Bloco de notas do PSD. Dia 1. Paulo Rangel não é bom na rua, mas não o esconde /premium

13 Maio 2019

Rangel assumiu as suas fragilidades e voltou a enfrentar uma feira, no dia em que Luís Montenegro desceu à campanha. Entre surfistas, garantiu que a sua campanha não está flat. O que é verdade.

Paulo Rangel tinha fechado a pré-campanha em grande: em Penafiel, perante duas mil pessoas. Quem ali aterrasse sem contexto, teria dúvidas se o líder do partido era Rui Rio ou Paulo Rangel. É certo que o presidente do PSD teve um ataque de tosse, mas a sala estava muito mais calada, atenta para ouvir Rangel. E o aplaudómetro não engana. Esperava-se um Rangel mais “picadinho” — expressão que o próprio cunharia — no dia em Luís Montenegro desceu à campanha, em Espinho. Mas a manhã foi flat para o candidato, termo que também utilizaria.

Na cidade onde Cristo desceu à Terra em 1997, depressa se percebeu que Rangel (à semelhança do que aconteceu em 2014) continuava a não ser Marcelo no contacto com o povo. A manhã começou com mais uma feira em que Rangel demonstrou não ter engenho a lidar com as pessoas. E com uma agravante: os da casa — o vice-rei de Espinho, Luís Montenegro, e o rei de Ovar, Salvador Malheiro — destacaram-se. Sobraram a Rangel 56 segundos em conversa com os jornalistas na ação mais importante do dia.

Rangel tem capacidade de adaptação e, mais picado, começou a pedalar com mais velocidade. Na ria de Aveiro, fê-lo mesmo no sentido literal. Na praia da Cortegaça, em Ovar, adaptou-se às circunstâncias e contornou as críticas. Pedro Marques pegou na deixa e disse que o adversário não tinha jeito. Rangel, que estava a ser fugaz no contacto com as pessoas, parou mais para ouvir. Fê-lo assim que pôde com surfistas, na praia. No dia anterior tinha feito o mesmo com a facada nas costas — terá sido mais ou menos assim que sentiu — de Carlos Moedas.

O candidato do PSD teve um dia em que mostrou que não é melhor na rua, mas não desiste dela. Não esconde essa sua fragilidade. Já fez dezenas de ações na rua e elas continuam. Fala de uma forma que as pessoas compreendem (os tais sound bites que Costa refere), mas também não esconde a veia intelectual: na Cortegaça, a poucos metros de banhistas, fez um comentário sobre a própria campanha com recurso a Beethoven e à Carmina Burana de Orff.

“Vamos deixá-lo irritar-se à vontade, é um direito fundamental. Todo o cidadão tem direito à irritação e Pedro Marques também.”

Paulo Rangel fez uma adaptação do direito à indignação de Mário Soares para dizer que Pedro Marques tem “direito à irritação”. O cabeça de lista do PSD quis desvalorizar as palavras do cabeça de lista socialista, que o acusou de não ter jeito para lidar com pessoas na rua. Depois disso, Rangel teve um momento Marcelo, com o comentário político à própria campanha, que disse estar a ser “picadinha”.

Alto. Nas eleições europeias, é muito importante mobilizar a estrutura. Paulo Rangel consegue pôr uma sala em apoteose quando está com as bases. Mesmo que tenha duas mil pessoas na sala, consegue que se calem para o ouvir. Algo que, no domingo, nem o líder conseguiu. Os discursos políticos que faz têm sido eficazes. No entanto, não deixa de ser uma sublime ironia que Rangel, que acusa Marques de só estar em espaços fechados, seja um animal de púlpito, mas não um animal de rua. Além disso, Paulo Rangel tem uma grande capacidade de adaptação e de reação às adversidades. Carlos Moedas fez-lhe uma maldade e ele reagiu com um repto a Costa. Começou a ouvir críticas por não perder tempo com as pessoas e começou a ouvi-las mais.

Baixo. O partido tem dado vários tiros nos pés: primeiro a questão dos professores; depois, o mandatário nacional a elogiar Costa. Tudo isso afeta Rangel, que não está tão “picadinho” como em 2009, ano em que ganhou as eleições. A campanha é destemida e tem muitas ações com a população (não controladas), em campo aberto. Isto tudo seria perfeito se Rangel lidasse com o povo como o Presidente da República. Mas não lida. As feiras, ricas em termos de imagem para as televisões, têm sido fraquinhas para Rangel. O candidato está na rua, mas não é da rua. E nota-se.

Joaquim Menezes estava a servir dois quilos de laranjas no momento em que falava com o Observador, minutos depois de ter passado a comitiva do PSD, que saudou com entusiasmo. O vendedor de frutas e legumes de 53 anos reconheceu Rangel à primeira, mas sobre a função que ocupa já não tem o mesmo à vontade: “Sei que pertence ao comité europeu e essas coisas da Europa”.

O vendedor da feira de Espinho diz que as europeias “não beneficiam muito Portugal, mas outros países da Europa maiores”. Não esconde em quem vai votar: “Normalmente é PSD, já foi PS e agora é sempre PSD”. Não sabe o nome do candidato do PS (“o candidato do PS, não sei quem é; vejo-o na televisão, mas não sei quem é”). Mas conhece bem Costa. E está contente com ele? “Para lhe ser sincero, não estou contente com nenhum”, desabafa.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Para Joaquim, Portugal é “uma República das Bananas”, o que para ele não é mau, que as vende. Está descontente com as faturas que tem de passar sempre — e também culpa a União Europeia por isso: “Tiro fatura simplificada. Dá muito mais trabalho com as faturas porque a gente tem de tirar fatura por fatura e enviar para as Finanças todos os meses”.

Sobre a União Europeia, tem mais uma coisa a dizer: “A coisa dos sacos é outro problema, vai deixar de haver sacos de plástico. Isso também é lei da Europa, também vai ser outro problema”. Mas está contra? “Não, até é bom para nós, porque vamos ter lucro com isso. As pessoas vão ter de trazer os sacos de casa”. É interrompido pela freguesa das laranjas (ainda à espera): “É uma chatice, isso dos sacos”. Mas continua: “As pessoas vão ter de trazer sacos de pano e essas coisas. Isso, para nós, é lucro.”

Paulo Rangel começou a tarde a visitar 0 Centro de Interpretação Ambiental (CIA), no início do percurso do Salreu, em Estarreja. Quando arrancou, a bicicleta ainda balançou um pouco, mas com o tempo a pedalada de Rangel foi ganhando vigor. Rangel liderou quase sempre a comitiva, tirando uma ou outra ultrapassagem tímida pela esquerda, da número dois Lídia Pereira, que logo voltava a ser ultrapassada. Na fotografia aparece isolado, quando acelerou sem olhar para trás.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A equipa do Observador fez 462 quilómetros no dia antes de começar a campanha, mas a segunda-feira foi bem mais modesta: 165 quilómetros. Os primeiros 31 quilómetros foram entre o centro de Espinho e a empresa Simoldes, em Oliveira de Azeméis. Daí, foram apenas mais 21 quilómetros até Estarreja, para o percurso junto à Ria de Aveiro (ainda foi feito mais um quilómetro sobre rodas, mas num carrinho de Safari da reserva). De Estarreja, tempo de seguir para Santa Maria da Feira, para o Europarque, para um comício do PSD. Ao final do dia, ainda longe de acabar, seguem-se mais 83 quilómetros até Coimbra, onde o Observador vai pernoitar para começar o dia de terça-feira. Um spoiler para amanhã: o Observador vai fazer centenas de quilómetros com o candidato de helicóptero sobre as áreas ardidas dos incêndios.

Oiça as melhores histórias destas eleições europeias no podcast do Observador Eurovisões, publicado de segunda a sexta-feira até ao dia do voto.

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