardim vê uma oportunidade. E o dono do jornal “Notícias da Beira” decide, logo em 1971, organizar o concurso também em Moçambique, com o objetivo de enviar as misses moçambicanas à conquista de Lisboa.

"Nós dávamos mais nas vistas. E depois era a maneira de vestir. As pessoas não estavam habituadas às nossas roupas descontraídas. Aqui, quais eram os trajes regionais? Era o folclore, as saias compridas. Nós éramos mais descascadas, mostrávamos mais o nosso corpo." 
Íris Maria, Miss Moçambique e Portugal 1972

O engenheiro envolvia-se em tudo, ao mínimo pormenor, recorda Íris Maria, que seria eleita Miss Moçambique e Miss Portugal em 1972. “Ele normalmente gostava de escolher os vestidos. E para mim tinha escolhido um lilás, mas as costureiras decidiram mudar à última hora. E depois era a prova. Nós sabíamos que tínhamos de estar lá naquela hora, porque o engenheiro ia lá para nos ver. Nós vestidas, e ele dava o seu parecer: ‘Fica bem, fica mal, mais decotado, menos decotado…’. Quando chega a minha vez, eu vou toda muito descontraída, com o meu vestido, para ele ver qual era a opinião dele. Ele fica muito sério, e diz assim: “Esta não é a cor do vestido que eu escolhi para a Íris!”. E as costureiras dizem: ‘Ó Sr. Engenheiro, pois não é, o Sr. Engenheiro tinha escolhido este, mas achámos assim uma cor mais mais pálida para ela, este verde é melhor para fazer sobressair os olhos…’. Ao que ele responde: ´Não, não. Foi aquele lilás que eu escolhi, é aquele que vai ser!”

Naquele tempo, as misses que vinham das colónias para participar no concurso da Miss Portugal causavam uma enorme sensação em Lisboa, recorda Irís. “Nós depois vínhamos muito morenas da praia. Aqui era inverno, eram todas muito branquinhas. E nós dávamos mais nas vistas. E depois era a maneira de vestir. As pessoas não estavam habituadas às nossas roupas descontraídas. Aqui, quais eram os trajes regionais? Era o folclore, as saias compridas. Nós éramos mais descascadas, mostrávamos mais o nosso corpo. Eram trajes que não era normal ver cá. E, para aqui, fez um grande sucesso.”

Só por si, as misses Moçambicanas já sobressaiam. Mas era preciso garantir que ganhavam mesmo. E essa foi uma das missões do agente Tudela, que se servia do seu à vontade e da rede social para montar uma verdadeira campanha de influência. Convida o filho de uma das juradas, um rapaz “educado e respeitador”, para acompanhante permanente das candidatas de Moçambique. Leva outro jurado a jantar duas vezes, e oferece-lhe um isqueiro caro. E ainda dá a outro uma gravata Dior e um disco com canções dele.

A campanha pode ter ajudado, mas todos reconheciam que Íris tinha, de facto, uma beleza fora do comum. É eleita Miss Portugal. Um ano antes, João Maria Tudela já sido enviado por Jardim para Londres com uma outra missão: garantir que a moçambicana Ana Paula Almeida, que iria representar Portugal no concurso de Miss Mundo, conseguiria ficar no top 5, dando assim palco internacional a Moçambique.

O “cantor-agente secreto” pede quinhentos contos a Jardim para executar o plano. Usa parte do dinheiro para comprar filigranas que oferece às outras 75 adversárias de Ana Paula, com 75 cartões assinados em nome dela. O título de “Miss Simpatia” estava ganho. Para garantir que a imprensa repara na moçambicana, coloca-a a distribuir brinquedos a crianças pobres numa ação de caridade. Mas o golpe de mestre acontece num jantar presidido por Lord Louis Mountbatten, tio do príncipe Filipe, o marido da Rainha Isabel II. Ana Paula aparece vestida com uma saia muito curta e apenas com missangas de Moçambique a cobrir-lhe peito. Quando é chamada ao palco para ser apresentada, Lord Mountbatten não se contém. “Miss Portugal, can we have another look, please”. No dia seguinte, o episódio estava nas páginas de todos os principais tabloides britânicos.

O certo é que resultou. Ana Paula Almeida conquistou um impressionante terceiro lugar no concurso de Miss Mundo, até hoje a melhor classificação de sempre de uma candidata enviada por Portugal a um certame de beleza internacional.

João Maria Tudela garante que, no final de tudo, quando chegou a Lisboa, ainda lhe sobrava dinheiro na mala. Jorge Jardim estava tão contente com o resultado que nem lhe pediu nada de volta.

Mas nem tudo andava à volta de misses e músicas para o agente João Maria Tudela. O cantor também esteve envolvido em operações para desestabilizar e, no limite, provocar mesmo um golpe de Estado num país estratégico para a situação em Moçambique.

A Tanzânia, que faz fronteira a norte, era o principal apoiante dos guerrilheiros da FRELIMO, o movimento que lutava pela independência. Em 1970 chega a estar pensada a operação “Diamante Azul”, que tem como objetivo destruir as bases da FRELIMO naquele país e aniquilar o movimento. Mas depois do fracasso da “Operação Mar Verde” na República da Guiné — onde os portugueses pretendiam fazer o mesmo com o PAIGC — e das críticas da comunidade internacional a Portugal, a “Diamante Azul” nunca foi para a frente.

A segunda ação passava pela desestabilização interna da Tanzânia e pelo apoio à oposição com vista a preparar um golpe de Estado. E é aqui que Jardim, e Tudela, vão ter um papel importante no apoio ao líder da oposição, Oscar Kambona.

Tudela tinha como missão acompanhar Kambona e dar-lhe todo o apoio necessário. No final de 1972, o líder da oposição tanzaniana chega a passar três meses em Portugal, antes de seguir para a Suíça. Tinha o nome de código “Jack” na correspondência entre Tudela e Jorge Jardim.

A pedido de Jardim, o Estado Português financiou-lhe as despesas. “Não se fazem revoluções sem dinheiro”, dizia Kambona. O dinheiro entrou mesmo na conta da Suíça. A revolução é que nunca aconteceu.

Jardim foi ainda responsável, a título pessoal, por uma das mais incríveis operações de propaganda contra o regime da Tanzânia. Em setembro de 1971, descolou de Moçambique aos comandos do seu pequeno avião, voou até à capital do país e atirou centenas de folhetos de apoio à oposição por cima de um estádio cheio.

Recordaria mais tarde que muitos disseram que seria impossível. Para ir e vir era preciso voar durante mais de 5 horas, sem qualquer possibilidade de abastecimento. Quanto voltou a aterrar em Moçambique, o combustível estava praticamente no fim. Mais 20 minutos e não tinha regressado a casa naquele dia.

De playboy a pai de família

Jorge Jardim tinha um plano para a independência de Moçambique que nunca chega a ser concretizado. A revolução de abril de 1974 em Portugal troca-lhe as voltas, embora, para muitos, o plano estivesse condenado à partida. Depois da revolução, Jardim acaba por ser alvo de uma mandado de captura por parte do novo poder revolucionário e exila-se em Madrid, nunca mais regressando a Moçambique.

João Maria Tudela — que na manhã do dia 25 de abril foi mesmo a primeira pessoa que ligou a Jardim a avisar que a revolução estava em curso —  também acaba por sofrer com a associação ao engenheiro, afirma o filho do cantor. “O meu pai chegou a ser preso e levado para Caxias. Creio que esteve dois ou três dias preso. Acabou por ser libertado por intervenção do Otelo Saraiva de Carvalho, de quem o meu pai também era amigo.”

Mas Tudela iria viver um segundo auge depois da revolução, em especial a partir dos anos 80. Em 1987 é produtor e apresentador do programa “Noites de Gala”, que era gravado no Casino Estoril para a RTP, e que alcança um enorme sucesso.

Foi também com o programa que a vida de Tudela mudou. Já perto dos 60 anos de idade decidiu que era finalmente altura de deixar para trás a vida de “playboy”. É durante as “Noites de Gala” no Casino Estoril que conhece Filomena, a futura mulher. “Na altura, a minha mãe era professora de Educação Física. Dava aulas no Ginásio Cultural Português e tinha uma classe que se chamava “As Senhorinhas”. O programa do meu pai tinha um momento dedicado à juventude, e numa das noites decide convidar a classe da minha mãe. Conhecem-se aí”, recorda hoje o filho de ambos.

Filomena era cerca de trinta anos mais nova. Tudela acaba por casar-se aos 60 anos. “Foi o meu primeiro casamento. Eu fui, o que costuma dizer, um bon vivant. Diverti-me, gozei, conheci o mundo…”. O primeiro filho, João Maria Bastos Carreira, nasce em 1991 e fica com o mesmo nome do pai. “Eu nasci quando o meu pai já tinha 61 anos, estava a caminhar para os 62. E gostava muito de poder passar o seu nome a um neto, mas tinha a noção de que já não iria viver tempo suficiente para eu ter outro nome e o nome do meu pai passar para o meu filho. E, portanto, deu-me o nome dele a mim. Quando eu tiver um filho, obviamente vai chamar-se João Maria. Não por mim, mas pelo avô que já não conheceu.”

“Fiz grandes asneiras. Tive Ferraris, Rolls Royce… disparatei tudo. Só não digo que casei na miséria porque simplesmente tenho muita confiança em mim. Acho sempre que sou capaz de vencer. E agora quero vencer não para disparatar, mas para ganhar para a minha mulher e o meu filho."
João Maria Tudela

Em 1994, João Maria Tudela e Filomena têm uma segunda filha, Carlota. Funda, com a mulher, uma empresa de organização de eventos, a FITUL (“Fi” de “Filomena” e “Tul” de “Tudela”). Mas, em paralelo, nunca deixa de estar presente no mundo da televisão, da rádio e do espetáculo.

Em 1995, foi um dos jurados do programa da RTP “Seleção Nacional”, que tinha como objetivo escolher os oito finalistas para o Festival da Canção desse ano. Em 2000 entra na novela da TVI “Jardins Proibidos”, onde interpretou o personagem de Padre Branco. Na rádio, apresentou o programa “História da Música Portuguesa”, na Rádio Comercial, e colaborou ainda no programa “Cantando Espalharei”, da RDP Internacional. E, já perto do final da vida, em 2010 apresentou ainda na RTP Memória o programa “Reencontros”, que destacava personalidades que se distinguiram no mundo da música durante as décadas de 50, 60 e 70.

João Maria Tudela acabaria por falecer a 22 de abril de 2011, no Hospital de Cascais, dias depois de sofrer um AVC que o deixou em coma profundo. Tinha 81 anos. Por essa altura, o filho, João Maria Carreira, tinha apenas 20 anos. Lamenta não poder ter passado mais tempo com o pai, não só pelas saudades mas também para poder ter a oportunidade de ouvir todas as histórias de vida que ele contava, mas já com outra maturidade. “Quando és muito criança quase que parecem histórias de ficção e não coisas que aconteceram na verdade. Mais tarde, começas a pesquisar um bocadinho e começas a perceber que, afinal, não foram coisas de filme, aconteceram mesmo. Gostava de poder ter absorvido mais das histórias dele, e, principalmente, ter feito mais perguntas.”

Entre as memórias que João Maria Carreira guarda hoje do pai — dos discos de vinil a todas as revistas onde apareceu — estão também várias cartas dirigidas ao filho. “Quando eu nasci começou a escrever num caderno. Conta-me quem ele era, as memórias dele de criança, como conheceu a minha mãe. É quase uma autobiografia dirigida a mim, o primeiro filho.”

Nos textos aparecem também referências a Jorge Jardim, que Tudela descreve como “a pessoa mais inteligente que eu alguma vez conheci”. Mas são referências discretas. Tanto nessas cartas como em declarações públicas, sempre teve cuidado para não revelar o trabalho secreto que fez para o “senhor engenheiro”.

No final da vida, as prioridades de João Maria Tudela mudaram por completo. Deixaram de ser os hóteis de luxo, as mulheres, a adrenalina das missões secretas. No início dos anos 90, Tudela admitiu em entrevista à RDP: “Fiz grandes asneiras. Tive Ferraris, Rolls Royce… disparatei tudo. Só não digo que casei na miséria porque simplesmente tenho muita confiança em mim. Acho sempre que sou capaz de vencer. E agora quero vencer não para disparatar, mas para ganhar para a minha mulher e os meus filhos. Agora só tenho uma meta: ser um bom marido e um bom pai.”

Estreia. “O Misterioso Engenheiro Jardim”. Episódio 1: Uma foto vai salvar-lhe a vida

Episódio 2. Canetas que disparam balas

Episódio 3. A filha mais corajosa do mundo

Episódio 4. Cantor, espião e playboy

Episódio 5. Vamos fazer um golpe de Estado

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