1246,2kWh poupados 1246,2 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Miguel Esteves Cardoso assina textos em jornais há precisamente 50 anos, onde ganhou estatuto de tradutor e pensador incansável do quotidiano, cultivando uma voz simultaneamente íntima e provocadora, divertida e profundamente lúcida
i

▲Miguel Esteves Cardoso assina textos em jornais há precisamente 50 anos, onde ganhou estatuto de tradutor e pensador incansável do quotidiano, cultivando uma voz simultaneamente íntima e provocadora, divertida e profundamente lúcida

©Reinaldo Rodrigues / Global Imagens

▲Miguel Esteves Cardoso assina textos em jornais há precisamente 50 anos, onde ganhou estatuto de tradutor e pensador incansável do quotidiano, cultivando uma voz simultaneamente íntima e provocadora, divertida e profundamente lúcida

©Reinaldo Rodrigues / Global Imagens

Miguel Esteves Cardoso: “Presidente da República? Queria que fosse o Paulo Portas, mas ele ainda não disse nada, pois não?”

Um novo livro revela a matriz de um jovem intelectual a inventar-se: culto, íntimo, mordaz. Entrevista a Miguel Esteves Cardoso sobre literatura, saudade e política — a do passado e a do presente.

    Índice

    Índice

Tinha acabado de completar vinte anos. Vivia-se o pós-25 de Abril e Miguel Esteves Cardoso aterrava em Inglaterra para estudar Estudos Políticos. Para combater uma “solidão terrível”, escrevia quase todos os dias ao melhor amigo que deixara em Lisboa. Durante quatro anos, nem a falta de resposta o impediu de continuar a escrever cartas, uma atrás da outra.

Inéditos durante meio século, os textos que Miguel Esteves Cardoso endereçou a Carlos Vilela revelam-se agora em Cartas à Vila Berta (Bertrand Editora). Mais do que curiosidade literária ou princípio de autobiografia, a compilação de missivas é uma viagem às origens da marca M.E.C., um vislumbre sobre a mistura de erudição, cultura pop e humor desbragado que viria a influenciar uma geração inteira de escritores, humoristas e jornalistas, que se reclamam herdeiros da escrita desempoeirada e cheia de graça que já se adivinha nas linhas escritas por um jovem conservador desterrado em Manchester.

“Quantos jovens de 20 anos escrevem sobre o que lhes vai na alma?”, pergunta agora o escritor, confrontado com a sua então evidente obsessão com a foleirice, opiniões políticas controversas (de Salazar a Mussolini), uma ignorância típica da juventude e até algum (para não dizer muito) show-off. “Se tivesse ficado em Portugal nunca tinha escrito aquilo”, confessa. Foi a solidão que o levou “a escrever cartas em vez de viver”, diz ao Observador, por telefone, a partir de Almoçageme, aldeia perto de Colares, Sintra, numa conversa que foi da vida no campo ao elogio à cidade, da comicidade e perigo de Salazar até ao desejo para o próximo Presidente de República (“Gostava que fosse o Paulo Portas”, admite), passando pela irrefreável paixão por Portugal que o assomou desde que foi para terras inglesas. “Pensava que era uma pessoa do mundo, queria ir para Nova Iorque, Paris, mas em Manchester tive uma conversão física e percebi que era portuguesíssimo”.

Miguel Esteves Cardoso, que assina textos em jornais há precisamente 50 anos, onde ganhou estatuto de tradutor e pensador incansável do quotidiano, cultivando uma voz simultaneamente íntima e provocadora, divertida e profundamente lúcida, fala e pensa rápido, sem hesitações. “Tenho fracassos enormes da minha vida”, atira a dada altura. Menciona os jornais e revistas que acabaram, as duas candidaturas ao Parlamento Europeu que não o levaram a Estrasburgo, e até os críticos que dizem que “dantes é que o M.E.C. era bom”. Mas, para esses, Esteves Cardoso tem uma resposta. É um livro de 364 páginas, um diário dos seus vinte anos. “Ai, queres novo? Toma lá o novo.”

▲ Capa do livro "Cartas para a Vila Berta", de Miguel Esteves Cardoso (Bertrand Editora)

Onde estiveram estas cartas este tempo todo? 
Tinha as cópias em papel químico. Vivi em Portugal toda a minha vida e depois, de repente, fui para Inglaterra estudar. Aqui tinha uma vida completa, alegre e, de repente, vi-me lá pobre e sem dinheiro, mas com a minha máquina de escrever. Dantes só escrevia programas de rádio e poemas, mas porque estava muito solitário, não tinha os meus amigos… De repente, fico sozinho no norte de Inglaterra, não conhecia ninguém, não tinha ninguém com quem falar português. Comecei a escrever as cartas ao Vilela, que era o meu melhor amigo.

[Já saiu o quinto episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto episódio]

E ficou com uma cópia das cartas.
Ficava com o papel químico, ficava com uma cópia. Porque orgulhava-me daquilo que escrevia também. Punha-me bastante naquelas cartas. Estava a escrever prosa pela primeira vez na vida. Punha o papel químico e guardei as cartas, ficou tudo numa pasta durante muitos anos. O Vilela ainda por cima não respondia às cartas, e eu continuava a escrever. Estiveram sempre numa pasta. Depois, muitos anos mais tarde, parece quase História agora, fui viver para o Estoril com uns amigos, houve alguém que saiu daquela casa e entrou o Pedro Paixão. Sabe quem é o Pedro Paixão?

Claro [escritor e amigo de Miguel Esteves Cardoso].
Ele é que pegou nessas cartas, andou a ver as coisas todas que havia lá em casa, começou a ler e ficou fascinado. “Ah, isto é muito bom…” Nunca mais tinha pensado naquilo. Para mim eram só cópias de cartas, cópias de cartas escritas ao Vilela. Foi a primeira vez que alguém disse que as leu. A primeira vez que alguém leu, porque também não sei se o Vilela as leu.

Isso foi quando?
Deve ter sido em 1989, 1990. E a partir daí, pronto, fiquei com a ideia de “se calhar está lá qualquer coisa”. Foi a primeira vez que escrevi prosa. Quando reli agora mesmo percebi também que pela primeira vez estava a contar qualquer coisa. Porque estava completamente sozinho, não tinha ninguém com quem falar português, não tinha amigos, não tinha nada. Não tinha paisagem, não tinha dinheiro. Percebi que Portugal era a coisa mais bonita, tive uma conversão terrível. Como a minha mãe é inglesa, eu lia imensos livros ingleses e lia poucos livros portugueses. Pensava que era uma pessoa do mundo, queria ir para Nova Iorque, Paris… Mas em Manchester tive uma conversão física e percebi que era portuguesíssimo. Tive imensas saudades. Foi mesmo uma conversão física, ao passar em frente de umas portas lá na universidade ouvi português. Não ouvia português há seis ou sete meses, porque não havia internet, não havia nada, não conseguia apanhar a rádio. Era um silêncio… Ouvi alguém: “Amanhã tenho que ir com o guarda-chuva porque vai chover”. Comecei a chorar. Quase que me esqueci de falar inglês, bolas. Durante 15 dias. Foi uma coisa terrível. Percebi que Portugal era o meu país, como era lindo, desprezado e esquecido, essas coisas todas.

Diz que punha muito de si nas cartas, mas nos primeiros textos que escreveu em jornais, pouco depois, assumiu sempre o ponto de vista de espectador, tanto nas críticas musicais e de cinema, mas também nas crónicas no Expresso, no início dos anos 80. Só nos últimos anos, já no Público, é que o vemos a assumir o sujeito da escrita. Afinal já o tinha sido aqui, nós é que ainda não o havíamos lido.
Agora em maio faz 50 anos que saiu a primeira coisa minha publicada num jornal. 50 anos de colaboração nos jornais, não é pouco. Foi em 75 que um jornal publicou umas críticas de cinema que tinha escrito. Isso foi exatamente há 50 anos. Mas, claro, uma pessoa para escrever… Comecei a escrever muito cedo, não é? Mas escrevia em inglês, e depois escrevia umas coisas de poemas, imensos poemas em português. Quando escrevia as cartas, pensava assim: este sacana não me responde às cartas. Mas depois percebi que ele não respondendo até me estava a ajudar. Porque ainda escrevia mais. Precisava de escrever, não tinha ninguém com quem falar. Escrevia os meus poemas, continuava a escrever, escrevia mais poemas do que nunca. Mas a prosa… Nunca tinha percebido a prosa, a prosa para contar, a prosa jornalística de contar o que se está a passar. Uma pessoa pode mentir. A solidão é terrível, aquilo tem muitas mentiras. Podia inventar, já que estava a contar… Em vez de dizer que saí e fui comprar o jornal podia dizer que saí e passou por mim uma mulher linda ou um velhote. Percebi que podia inventar e que a diferença entre a ficção e as cartas é a liberdade de escrever para ter graça. Acho que isso é muito importante.

"Não tinha noção nenhuma da sorte que tinha, dos privilégios todos que tinha, na minha adolescência, em tudo. Era um menino rico, vivia numa casa com imensos livros, não fazia ideia [...]"

Ter graça?
Quando uma pessoa escreve poemas e julga que é um poeta está a escrever para as pessoas que gostam de ler poesia ou para a posteridade. Uma pessoa imagina quando é muito nova que vai morrer e que só depois de morrer é que vão ver os meus poemas e ver que sou um génio. É típico das crianças, isso. Mas lá em Manchester, a escrever ao Vilela, percebi o que é escrever para alguém, para o leitor, propositadamente. Tem que interessar a pessoa, é uma carta, tem que ter graça. Há muita gente em Portugal que continua a escrever como se fosse para ninguém, num português incompreensível, não faz o mínimo esforço para interessar, para fascinar ou para ter graça. Não há esforço. Há aquela ideia de: “Agora vou despejar a minha alma, vou-me exprimir e que se fodam os leitores”. Nessas cartas, estava a escrever para uma pessoa que conhecia bem, sabia o que é que interessava.

Essa coisa linda que é uma carta, para já, é um luxo. Escrever tanto, estar 10 horas a escrever uma carta que outra pessoa lê em 10 minutos? É um luxo. Nos jornais uma pessoa escreve para a multidão, qualquer pessoa pode ler. Mas escrever só para uma pessoa, só quando uma pessoa tem muito tempo e é muito nova. São quase cartas de amor, as cartas de amor fazem a mesma coisa. Quando uma pessoa escreve uma carta de amor a outra pessoa tem que acreditar que é uma carta para ela, para ela, Joana, ou para ele, Miguel, e não uma carta genérica para homens ou mulheres. O genérico, o abstrato, não move ninguém. Tem que ser dirigido à pessoa que lê. A pessoa quando lê diz assim: “Isto sou eu”, não são os homens em geral, ou as mulheres em geral, ou whatever.

Como a primeira carta que escreveu à Maria João [sua mulher], para se conhecerem.
Como as cartas que escrevia à Maria João tinham de ser para a Maria João, só para a Maria João, não para as mulheres da idade dela ou as mulheres bonitas. Isso falha, está mal escrito. Uma coisa que diz assim: “Os teus olhos são não sei quanto”. Isso nota-se muito nas coisas de engate. Só conheço os anos 80, em que as pessoas diziam: “Então os anjos desceram à Terra?”. Tudo o que se aplica a toda a gente não funciona. Quando a pessoa quer escrever uma carta, ou seduzir, que é a mesma coisa, tem de ser específico à pessoa. A pessoa tem de dizer: “Então, para onde é que tu vais? Vais beber o teu iced tea com o duplo limão?” E a pessoa diz: “Ah, sim, isso sou eu, duplo limão sou eu”. Por isso é que é tão bom escrever cartas, a carta é dirigida àquela pessoa.

A falta de resposta não mudou o destinatário das cartas? Nunca sentiu que as cartas que escrevia passaram a ser, a dada altura, para o Miguel?
Sim, é isso mesmo. Porque não havendo resposta, torna-se perfeitamente literário. Uma pessoa não tendo resposta continua a escrever. Não estou a escrever para ele saber o que estou a fazer, estou a escrever também para passar o tempo, para me sentir menos sozinho, para evocar o que me falta. Aquilo é uma saudade maciça, a saudade da amizade, dos rituais da amizade, do riso, mas também dos sítios, onde isso se passa, que é Portugal, que é um país maravilhoso comparado com o norte da Inglaterra. Ou comparado com tudo. Não tinha noção nenhuma da sorte que tinha, não tinha noção dos privilégios todos que tinha, na minha adolescência, em tudo. Era um menino rico, vivia numa casa com imensos livros, não fazia ideia. Uma pessoa não fazia ideia nesses tempos.

Escreve: “Portugal é o único país em que só se pode estar, estando fora dele”.
Sim, porque a maneira como se mitifica… Levei muito tempo para que me passasse aquela coisa de comer tudo, andava à procura de tudo. Uma pessoa à distância, ainda em Portugal, com a coisa das saudades, uma pessoa só se lembra das coisas… Uma pessoa constrói, mesmo os desenhos que se faz, de lembranças, de viagens, de coisas, torna-se tudo maravilhoso…

Gostava de lhe perguntar pelo que não é maravilhoso, até porque um dos temas mais presentes neste livro é uma certa obsessão com a foleirice, com o que é foleiro.
Naquela idade uma pessoa diz sempre: “É pena que os jovens não escrevam”. Mas, por um lado, é muito bom que não escrevam, porque ser jovem é ter um excesso de energia, e naquela idade uma pessoa é insuportável. Como é ignorante uma pessoa é insuportável. Aquela coisa infantil do horror do foleiro… Mas é engraçado que, com o tempo, estou a voltar a essas coisas.

Quando vejo, por exemplo, na música, a dizerem bem dos ABBA: “Agora tudo vale, o que interessa é gostar e curtir, guilty pleasures!” Percebo que o foleiro está mais ameaçado do que sempre porque tomou conta de tudo, agora vale tudo! Já não há nenhuma distinção. Uma pessoa vai ver a música dos anos 1980 que ficou e é só merda. Os Duran Duran, os Depeche Mode, são uma grande merda. E eles são os melhores da merda, mas então a merda, os Modern Talking… Pessoas super cultas — que não são, claro, super cultas, porque senão não diziam isso — que dizem: ah, os ABBA e os Modern Talking, é muito bom. Não é nada muito bom, é muito mau!

Agora dei uma volta, porque passei uma grande fase em que dizia: “Não interessa, o foleiro está no olho de quem vê”. Mas não. Assim como há pessoas maldosas, pessoas malvadas — não nos dá jeito de dizer, mas há pessoas que são más, e há pessoas que são boas, e a maior parte das pessoas são assim-assim — também há o feio, também há pessoas feias. Há pessoas muito foleiras. As festas que há no verão em Portugal, uma pessoa que viva essas festas, ou que não tenha alternativa, que se ponha a ouvir a música, a chamada música pimba. Aquilo é a mesma coisa que uma doença. O que faz mal faz mal. Faz mal ao nosso sentido estético, ataca-nos o cérebro. Faz ao nosso cérebro o que fazem aos pepinos quando fazem pickles. Aos pepinos põem vinagre, aquilo empapa-nos a cabeça. Aquilo é mau. É mesmo o mal, devia ser preso.

"É um livro em que me reconheço absolutamente. Acho que não mudei absolutamente nada. O entusiasmo pelas coisas, aquela loucura de um lado para o outro. A energia de ver um mundo tão grande e tão rico e tão bom. Como é que eu vou meter isso tudo cá dentro? Falo como se já soubesse tudo o que havia para saber. Mas claro que sabia que não sabia nada"

Em mais uma passagem sobre o conceito de foleiro escreve que “a literatura portuguesa é, na generalidade, a literatura da foleirice”. Ainda concorda?
Não, já não concordo nada. É preciso ver que não conhecia nada, era tão novo, estava a conhecer tudo pela primeira vez. Uma das coisas principais, talvez a coisa principal, quando cheguei lá foi encontrar a biblioteca John Rylands, a biblioteca de Manchester. Maravilhosa biblioteca, uma pessoa podia andar pela biblioteca fora, não era preciso requisitar os livros. Andava pelos corredores todo o dia. Toda a literatura portuguesa li lá, todos os livros, assim todos encadernados, a poesia toda portuguesa, milhares de livros, ainda por cima todos novos. Fui tirando um a um. É impossível fazer isso na internet. Ia tirando os livros, abria, lia uns poemas para ver se gostava e punha logo outra vez e tirava outros. Numa tarde com oito horas lia praí uns 50 poetas, rejeitava quase todos.

Neste livro faz uma lista dos bons escritores portugueses, distingue os “enormes” e os “bonzitos”.
Sim, continuo a achar que aqueles de que gostei continuam a ser aqueles que são bons.

50 anos depois, há alguém que gostasse de ter incluído nesta lista?
Não me lembro da lista. Sei que está lá o Herberto Hélder, o João Miguel Fernandes Jorge, a Maria Teresa Horta, mas pronto, há muitos que faltam. Muitos grandes.

Disse-me que não releu estas cartas.
Não. Fico horrorizado. A energia, a intensidade é tão… É muito show-off. Com 20 anos dizer: “Eu li isto, fiz aquilo e depois”… É uma coisa de show-off, é a coisa da ignorância de estar a aprender. Podia dizer que trazia 20 livros por dia para casa e lia tudo. E no dia seguinte ia lá buscar mais. Era uma riqueza, tipo Gruta de Aladdin. Embora, pronto, a minha casa já tinha muitos livros. Mas eram livros do meu pai e livros da minha mãe. Ali era eu que decidia: a literatura francesa, a portuguesa, a italiana. Podia fazer o que quisesse. É a maior sensação de riqueza de sempre a de poder mexer nos livros todos. Todos os livros. Aquilo eram infinitos livros! Uma biblioteca lindíssima onde podia ler só um bocadinho. Ah, o luxo de ler só um poema e depois fechar um livro e dizer: dá cá outro.

Voltando às cartas e à verdade.
Há muita coisa acrescentada. Há coisas que eu inventava, personagens inventadas. É uma coisa ultra-literária, mas o Vilela sabia disso. A verdade em si é muito chata. Uma pessoa contar a verdade: “Vim para aqui, não sei o quê, estive a ler até às duas da manhã. Depois deitei-me.” É muito chato. Uma pessoa para escrever, para contar uma coisa, tem que acrescentar um ponto. Não é fazer como os portugueses que dizem assim: “Aposto que aí acrescentaste um ponto”. Ó, pois claro que acrescentei. Tive que acrescentar, está tudo mudado para se tornar giro, olha que porra. “Eu fui ao médico, não sei o quê, ver do joelho, voltei, doeu-me”. É isso que queres ouvir? Pronto. Então fica contente com essa história. Uma pessoa tem que dizer que conheceu, mas claro que não conheci. Essa é a essência da escrita: a liberdade que temos de mentir, de inventar. De dizer: “Fui e levei uma chapada”. Não levei chapada nenhuma. Mas tem graça ler. Porque o que se escreve é destinado a ler. E ler tem de ser divertido, tem de ter graça, tem de ser bonito. Todos os dias uma pessoa tem de pegar nas coisas bonitas e fixá-las. Torná-las interessantes, torná-las bonitas para quem lê. A pessoa que lê tem de ser compensada. Porque ler, ainda por cima hoje em dia, uma pessoa que se disponha a ler, só a atitude de se sentar com o telemóvel ou com um livro é uma dádiva. Uma pessoa que se predispõe a ler hoje em dia, em que há tanta coisa, tem que ser acarinhada. O que lê tem de ser rico e denso. O texto tem de fazer coisas que nenhum filme pode fazer. O filme não pode nunca saltar como salta um texto. Podemos saltar de Paris para Viena, para aqui e para ali, para o gato, para o cão, para o céu, para Deus nosso Senhor. Desce e vem, tudo ao mesmo tempo.

▲ Com 20 anos, Miguel Esteves Cardoso foi estudar Estudos Políticos, em Inglaterra. Para combater a solidão, agarrava-se à máquina de escrever e escrevia cartas ao melhor amigo, que vivia em Lisboa

A sua voz como escritor mudou com o tempo? Ao ler estas cartas, sente algum embaraço?
Não, não. Agora já estou perto da morte portanto já não tenho qualquer… Quando era novo tinha imenso medo de partir assim e assado. Já não tenho esse medo. O que noto é que estava a aprender a escrever. O meu sonho era escrever e viver do que escrevia. Era o meu sonho: viver do que escrevesse, pronto.

Conseguiu.
Consegui. Aquilo sou eu a começar a escrever a prosa. Mas pronto, eu lia muito. Acho que até fico muito vaidoso com aquela idade, porque aquela idade não é uma idade normal de estar a escrever assim. Sei que tinha muita prática porque o primeiro livrinho que escrevi foi com cinco anos e depois com 10, 11, 12. Escrevi sempre muito, mas poesia. Mas é escrever, escrever é escrever. Com 19, 20 anos já me considerava… Abri agora há bocado enquanto esperava o livro, a partir de 71 considerava-me já um escritor estabelecido. A minha cabeça desde os 14 até os 20 era a minha primeira obra, já tinha muitos livros. Encadernados com títulos, tudo.

E, portanto, essa prática de escrever e de ler, aos 20 anos, já tinha escrito e lido muito, muito, muito. E o tom… Leio um tom de falso velho, de pessoa que aos 20 anos escreve como se soubesse tudo e como tivesse uma atitude muito blasé perante o mundo. É engraçado e cómico também. Muitas das cartas são escritas para fazer rir. Acho que é um livro muito risonho, muito enérgico, sobretudo com entusiasmo. Mas é um livro, do que li, em que me reconheço absolutamente. Acho que não mudei absolutamente nada. O entusiasmo pelas coisas, aquela loucura de um lado para o outro. O entusiasmo da coisa, a energia de ver um mundo tão grande e tão rico e tão bom. Como é que eu vou meter isso tudo cá dentro? Só saltando de uma coisa para a outra. Como é que eu vou pôr esta maravilha toda cá dentro? Falo como se já soubesse tudo o que havia para saber. Mas claro que sabia que não sabia nada, só tinha um pouquinho de nada dos livros, um bocadinho de nada e agora também é a mesma coisa. Mesmo depois de uma vida inteira a ler e a escrever, mesmo assim é só uma pontinha de nada que nós apanhamos.

Acha mesmo isso? 
Acho, acho. Só a descobrir aqueles de quem gostamos uma pessoa perde tanto tempo… A pegar em livros, a dizer: este não presta, este não presta, ah, este sim. É uma pontinha. Porque há tanta coisa para descobrir que todos os meses descubro coisas novas, coisas que nunca vou ter tempo agora. O tempo falta sempre. O tempo falta sempre.

Este livro tem um cenário muito urbano, sente-se o fervilhar da cidade. Agora o Miguel está ao telefone comigo a partir da aldeia de Almoçageme e escreve sobre coisas muito diferentes.
Sim. É que uma pessoa tem que ir mudando. Os entusiasmos vão mudando. Eu odiava o campo. Odiava. Durante toda a minha vida só a ideia da pasmaceira do campo, de não ter acesso… A internet alterou tudo. A internet e sobretudo as transportadoras. Porque, agora, uma pessoa pode ter os livros todos, as revistas todas, tudo em casa, morando na Conchinchina. Portanto, as pessoas estão na internet, mas também é muito importante as empresas de transportes, são importantíssimas. Há agora a UPS, a DHL, a SEUR, há pelo menos nove muito boas. E essas trazem a casa. Mesmo que uma pessoa more no campo, que é o meu caso, trazem tudo a casa, os livros. Portugal é tão pequenino que uma pessoa está no campo, mas daqui a meia hora está em Lisboa. São 30 minutos. Não é um grande sacrifício. E Portugal é uma coisa maravilhosa porque o caminho também é maravilhoso. Saio daqui de Colares, passo pelo Cabo da Roca, o Guincho, Cascais, por aí fora até chegar a Lisboa e não é uma viagem normal. É que em Portugal uma pessoa diz: “Olha, vou para o Alentejo”. Uma filha minha, a Sara, está a viver agora no Alentejo e diz “vou para o Alentejo”. E depois, passada uma hora, “já cheguei ao Alentejo”. Pronto, isto é um país de brincar, parece o país do Noddy. “Bolas, já estou farta de Lisboa, vou para o Alentejo”. Passada uma hora, “já cá estou”, pronto.

"Só a descobrir aqueles de quem gostamos uma pessoa perde tanto tempo. A pegar em livros, a dizer: 'Este não presta, este não presta, ah, este sim'. Há tanta coisa para descobrir que todos os meses descubro coisas novas, coisas que nunca vou ter tempo agora. O tempo falta sempre."

A cidade não lhe faz falta?
Não, claro que faz falta, sou ultra, ultra, Lisboa. Não é a questão de fazer falta. Faz-me muita impressão, tenho muita dor do que está a acontecer à cidade por causa do turismo, a descaracterização. Está a ficar desfigurada, Lisboa, cidade que eu amo, e uma pessoa só sente isso por causa do amor. As pessoas vêm para o campo para fugir a Lisboa, eu sempre quis viver em Lisboa ou no Porto. As cidades são maravilhosas, mas Lisboa tem aquela coisa que, em Lisboa, há pequenas aldeias. Lisboa em si, a parte que não existe, não é? Tem aqueles cantinhos. Lisboa é linda porque as pessoas que estão em Lisboa, nos sítios, também vêm de Trás-os-Montes, ou do Minho. A pessoa em Lisboa consegue viver a vida que vive numa aldeia, mas está em Lisboa. Ou seja, Lisboa é grande, é maravilhosa, é deslumbrante. E os lisboetas são muito engraçados. Pronto, uma pessoa encontra tudo em Lisboa. Era incapaz de viver longe de Lisboa, estou a meia hora, passo a vida em Lisboa.

Mas já observa a mudança da cidade.
É aquele queixume à portuguesa, que é um falso queixume. Epá, tenho muitas saudades de Lisboa. Mas não é uma verdadeira saudade. Verdadeira saudade é estar em Manchester, no norte de Inglaterra, com aquela idade, sem conhecer ninguém. Isso é que é exílio. Agora, Almoçageme é linda, fica a dois passos, é um dos sítios mais bonitos de Portugal, é tudo bonito aqui, as pessoas são bonitas.

Está a vender tão bem Almoçageme que não tarda também terá aí turistas.
Já há turistas aqui. Mas gosto muito de turistas, sempre gostei muito de turistas e gosto muito de estrangeiros. E a minha mãe é estrangeira, gosto do contacto com estrangeiros. O que estou a dizer é, quando partes grandes da cidade, como o Chiado, em que os sítios estão completamente virados para chegar uma população nova todos os dias, que depois vai embora… Fica uma espécie de falsidade. E a falsidade é horrível, não é nem português, nem lisboeta, nem francês, não é nada. E é um problema não é só em Lisboa ou Porto, em Portugal, é um problema terrível em que as pessoas vão passar uma semana a um sítio… Não interessa, pronto. Mas o verdadeiro exílio já não existe, graças a Deus. A internet foi a melhor coisa de sempre. E o telemóvel, uma pessoa consegue ter todos os livros no telemóvel, uma pessoa que tenha acesso às bases de dados da universidade consegue ter tudo no telemóvel, todos os livros, todas as poesias do mundo, todos os cinemas do mundo, tudo.

Ler no ecrã não o incomoda?
Nada, é maravilhoso. Prefiro ler num livro, porque o ecrã é pequenino e faz mal aos olhos. Mas nós temos a escolha. Ninguém nos tirou os livros, nem as revistas ou os jornais, continua lá a escolha, não é assim tão difícil comprar um jornal ou uma revista. E os livros são baratos, nunca se venderam tantos livros como agora.

Há dois anos, no Festival Escritaria, dizia que para escrever uma crónica engraçada há pelo menos 20 que falham, que são “fracassos”. Como é que aprendeu a lidar com os fracassos?
É terrível isso. Na vida, em tudo, não é como cozinhar. Na escrita, sai sempre quase mal. O que acontece geralmente é que eu acho muita graça, mas as pessoas odeiam, ou não acham graça, ficam aborrecidas. É muito difícil fazer coincidir entusiasmos. Agora descobri um escritor, não sei quê, e a pessoa que está a ler quer lá saber. A coisa importante, mais difícil, é a ligação com o leitor. Uma pessoa tem que encantar o leitor. Isso é muito difícil, engatar um leitor.

Quando é que aprendeu a fazê-lo? 
É ao calhas. Tento sempre, só que falho sempre. De vez em quando acerto, e as pessoas gostam e ficam muito contentes. Acho que é mais um para cinquenta do que um para vinte.

A ideia de fracasso não muda ao longo do tempo?
Sim, sim, muda imenso. Tenho fracassos enormes da minha vida, constantes. Um fracasso enorme é, por exemplo, tudo o que escrevi sobre comida — ligo imenso à cozinha — foi sempre um fracasso gigantesco. Há dois ou três anos, uma editora disse: “E se juntássemos todos os textos que escreve sobre comida para o Público, no Fugas?”. Fiz um livro giríssimo, com uma capa giríssima, vendeu pr’aí dois exemplares. Teve de ser tudo queimado. Ninguém sabe como é que se faz um Martini. É um fracasso absoluto. Não sei explicar porquê, mas é um fracasso. Uma pessoa escreve sobre comida e é uma coisa que os portugueses ligam muito até e, no entanto, é um fracasso retumbante. Como outros livros, outras coisas da minha vida. Um fracasso é bom porque dá a oportunidade de experimentar outra coisa. Faz rir um bocadinho. É muito engraçado as pessoas não ligarem, é uma coisa humorística. Gostaste? “Nem por isso”. Isso é muito engraçado porque é a liberdade. A pessoa tem a liberdade de dizer: “Olha, não gostei”. Ouve o Beethoven, o que é que achaste? “Olha, não gostei nada”. É maravilhosa essa liberdade de a pessoa dizer que não gosta.

Lê as críticas dos seus livros?
Sim, sempre. São muito poucas, não é? Leem-se um instantinho. Leio, que remédio, tenho tão poucas. Quem me dera ter muitas, mas são tão poucas que leio e pronto. Também leio todos os comentários que fazem no jornal. Todos.

Porquê? 
É um grande privilégio poder ler. Antigamente era quase impossível saber a opinião. Quando comecei a escrever no Expresso só por carta é que se sabia. Só escreviam as pessoas que tinham gostado muito ou odiado muito. É muito bom apanhar aquelas opiniões que são: “Ah, tem coisas boas e coisas más”. A verdade. É muito raro poder saber a verdade dos leitores. O que chamam de feedback, não é?

"Em Portugal, quando ameaçam o sistema de saúde, enquanto não houver um mínimo de dignidade para as pessoas pobres, não podemos dar-nos ao luxo de ser elitistas."

O retorno.
Sim, o retorno é fascinante, não é? Porque há sempre uma verdade em tudo o que dizem. Aquela pessoa deu-se ao esforço de escrever uma coisa e há ali uma verdade. Uma pessoa consegue pôr de lado a vaidade, isso é muito importante e ver que há ali qualquer coisa, há sempre uma liçãozinha para tirar, sempre. Mesmo as pessoas que parece que estão sempre a dizer mal, tenho aprendido imenso com elas. Parece mentira, mas é verdade. Porque é sempre bom ter alguém sempre a dizer mal porque o facto de ler já chega. Leu, está sempre a dizer mal, mas lê. Isso, ler é uma grande dádiva. Lê.

Mas para saber ouvir isso é preciso ter uma relação especial com o ego.
Um relação especial com o ego, como?

Para conseguir ouvir e encaixar a crítica.
Ah, não, mas também sou leitor das minhas coisas. Há coisas que quando escrevo e gosto muito não há ninguém que me diga “olha que isso é uma merda”. Eu também sou um leitor.

Qual foi a melhor coisa que escreveu?
Não sei, ainda é um bocado cedo para isso, não? Toda a gente diz sempre: “Ah, foi a última”. Mas acho que o escrever é uma prática, acho mesmo que quanto mais se escreve melhor se fica. Porque aprende-se a escrever com mais depuração, aprende-se a manipular melhor. Escrever é uma coisa muito difícil, muito difícil. E aprende-se a depurar mais e a fazer mais com a língua. Uma pessoa aprende a manejar a língua, e a língua é dificílima. Uma pessoa, com o tempo, à força bruta de tanto experimentar, acaba por aprender. Tenho esperança que uma pessoa possa utilizar a língua para mostrar como é que somos e o que é que pensamos. Porque há pessoas que são horríveis, pessoas horrendas, que aprendem a escrever e também só mostram ainda melhor o horror que são. Há pessoas com jeito para escrever e isso não tem nada a ver com ser interessante ou ser uma boa pessoa, ser fascinante. Para cada hora que escrevo, leio 10 horas. Leio, leio, leio, leio, leio. O que os outros escrevem.

Isso é importante. Vou à procura das coisas de que mais gosto, depois abandono, sou terrível. As pessoas que gostam de me ler, é muito bom, mas… É giro é ver pessoas que dizem: “A melhor coisa que escreveste foi em 1979”. Uma pessoa tem que aceitar e agradecer isso. A maior parte das pessoas diz: “Lia muito tudo o que escrevia quando era novo, nos anos 80, no Expresso, 81, 82, 83″. O meu primeiro livro foi o mais vendido. Muita gente diz: “Achava imensa graça, mas pronto, depois não”. E isso parece uma coisa de “então e agora?” Mas é uma grande dádiva. Gostavam de mim quando era novo. Eu acho que isso é a mesma coisa com as mulheres muito bonitas ou artistas de cinema. Quando dizem: “Ah, gostava dela quando ela era muito boa”. Eu também era muito bom quando era muito novo. Quando uma pessoa aparece nova, as pessoas dizem: “Ah, quem é este gajo? Tão novinho, não sei o quê, com os óculos, quem é ele? Ah, ele é muito vaidoso. Ele escreve bem”. Nós temos o nosso tempo também, o nosso coiso pop, quando somos novidade. E as pessoas gostam nessa altura e depois passam para o próximo. Que mal é que isso tem? O que é bom é ser lido. Não interessa quando, se é quando éramos novos se é agora.

É um erro perguntar “qual é a melhor coisa?”, quem decide isso é a pessoa que lê. É terrível isto, mas isso é o que ensinou Duchamp. É o espectador que decide a obra de arte. É verdade. O leitor, se fica aborrecido com uma coisa, aquilo é aborrecido. É aborrecido para ele. Se ele lê o princípio e depois abandona, é um fracasso. O livro, para ele. E continua a ser um fracasso.

Se lhe dizem que antes é que tinha graça…
Dizem imenso isso, porque as pessoas achavam graça ao que eu escrevia naquela altura. Já é muito bom, não? Dizer assim: “Sabes que eu estive apaixonado por ti”. Olha, obrigado. “Agora já não estou. Estás velho e gordo”. Pronto, não faz mal.

Mas este livro é uma ótima resposta, não? É o MEC há 50 anos.
Sim, é uma ótima resposta para as pessoas que dizem “ele está velho”. Ai queres novo? Então vou-te dar. Se a pessoa gosta de novo… Quantos jovens de 20 anos escrevem sobre o que lhes vai na alma? Quantos? Eu não conheço. Em prosa. Se as pessoas querem juventude. Depois gosto porque tenho amigos meus que são muito mais novos e que dizem: “Tu agora estás um bocadinho chato e velho, a falar dos livros e das plantas e do raio da primavera e das andorinhas”. E eu agora ultrapasso-os por dentro. Eles começaram com 35. E eu digo: “Ai é? Toma lá eu com 20. Ah, pois, estás a ver?” Se tivesse ficado em Portugal nunca tinha escrito aquilo. Porque tinha a minha vida para viver, os amores e as amizades. Só numa situação de crueldade, de saudade terrível, de solidão terrível, é que uma pessoa é forçada a escrever cartas em vez de viver. Porque os meus 19, 20, 21, onde é que estão esses anos? Os meus anos de juventude não os vivi. Agora não me venham a dizer “quando era novo”. Então toma lá o novo.

▲ "Pensava que era uma pessoa do mundo. Queria ir para Nova Iorque, Paris... Mas em Manchester tive uma conversão. Percebi que Portugal era a coisa mais bonita", recorda o escritor

Como é que olha agora para as ideias políticas que exprimiu nessa altura?
As ideias políticas são muito importantes, porque é preciso ver que isto é de 75, não é? Portanto, a esquerda reinava completamente o Verão Quente, a esquerda reinava e eu, pronto, os meus pais, a minha mãe era conservadora, mas era ultra-ultra-democrata, odiava o Salazar, claro, e o meu pai era PS, odiava o Salazar também. Eu era super social-democrata. Fui pr’aí o terceiro ou o quarto a inscrever-me no PPD, era ultra, queria a Suécia, não era social-democrata como agora. Era social-democrata tipo quase socialista, sempre fui. O sistema de saúde, o 25 de Abril, toda aquela coisa, sempre tive imensos problemas na escola. No Colégio Inglês consideravam-me um perigoso esquerdista. Eu não me considerava de direita, era um social-democrata, não gostava de pessoas de direita. Isso do conservador veio depois. Mas quando fui para Inglaterra, o fruto proibido era o Salazar, ler o Salazar. Li os discursos todos para ser do contra. Porque é muito cómico o Salazar, e o Salazar escrevia muito bem. Aqueles discursos dele… Era uma figura horrenda. Eu vivi o Estado Novo, era uma coisa horrenda, horrível, fui censurado na rádio, era totalmente contra, os meus pais também, mas o poder de brincar com o Salazar e os integralistas… O Salazar era cómico, aquela coisa do imperialismo era cómico, era muito engraçado, as pessoas riam-se imenso do Salazar. Era a figura mais cómica que existia e o Marcelo Caetano também.

Escreve: “Releio Salazar, recomendo-te aí à secura e subtileza, ironia e humor da linguagem”
Continuo a recomendar, porque ele escrevia muito bem. Mas é cómico.

“Quase que nem me influenciei politicamente”, continua.
Sim, quase, mas não é muito convincente, não é? Quando ele diz aquelas frases, “ai, o Estado também precisa do seu recato”… Ele era uma raposa velha, inteligentíssima, é perigosíssimo o Salazar. O Salazar é perigosíssimo porque é encantador, o Salazar naquela maneira, sinistro homem, mas escrevia muito, muito bem, a prosa dele é maravilhosa, maravilhosa. E os integralistas também. Não vou estar a dizer nomes, mas o Hipólito Raposo, que escrevia tão bem, o Luís Almeida da Braga, escreviam tão bem, tão bem, e eram super direita, mas não eram esta extrema-direita do Chega, selvagem, bruta. Eram pessoas que gostavam de ler livros, eram poetas, e pronto, tinham ideias alucinadas, mas gostavam imenso de Portugal, eram super patriotas.

Tendo em conta o clima político que vivemos, não houve receio em colocar aqui “excertos escolhidos da Obra de António Oliveira Salazar”?
Sim, pensei assim. Queria ler e tirar as coisas mais escandalosas, mas depois pensei: “Porquê? Porque é que hei de esconder?” Não é honesto. Estive mesmo para rever, aliás, atrasei um bocadinho [o lançamento] porque pensei “vou rever, vou tirar estas coisas que são disparates ou que já não têm graça nenhuma”. Mas depois decidi deixar ficar tudo, coisas que me envergonham imenso, coisas políticas, que são coisas que envergonham. Aquilo é um retrato de um jovem como nunca houve, porque está lá tudo, tudo, tudo. Aquilo são cartas íntimas ao meu melhor amigo. Ninguém podia ler, nem os meus amigos normais podiam ler aquilo. São ultra íntimas. É a intimidade de um jovem. Está lá tudo, as coisas que me envergonham, as coisas que não convém nada, coisas que me entalam, está lá tudo. Porque é um retrato. Nem uma vírgula mudei. Ficou tudo ali, as coisas que já não acredito, coisas que fazem vergonha, coisas embaraçosas, que são muitas, e mentiras horríveis que estão lá.

Uma década após a escrita destas cartas, deu uma entrevista a Carlos Cruz, na RTP, em 1991, em que dizia: “Qualquer pessoa que olhe para as barracas tem de ser de esquerda em Portugal hoje. Eu também sou de esquerda até me poder dar ao luxo de… Se toda a gente tiver casa, se não houver fome, aí já posso ser as minhas coisas. Mas por enquanto…” Ainda pensa assim?
Exatamente isso. É como no Brasil, uma pessoa tem de ser comunista, e em Portugal, a pobreza… Ainda hoje no Público saiu uma coisa sobre os miúdos não terem água quente… Em Portugal, quando ameaçam o sistema de saúde, essas coisas todas, enquanto não houver um mínimo de dignidade para as pessoas pobres, não podemos dar-nos ao luxo de ser elitistas.

"Sempre tive imensos problemas da escola. No Colégio Inglês consideravam-me um perigoso esquerdista. Eu não me considerava de direita, era um social-democrata, não gostava de pessoas de direita. Isso do conservador veio depois. Mas quando fui para Inglaterra, o fruto proibido era o Salazar, ler o Salazar. Li os discursos todos para ser do contra. Porque é muito cómico o Salazar e escrevia muito bem."

Mas não se considera de esquerda.
Não tenho amigos nenhuns de direita. Considero-me ultra de direita porque sou muito conservador, sou contra a mudança, por mim congelava tudo e ficava tudo assim, porque a mudança leva muitas coisas boas, a mudança em si. Mas considero-me de esquerda em relação à direita. Não sou nada católico, odeio o Chega, acho um perigo o Chega, acho ridículo o CDS, e os meus amigos são todos de esquerda. Embora eu discorde, odeio a coisa de rebanho da esquerda e a coisa maquinal da esquerda, que têm todos a mesma opinião, são todos obcecados pela Palestina e o raio que o parta, afinam todos pelo mesmo diapasão. A coisa principal é a democracia, é a expressão, a expressão da opinião política. E para haver democracia, disse o Lenine e com razão, não se pode ter fome, não se pode estar a dormir debaixo das pontes. Como é que apetece depois ir votar no partido este ou aquele? Tem que haver o mínimo de dignidade, e ainda não há esse mínimo de dignidade em Portugal. E pronto. Até aí temos de ser todos de esquerda.

Em 2021, na altura das presidenciais, puseram-no a conversar com a eurodeputada Marisa Matias, do Bloco de Esquerda, e disse-lhe: “Faço parte de uma imensa multidão de pessoas que vai votar no Marcelo [Rebelo de Sousa, para Presidente da República], mas que tem muita pena de não votar em ti. Aprendo sempre alguma coisa contigo”. Tem aprendido com os potenciais candidatos?
Com estes agora? Para Presidente da República?

Sim.
Ainda não sei muito bem quais são. Eu queria que fosse o Paulo Portas, mas ele ainda não disse nada, pois não?

Não. Só deve decidir lá para o verão.
Gostava que fosse o Paulo Portas porque o conheço muito bem, gosto imenso dele e ainda não se revelou. Ele é uma pessoa interessantíssima, engraçadíssima, muito humana, muito bondosa, muito inteligente. Acho que era ótimo o Paulo Portas. Quem é que acha que vai ganhar, então?

Não me atrevo a fazer antevisões.
Acho um atraso o Almirante [Gouveia e Melo], acho um atraso. [O Presidente da República] devia ser um político. Olhe, um político que eu, quando era novo, estupidamente desprezava e que agora dou imenso valor é o [Luís] Marques Mendes.

Então porquê?
Uma vez era muito novo e quiseram-me apresentar e eu fugi, não queria reconhecer, tinha medo. Mas o Marques Mendes, ao longo dos anos, a pessoa começa a ler o que ele escreve e ouvir o que ele diz e, para já, é uma pessoa inteligentíssima, extremamente inteligente, tão inteligente como o Marcelo. É uma pessoa muito lúcida, vê tudo com uma clareza corajosa, é ultra-democrata, cuidadoso, tem uma cura de pensamento. Mas para uma pessoa vencer os preconceitos todos contra o Marques Mendes… Só pr’aí à décima ou décima quinta vez é que pensei: “Gosto imenso do Marques Mendes”. Ele tem um common sense, é sensato, democrata, é mesmo um democrata puro. Dava um ótimo Presidente da República. Não acha?

Não me compete a mim dizer.
É preciso prestar atenção ao que ele diz, mas, se uma pessoa for inteiramente justa, o Marques Mendes é espetacular.

Falemos da sua carreira política. O Miguel Esteves Cardoso foi cabeça de lista do Partido Popular Monárquico (PPM) para as eleições do Parlamento Europeu.
Sim.

Mencionou Paulo Portas. Seria ele capaz de o fazer voltar a tentar uma incursão na política?
Não, não, falando em fracassos, não podia ser maior fracasso, e não foi só uma vez!

Foram duas.
Voltei a candidatar-me! E perdi a segunda vez, portanto, fiquei ilibado, não tenho essa responsabilidade já. A política é uma coisa horrível. É só o esforço, esforço, esforço para nada e depois acaba sempre mal.

A sua outra aventura com Paulo Portas acabou bem, foi um sucesso. Daí a minha pergunta, de resto.
Foi um sucesso o quê? O Independente?

Precisamente.
Não, não foi. Durou muito pouco tempo, foi um fracasso também.

▲ Miguel Esteves Cardoso com Paulo Portas. Juntos, em 1988, criaram O Independente, semanário que durou 18 anos. Pelo meio, em 1995, Paulo Portas saiu do jornal para se dedicar à política no CDS-PP

Nuno Pinto Fernandes

Considera O Independente um fracasso?
Sim e a [revista] K também foi um fracasso, só saiu durante poucos meses, depois morreu. Um jornal para não ser um fracasso tem que continuar.

O sucesso mede-se pela longevidade? 
Sim, num jornal um bocadinho. O Expresso continua a sair.

Precisamente na sua última entrevista ao Expresso, em 2020, dizia que não exclui a possibilidade de voltar a fazer um último jornal.
Sim, gostava imenso de fazer.

Como vai essa ideia?
Ou uma estação de rádio, uma estação de rádio também acho que fazia falta.

Sobre o que seria?
Ah, não posso contar o segredo. Mas tenho uma ideia para o jornal e que já está bastante avançada. Um jornal que tirasse partido do papel, que tivesse um grafismo lindo, que fosse um objeto de coleção, que se comprasse em livrarias. Um jornal que desse valor ao que é… bonito, em ótimo papel, bem escrito, que fosse para ser colecionado.

Já tem nome?
Tenho nome, mas não posso dizer. Ainda estamos a falar com investidores e tudo.

Semanário ou mensal?
Ah, não posso dizer nada disso. Mas o jornal é uma coisa linda, ainda há jornais em Portugal e é maravilhoso. As pessoas podem começar a dar valor outra vez aos jornais.

Não insistirei mais, mas pode dizer, pelo menos, se o Miguel Esteves Cardoso será o diretor desse jornal?
Não posso dizer nada, isso é tudo segredo. Isto não se vai fazer, isto é mais um… Ah, o maior fracasso de todos, é o caso deste, são os fracassos que não chegam a realizar-se! Esses na vida tenho milhares! Não vou fazer este jornal, de certeza absoluta! Diverte-me é pensar nele, mas não o vou fazer. Já não me apetece. Já não tenho paciência para fazer um jornal, é preciso chatear muita gente durante muito tempo para arranjar dinheiro. O arranjar dinheiro mata qualquer pessoa, é horrível, arranjar investidores. Não vou fazer, de certeza. Esse é o maior fracasso, aquele fracasso que não nos damos ao trabalho de fazer. Pensamos, temos o gosto de todas as ideias, de como é que seria, como é que seriam as páginas, em que papel é que era… Temos todo esse prazer, mas não temos a chatice de ter que o tornar físico.

Que chatices lhe dá ser um escritor popular, dar entrevistas?
Não, porque depende da atitude de uma pessoa. Se responder mesmo às perguntas e usar a cabeça, se não estiver com estratagemas e a repetir… Tentar fazer a coisa fresca é uma coisa muito bonita porque é um encontro, uma conversa. Uma pessoa tem é que dar poucas [entrevistas], não pode dar muitas senão começa a repetir-se. E às vezes apetece repetir aquelas coisas que são giras. Mas é melhor escrever do que repetir. É muito chato uma pessoa repetir-se e a pessoa que ouve dizer assim: “Já não é a primeira vez que conta essa história”. Isso mata.

Já se sentiu repetir-se?
Não, não. Estou a guardar isso para a minha velhice. As pessoas gostam que se repita. Conta lá aquela das alcatifas ou a das andorinhas. Aí vou fazer, repetir, mas só as melhores coisas, vai ser tipo best of. Vou ver todos os meus hits e vou escolher as coisas melhores e essas vou repetir ad nauseum até as pessoas caírem de fartas.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.