Bianca Fraccalvieri prefere nem pensar muito no nervosismo que sente. Na manhã de sábado, durante a missa do funeral do Papa Francisco, no Vaticano, vai subir ao púlpito durante breves segundos para ler, em português, uma das preces da oração universal, habitualmente recitada em várias línguas. Tem o texto no telemóvel e ensaia a frase que terá de dizer: “Pelos povos de todas as nações, que praticando incansavelmente a justiça, possam estar sempre unidos no amor fraterno e busquem incessantemente o caminho da paz.”
Está especialmente nervosa com os dois advérbios de modo consecutivos: incansavelmente, incessantemente. “Falei certo ou errei?”, pergunta a jornalista brasileira, de 46 anos, em conversa com o Observador, numa das ruas adjacentes ao Vaticano, enquanto milhares de fiéis continuam em longas filas para entrar na Basílica de São Pedro para o último dia do velório do Papa Francisco. Bianca trabalha há mais de duas décadas na Rádio Vaticano, dedicando-se especialmente ao programa brasileiro e à gestão das redes sociais em língua portuguesa do portal de notícias do Vaticano.
Na última segunda-feira, o dia em que o Papa Francisco morreu aos 88 anos, vítima de um AVC, Bianca estava de turno na rádio. “Já tinha trabalhado sábado e domingo, já tinha feito a Páscoa, e estava também de plantão na segunda. Era uma segunda normal, quase deserta, porque é feriado no Vaticano e na Itália”, conta Bianca ao Observador. “Estávamos, na ocasião, só duas colegas, eu e uma colega, e o terceiro colega estava chegando. De repente, o coordenador diz: ‘Vai ter um anúncio da Casa de Santa Marta, um anúncio da Casa de Santa Marta, tem de correr para a cabina’.”
▲ Bianca, brasileira de ascendência italiana, trabalha há mais de duas décadas na Rádio Vaticano
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O primeiro pensamento que passou pela cabeça de Bianca foi o de que Francisco tinha renunciado. “Achei, sinceramente, que ele fosse pedir a demissão. Mas não deu nem tempo de chegar na cabina e veio o anúncio: o Papa morreu. O nosso mundo desabou”, lembra. Mas “a adrenalina subiu” e, nesse dia, “nem deu tempo de chorar”. Bianca trabalhou “o tempo inteiro” daquela segunda-feira.
Para um funcionário do Vaticano, aquele era um momento de óbvio sentimento de perda. Para Bianca, ainda mais. Não desaparecia apenas um Papa: desaparecia o Papa que foi decisivo no seu próprio processo de conversão.
Nascida no Brasil filha de um italiano, Bianca Fraccalvieri já tinha vivido em Roma durante a infância e, durante a juventude, sempre acalentou “o desejo de morar em Roma”. Assim que terminou o curso de Jornalismo, no Brasil, mudou-se para Itália, para fazer um mestrado em Filosofia na Universidade Gregoriana, a universidade pontifícia dos jesuítas. “Sempre fui apaixonada por esta cidade”, conta ao Observador, lembrando que a sua vontade de ficar em Roma a levou a aproveitar uma oportunidade para estagiar na Rádio Vaticano. “Fiz o estágio e acabei ficando”, explica. Depois disso, ainda teve algumas idas e vindas, concretamente quando teve um filho, até se fixar definitivamente em Roma em 2008, como funcionária da Rádio Vaticano (a que entretanto se juntou o portal digital Vatican News).
Perguntamos se é óbvio depreender que, por ser funcionária do Vaticano, é católica: “Tornei-me mais aqui”, responde. “Foi um processo de conversão que vivi aqui em Roma. Depois, com o Papa Francisco, é impossível não se apaixonar.” Francisco, diz Bianca, “foi maravilhoso”, teve “doze anos de pontificado super intensos” e “enalteceu a figura feminina”.
O Papa argentino foi, portanto, decisivo para que Bianca consolidasse a sua fé. “Mais do que a conversão para a fé, é uma conversão de vida que o Papa nos ensina”, acredita a jornalista. “Ensina-nos esse modo de se relacionar de maneira mais respeitosa, mais amorosa, mais cuidadosa, não só entre nós, mas também em relação ao meio ambiente. É um pontificado didático de conversão de vida.”
Morreu o Papa Francisco. Do funeral ao conclave, o que acontece agora?
Na rádio, em papel e no digital, os meios de comunicação do Vaticano estão disponíveis em múltiplas línguas. Por essa razão, é ao Vatican News e à Rádio Vaticano que os responsáveis da liturgia do Vaticano recorrem quando necessitam de leitores em várias línguas para as celebrações. Bianca Fraccalvieri, na verdade, não é uma estreante nesta matéria. “Estou na lista dos leitores de língua portuguesa para as audiências gerais”, explica. “Toda a vez que há uma missa, os cerimoniários consultam a Rádio Vaticano, pedindo um leitor em português e a gente indica.”
“Desta vez, foi a mesma coisa”, lembra, explicando que os cerimoniários pediram explicitamente “uma voz feminina” para a prece em português. “O nosso coordenador falou assim: quem se candidata? Eu!”
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De acordo com o missal já disponibilizado pelo Vaticano para a missa exequial do Papa Francisco, o momento da oração universal — um conjunto de preces recitadas após a homilia do cardeal italiano Giovanni Battista Re (a quem, como decano do colégio cardinalício, compete presidir ao funeral do Papa) — terá um total de seis orações: a primeira, pelo Papa defunto, em francês; a segunda, pela Igreja, em árabe; a terceira, pelos povos de todas as nações, em português; a quarta, pela alma de todos os Papas e sacerdotes mortos, em polaco; a quinta, por todos os fiéis defuntos, em alemão; e a sexta, por todos os fiéis presentes na celebração, em chinês. Bianca Fraccalvieri será, por isso, a terceira a subir ao púlpito durante a oração.
Uma multidão em silêncio no velório de Francisco. Horas na fila para breves segundos junto ao Papa
Todos os detalhes da celebração são ensaiados ao pormenor. Na manhã desta sexta-feira, Bianca, os outros leitores e todos os cerimoniários envolvidos na missa fúnebre estiveram na Praça de São Pedro, onde ainda decorrem os últimos preparativos logísticos para a celebração, com o arcebispo italiano Diego Ravelli, o mestre das celebrações litúrgicas pontifícias, para ensaiar não só as leituras, mas cada passo que é dado na zona do altar. “Temos sempre um ensaio. Antes de toda a missa tem ensaio”, explica Bianca.
Ao longo dos últimos anos, a jornalista desenvolveu uma relação de grande afeto com o Papa Francisco, em grande parte devido à participação como leitora de língua portuguesa em celebrações e audiências. “Tivemos esse contacto mais próximo, justamente porque ele queria um contacto mais próximo com as pessoas. De facto, encontrámo-nos com ele várias vezes”, conta, lembrando que em todas as audiências gerais os leitores das diferentes línguas tinham oportunidade de saudar pessoalmente o Papa. “Nos sínodos, quando tinha a pausa do café, ele ficava com a gente.”
Por isso, apesar de esta ser uma semana de grande trabalho para Bianca (que conversou com o Observador minutos antes de fazer uma transmissão em direto na Praça de São Pedro para as redes sociais do Vatican News), é também uma semana de vivência espiritual para a jornalista. Como funcionária do Vaticano, teve a oportunidade de visitar o corpo do Papa Francisco na capela da Casa de Santa Marta, na terça-feira, ainda antes da trasladação para a Basílica de São Pedro.
“É estranho vê-lo daquele jeito. É como se não fosse ele, na verdade”, conta, assumindo-se como privilegiada por ter estado naquele momento de maior intimidade, antes da transferência do corpo para a basílica. “Era a casa dele. Era a capela onde ele fez homilias magníficas. Foi um momento de recolhimento, foi muito especial.” Esta sexta-feira, Bianca quis ver o Papa uma última vez e, por isso, meteu-se na fila para o velório público, na Basílica de São Pedro. “Mandei mais dois beijos para ele.”
Bianca, que não teve tempo para chorar no dia em que o Papa morreu, entende que este não é um tempo de tristeza. “Mais do que triste, estou muito grata. Foi um pontificado muito maravilhoso. Eu não consegui ficar assim triste. Não fiquei feliz, mas fiquei grata por ele ter dado este pontificado tão lindo, tão rico para a Igreja”, diz.
Quando, no sábado, Bianca subir ao púlpito na Praça de São Pedro para ler uma curta prece em português, será o momento para encerrar um ciclo que foi perfeito. “Acompanhei tudo, a eleição dele, fiz viagens com ele, fui para a Bolívia, fui para o Cairo, fui para a Tailândia, fui para Myanmar. Tivemos um contacto. Para mim, é como encerrar esse ciclo, que foi perfeito, que foi maravilhoso”, conta a jornalista brasileira. “Para mim, é um privilégio ler na nossa língua portuguesa, a língua em que a gente professa a nossa fé, mas que neste momento é também a língua na qual a gente expressa o nosso amor pelo Papa.”
“Estou-me sentindo muito privilegiada, muito feliz”, conclui. “É como a chave de ouro para encerrar este pontificado que, para mim, foi assim magnífico.”
▲ Bianca Fraccalvieri vai ler uma oração em português durante o funeral do Papa Francisco, este sábado, no Vaticano
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR