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Rui Rocha revelou que ainda não falou ao telefone com Montenegro. Garantiu que foi correto com os ativistas que lhe atiraram pó e contou tudo o que disse aos dois jovens que o atacaram. Mariana Mortágua disse ser arriscado perguntarem-lhe como se sente à meia-noite de um destes últimos dias de campanha e afirmou que, ao contrário dos jornalistas, os eleitores nunca lhe perguntaram pelo despedimento de mulheres a amamentar. Paulo Raimundo admitiu que tem hoje mais “traquejo” do que há um ano e não vê nenhum drama em que a próxima “última chamada” aconteça em menos de quatro anos. O Observador desafiou os oito líderes partidários com assento parlamentar para um último telefonema do dia de campanha: cinco aceitaram, dois recusaram (Montenegro e Pedro Nuno) e outro (André Ventura) não conseguiu gravar em tempo útil devido aos problemas de saúde desta quarta e quinta-feira.

Na chamada com o Observador, Rui Tavares contou ainda que ponderou adotar um gato, após um “momento fofinho” numa associação. Desabafou também sobre as hesitações em falar publicamente sobre a doença da filha, que tem Trissomia 21. E, sobre política dura, desafiou o PS a ser claro e admitir uma dupla de governação com o Livre. Revelou ainda existir um telefone vermelho à esquerda para avisar em caso de disparo de míssil-amigo. Por fim, Inês Sousa Real, ao som de Beyoncé, empoderou o PAN para dizer que não desistiu de ter um grupo parlamentar. Atirou a Marcelo por ter sugerido o voto útil, numa chamada a partir do carro. Seguia para casa para ir ainda fazer o jantar: uma carbonara vegetarina. Leia e ouça o que disseram os candidatos na sua última chamada do dia.

[Ouça aqui o compacto da última chamada do dia vários dos candidatos às legislativas]

Compacto “Última Chamada”

Rui Rocha. O confronto com dois ativistas, a conversa pendente com Montenegro e as cervejas que dão energia

[Ouça aqui a última chamada do dia com Rui Rocha:]

“Afirmar a nossa liberdade perante os ataques”

– Estou sim? 
– Olá, boa noite.
– Como está? Já estamos na parte final do dia e referiu agora, no jantar-comício, que é o dia de maior mobilização aqui no Algarve. Não sei se está cansado.
– Não, a mobilização dá-nos energia. Portanto, está tudo na energia máxima, ainda. 
– Esta é uma região onde o Chega teve resultados altos nas últimas eleições. E Rui Rocha tem estado sempre a apelar ao voto dos eleitores zangados. Acha que esse discurso pode ter algum sucesso junto destes eleitores?
– É um discurso que parte do entendimento das razões que levam as pessoas a estarem zangadas ou indignadas ou desiludidas. Há boas razões para isso. As pessoas têm um conjunto de promessas que foram sendo feitas ao longo das décadas e que nunca se concretizam. Mas também não se pode ficar desiludido ou zangado a vida toda, não é? Ou seja, esse sentimento pode ser traduzido em energia positiva. Numa solução que traz outro tipo de ambição e de propostas. Como líder político é a minha responsabilidade sublinhar essa possibilidade.
– Já que estamos aqui na última chamada do seu dia, pergunto-lhe se já teve muitas chamadas com Luís Montenegro. Revelou que houve muitos contactos e até alguma pressão da AD para chegar a um acordo pré-eleitoral com a Iniciativa Liberal.
– A partir do momento em que foi claro da parte da IL que não havia outro cenário que não fosse avançarmos com listas próprias… A partir daí, cada partido dedicou-se, obviamente, à sua campanha. 
– O telefone parou de tocar.
– Relativamente a essa questão de um entendimento pré-eleitoral, sim. Tem tocado por muitos outros motivos, mas não esse. 
– Tem dito que teria de ter uma conversa sobre o caso Spinumviva com Luís Montenegro [em caso de entendimento entre AD e IL]. O que é que gostava de lhe perguntar? 
– Gostava de perceber claramente o que aconteceu em todo o processo, quais são as implicações. Creio que são perguntas que os portugueses fazem, mas também devo dizer que nunca quis fazer do tema o centro da campanha e mantenho-me aí. É uma questão para depois das eleições, em determinados cenários. Parece-me muito mais importante fazer uma campanha positiva e não uma campanha de casos, havendo questões a esclarecer, que poderão ser esclarecidas em momento próprio. 
– Mas pode sempre aparecer mais alguma novidade sobre isso. Não teme que a IL também fique colada ao caso? 
– Não, a IL não ficará nunca em caso algum, porque tem sido clara em colocar uma enorme exigência em qualquer cenário que surja a partir do dia 18. E essa exigência tem dois pontos fundamentais: a exigência programática, mudar o país, fazer as reformas necessárias da segurança social à saúde, da habitação ao crescimento económico; e também uma nota de credibilidade para executar esse programa. As duas coisas têm de existir. No cenário que coloca, e estou a responder colocando como hipótese académica, a IL, sendo transparente nesta exigência, obviamente não ficará vinculada a nenhum ponto que possa surgir. 

O caso animou a campanha nos últimos dias: depois de ter ouvido Nuno Melo defender que a coligação do CDS é com o PSD e “mais ninguém”, Rui Rocha decidiu revelar que a Iniciativa Liberal foi alvo de grandes pressões da direção do PSD para que se juntasse a uma coligação pré-eleitoral. Sem sucesso. Como explica aqui o líder do partido, os liberais concluíram que a única maneira se de diferenciarem verdadeiramente — e de não serem vistos como um “apêndice” do PSD — seria concorrerem sozinhos a estas eleições e provarem o que valem nas urnas.

Mas há outro motivo para esse distanciamento inicial: Rocha criticou duramente Montenegro por causa do caso Spinumviva, apesar de depois ter decidido aprovar a sua moção de confiança. A ideia, que exigia algum equilibrismo político, era provar que a IL não aprova a conduta de Montenegro mas é um partido responsável e consciente de que os portugueses não desejavam voltar às urnas tão cedo. Se tivesse participado numa coligação pré-eleitoral, a IL ficaria imediatamente colada a uma AD agastada pelo caso Spinumviva e sujeita aos ataques por se associar a Montenegro durante toda a campanha; assim, tenta cumprir estas duas semanas prometendo levar a sua “exigência” e “integridade” para um eventual Governo — não por acaso, Rocha tem frisado que fez toda a sua vida “a pulso”, com muito trabalho e sem usar a sua agenda de contactos (ao contrário, supõe-se, de Montenegro).

Ainda assim, há um risco evidente que paira sobre a IL: apesar de se esforçar por se distanciar do caso e de assegurar que, se AD e IL tiverem um resultado que permita sonhar com uma coligação, terá de ter “uma conversa” com Montenegro sobre a Spinumviva, o risco de se ver associado às questões éticas que são apontadas ao primeiro-ministro é real, sobretudo se surgirem entretanto novos dados sobre o assunto ou se houver novidades sobre a averiguação preventiva que corre no Ministério Público. Rocha segue com essa sombra, depois de as condições que tinha imposto a Montenegro — pedir desculpa aos portugueses, explicar tudo sobre a empresa e desfazer-se dela para “bem longe” da família — não se terem verificado. Depois da campanha logo se verá.

– Já agora, a propósito dos ataques que vêm de outras campanhas, costuma passar muito tempo na campanha a ver notícias? Ou tem quem lhe vá contando?
– Na verdade, não. Procuro ver de forma resumida. Se eu estivesse a dedicar muito tempo ao que se diz nas outras campanhas, tenderia a responder mais, a focar mais no que os outros dizem. Obviamente, não desvalorizando o que é dito e procurando informar-me, mas é uma informação mínima e resumida. 
– Estamos a conversar no dia a seguir a ter sido o alvo do ataque com pó verde, de dois ativistas climáticos. O que é que lhe passa pela cabeça quando está no palco e vê aqueles dois jovens a chegar?
– Passa-me pela cabeça que nós defendemos a liberdade, a liberdade para todos e, obviamente, defendemos também a nossa própria liberdade.
– Mas percebeu logo o que se estava a passar?
– Não inicialmente. Percebi que havia, enfim, uma intromissão. Aquilo que disse às duas pessoas foi que era um evento político que estavam a interromper, que isso era uma falta de respeito pela liberdade política e que teria todo o gosto de falar com eles no final para os ouvir e também para partilhar a minha visão sobre os temas que eles quisessem discutir. Infelizmente, mesmo com essa posição de abertura, e eu penso que fui absolutamente correto na relação com as duas pessoas em todo momento…
– Eles chegaram a fazer-lhe alguma pergunta?
– Perguntaram, basicamente, se eu aderia a uma determinada visão climática para 2030 e insisti que obviamente não ia responder sobre isso, sob ameaça, de alguma forma. Portanto, que teria todo o gosto de falar com eles sobre esses e outros temas no final. Mas pronto, depois percebi que havia uma presença que não respeitava a liberdade política e de estarmos a fazer uma festa, que era o que estávamos a fazer, com muita energia positiva e que isso era o contrário do que agradava às pessoas em causa.
– E surgiu logo a ideia de leiloar o fato? Não sei se foi ideia sua.
– Não. Não me passou pela cabeça. O que me passou pela cabeça foi que não podia permitir que este ataque à democracia condicionasse o evento e que as razões que nos levavam a estar ali saiam ainda mais reforçadas. Queria mesmo levar a minha intervenção até ao fim porque considerava que era muito relevante. Já era antes de isto acontecer, e depois passou ainda a ser mais. Temos de afirmar essa nossa liberdade perante os ataques à liberdade e à democracia.

Rui Rocha foi o mais recente alvo de ativistas climáticos, desta vez do movimento Fim ao Fóssil, tendo sido atingido por pó verde quando discursava num comício em Lisboa. Como conta nesta chamada, ainda chegou a dizer aos dois jovens que interromper o evento era uma falta de respeito e que falaria com eles no fim, de forma “correta”. Ainda assim, não quis conversar “sob ameaça” e não se livrou do pó, que lhe sujou o fato, a camisa e a cara. Decidiu continuar a discursar, dizendo ao público que já sofreu contrariedades maiores na vida e despindo o blazer (uma reação rápida que deixou os liberais satisfeitos com o sangue frio do líder).

Rocha não esclarece de quem foi a ideia, mas a IL já abriu a página do leilão que vai lançar, a partir de dia 15, para angariar dinheiro com o fato sujo e doar o valor à Associação Acreditar. É um fato Hugo Boss, que começará a ser licitado por 150 euros, e que a campanha definiu ironicamente como um modelo “EcoExtremist Splash” (um borrifo eco-extremista?).

Se o partido chegou a ser acusado de ser negacionista climático pela esquerda — muito por causa de uma intervenção num debate em que João Cotrim Figueiredo disse que a IL “não é negacionista” e reconheceu que o problema das alterações climáticos é sério, mas recusou a ideia de “emergência climática” no sentido de “algo que é preciso tratar com uma urgência tal que todos os custos são justificados” — no programa deste ano estabelece um objetivo de 80% de energia renovável até 2030 (mas os ativistas reclamam que chegue aos 100%, frisando que nenhum partido tem um plano realista para combater as alterações climáticas).

– Nota muita diferença na sua notoriedade? Já fez uma campanha em que havia bastante gente que ainda não o reconhecia. Também não é que seja a campanha com mais rua, mas nota diferenças nesse sentido?
– Sim, há uma grande diferença entre 2024 e 2025 em vários pontos. Um é esse, da notoriedade pessoal que manifestamente é muito maior. A mobilização para a campanha é também maior e, enfim, o entusiasmo e a forma recetiva como todos ouvem as propostas da Iniciativa Liberal é completamente diferente. É por isso que estamos absolutamente convictos que a Iniciativa Liberal vai ter um bom resultado.
– E não fica cansado quando ainda fica até tarde com os jovens a beber cerveja no autocarro da Iniciativa Liberal? Algumas até de penálti, como já vi nas suas redes sociais, depois de um dia de campanha.
– Não, pelo contrário, isso dá-me uma tremenda energia porque eu creio que a ação política se faz para todos. Mas é uma enorme responsabilidade fazer política para o futuro, política para os jovens, e dá muito sentido a tudo isto. Portanto, ao contrário: não me dá de todo cansaço, dá-me uma energia adicional.
– Música e cerveja ajudam a animar.
– Não só a cerveja, mas a energia dos jovens.

De vez em quando lá aparece na agenda da IL mais uma “ação com jovens”, ações essas que consistem em noites de música e copos à volta do autocarro que a caravana leva para as suas ações, e que tem um bar (com torneiras de cerveja) incorporado. O líder mudou — antes era frequente ver Cotrim Figueiredo a tirar selfies nestes encontros — mas é importante manter a ligação aos mais novos, que representam uma fatia importante do eleitorado da IL, e parte disso acontece durante estas sessões de discoteca ao ar livre, com Rocha a beber cervejas de uma vez para se enturmar.

Entre potenciais eleitores mais novos e mais velhos, e depois de um makeover que implicou cortar o cabelo e passar a usar lentes de contacto, Rocha assegura que desta vez tem a vida mais facilitada — nas eleições do ano passado ainda sofria sérios problemas de notoriedade, sucedendo a um líder considerado carismático como Cotrim e vendo-se obrigado a concorrer a eleições antecipadas em contrarrelógio; agora já há mais pessoas que o vão reconhecendo na rua. Ainda assim, a comparação é difícil de fazer, uma vez que a campanha anda pouco pela rua e por ambientes menos controlados e faz-se muito de visitas a empresas e jantares-comício (além dos encontros com jovens, claro).

– O que é que faz para descontrair na campanha? Não sei se consegue ler, se há música na carrinha onde costuma deslocar-se. Consegue ter algum tipo de rotina?
– Há uma coisa que eu não consigo fazer em geral, que é dormir em viagem. Isso em geral não acontece, só se estiver mesmo muito, muito cansado. Depois procuro ler, procuro informação, procuro distrair-me com informação fora da política, ouvir música e conversar muito com as pessoas.
– Anda a ler alguma coisa em particular? E a ouvir?
– Nesta altura são coisas mais curtas, pequenos ensaios, pequenos relatos, coisas que não sejam muito cansativas e que não exijam muita atenção.
– E ainda não se fartou dos Queen, da música com que entra sempre nos comícios [We Will Rock You]?
– Não, acho que transmite a energia desta campanha, portanto acho que é uma boa escolha. Não estou cansado de todo dos Queen.
– Obrigada, Rui Rocha.
– Obrigado eu, boa noite.

Mariana Mortágua. Análise a Louçã, as dúvidas sobre lactantes e o risco de uma pergunta à meia-noite

[Ouça aqui a última chamada com Mariana Mortágua:]

“Nenhum de nós esperava duas campanhas”

– Boa noite, Mariana Mortágua. Como está?
– Olá. Estou bem. 

– Acabámos agora mesmo aqui um comício em Braga, em que Francisco Louçã, que é o cabeça de lista aqui no distrito, foi o último a subir ao púlpito. O que achou do seu discurso?
– Acho que é um discurso completo que acaba por resumir um bocadinho várias mensagens que queremos enviar e passar neste fim de campanha. Destacaria algumas, em particular todas as mudanças que trouxe à vida portuguesa quando conseguiu aprovar – a primeira lei que aprovámos – da violência doméstica como crime público. O número de vidas que salvámos com essa lei e do que ainda queremos fazer em nome da justiça, em nome da igualdade, da habitação, do trabalho por turnos, e acho que foi um boa síntese dessa transformação do que fizemos e do que ainda queremos fazer. 

– Foi também em si um discurso particular. Francisco Louçã desceu até à plateia enquanto discursava numa abordagem diferente. Encontra alguma questão particular nos discursos de Francisco Louçã?
–
O facto de estarmos a tentar fazer uma campanha diferente e que queremos que seja muito mais próxima das pessoas, permite também ter comícios diferentes do normal. E é por isso que estamos a ter conversas e é também por isso, imagino eu, que o Francisco decidiu entrar pela plateia adentro e falar com as pessoas, porque queremos abrir esses espaços para que não seja sempre alguém num público a falar e alguém a ouvir. Quando fazemos, por exemplo, o porta-a-porta, é isso que estamos a fazer. Todos os militantes, ativistas, simpatizantes do Bloco que querem participar são os próprios agentes desta campanha. Acho que esse é o aspecto interessante da campanha que queremos fazer diferente e de chegar a mais gente.

O comício em Braga com Francisco Louçã como cabeça de lista foi o momento alto da campanha. Ainda que a caravana bloquista não assuma um grisalho favorito, o antigo coordenador do Bloco é, entre os três fundadores do partido, quem tem maiores hipóteses de ser eleito e que tem demonstrado mais energia e vontade de se envolver na campanha.  O regresso de Louçã, Rosas e Fazenda é aproveitado para promover a ideia de que o Bloco está a inovar. Uma campanha intergeracional e no terreno, ainda que o partido tenha, de modo geral, evitado enfrentar as ruas com a comunicação social, optando por fazê-lo sozinho na campanha porta-a-porta.” A chamada de Mariana Mortágua com o Observador aconteceu após esse comício de Braga.

– Como é que tem corrido esse porta-a-porta? A Mariana também já esteve numa dessas ações, certo? 
– Sim, na verdade estive em várias ações. Tenho feito porta-à-porta. Já fiz no Porto, em Leiria, em Lisboa. 

– Fabian Figueiredo falou mesmo em milhares de casas às quais os simpatizantes do Bloco já foram. Acompanha esta estimativa?
– Sim, temos as estatísticas e tem tantos registos. Foram literalmente milhares de casas. Estava a atualizar esses registos com o Francisco Louçã e são milhares só em Braga. É uma experiência muito interessante, porque conseguimos ouvir as pessoas e perceber o que nos têm a dizer. Desconstruir muitas vezes coisas que é impossível desconstruir nas redes sociais ou em dois segundos de televisão. Sabemos como a política resumida às redes sociais é uma política de provocação, de ódio, de divisão e a extrema-direita tem tantas mensagens de ódio porque é tão fácil transmiti-las. Na conversa cara-a-cara, realmente olhos nos olhos, conseguimos falar às pessoas sobre o que a política deve ser, que é sobre a sua vida e como a queremos mudar em conjunto. 

– Mas este ano o Bloco também tem apostado forte nas redes sociais e em tentar chegar aos mais jovens por essa via. Qual é a estratégia? 
– Reconhecemos que as redes sociais são um elemento crucial da comunicação política hoje em dia. Não minimizamos essa importância, sobretudo nos jovens, mas não só, acho que é transversal. Queremos usar esse meio de comunicação e usá-lo para transmitir a política. Não aceitamos que as redes sociais sejam o espaço e o feudo da extrema-direita, embora saibamos que as regras do jogo estão sempre viciadas. As redes sociais promovem essas mensagens de ódio, de violência, de misoginia e nós queremos ocupar esses espaços. Por isso, tivemos um esforço nesta campanha para estar nos sítios onde sabemos que as mensagens são transmitidas e fazê-lo da melhor forma possível. Sempre em respeito pela verdade, pela mensagem política, mais do que outra coisa. Mas compreendemos também que isso não é suficiente e só vale a pena ter uma campanha de redes sociais forte se tiver o outro lado e o outro lado é o porta-a-porta. Uma campanha sem a outra não existe, porque nós precisamos de completar esta forma como falamos com as pessoas.

Se o Bloco escolheu apostar forte nas redes sociais — no TikTok, é o segundo partido português com maior dimensão — nem todas as caras do partido parecem acompanhar com entusiasmo a presença online com este tipo de conteúdos. Mortágua assume que esta é uma batalha que tem de ser travada, ainda que admita estar em desvantagem e não pareça particularmente motivada para nela participar. Numa conversa com jovens estudantes em Lisboa, a coordenadora do Bloco assumiu que, de maneira geral, os conteúdos das redes sociais “infantilizam as pessoas” e “que se pudesse não tinha redes sociais”.

A campanha porta-a-porta é claramente uma aposta na nova estratégia do Bloco de Esquerda para a campanha. O partido fez um levantamento das zonas com maior potencial de encontrar possíveis eleitores. E foi distribuído um guião para nortear os pequenos grupos que realizam estas ações com respostas estudadas para qualquer partido político no qual os eleitores demonstrem vontade de votar. Mortágua e outros membros do partido têm usado esta campanha descentralizada de todo o terreno para se escudar das críticas de quem acusa o Bloco de estar a fugir da rua.

– E como é que a Mariana se está a sentir agora neste segundo ano seguido a liderar esta campanha do Bloco de Esquerda? Imagino que há dois anos, quando foi eleita coordenadora nacional, não estava à espera de por esta altura já ser pela segunda vez candidata a primeira-ministra.
– Não, estava à espera que fosse, mas um bocadinho mais tarde. Acho que perguntar-me como é que estou a sentir à meia-noite e meia de um dia de campanha é sempre muito arriscado.

– É para isso que serve a última chamada.
– Exato. Não, mas estou bem, com muita energia e acho que é óbvio que não esperava duas campanhas. Ainda mais sabendo que esta última é feita num cenário em que as pessoas estão muito fartas e não percebem porque é que há eleições. São provocadas eleições, há um primeiro-ministro que não quer dar explicações sobre uma empresa que tem uns negócios muito mal contados. Tudo isto contribui para um sentimento que não favorece uma campanha de ideias e de propostas, na qual a estamos a tentar transformar. Acho que há uma vantagem em termos tido duas campanhas em tão pouco tempo. Fomos aprendendo e a reflexão que fizemos sobre a última e sobre os modelos de campanha, sobre a forma como a política se adapta a formatos televisivos que depois não significam nada, não falam com as pessoas, não ouvem as pessoas, não passam mensagem nenhuma. É isso que nos leva a mudar esta campanha e havia muitas coisas que nós já estávamos a pensar em mudar. Já estávamos a pensar em fazer o porta-a-porta mesmo sem ter campanha e isso obrigou-nos a repensá-la e a pôr a política no centro da campanha, não só a parte da comunicação. 

A coordenadora do Bloco destaca a vontade de fazer uma campanha de propostas. Assim, as críticas ao primeiro-ministro acabam por ser mais do foro político do que sobre as questões éticas que foram levantadas sobre a sua vida empresarial. Mortágua não desperdiça esta oportunidade para criticar o caso Spinumviva, mas, no que toca a Montenegro, atira com mais força às medidas do Governo da AD do que às questões que precipitaram as eleições.

A máquina partidária do Bloco não tem a mesma capacidade de lidar com uma sucessão quase anual de atos eleitorais quando comparada com os partidos do centro ou mesmo com o PCP e a sua estrutura muito bem oleada. Uma campanha de dimensão menor acaba por recair mais sobre a líder, que tem muitas vezes realizado ações de campanha sem outras figuras do partido. Desta forma, Mariana Mortágua tem tido uma exposição e presença no espaço público que pode levar a crer que já é líder partidária há mais tempo do que a realidade.

Algo que a pode tranquilizar é que não se tem feito ver nenhum potencial sucessor de Mortágua pronto a disputar o seu lugar, no caso de uma derrota eleitoral. A própria tem-se recusado a comentar se a sua cabeça deve rolar após um desaire no dia 18 e o facto de o calendário político ter sido acelerado por eventos fora do seu controlo pode ser outro motivo para afastar a hipótese de um distanciamento de Mortágua.

– Ao nível dessa campanha de proximidade, queria-lhe perguntar sobre o despedimento das mães que eram funcionários do partido. Está de consciência tranquila sobre o caso e facilidade em explicá-lo às pessoas, ou é ainda de certa maneira como uma nuvem [sobre o partido]?
– O caso foi explicado mil vezes e há uma coisa que nunca disse e que é verdade, nunca ninguém na rua me perguntou por isso. Quem me pergunta são só os jornalistas. Sempre a mesma pergunta, eu explico sempre, claro, e esclarece-se. Mas nunca ninguém na rua me perguntou por isso. 

– Pois, ia-lhe perguntar precisamente isso, se as pessoas na rua estavam a acompanhar a explicação do Bloco.
– As pessoas estão esclarecidas e sabem que nós esclarecemos em todos os canais, de todas as formas, que não há nenhuma dúvida sobre isso. O Bloco cumpre sempre a lei, fomos além da lei. Isso já foi tantas vezes explicado que não há qualquer dúvida sobre isso. Ainda mais, uma coisa que se passou há três anos. Acho que é mais do que normal que as pessoas, quando estamos na rua, queiram falar sobre o preço das casas, queiram falar sobre a sua pensão, a sua reforma, o seu salário, e é sobre isso que nós falamos na rua.

– Para terminar e para a deixar ir descansar para casa, gostava de lhe perguntar… 
– Casa é pedir muito, mas descansar espero. 

…sobre as expectativas para o resultado eleitoral. O Bloco vai ser a grande surpresa da noite, como disse o Fabian Figueiredo?
– É isso que sentimos. Sentimos que vamos crescer, que muita gente está a juntar-se à campanha. Hoje estive na FSH, numa faculdade em Lisboa, estive de manhã numa faculdade sénior, em que fomos muito bem recebidos, com um trabalho incrível que quisemos mostrar. Também esteve lá, portanto sabe bem, tem acompanhado esta caravana de campanha, e estivemos à tarde com dezenas, talvez centenas de jovens na universidade a falar sobre habitação e muita gente se junta para conversar. Não são do Bloco, não são eleitores do Bloco, aparecem porque querem conversar sobre as nossas propostas. Acabámos de sair de um comício, em Braga, em que deixámos dezenas de pessoas à porta, porque a sala estava lotadíssima e não deixavam que entrasse mais ninguém. Esta está a ser a nossa campanha. Por isso, sim, muito otimismo. Sentimos obviamente que vamos crescer, e que estão a perceber a mensagem, estão a perceber a importância do voto no Bloco, para mudar as coisas, para garantir que no dia a seguir às eleições começamos mesmo a baixar o preço das casas, começamos mesmo a olhar para quem trabalha. Percebemos que não podemos ter uma campanha eleitoral em que ninguém fala do trabalho, do salário, dos tempos de trabalho, de reduzir o tempo de trabalho, do trabalho por turnos.

– Portanto, confiante num bom resultado eleitoral, Mariana Mortágua, deixo-a ir. Muito boa noite. Obrigado.
– Boa noite. Bom trabalho. Obrigado.

O Bloco foi recebido com gáudio nos dois campus universitários que visitou, em Lisboa, na quarta-feira e no Porto, esta quinta-feira. O partido conta com uma base forte de apoio entre os jovens e as faculdades de letras e ciências sociais concentram muitos votos no partido. Algo que, de acordo com Mortágua, não conta para os votos dos portugueses é o episódio do despedimento das mães. A coordenadora do Bloco tem defendido que estas receberam um tratamento melhor do que seria necessário e dá a entender que é a comunicação social que amplifica o caso, porque, como diz, nunca foi confrontada com esta questão pelos eleitores.

O otimismo para a noite eleitoral é grande dentro do partido, ainda que as sondagens apontem para uma diminuição dos votos. Os dirigentes bloquistas apontam para uma vitória baseando-se, em grande parte, no alegado sucesso da campanha porta-a-porta, falando desse contacto com as pessoas como alguém que tem informação privilegiada que não pode partilhar. Teremos de esperar pela noite do dia 18 para saber se o Bloco inaugurou uma nova forma de fazer campanha em Portugal ou se as arruadas ainda se fazem sentir no boletim de voto.”

[Sporting ou Benfica, quem tem mais a perder? No podcast “A História do Dia“, só precisa de 15 minutos para ficar bem informado. Conversamos com os jornalistas da redação do Observador e com especialistas para lhe explicar tudo sobre a história mais importante do dia. E ainda lhe damos um resumo rápido das notícias que tem mesmo de saber. Pode ouvir aqui, na Apple Podcasts, no Spotify ou no Youtube Music]

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Paulo Raimundo escolhe Metallica e não Alberto Gonçalves. E ainda não ligou a nenhum outro líder partidário

[Ouça aqui a última chamada do dia com Paulo Raimundo:]

Paulo Raimundo já se habituou às selfies

–  Estou sim, Paulo, como está? Boa noite, tudo bem?
–  Sim, viva, boa noite, tudo bem, tudo bem, obrigado.

–  Paulo, no fim de semana enganou-nos, mas hoje voltámos à estrada com uma das agendas mais apertadas da campanha. A surpresa foi bem pregada aos jornalistas. O que lhe queria perguntar era se já alguma vez pensou em tirar tantas selfies como Marcelo Rebelo de Sousa numa ação de campanha? Eu já estive a contá-las e passaram às largas dezenas.
– (Ri-se) Foi uma receção muito calorosa, muito calorosa. Meio a brincar, meio a sério, até afirmei que ontem no Comício em Lisboa, no grande Comício em Lisboa, que me dá muita confiança, pedi um sobressalto à juventude.  E a juventude correspondeu a esse apelo. Foi uma receção muito calorosa, na António Arroio, aliás, como tem sido assim por toda a campanha, mas de uma forma muito intensa, foi bom, foi bom. 

– E também admitiu nessa ação de campanha que já não tirava tantas fotografias desde o dia do seu casamento.
– (Ri-se) Sim, do ponto de vista do momento concentrado, foi uma comparação que corresponde à realidade, que corresponde à realidade.

Na manhã desse dia de campanha, a caravana da CDU tinha passado pela escola secundária António Arroio. Paulo Raimundo teve uma das receções mais calorosas de toda a campanha, rodeado por dezenas de alunos do secundário. Acabou por levar para casa uma serigrafia com um cravo, dedicada ao 25 de abril. À vontade com futuros eleitores, o líder comunista haveria de comentar que “não anda na campanha apenas por votos”, mas também para “abrir novos caminhos”, daí ter escolhido uma ação onde a maioria das pessoas não tem ainda idade para votar.

A ação acabaria por ficar marcada por duas novidades. Raimundo estabeleceu, pela primeira vez, metas concretas para as eleições de 18 de maio: mais 100 mil votos e mais dois deputados (chegando assim ao número de parlamentares de 2022) e a resposta (que foi obrigado a dar) quando foi confrontado sobre a guerra na Ucrânia. O secretário-geral acabaria por condenar, em pouco mais de cinco segundos, a invasão russa, sem acrescentar um único mas.

– O Paulo sente-se mais à vontade nesta que é a segunda vez como secretário-geral numa campanha da CDU. O Observador escreveu um texto a falar de um tal Paulo Raimundo 2.0. Sente-se um Paulo Raimundo 2.0?
– (Ri-se) Não, sabe que eu acho que é normal que nós vamos ganhando mais à vontade e um certo traquejo, diria assim. A expressão pode não ser a mais feliz, mas penso que é compreensível. E eu gosto particularmente do contacto direto, de estar com as pessoas, de ir à conversa, de contactar, de viver a realidade, diria assim. E deixa-me muito à vontade. Já me tinha deixado à vontade nesse aspeto nas últimas eleições, na última campanha que fizemos. Mas penso que é normal e acho que é compreensível que vamos ganhar. Não é tanto um problema de confiança, mas é mais à vontade, diria. E acho que é normal. Estamos a correr muito bem a campanha, desse ponto de vista, e acho que é um objetivo.

Paulo Raimundo é funcionário do PCP desde 2004, membro do Comité Central, desde 2016 e secretário-geral do partido desde 2022. Ouviu, ainda nesta campanha, o elogio rasgado do seu antecessor – Jerónimo de Sousa – ao admitir que Raimundo se tinha revelado uma “surpresa extraordinária”, apesar dos receios de alguns. Está agora na segunda campanha eleitoral enquanto principal porta-voz do PCP e as diferenças para a sua primeira campanha são evidentes. Hoje, o secretário-geral do PCP está (pouco) mais à vontade nas ruas e aprendeu a discursar sem olhar para o papel e à procura do soundbite (como o já famoso nheca nheca).

– Há um ano,  falámos também aqui para a última chamada da Rádio Observador. Foi há um ano. O que lhe queria perguntar se espera que a próxima, a última chamada aconteça daqui a quatro?
– Olhe, como as coisas estão, já não tenho a certeza, já não digo nada. O que eu espero, sinceramente, é que na próxima nossa conversa, a última chamada, que seja já uma conversa com mais força, mais votos, mais votos. Que é isso que penso que serve ao nosso povo e também uma grande garantia para os direitos que se impõem e para o caminho que se impõe. Relativamente, se é daqui a quatro anos, se é daqui a menos, como as coisas estão, já não posso querer dizer nada.

– Aproveito para fazer uma provocação. Já fez, durante esta campanha, alguma última chamada até a outro líder que também esteja na estrada?
– Não, não, não.

– Nem um WhatsApp, um SMS?
– Nada, nada, nada, nada, nada. Não fiz nem chamadas, nem SMS, nem nada. E não estou a ver nenhuma razão particular para, até o final da campanha, a fazer. A não ser que haja algum acontecimento que, por aquela razão, exija, está que não aconteça nada que exija esse conteúdo.

Em Lamego, Raimundo enterraria (pelo menos por agora, durante a campanha eleitoral) a conversa de um futuro entendimento à esquerda. “Muitos perdem demasiado tempo a querer discutir futuro, cenário, matemática e governabilidade – nós percebemos bem porquê, porque é que alguns só querem discutir a forma – não discutem o conteúdo – a solução das nossas vidas está exatamente no conteúdo.” O líder comunista quer discutir o conteúdo e não a forma de um futuro acordo e se o conteúdo não for ao encontro das propostas comunistas, a CDU está fora. Ou seja, a linha de Raimundo é muito ténue. Não está de fora de qualquer entendimento que “melhore as condições de vida do povo”, mas não vai fazer acordos à esquerda só porque sim.

– O PCP está muito focado nos direitos laborais. Quer reduzir as horas de trabalho durante uma semana de trabalho para menos das atuais 40 horas semanais. O Paulo está a trabalhar bem mais do que isso nesta campanha, não está aqui a fazer um mau serviço pela causa do PCP.
– Não, pelo contrário. Estou a empenhar toda a minha força e todo o meu tempo para que isso seja uma realidade na vida de todos. Isso é exatamente o contrário. É todo o meu tempo e todo o meu esforço para que isso seja uma realidade na vida de todos. E penso que é justo essa reivindicação, tendo em conta, numa altura em que nos dizem que a inteligência artificial e a tecnologia vai roubar todos os empregos, todos os trabalhos: Há aqui uma contradição quando, ao mesmo tempo que se dizem isso, querem que trabalhemos mais horas, mais dias, mais anos. Há aqui uma contradição insanável que queremos resolver.

– Paulo, tem feito um esforço para ir dormir a casa todas as noites, a seguir um dia de campanha bem preenchido, como foi o caso de hoje?
– Olhe, sim, quando é possível. Quando o calendário permite. Quando é possível, sim, posso fazer isso.  Até posso fazer aqui uma confissão à última hora, nesta última chamada, se me permite. Gosto de acompanhar os meus filhos e amanhã tenho a felicidade do calendário permitir levar a minha filha à escola, para mim é sempre uma alegria. Talvez mais, para mim, do que para ela, mas isso já é outro problema.

– A filha ainda não pede ao pai para deixar na berma da estrada para não ser visto, para não ser o pai a ir entregá-la diretamente à escola?
– Mais ou menos, mais ou menos. Já vai ganhando essas manhas, já. Já vai ganhando essas manhas. É natural. Temos que respeitar também.

– Claro. Sendo que o Paulo também tem uma cadela, uma tartaruga, até um ninho de andorinhas.
– Dois ninhos. Dois ninhos de andorinhas. Dois ninhos. Que são muito bonitas, é muito emocionante, mas faz uma lixeira muito grande.

– Imagino que sim. Paulo, no programa “Bom Partido”, do Guilherme Geirinhas, admitiu que ouvia o Alberto Gonçalves, que é um comentador da Rádio Observador e também que uma das suas bandas favoritas, são os Metalica. E o que lhe queria perguntar é: faltam alguns dias para acabar a campanha, se tivesse que só ouvir um até o final, qual é que escolhia?
– (Ri-se). Só um? É pá, isso é uma pergunta de falhas, mas eu vou lhe dizer, eu vou lhe dizer. Se calhar os Metalica, só por uma razão, é porque o calendário que temos é muito apertado. Aliás, hoje, como sabem, foi um dia assim e eu gosto de ouvir o Alberto Gonçalves em direto, diria assim, e não tanto em podcast. E, portanto, os Metalica têm a vantagem de nós podermos escolher a hora que quisermos ouvir. E, portanto, não faltará a oportunidade de ouvir o Alberto Gonçalves. Não faltará a oportunidade.

Na estreia no programa “Bom Partido”, em tom descontraído, Paulo Raimundo faria outras revelações. Por exemplo, diria ao comediante Guilherme Geirinhas que Luís Montenegro, afinal, não estava enganado quando chamou Paulo Narciso a Paulo Raimundo durante um debate quinzenal no Parlamento em fevereiro – e que tem em casa à sua espera quatro filhas, uma cadela, uma tartaruga e até dois ninhos de andorinha à porta.

– Paulo, e uma última pergunta, se um amigo lhe pedisse um conselho para comprar, assim, digamos, uma bilha de gás, na sua zona, na Moita, onde é que recomendaria?
– É na Estação de Serviço da Galp, em Alhos Velhos, que é o melhor sítio, é o que fica mais perto da minha casa. Aproveitávamos, comprávamos o gás e fazíamos uma jantarada. Era um dois em um. 

A conversa sobre botijas de gás não é ao acaso. Em fevereiro deste ano, o PCP insistiu com uma proposta para fixar o preço da botija de gás em 20 euros. No Parlamento e aos jornalistas, Paulo Raimundo classificou como um “escândalo nacional” o facto de em Portugal se pagar o dobro do que se paga em Espanha por uma botija de gás.

Para o secretário-geral do PCP, existe um “conflito de interesses” em Portugal, entre a “família Amorim, detentora da Galp” e mais de “2 milhões de famílias” que recorrem a gás de botija para “aquecer a água” e cozinhar alimentos.

Nessa iniciativa, Raimundo partilharia ainda um exemplo pessoal: “Paguei no dia 11 de fevereiro 36,90 euros por uma botija de gás. Fui eu que a paguei, para além de a ter de carregar às costas.”

– Paulo Raimundo, muito obrigado por esta última chamada.
– Boa noite, obrigado. Bom descanso.

Rui Tavares. O gato não adotado, as hesitações sobre a doença da filha e o telefone vermelho com os ‘geringonçáveis’ para avisar de fogo-amigo

[Ouça aqui a chamada do dia com Rui Tavares:]

“Qualquer campanha tem altos e baixos”

– Estou, Rui Tavares?
– Alô.

– Como está? Como está a ser esta campanha? Não sei já está a sentir um bocadinho o desgaste da campanha, também pelo adiantar da hora…
– Como qualquer campanha, e para ser completamente honesto acerca disso, ela tem altos e baixos. Poderíamos dizer que vai sempre em crescendo, mas na verdade durante um dia passamos como se fossem vários dias de uma semana normal e às vezes já não se lembra exatamente em que dia da semana é que está porque acontecem muitas coisas. E, portanto, uma campanha tem muitos acontecimentos ao mesmo tempo e às vezes quem anda no centro de uma campanha não consegue estar tão informado sobre o resto das campanhas que os outros estão a levar a cabo, como quem está, fora, simplesmente a seguir a campanha, através do Observador, por exemplo. 

– Eu vi que esteve a dar uma festinha a um gato. É para vestir mais a pele de vilão?
– Não, aquele foi o momento fofinho do dia, porque nós fomos ao Seixal, a um centro comunitário. No fundo, é uma associação de vizinhos que começou a preocupar-se com os animais errantes, que é uma questão de bem-estar animal, mas também de saúde pública. Fomos alertar para a necessidade de haver uma estratégia nacional para este tipo de coisas, porque com o voluntariado e as redes formais e informais que se vão criando, pode conseguir resolver-se um problema sério. E, portanto, uma estratégia nacional para os animais errantes passa por aí. Mas claro que, na verdade, o momento alto é estar com um gatinho pequenino ao colo. 

O candidato do Livre tinha tido um dia na zona da Grande Lisboa, mas nem por isso menos exigente. Por muito que fosse bom dizer que é uma campanha em crescendo, admite que a volta tem altos e baixos. Chega a admitir que o momento alto do dia foi ter pegado um “gato pequenino ao colo”. Em casa tem mais três. O facto de ter andado por Lisboa permitiu-lhe estar com a família. O assessor do Livre tinha explicado ao Observador que Rui Tavares atenderia a última chamada já depois das 22h30 porque antes queria aproveitar estar na capital para ir deitar os filhos. Isso foi um pretexto para falar sobre se a família deve ou não ser exposta na campanha. Rui Tavares tem uma visão muito moderada (e ponderada) sobre esse envolvimento.

– Já também já foi bastante, creio que tem gatos e  aproveitou agora também para estar um pouco com a família. O ano passado foi um bocadinho forçado a ter que falar dos seus filhos num debate com o André Ventura não sei se já teve a oportunidade de estar com eles…
– Sim, hoje ainda deu para estarmos um bocadinho juntos. Cheguei às oito e meia, deu para os deitar. Tínhamos quatro gatos, agora só temos três. Ainda lhes mostrei a foto do gatinho do dia, mas acho que não vamos adotar mais nenhum.

– Pedro Nuno Santos passou a introduzir a mulher na campanha, o Luís Montenegro já há muito que se faz acompanhado a mulher e até agora apareceu também o filho. O uso da família na campanha pelos líderes políticos é uma coisa que parece que é legítimo?
– É uma coisa que depende do equilíbrio que cada um de nós traça e tenta encontrar. Não é sempre igual em todos os momentos da vida. E aqui quero ser justo com os outros candidatos que estão a fazer campanha. Depende muito da idade que têm os filhos, da nossa própria personalidade. Nesta campanha aconteceu-me uma coisa que não estava à espera: numa das entrevistas que dei, perguntaram pela minha filha mais nova, que tem necessidades especiais, e pela primeira vez perguntaram-me exatamente o que é que era e então senti a obrigação de fazer alguma pedagogia para falar acerca da Trissomia 21, que é a condição dela e o que é que isso significa, por exemplo, para pais que não estão à espera e aprendem pela primeira vez. Eu, no ano passado, não teria falado disso. Este ano, naquele momento, percebi que se me calasse acerca do assunto estava a ajudar a criar um estigma. Agora, é sempre um equilíbrio dificílimo de achar. Estou a falar quase com o coração nas mãos acerca disso porque também sabemos que hoje em dia é muito fácil a gente a seguir ir ouvir as reações ao que nós dissemos e encontrar aquilo que nós dissemos completamente distorcido. E isso é uma das coisas de facto que, talvez tenha sido sempre assim na política e na campanha, mas nos últimos anos se tornou mais polarizado.

– Quando o Tomás [assessor do Livre] me disse que o Rui ia atender esta hora porque ia tentar deitar os filhos, eu fui fazer pesquisa e cruzei-me com essa entrevista de que fala. Dizia as pais que têm crianças [com Trissomia 21]  não vão ser menos felizes…
– Sim. Isso é o mesmo que nos aconteceu. Não sabíamos que nos ia acontecer, a descoberta desta condição da nossa filha e, claro que ao início ficámos baralhados, desorientados, porque não conhecíamos o assunto. E, entretanto, a conclusão a que chegamos, passado algum tempo, é que não só não somos menos felizes, como se calhar até somos mais. E isso lá está. No momento de eu tomar uma decisão acerca de falar ou não falar, a gente pesa. Aquilo que eu disser pode ajudar quem venha a estar numa situação assim? E nós sabemos que sim, porque já temos tido casais que nos consultam. Por outro lado, o que eu sempre tinha desejado era protelar este momento, porque, na verdade, quem tem que tomar a decisão acerca de quem é que fala da sua vida é a minha filha, não sou eu.

Rui Tavares fala, nesta chamada, pela segunda vez, na filha mais nova, Helena, que tem Trissomia 21. Explica que hesitou muitas vezes a falar na doença da filha, devido à facilidade com que tudo é deturpado. O fundador do Livre foi questionado diretamente sobre isso no programa Júlia e, nesse momento, decidiu falar do assunto. Naqueles minutos percebeu que não falar disso seria contribuir para o estigma. Agora, quando confrontado com a presença que as famílias de Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro têm tido nas campanhas de PS e AD, Rui Tavares diz que essa avaliação deve ser feita por cada candidato e fala do caso da filha para lembrar como às vezes pode ser cruel para um político ver os filhos expostos. Passada a parte mais intimista, a conversa evoluiu para a política pura e dura.

– Uma das vantagens que tem esta campanha é precisamente que há um ano tinham os mesmos protagonistas. Qual é que é a grande diferença que está a haver desta campanha para a anterior? Eu sei que o Livre agora tem um astro que parece, nas sondagens, ser o partido mais votado  à esquerda do PS… Se é que o Livre está à esquerda do PS…
– Está claramente. Tive de pensar aqui um bocadinho porque, na verdade, esta campanha ocorre tão rapidamente após a anterior que eu tive um momento, por exemplo, no debate em que participávamos todos, em que o Carlos Daniel seguiu a ordem da eleição de 2024, em que o Livre está com um grupo parlamentar e já não é o partido mais pequeno e eu a certa altura altura ainda estava parece que ainda estava a viver a campanha e a eleição anterior. Nós estamos a viver nestes micro-ciclos políticos e às vezes é difícil acompanhar a velocidade com que as coisas têm acontecido em Portugal, quanto mais para os eleitores. E aí dá para perceber a frustração e a inquietação das pessoas com uma situação que é: nós não temos uma eleição normal desde 2019.

– Para o Livre é capaz de ser bom, porque agora é a nova coqueluche da esquerda.
– Para o Livre numericamente tem sido bom. Nós temos crescido. E é um bocadinho paradoxal porque a primeira eleição, a primeira crise política que tivemos, foi com o colapso da geringonça. Nós éramos defensores do entendimento à esquerda e criticámos o facto de ter havido esse colapso, mas permitiu-nos reentrar no Parlamento, onde tínhamos entrado em 2019. A eleição seguinte é uma eleição que também ocorre com uma crise política que também foi dura para o país e o Livre atinge um grupo parlamentar. Nestas eleições nós votámos contra a missão de confiança e consideramos que, de facto, Luís Montenegro é uma má notícia para o país e que a maneira como ele geriu esta sua questão ética foi má. E, se ele continuar a ser primeiro-ministro, continuará a ser mau. É verdade que o Livre se tem destacado nos últimos tempos, mas isso também, e eu acho que é porque falamos com uma clareza às pessoas acerca da necessidade de dar uma alternativa aos eleitores para que eles não tenham que escolher o Luís Montenegro, que os outros partidos não dão. E talvez isso sim tenha permitido que o Livre tenha crescido. Depois nós demonstramos a ambição de fazer à esquerda aquilo que, por exemplo, a Iniciativa Liberal faz à direita. Ou seja: criar um partido novo que ocupe o seu espaço e que é determinante na governação. Nós não vemos mal nenhum nisso. Isso era um tabu à esquerda antes e acho que o eleitorado à esquerda não vê razões para que esse tabu subsista.

– Eu até lhe disse no Debate da Rádio que tinha sido o autor da ideia da geringonça. O Pedro Nuno Santos ficou todo irritado com essa referência. Achou que não era justa.
– Houve vários autores, na verdade. 

– Mas antes ainda de António Costa a formalizar, nessa campanha falou nisso.
– Muito antes da campanha. Falámos disso na campanha das eleições para o Parlamento Europeu. Portanto, que foram mais de um ano antes. Depois António Costa, que veio ao nosso Congresso exatamente um ano antes das eleições, a 5 de Outubro de 2014, referiu-se [a essa solução]. É verdade, e isto tentando entender os dois lados e tentando ser justo e tentando entender até os eleitores de direita que ficaram surpreendidos com a geringonça, não foi um grande tema da campanha. Embora os partidos à esquerda admitissem…

– Houve aquela manchete do Expresso…
– …o único partido que de facto falava disso era o Livre. E eu acho que fomos prejudicados por uma coisa essencial: é que na verdade não havia ainda a palavra geringonça. Nós tentávamos explicar o que é que poderia ser. E explicar em abstrato…

– Aí Paulo Portas ajudou…
– Devia era ter inventado a palavra antes.

– A geringonça se calhar é como Jesus Cristo, teve dois pais. É o Rui Tavares e o António Costa.
– E há um muito importante: que é Cavaco Silva. Porque, na verdade, se Cavaco Silva não tivesse exigido um acordo por escrito, que é uma coisa que eu ainda hoje defendo, não durava tantos tempo. E é por isso que para um governo agora, a partir destas eleições, o acordo deve ser por escrito. 

Rui Tavares assume que o Livre quer ser a IL da esquerda, no sentido de ser um partido novo e refrescante na sua área política que rouba votos ao partido do centro (no seu caso, o PS). Mas, ao mesmo tempo, não deixa de recordar (com saudosismo) a geringonça, defender acordos escritos à esquerda e até, tal como a IL, assumir que quer integrar o Governo. Ou seja: assume que o Livre quer ter ministros num Governo liderado por Pedro Nuno Santos. Claro que, para isso, seria preciso não só Pedro Nuno Santos ganhar, como  haver uma maioria de esquerda (ou que o PSD viabilizasse). É aí que a conversa afunila para uma equação difícil, mas na qual Rui Tavares vê uma resolução parlamentar.

– Tem colocado a tónica, precisamente em atingir uma maioria de esquerda para contrariar a ideia de que o PS tem que ter mais um voto para afastar a direita do poder. A questão é: como é que olhando para as sondagens, consegue ser plausível a tese de que essa maioria de esquerda é possível? Ou seja, parece ser muito mais fácil aquilo que Pedro Nuno Santos quer do que aquilo que Rui Tavares sonha.
– Bem, vamos ser sinceros, neste momento tudo parece difícil na política em Portugal. Se formos honestos, não podemos excluir que continuamos com uma situação de alguma incerteza. O que é importante é conseguir dar governabilidade ao País, através de um apoio parlamentar, que mesmo que não seja uma maioria absoluta, tenha a coerência suficiente para suportar um Governo. Mas também tem que ser outra coisa de que nos temos desabituado: tem que ser no Parlamento. Eu vi um primeiro-ministro, António Costa, com bastante arrogância, governar sem o Parlamento, porque tinha uma maioria absoluta. E agora vejo que Luís Montenegro faz o mesmo e nem maioria absoluta tem. Ora, enquanto não procurarmos, outra vez, um parlamentarismo mais responsável e mais genuíno, que faça o diálogo semanalmente, quotidianamente, até no Parlamento, nós não vamos conseguir tirar Portugal desta sequência de crises. Aliás, para tirar Portugal desta sequência de crises, na verdade, nós vamos ter que dar passos pequenos, seguros, muito responsáveis e, provavelmente, demorados. Não vai ser de um dia para o outro que vamos conseguir a estabilidade e não é com chantagem sobre os eleitores que conseguiremos.

– Acha que Pedro Nuno Santos está convicto que vai contar com o Livre para alguma coisa e que é possível, a partir do dia 18, haver um acordo entre o PS e o Livre, mesmo que não haja uma maioria à esquerda?
– Sendo muito sincero, Pedro Nuno Santos está a tentar preservar as suas opções todas e corre o risco, que normalmente acontece às pessoas que tentam preservar as suas opções todas, de depois não ter nenhuma.

– É o quem tudo quer, tudo perde. É isso?  Manter a reciprocidade da AD, mas ao mesmo tempo garantir que a esquerda não vai embora…
–Creio que é pela incapacidade de fazer uma escolha clara e apresentar essa escolha clara ao eleitorado. Olhamos para a direita e goste ou não goste, a direita tem um pragmatismo, mesmo tendo programas políticos que são mais divergentes, privatiza ou não privatiza a Caixa, privatiza ou não privatiza a RTP, mas dizem muito claramente ao seu eleitorado: nós vamos governar em dupla ou uma dupla é possível. E isso, evidentemente, tem um fator de mobilização sobre o eleitorado da direita que as pessoas ao menos sabem para o que é que vão votar. À esquerda, isto só funcionará quando as pessoas disserem: se nós todos concordamos que Luís Montenegro não é um bom primeiro-ministro para o País e não deve continuar primeiro-ministro, então temos a obrigação moral, além de política, de dizer às pessoas que se quiserem mesmo tirar Luís Montenegro de lá, temos de dar aos eleitores uma alternativa. E eu acho que o problema dos outros partidos à esquerda — é por isso que o Livre fala com esta clareza e lamenta que os outros não falem — é que se as pessoas não apontarem uma direção aos eleitores, depois não se podem queixar de não os conseguir mobilizar.

Rui Tavares avisa Pedro Nuno Santos que, ao manter em aberto a possibilidade de contar com a direita e com a esquerda para lhe suportarem o Governo, corre o risco de acabar sem ninguém para se juntar a ele. Critica ainda o líder do PS por não ser claro a assumir que faria uma dupla PS-Livre, tal como à direita se admite fazer uma dupla PSD-IL. Além disso, define as suas condições para que aceite que os outros partidos se juntem à dupla, com indiretas a PCP e Bloco de Esquerda.

– O Rui tem trocado mensagens com a Mariana Mortágua, com o Pedro Nuno, ou até com o Paulo Raimundo nesta campanha?
– Nós encontramo-nos várias vezes durante os próprios debates e, portanto, falámos de viva voz. Nos últimos dias não têm havido esses contactos, que normalmente estão reservados para o caso de haver alguma coisa que corra mal, algum mal entendido que precise ser esclarecido antes.

– É uma espécie de telefone vermelho, no sentido se calhar até mais literal, porque são todos vermelhos.
– Bem, ele deve funcionar, esse telefone, num momento em que, ainda antes de alguém ir fazer uma declaração à imprensa que gere fogo amigo, poder alertar os outros. Eu, de qualquer forma, na campanha que o Livre tem feito, tenho estado concentrado a dizer isto às pessoas. Neste momento, há duas alternativas de governo: ou é a aliança de Montenegro e da Iniciativa Liberal, aquilo que eu chamo de aliança do montenegrismo e do motosserrismo; ou então há uma alternativa de progressistas e de ecologistas na qual o Livre desempenha um papel determinante.

– E mais quem? O PS, Livre e mais quem?
– Os outros partidos não foram ainda claros ao tipo de papel que poderiam ter. Se é um papel de apoio parlamentar, se é um apoio de assinar um acordo, um programa de governo por escrito. O LIVRE diz que pode ser qualquer uma destas coisas, mas o LIVRE está capaz de desempenhar funções executivas e achamos que esse é um tabu que também precisa de ser quebrado na política portuguesa. Somos parte de uma família política europeia que já desempenhou várias vezes funções executivas em vários países.

– Numa referência que certamente não irritará o Rui Tavares, pelo contrário, como cantaria o José Afonso: “É bem-vindo quem vier por bem”. portanto, por parte do Livre essa coligação pode integrar todos, incluindo o PCP.
– Não, calma lá. Isto faz-se a partir dos conteúdos. Portanto, desde que os partidos estejam de acordo com alguns conteúdos que para nós são essenciais para começar a conversar, e esses, vou repeti-los muito rapidamente porque eu sei que temos pouco tempo. Dois em relação à governação, na verdade: questão ética do primeiro-ministro, não pode ter empresas deste tipo, e ministros e ministras devem vir à audição parlamentar prévia. Não à privatização do SNS, sim a investimento reforçado na educação e na habitação. Jamais abandonar a Ucrânia, e este é um ponto essencial, e aí não sei como é que os outros partidos se posicionarão em relação a ele. E o reconhecimento da independência da Palestina logo nos primeiros tempos de um Governo que o Livre participe ou que o Livre apoie. Para o Livre é muito clara a pertença ao projeto europeu, é muito clara a defesa da democratização da União Europeia. E fazemos parte de uma família política que precisamente dá garantias dessa consistência, pelo menos ao nível da governação, de que ela mantém Portugal não só no coração do projeto europeu, como até desejamos que esteja numa certa liderança e marcação de agenda. Os outros partidos escolherão a modalidade do seu apoio a uma governação progressista.

O líder do Livre repete o caderno de encargos que exigirá a Pedro Nuno Santos caso ele queira ter o apoio do Livre para uma solução governativa. Nesses critérios, Rui Tavares vê caminho para andar com o PS. Mas avisa que não é bar aberto para a restante esquerda. E aí lembra que o apoio à Ucrânia seria fundamental (e parece desconfiar que a CDU não o aceitaria). O Bloco de Esquerda é mais poupado, mas Rui Tavares não deixa de associar os bloquistas a uma família política que não tem tido capacidade de integrar governos (a Esquerda Europeia), por oposição à sua família política (Os Verdes Europeus) que integram ou integraram vários governos europeus.

A terminar a chamada, Rui Tavares considera, numa visão mais de historiador, que o País enfrenta um dos períodos mais desafiantes da sua história em virtude da estabilidade política. Acredita, até, que poderiam existir novas eleições nos próximos meses caso o Presidente da República tivesse esse poder (que só é recuperado, já por outro Presidente, em março de 2026).

–  Rui Tavares, última questão: a papoila em propriedades apoiantes.
– …não esta. Esta é vermelha.

– A questão é se o país está viciado em eleições, ou se o próprio jogo político está viciado, e se daqui a um ano podemos estar novamente em legislativas.
–  Podemos, de facto, estar a viver de… Só não vamos ter eleições nos próximos meses porque estamos no fim do mandato do Presidente e, portanto, há impedimentos constitucionais que poderiam atirar as eleições só para o verão do próximo ano. Mas isso não nos deve deixar descansados. Por exemplo, a possibilidade de ficarmos com um governo em funções de gestão durante um ano ou mais é bastante real. Bastaria que fosse indigitado apenas o primeiro-ministro do partido mais votado e que o programa do Governo fosse rejeitado e que nenhuma outra maioria parlamentar se reforçasse. É isto que, se calhar, mais com o meu olhar de historiador do que de candidato, me faz olhar para estes 50 anos da nossa democracia e perceber a gravidade da situação em que estamos. Comparo-a com outros momentos históricos e não me esqueço que os regimes democráticos às vezes entram em crises profundas das quais é muito difícil sair. Portanto, o sentido de responsabilidade até dia 18 e depois de dia 18 tem que ser enorme, porque nós, para conseguirmos tirar Portugal desta zona de instabilidade, acantonar a extrema-direita e ter o tal parlamentarismo mais responsável, não o vamos conseguir de um momento para o outro. Tem que ser dados vários passos tranquilos, seguros, construtivos. Temos que nos conseguir entender e falar uns com os outros com as nossas diferenças. Claro que se a direita estiver no poder eu farei parte da oposição, mas é uma oposição leal, honesta, sincera, porque, acima de tudo, nós temos que preservar a nossa democracia em momentos em que outras democracias já viram melhores dias.

– Muito obrigado e bom resto de campanha, que ainda exista.
–  Obrigado, boa noite.

Inês Sousa Real. As músicas de Alicia Keys e Beyoncé, os “soundbites” e uma pizza vegana

[Ouça aqui a última chamada da líder do PAN:]

“Temos a oportunidade de reeleger um grupo parlamentar”

– Estou, Inês Sousa Real? É a Inês Capucho, do Observador. Como está?
– Bem, obrigada, Inês. Espero que igualmente bem.

– Bem, obrigada. Começou o dia na Feira de Espinho, ainda esteve em Coimbra, termina o dia em Lisboa. Já está por casa?
– Ainda não. Ainda estamos em viagem, quase a chegar a Lisboa. Mas, de facto, hoje foi um dia muito preenchido entre vários distritos. Contactámos com muitas pessoas, pudemos ouvir também, não só a sua indignação face àquilo que tem sido a governação dos grandes partidos em relação ao país, mas acima de tudo palavras de simpatia e de apoio para com o PAN e para com as causas que representamos. 

– Tem feito várias ações por dia. O cansaço já se faz sentir? E como é que aproveita estas viagens de um lado para o outro?
– Nós aproveitamos as viagens para trabalhar e para, de alguma forma, podermos planear ou ajustar aquilo que vão ser as próximos horas e os próximos dias, porque as campanhas são sempre muito dinâmicas e têm sempre aqui várias dimensões que têm que ser tratadas, quer das confirmações ou até mesmo alterações às vezes de última hora que são necessárias fazer. Aproveitamos também um pouco a viagem para descontrair, para podermos ouvir música e falar um pouco também entre nós. Mas acaba por ser, de facto, um ritmo um pouco diferente do nosso dia a dia, em que andamos não só a ter contacto com vários locais da população e do país, mas também a aproveitar estes momentos para descontrair um pouco daquilo que é o ritmo da campanha. 

– Há alguma música em especial que a acompanhe nesta campanha eleitoral?
– Bom, nós temos uma música do PAN, mas, músicas partidárias à parte, eu gosto muito também de ouvir Alicia Keys, Beyoncé ou até mesmo o Drew [Holcomb] com o “Find Your People”, que no fundo é um pouco também aquilo que andamos a fazer aqui na estrada, que é agregar diferentes preocupações e diferentes pessoas que empatizam com a causa do PAN para que se juntem a nós.

– A opção de regressar a Lisboa é para matar saudades do seu gato, Mikas? Tem tido tempo para ele?
– Também, também. Ou seja, eu evito ao máximo estar muito tempo fora de casa, que é um cuidado que tenho com o Mikas, apesar de que [ele] fica sempre aos cuidados, neste caso, dos meus pais e também dos meus irmãos, que ajudam quando tenho que estar fora. Mas nunca é a mesma coisa do que chegar a casa e tê-lo à porta a receber-me, não é? E poder matar saudades do tempo que não estou com ele. 

– Entrámos na semana final da campanha. É a reta final para alcançar o objetivo de um grupo parlamentar. Está confiante? No ano passado este também era o objetivo do PAN e permaneceu sozinha na Assembleia da República.
– Nós temos, no próximo dia 18 de maio, a oportunidade de reeleger um grupo parlamentar. Em 2024 ficámos a 800 votos de conseguir um grupo parlamentar e eleger um deputado no distrito do Porto. Este ano foi um ano muito desafiante, é muito difícil ser deputada única, apesar de sermos o partido que mais medidas tem aprovado na Assembleia da República nestes dois últimos anos, nestas duas legislaturas diferentes. Isso não significa que não exija também muito trabalho pessoal e muito esforço, do ponto de vista até daquilo que acabamos depois por tirar ao nosso tempo pessoal e à família. Por isso mesmo, para que o PAN e as suas causas tenham mais força no Parlamento, temos sentido muito apoio das pessoas, muito carinho nas ruas, a pedirem precisamente que o PAN esteja na Assembleia da República, mas também a dizerem que nos vão, desta vez, dar um grupo parlamentar. Esperamos de facto [consegui-lo] no próximo dia 18 de maio até porque o país precisa de estabilidade e precisa de garantir que tem as suas causas representadas nos próximos anos no Parlamento, que os portugueses confiem naquele que foi o partido que mais trabalhou, que mais procurou pôr as causas no centro da vida política até distanciando-se daquilo que têm sido não só as ‘tricas’ entre os grandes partidos, mas acima de tudo a instabilidade que os grandes partidos têm provocado ao país. Por isso, partimos com a legitimidade de pedir aos portugueses que nos deem esta confiança de voltar a ter um grupo parlamentar para que possamos fazer mais e melhor pelas causas que estamos a representar no Parlamento e que mais ninguém leva, seja a proteção animal, seja também a defesa do ambiente e do combate às alterações climáticas ou matérias tão fundamentais como combatermos a violência doméstica, garantirmos que as pessoas mais vulneráveis, como os doentes oncológicos, que nem direito a baixa média têm, ou até mesmo o combate à pobreza e o apoio às pessoas em situação de sem-abrigo, para garantirmos que temos um país mais justo, mais sustentável, quer espacial, quer ambientalmente. 

Nas legislativas de 2024, o PAN angariou um maior número de votos. Mas isso não se traduziu num aumento de mandatos e Inês Sousa Real continuou sozinha na Assembleia da República. Um ano depois, o partido volta a ter o mesmo objetivo: recuperar o grupo parlamentar que perdeu em 2022. Durante a conversa com o Observador, antes de a chamada cair devido a um engano, a porta-voz do PAN não escondeu que é “muito difícil” ser deputada única e que “houve muitos obstáculos”. Destacando uma vez que o PAN foi “o partido que mais aprovou medidas”, assumiu que isso “não significa que não haja um grande esforço pessoal”.

– Falou sobre “tricas” dos grandes partidos. Na Feira de Espinho, ao ser questionada sobre se tivesse numa rua a AD e na outra o PS com qual preferia cruzar-se, disse que o PAN vai “em frente”. Pergunto-lhe, o que é que está em frente?
– Acima de tudo são as preocupações dos portugueses e as causas que os portugueses querem ver discutidas na Assembleia da República. Ao longo destes dias tem sido um traço comum daquilo que temos ouvido nas ruas, a insatisfação e a indignação. As pessoas estão zangadas com os grandes partidos por conta da instabilidade política com que têm, de alguma forma, condicionado aquilo que são as reformas necessárias para o país, aquilo que são as execuções até dos fundos comunitários para que o país possa tornar-se mais competitivo do ponto de vista económico, do ponto de vista da transição energética e climática. Por isso mesmo, sabemos que as pessoas precisam de ter um partido que seja um contraponto, como é o caso do PAN, que tem de facto dado prioridade àquilo que são não só os valores que representamos no Parlamento, mas acima de tudo as preocupações das pessoas. Porque nós, no Parlamento, não nos podemos esquecer que as pessoas elegem-nos, não para estarmos a ver quem é que tem o melhor soundbite, mas sim para trabalharmos em prol daquilo que são as suas legítimas preocupações, que são os seus valores e que é o superior interesse também do país. 

Na segunda-feira, dia 13 de maio, todos os caminhos pareciam dar à Feira de Espinho. Além do PAN, também o PS e AD visitam o local, bem como elementos do Chega, do ADN e do PPM (incluindo Gonçalo da Câmara Pereira). Na terra de Luís Montenegro, Inês Sousa Real apelou ao voto e lembrou que o PAN já deixou “bem claras as diferenças” que tem tanto com a AD, “que fez recuos significativos na causa animal”, como com o Partido Socialista. E acusou os dois partidos de ignoraram “aquilo que é um dos maiores flagelos do nosso país, a violência doméstica”.

– Ao longo dos últimos dias já aconselhou silêncio a Marcelo Rebelo de Sousa e também garantiu que o PAN não vai viabilizar qualquer solução de governo que inclua o Chega. É caso para dizer, e faço-lhe aqui uma provocação, que está a colocar as garras de fora?
– (Ri-se) Bom, não seria isso, de todo, até porque respeito muito a figura institucional que é o Presidente da República. Essa questão tinha um contexto muito concreto, que era poder ser interpretado o conselho de Marcelo Rebelo de Sousa com estar a apelar ao voto útil na AD, e tendo em conta que Marcelo Rebelo de Sousa é o Presidente de todos os portugueses, o meu apelo é que neste caso não houvesse uma interferência na campanha eleitoral, precisamente porque os portugueses neste tempo o que precisam é de votar de forma útil nas causas em que acreditam e não em partidos que têm provocado esta instabilidade no país. No que diz respeito ao Chega, o PAN tem sido sempre muito claro desde o primeiro momento, nós não alinhamos com partidos que põem em causa a democracia, que põem em causa valores humanos fundamentais, como a não discriminação e até mesmo a igualdade, que são a favor das touradas, mas que se dizem, se for preciso, muito amigos dos animais, de forma completamente antagónica, e que também são negacionistas do clima. Sabemos que o Chega teve, não uma, mas 50 oportunidades — com um grupo parlamentar de 50 deputados — de não faltar ao país e, no entanto, só provocaram instabilidade no Parlamento. Tiveram muitas oportunidades de votar ao lado de propostas fundamentais para os portugueses e não o fizeram. Temos a consciência que, mesmo sendo uma deputada, trabalhei mais do que os 50 deputados do Chega e que, inclusivamente, temos sido o partido que tem conseguido aprovar medidas muito diferentes para a vida das pessoas, como os 79 euros para as pessoas com deficiência, em termos de majoração do abono que recebem, as vítimas de violência doméstica poderem aceder ao Porta 65 para a habitação, a maior verba de sempre para a causa animal (de 14,5 milhões de euros) ou até mesmo a moratória para o fim da mineração em mar profundo, garantindo uma maior proteção ambiental também naquilo que é a dimensão marinha. Por isso mesmo, o PAN parte com a legitimidade de, por um lado, dar a conhecer aquilo que tem sido o nosso trabalho, o nosso compromisso sério com as causas dos portugueses, e por outro pedirmos não só o grupo parlamentar mas também podermos, de alguma forma, não deixar passar aquilo que tem sido uma tentativa de branquear uma certa imagem ou uma normalização do Chega. Porque o pior que poderia acontecer ao país era termos um recuo de 50 anos de democracia ou termos um partido como o Chega a ter qualquer tipo de poder decisório na governação e nos destinos do país. 

Neste momento da chamada, Inês Sousa Real lembra o momento em que, no Porto e ainda durante a primeira semana de campanha, aconselhou o Presidente da República a “remeter-se ao silêncio” e disse esperar que este não estivesse a apelar ao voto útil na AD. As declarações surgiram depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter afirmado estar “à vontade para nomear um Governo tendo a certeza que o Governo não é rejeitado imediatamente” e que “não está à vontade para o nomear não tendo essa certeza”.

Dias antes, também no distrito do Porto e após a visita a duas associações de proteção animal, o Cantinho dos Tarecos e a CãoViver, o PAN mostrou-se disponível para dialogar com a esquerda e com a direita (como, aliás, tem vindo a fazer). Mas deixou uma garantia, que visa o Chega: “Que fique claro que o PAN jamais viabilizará uma solução governativa que inclua um partido que para além de ter uma agenda de extrema-direita, uma agenda de discriminação, xenofobia e racismo, tem enganado os portugueses. Tem capturado o sentimento de indignação e de insatisfação dos portugueses para seu proveito eleitoral.”

– Uma das iniciativas que o PAN defende são as segundas-feiras sem carne nas instituições públicas, como os estabelecimentos de ensino e o Parlamento. Porque ao dia em que esta chamada está a ser gravada é segunda-feira, o que é que almoçou e o que é que vai jantar?
– (Ri-se) Por acaso, como estamos aqui na estrada, o almoço hoje não foi muito saudável, foi pizza vegana, porque, efetivamente, acabámos as ações muito tarde e, como tal, acabámos por não ter grandes alternativas. Chegando a Lisboa, espero poder finalmente comer uma refeição mais confortável em casa, ainda irei eu fazer. Estava a pensar fazer aqui uma carbonara vegetariana, que é rápido, utilizando a soja, a proteína da soja, ou até mesmo tofu desfeito. Espero ter aqui um bocadinho de tempo para cozinhar e desconectar-me um bocadinho da campanha e aproveitar também para rever algumas coisas do que tenho para fazer por casa.

– E nestes dias estão atarefados com quem costuma ter a última chamada do dia? 
Normalmente com a minha mãe, até mesmo para saber se está tudo bem, sobretudo quando estou na estrada, seja para ter também notícias do Mikas. Portanto, falo sempre com os meus pais e procuro saber se estão todos bem, porque apesar da distância — estão sempre à distância de um telefonema — procuro saber sempre o que é que está bem com eles ou não. 

– Muito obrigada por esta chamada, Inês, e um bom descanso.
– Obrigada também, Inês. Igualmente, obrigada.