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Oitenta e quatro por cento. O resultado dá margem para poucas dúvidas. Os membros do Partido Social-Democrata (SPD, sigla em alemão) votaram unanimemente a favor de um governo de bloco central na Alemanha. A força partidária, que é da mesma família política europeia do PS português, viabilizou, esta quarta-feira, o acordo com a União Democrata-Cristã (CDU) e o partido irmão na Baviera (a União Social-Cristã, CSU), as duas forças de centro-direita que venceram as eleições federais há dois meses. A luz verde para a tomada de posse de Friedrich Merz como novo chanceler, na próxima terça-feira, está dada — e as prioridades estão bem definidas.
No centro das prioridades de Friedrich Merz está o conturbado contexto geopolítico. O chanceler eleito da Alemanha já deu sinais de que vai dar grande importância à questão externa com dois focos: a guerra na Ucrânia e a prossecução de uma maior autonomia estratégica da União Europeia (UE) face aos Estados Unidos da América (EUA). Para desempenhar essa função e chefiar a diplomacia alemã, entre as fileiras democrata-cristãs a escolha recaiu no experiente Johann Wadephul.
Tenente-coronel na reserva, Johann Wadephul é deputado há quase duas décadas e sempre foi bastante próximo de Friedrich Merz. O futuro chefe da diplomacia germânica partilha com o chanceler eleito um posição bastante dura contra a Rússia. Numa entrevista, descreveu o Presidente russo, Vladimir Putin, como um homem “disruptivo, agressivo e faminto”, prometendo uma ajuda irrestrita à Ucrânia. “Deve ficar claro para toda a gente, especialmente para Vladimir Putin, que vamos apoiar a Ucrânia. Vamos apoiar a Ucrânia e vamos oferecer à Ucrânia a oportunidade de estar ao mesmo nível do que a Rússia.”
In an exclusive DW interview, Germany’s new Foreign Minister designate, Johann Wadephul, pledged continued support for Ukraine and stressed strong transatlantic ties against Russia. Watch here: https://t.co/7dhrKCZR0s pic.twitter.com/ddTu5ah0lM
— DW Politics (@dw_politics) April 29, 2025
A surpresa nos Negócios Estrangeiros e o SPD com pastas importantes
Há algo surpreendente na formação deste governo alemão, cujos nomes ainda não são completamente conhecidos — os sociais-democratas ainda vão publicar na íntegra os seus nomes nos próximos dias, se bem que já tenham divulgado que o co-presidente do SPD, Lars Klingbeil, será vice-chanceler e ministro das Finanças (uma das pastas mais importantes). Os partidos de centro-direita já revelaram as suas escolhas e, pela primeira vez desde os anos 60, é um ministro da CDU a liderar o Ministério dos Negócios Estrangeiros, tutela que costuma ser chefiada pelo partido menos votado de uma coligação.
Apesar de o chefe da diplomacia vir da CDU, o ministro da Defesa será do SPD. Numa altura em que a Alemanha se está a rearmar e em que se chegou a um acordo para o fim da travão da dívida que permitiu um investimento massivo em armamento, o rosto que ocupar aquela pasta também terá um papel fundamental a desempenhar. Tudo indica que o social-democrata Boris Pistorius se manterá à frente deste Ministério, por ser uma figura consensual e um político relativamente popular na Alemanha. Mas ainda não há certezas.
Mesmo tendo ficado em terceiro lugar nas eleições federais — teve uma diferença de doze pontos face ao centro-direita —, o SPD conseguiu ficar com pastas bastantes importantes: as Finanças, a Defesa, o Trabalho, o Ambiente e a Justiça. A CDU preferiu ficar com os Negócios Estrangeiros, os Assuntos Económicos e Energia, a Educação, a Saúde e os Transportes, concedendo à CSU o Ministério da Administração Interna. Os democratas-cristãos criaram ainda o Ministério da Digitalização, atribuindo-o a um independente fora dos circuitos políticos: o diretor-executivo da empresa de venda de produtos eletrónicos MediaMarkt, Karsten Wildberger.
▲ Lars Klingbeil será o vice-chanceler e ministro das Finanças
CLEMENS BILAN/EPA
Estas escolhas refletem as principais prioridades dos partidos. Como analisa o jornal Frankfurter Allgemeine, Friedrich Merz transformou o governo num “Conselho de Segurança Nacional”. “Trouxe de volta o Ministério dos Negócios Estrangeiros à CDU depois de seis décadas. Claramente quer converter–se num chanceler que estabilizará o papel da Alemanha na Europa e, por arrasto, o papel da Europa no momento tenso que a política global está a atravessar.”
Ficando com pastas à partida menos importantes, os democratas-cristãos assumem que o foco será a política externa. A única exceção — mas que foi confiada ao partido irmão da Baviera — foi o das migrações. A CSU será a responsável pela gestão das políticas migratórias nos próximos tempos — um tópico que merece grande atenção mediática no país e que é uma das bandeiras eleitorais do Alternativa para a Alemanha (AfD), o partido de extrema-direita que ficou em segundo lugar.
A questão migratória também demonstra as cedências que o SPD teve de fazer — e as suas prioridades neste executivo. Os sociais-democratas não escondem que têm uma posição menos dura na imigração do que o centro-direita, que elevou o tom durante a campanha eleitoral. Porém, o foco do partido de centro-esquerda é agora a economia e o bem-estar social, como escreve a Reuters. O aumento do salário mínimo, o investimento em infraestruturas e o teto das rendas são os temas que mais preocupam a atual direção do SPD — e a imigração foi um tópico de que prescindiram.
Daí que o SPD tenha ficado com a pasta das Finanças. Os próximos Orçamentos do Estado terão naturalmente uma forte marca dos sociais-democratas e terão de levar em consideração o investimento em armamento — e faz sentido, assim, que o centro-esquerda também tenha ficado com a tutela da Defesa. Para um partido que ficou em terceiro lugar e obteve um dos piores resultados de sempre, a responsabilidade é grande; mas também pode ser um presente envenenado dos democratas-cristãos, que podem atirar as responsabilidades para o SPD caso o panorama económico não for favorável nos próximos anos.
O que se pode esperar do chanceler Merz?
Um chanceler virado para a questão externa foi o que se vislumbrou esta segunda-feira na apresentação dos sete ministros da CDU e dos três da CSU. Durante um discurso em Berlim, Friedrich Merz enfatizou que a Alemanha “está mais uma vez capaz de chefiar desde o centro político, está capaz de agir, está capaz outra vez de governar”. “Queremos aceitar essa missão”, realçou o líder da CDU, mostrando a sua vontade de assumir um papel de destaque na Europa.
O regresso de Donald Trump à Casa Branca é a justificação de Friedrich Merz para esta tarefa que a Alemanha deve desempenhar na nova ordem internacional. “Desde pelo menos o início do ano, percebemos que não podemos ter a certeza de uma relação transatlântica baseada no espírito da liberdade e baseada em regras”, lamentou o chanceler eleito.
▲ Merz olha para desconfiança para Trump e vê em Putin um inimigo
HANNIBAL HANSCHKE/EPA
“Não é tempo de euforias”, declarou também Friedrich Merz, explicando que os pilares que sustentaram a Europa nas últimas décadas “estão a colapsar”. “A confiança da democracia está cada vez mais débil. A nossa economia está mais fraca. A Europa está sob ameaça desde o exterior por uma guerra imperialista e autoritária a leste e também por cidadãos radicalizados dentro das suas fronteiras”, diagnosticou o chanceler eleito.
Assim sendo, o objetivo é contrariar estas tendências. Para começar, o líder da CDU considera que a Alemanha deve apoiar incondicionalmente a Ucrânia na guerra contra a Rússia, um conflito que indicou que não é apenas “contra a integridade territorial de um país”: “É uma guerra dirigida contra a totalidade da ordem política do continente europeu”. Apoiar o esforço de guerra ucraniano é, por conseguinte, uma “luta pela preservação da paz e da liberdade no nosso país”, defendeu Friedrich Merz, que, no mesmo discurso desta segunda-feira, acusou a Rússia de “desestabilizar” as democracias europeias.
O cartão de visita está dado. O chanceler eleito olha com muita desconfiança para a administração Trump, vê em Vladimir Putin um inimigo a derrotar no campo de batalha na Ucrânia e quer recuperar o poderio militar europeu. Para isso, vai contar com o seu aliado, Johann Wadephul. Em várias ocasiões, o novo ministro dos Negócios Estrangeiros já fez questão de apoiar as posições de Friedrich Merz.
▲ Johann Wadephul oficializado como ministro dos Negócios Estrangeiros esta segunda-feira por Friedrich Merz
Photothek via Getty Images
O ministro que se inscreveu no exército para “defender a liberdade” contra a “opressão” da Alemanha de Leste
Deputado desde 2009, Johann Wadephul acumulou experiência no grupo parlamentar da CDU, no qual geria essencialmente os assuntos de política externa. “O meu foco principal são as relações transatlânticas e a NATO, relações com a China e a Rússia, assim como os Balcãs e o Médio Oriente”, escreveu no seu site oficial. O chefe da diplomacia terá agora oportunidade de colocar em prática o que defende — transformar diplomaticamente, como quer o chanceler eleito, a Alemanha numa “potência média líder”, em vez de uma “potência média adormecida”.
A própria história de vida do chefe da diplomacia eleito ajuda a explicar as suas posições políticas. Como explicou numa entrevista ao jornal Frankfurter Allgemeine, Johann Wadephul “tinha familiares que viviam na República Democrática Alemã [RDA]”. “Por isso, vi de perto a brutalidade e a opressão da RDA. Foi mais fácil para mim defender a liberdade”, lembrou o democrata-cristão, acrescentando que se juntou ao exército por causa disso.
Mesmo com todos os riscos que a União Soviética acarretava para a Alemanha Ocidental, Johann Wadephul considera que o Presidente russo é mais perigoso do que os líderes soviéticos. “Está pronto para atacar”, denunciou o responsável na mesma entrevista, sugerindo que Vladimir Putin pode querer assumir uma posição hegemónica em toda a Europa Central e de Leste: “[Putin] disse explicitamente que a maior catástrofe do século XX foi o colapso da União Soviética. Qualquer pessoa que diga isso e aja como agiu na Moldávia, na Geórgia, na Ucrânia e com os ataques híbridos contra os estados da NATO deve ser considerado alguém que procura essa hegemonia na Europa Central e de Leste”.
Johann Wadephul vai, tal como o chanceler eleito, interpretar a Rússia como a maior inimiga da Alemanha e da União Europeia. Ao mesmo tempo, também não tem gostado de alguns “comportamentos e argumentos” da administração Trump: “São perturbadores e não correspondem à forma como os aliados e amigos se comportam”. Por exemplo, em relação à discussão na Sala Oval entre Volodymyr Zelensky, JD Vance e Donald Trump, o chefe da diplomacia alemã que tomará posse a 6 de maio descreveu o sucedido como “chocante, tanto emocional, como intelectualmente”.
Além da Rússia, Johann Wadephul também adota posicionamentos bastante críticos contra a China. E é neste tópico que vê uma convergência com os Estados Unidos. “Os EUA apoiam a NATO”, acredita o chefe da diplomacia alemã eleito, sublinhando que isso é “do melhor interesse” de Washington. “Em última análise, os Estados Unidos vão entender que só vencerão o conflito contra a China e a sua aliada a Rússia juntamente com a Europa”, argumentou.
Apesar disso, o democrata-cristão não tem gostado da forma como a administração Trump está a gerir as negociações de paz na Ucrânia. Contrariando um possível abandono norte-americano de Kiev, a Alemanha poderá dar luz verde ao envio dos mísseis de longo alcance Taurus para a Ucrânia — um equipamento que poderia reforçar as capacidades militares ucranianas, podendo atingir alvos a 500 quilómetros de distância. Apesar de se ter moderado na campanha eleitoral, Friedrich Merz voltou a admitir essa hipótese nos últimos dias. Johann Wadephul apoia igualmente o envio do armamento, que foi contrariada nos últimos três anos pelo ainda chanceler Olaf Scholz. “Usar Taurus pode ser uma alavanca para uma mudança da política da Rússia”, frisou o novo ministro.
▲ Envio de mísseis de longo alcance Taurus pode alterar as dinâmicas no campo de batalha a favor da Ucrânia
Getty Images
No atual contexto geopolítico, Friedrich Merz pretende uma União Europeia mais forte, não tão dependente dos Estados Unidos, e uma Ucrânia que não saia humilhada num acordo de paz desfavorável. Confiando as finanças ao SPD, esse será o foco do chanceler eleito. Conta, para isso, com a experiência do seu aliado de longa data e com o apoio tácito dos sociais-democratas alemães. Depois do estilo pouco confrontacional de Olaf Scholz, o chanceler eleito alemão promete reverter essa tendência — e olha para a Rússia como uma verdadeira inimiga e para os EUA com muita apreensão.