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JUAN MABROMATA/AFP/Getty Images

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O negócio da imortalidade: quanto custa viver para sempre? /premium

Há quem aceite pagar 250 mil euros por tratamentos nunca testados e, entre os que investem milhões na investigação, estão fundadores da Google, Paypal, Amazon ou Tesla. Haverá cura para a morte?

Os vampiros estão entre os vilões mais conhecidos do nosso imaginário. Tez pálida, caninos afiados e um apetite voraz por sangue fresco. Mas tirando os pequenos morcegos-vampiro que se alimentam do sangue de gado, tudo o resto não passa de lendas. Já os vampiros do presente, pelo contrário, têm muito melhor aspeto, muito mais dinheiro e querem sangue jovem, não para se alimentarem, mas para poderem viver para sempre. Pode continuar a soar a fantasia, mas é tão real que a autoridade dos medicamentos norte-americana (FDA, Food and Drug Administration) já teve de lançar um alerta sobre o assunto (já lá vamos).

Imagine-se num almoço de gala, daqueles que tantas vezes vemos nos filmes norte-americanos. Convidados vestidos a rigor, um menu gourmet e uma carteira cheia de dinheiro são os requisitos para se sentar a ouvir o anúncio que antecede a sobremesa: o recrutamento de voluntários para participar num ensaio clínico com transfusões de sangue jovem. O objetivo? Viver mais tempo e de forma mais saudável. O almoço aconteceu mesmo, como conta a Stat News, e deixou a audiência — com mais de 50 anos — interessada. O maior entrave parecia ser o preço: 285 mil dólares (cerca de 256 mil euros) por um tratamento por mês e durante um ano.

Este ensaio clínico levanta uma série de questões éticas, como a de se pagar para se ser cobaia num tratamento que nunca foi testado em humanos, participar numa experiência para a qual não se conhecem sequer os resultados em ratos e injetar os jovens dadores de sangue com uma molécula sem conhecer as consequências a longo prazo (e pagando-lhes apenas 670 euros para isso). Mas a promessa de se manter jovem, saudável e de viver para sempre pode deixar as pessoas mais inebriadas do que um vampiro à procura de sangue para se alimentar.

Serão precisos litros e litros de sangue jovem para alimentar todos aqueles que se queiram juntar aos tratamentos da longevidade — Robert Michael/picture alliance via Getty Images

Robert Michael/picture alliance via Getty Image

Desde os primórdios da civilização que os humanos procuram a fonte da juventude, a pedra filosofal ou qualquer outra forma que lhes garantisse que podiam viver eternamente. Foram feitas grandes cruzadas, experiências que em vez de prolongarem a vida a encurtaram, mas nunca, em nenhum momento da história da humanidade, se investiu tanto dinheiro como agora para conseguir levar-nos a viver umas centenas anos mais — talvez uns milhares ou, até, para sempre. As caras desta busca são homens brancos, ricos, muitos deles sementes de Silicon Valley (o berço das inovações tecnológicas e científicas na Califórnia), numa espécie de crise de meia idade em que se recusam a morrer. Fomos à procura dos nomes mais sonantes e do que andam a fazer.

Porque é que queremos viver para sempre?

A vida é demasiado curta para tudo o que gostaríamos de fazer com ela. A frase é batida, mas parece ser um bom ponto de partida para tentar fazer com que ela não acabe. Nunca. E é essa uma das principais motivações de Dmitry Itskov, de 38 anos, um multimilionário viciado em desporto e hobbies que considera que o tempo de vida não chega para conseguir dedicar-se em pleno a cada um deles, diz, citado pela revista norte-americana Newsweek.

Larry Ellison, um dos homens mais ricos do mundo, também tem uma motivação pessoal. Viu a mãe morrer de cancro e não consegue suportar a ideia da deterioração do corpo com o avançar da idade e da doença. Já para Peter Thiel, co-fundador do PayPal, é quase uma questão de orgulho: se as pessoas não acreditam que é possível contrariar a morte, ele está disposto a provar que estão erradas. Mas não são só as pessoas ligadas à ciência e tecnologia fazem esta busca pela vida eterna: James Strole, um empresário de 70 anos, defende a imortalidade desde que a avó morreu, quando ele tinha 11 anos.

"[Ciência dos telómeros] a sua influência será tão profunda que atingirá até as nossas células e tão abrangente que afetará toda a nossa vida."
Elizabeth Blackburn e Elissa Epel, "A Ciência da Juventude", Elsinore

A investigação científica ligada ao envelhecimento deu passos importantes a partir dos anos 1980, com a descoberta dos telómeros, (partes repetidas de ADN na extremidade dos cromossomas), do seu papel na proteção dos cromossomas (onde está armazenada a nossa informação genética) e da função da telomerase que fabrica os telómeros. A importância destas descobertas foi reconhecida com a atribuição do prémio Nobel da Medicina, em 2009, aos investigadores envolvidos — Elizabeth H. Blackburn, Carol W. Greider e Jack W. Szostak. Os telómeros encurtam cada vez que as células se dividem, levando ao envelhecimento celular. Reverter este encurtamento poderia ser a solução para a longevidade, mas ainda não foi possível demonstrá-lo.

A ciência têm-se focado mais em envelhecer bem, com menos doenças e menos sofrimento, do que em reverter ou eliminar o envelhecimento. Mas a partir de 2015 a ideia de contornar a morte foi-se tornando um assunto mais popular e entrou nos sonhos daqueles que passam a vida a desafiar o que está estabelecido. Atualmente, uma mão cheia de multimilionários (da Silicon Valley, mas não só) estão a investir dezenas ou centenas de milhões de dólares para dinamizar a indústria. Autoproclamam-se “empreendedores da longevidade”.

Todos eles querem viver muito mais, talvez para sempre, no seu corpo ou numa máquina, mas entendem que isso não vai surgir de um momento para o outro. Contentam-se se a cada década for possível ir aumentando a esperança média de vida, porque chegará a um ponto em que será possível viver indefinidamente. Até lá, e só para se irem preparando, embarcam em todo o tipo de promessas feitas pelos suplementos anti-envelhecimento — sem nenhuma prova de que funcionem. O empresário Dave Asprey, de 46 anos, por exemplo, anda há vários anos a tentar manipular a própria biologia para ficar mais jovem, mais saudável e viver pelo menos até aos 180 anos, tomando 150 suplementos por dia e bebendo o Bulletproof Coffee que inventou — um café com manteiga sem sal e um derivado óleo de coco.

Ratos novos rejuvenesceram ratos velhos

A ciência tem dado passos pequenos e investigado sobretudo leveduras, moscas, vermes ou ratos. Trabalhar com estes pequenos organismos não levanta as mesmas questões éticas que fazer experiências com humanos, são mais fáceis de manter em ambiente de laboratório e como têm vidas mais curtas, qualquer mudança na sobrevivência é facilmente detetada. Mas a natureza é hábil e por vezes apresenta soluções surpreendentes como a da Turritopsis dohrnii (uma parente mediterrânica das medusas), com 4,5 milímetros de diâmetro, que quando chega à idade adulta e se reproduz, volta à infância para depois voltar a envelhecer e começar tudo outra vez — vezes sem conta, pelo menos, em ambiente de laboratório.

Mas é nos ratos de laboratório que estão os trabalhos de investigação mais relevantes — incluindo o que mais contribuiu para a ideia de que os transplantes de sangue jovem promovem o rejuvenescimento. A experiência foi feita em 1956, pelo gerontologista Clive M. McCay, na Universidade Cornell (Nova Iorque), e consistia em ligar dois ratos pelo flanco — um jovem e saudável, outro velho e doente — de maneira a que os vasos sanguíneos se unissem e se formasse uma circulação sanguínea única, num processo chamado parabiose. O resultado foi que o rato mais velho ficou mais saudável e de aspeto mais novo — qual Benjamin Button —, mas o rato mais novo teve um envelhecimento precoce. O problema é que o investigador nunca percebeu porquê.

Dois ratos, um novo e um velho, cozidos pelos flancos para fundirem o sistema circulatório (parabiose) — University of British Columbia

University of British Columbia

Em 2004, Amy Wagers, investigadora na Universidade de Harvard, conseguiu replicar a experiência e obter os mesmos resultados, conta a Newsweek. Melhor, conseguiu descobrir o que se passava de facto com os ratos mais velhos. O sangue dos ratos mais jovens tinha uma maior concentração da proteína GDF11, responsável pela ativação das células estaminais que fazem a renovação dos tecidos e a reparação das lesões. Com menos GDF11, no sangue dos ratos mais velhos, as células estaminais adormecem, mas voltam a acordar quando a proteína entra novamente em circulação. O trabalho é promissor, mas nunca foi testado em humanos. Além disso, fundir a circulação sanguínea de dois organismos (um novo e um velho), não é o mesmo que receber umas transfusões de sangue de um jovem.

Mas a Universidade de Harvard não foi a única a conseguir reproduzir a parabiose. O Instituto Buck que se dedica à investigação em envelhecimento (Buck Institute for Research on Aging) também conseguiu fazê-lo e descobriu outra molécula que diminui nos indivíduos mais velhos, o fator MANF. Este fator regula o metabolismo e a resposta imunitária em moscas, ratos e humanos, mas ainda não foi possível perceber qual o mecanismo de ação, segundo um comunicado do instituto. Mas estas são ideias muito simples comparadas com as que os multimilionários da tecnologia estão dispostos a financiar.

Injetar sangue novo, congelar o corpo ou transferir a memória para um computador

Se calhar é por isso que os vampiros são imortais

Quando se fala no elixir da juventude, a primeira imagem que temos é a de um líquido translúcido, semelhante a água. Mas a variedade de líquidos que prometem o rejuvenescimento é tal que há até quem acredite que a solução pode estar em beber sangue da menstruação. A condessa húngara Erzsébet Báthory, no século XVI, preferiu outra solução, banhar-se no sangue de mulheres jovens. Mas a ideia de que o sangue dos jovens podia fazer rejuvenescer é alvo de experiências ainda mais antigas: diz uma polémica lenda que o Papa Inocêncio VIII, no século XV, terá recebido uma transfusão de sangue (ou bebido o sangue) de três rapazes saudáveis. Não ficou mais jovem, não resolveu a doença renal crónica de que sofria e acabou por morrer (as três crianças também).

A transfusão de sangue de jovens parece ser um dos negócios do momento — ou, pelo menos, um altamente rentável —, como o ensaio clínico anunciado no almoço de gala, por 256 mil euros por pessoa. Mas as transfusões de plasma sanguíneo jovem (o sangue sem as células sanguíneas) já estavam a ser testadas pela empresa de Jesse Karmazin, Ambrosia Plasma, por oito mil dólares (cerca de sete mil euros) por cada sessão. Mais de 100 pessoas sujeitaram-se ao tratamento experimental — algumas até repetiram.

Karmazin, que não pode exercer medicina nos Estados Unidos, afirmou que as transfusões “melhoram drasticamente a aparência das pessoas, a memória e a força”, diz, citado pelo The Huffington Post. “Quero deixar claro, neste momento, que resulta. Reverte o envelhecimento”, continua. “Não posso ainda dizer que vai permitir a imortalidade, mas acho que vai chegar perto.” Mas nenhuma prova para estas afirmações foi alguma vez apresentada.

“Não há benefícios clínicos comprovados de que a infusão de plasma de dadores jovens cura, alivia, trata ou previne estas condições e há riscos associados com o uso dos produtos de plasma.”
Food and Drug Administration

Em fevereiro deste ano, a autoridade norte-americana do medicamento (FDA) alertou que estas transfusões não foram sujeitas a testes rigorosos para comprovar a segurança e a eficácia. “Não há benefícios clínicos comprovados de que a infusão de plasma de dadores jovens cura, alivia, trata ou previne estas condições [envelhecimento, perda de memória, Parkinson, Alzheimer, entre outras] e há riscos associados com o uso dos produtos de plasma.” Entre os riscos contam-se alergias, infeções e complicações cardiovasculares.

A morte resolve-se acabando com as doenças

Há quem tente tudo para preservar o corpo à espera das soluções de longevidade. Em 2016, James Strole criou a organização sem fins lucrativos Coalition for Radical Life Extension que apoia a ciência que fará o homem viver mais tempo. Enquanto espera, tem o seu próprio leque de soluções, como conta o jornal britânico The Guardian: não come laticínios, raramente come pão e chega a tomar 70 suplementos por dia (para nutrir o cérebro, “dar energia às mitocôndrias”, mais as vitaminas e multinutrientes e um medicamento para a diabetes). Além disso, dá mergulhos na piscina gelada para ativar o sistema imunitário, deita-se num colchão eletromagnético para “abrir as veias” e usa um sistema de respiração que “equilibra as hormonas”. Nada disto parece demasiado extravagante se pensarmos que há quem se injete com testículos de macacos, de cães ou de cobaias, à procura da juventude e de melhor desempenho sexual.

Aubrey de Grey, com 56 anos, é um dos mais excêntricos apoiantes da investigação que procura reverter o envelhecimento, mas não está disposto a sujeitar-se a tratamentos experimentais, nem aceita fazer nada que não esteja demonstrado pela ciência — e nenhuma das soluções de Strole está (e as injeções com material dos testículos também não). De Grey agrupou em sete categorias os acontecimentos que, a nível celular, provocam as doenças crónicas e o envelhecimento — células a mais, células a menos, moléculas alteradas e resíduos acumulados, estão entre os principais problemas. Resolvendo estas questões, resolve-se o problema da mortalidade.

O gerontologista britânico é cofundador da Fundação Metusalém (em homenagem ao avô de Noé, que viveu até aos 969 anos), dedicada a promover a investigação da longevidade e com a missão de “tornar os 90 anos, os novos 50, até 2030”. Também é um dos fundadores da SENS (Strategies for Engineered Negligible Senescence) que se dedica sobretudo à investigação — feita dentro e fora do centro —, usando células estaminais, modificando genes, introduzindo enzimas de outros organismos ou estimulando o sistema imunitário.

Guardar o corpo para quando for preciso

Quando pensamos em imortalidade, não pensamos propriamente em múmias, mas a verdade é que os faraós conservavam o corpo depois da morte para poderem usá-lo na outra vida e há monges budistas que se auto-mumificam para que possam acordar quando a sua sabedoria for necessária outra vez. Mas sejamos realistas, um corpo mumificado não fica assim com tão bom aspeto. Melhores resultados esperam aqueles que defendem a criogénese.

A ideia de base da criógenese é preservar o corpo pelo frio de forma a poder ser descongelado quando houver uma cura para a doença ou para a causa de morte da pessoa congelada. O problema é que, até ao momento, não foi possível demonstrar que seja possível descongelar os cérebros mantendo as memórias intactas, diz o neurocientista Christof Koch à revista da BBC Science Focus. Dificilmente alguém que já tenha sido criopreservado com as técnicas atuais pode ser trazido de volta à vida — e há pessoas a serem criopreservadas desde 1976, nos Estados Unidos, num total que pode rondar as 300. É que acordar um humano adulto morto de um sono gelado, não é o mesmo que descongelar um embrião, cujo nível de complexidade dos tecidos é muito menor.

A busca agora está focada em preservar o cérebro, as ligações entre os neurónios e as memórias. The Brain Preservation Foundation já atribuiu um prémio de 27 mil dólares (cerca de 24 mil euros) à empresa 21st Century Medicine, na Califórnia, porque conseguiu preservar a ultraestrutura de um cérebro de coelho morto e pode mantê-lo assim por 100 anos. O prémio principal, de 108 mil dólares (cerca de 97 mil euros) há-de ser atribuído àqueles que consigam encontrar uma forma de preservar o cérebro de um grande mamífero de maneira a ser aplicável a humanos. Por enquanto, continuamos à espera.

Não precisamos do corpo para viver

Para muitas religiões, o corpo é apenas a materialização da passagem pela Terra, de uma entidade que é imortal, seja ela a alma ou tenha ela outra designação. Além do mais, é muito fácil de imaginar que o corpo se deteriora, porque é físico, mas os pensamentos não. Então, porque não ignorar o corpo e passar tudo para um computador, um chip ou simplesmente para a nuvem (cloud).

O transumanismo, que pretende aumentar as capacidades humanas com recurso à tecnologia, já não é mera ficção científica. Elon Musk, que fundou o PayPal, investiu na Tesla e criou a SpaceX, vê o futuro dos humanos intimamente ligado aos aparelhos eletrónicos e é isso que pretende desenvolver com a empresa Neuralink — uma startup  de 51 milhões de dólares (mais de 45 milhões de euros). A ideia é colocar elétrodos, logo por baixo do crânio, explica a Visão, primeiro para ajudar paraplégicos a completarem tarefas simples, depois para permitir que as pessoas comuniquem — tornando a telepatia uma realidade — e, mais tarde, para substituir o consumo de café, tabaco e álcool, por uma app. O aparelho já terá sido testado em macacos e poderá começar a ser experimentado em humanos no final de 2020.

Esta interface cérebro-computador também marca o início do projeto de Dmity Itskov, 2045 Initiative, mas o empreendedor russo tem menos de 15 anos para conseguir primeiro pôr um cérebro humano a funcionar num robô e, mais tarde, criar um modelo computacional que possa receber apenas a consciência da pessoa e com ela comandar um robô que passará a ser o suporte físico dessa mente. “Uma coisa é clara: a humanidade, pela primeira vez na sua história, fará uma transição evolutiva totalmente dirigida e, eventualmente, dará origem a uma nova espécie”, lê-se no site do projeto.

Quem quer viver para sempre?

Qin Shi Huang, o primeiro imperador chinês, no século III a.C., unificou todos os estados da China, deu início à construção da Grande Muralha e construiu o enorme exército de terracota. Atraiu, com isso, um grande número de inimigos, o que o fez preocupar-se com a imortalidade, mas a solução encontrada pode ter-lhe causado um fim precoce: envenenamento com mercúrio, o mesmo que misturava no vinho e mel na busca pela vida eterna, conta a revista Chemistry World.

O imperador ter-se-á reunido dos melhores alquimistas à procura do elixir da juventude e usou o seu poder para conseguir o que queria. Os imperadores agora são outros e o poder é medido pelo número de zeros nas contas bancárias. “Há, aproximadamente, seis ou sete multimilionários que estão muito interessados na possibilidade de extensão da vida e investem 40, 50 ou 100 milhões de dólares todos os anos nestas coisas”, diz ao Business Insider Zoltan Istvan, fundador do partido Transumanista e que foi candidato às presidenciais norte-americanas de 2016.

É graças a estes multimilionários que os projetos mais arrojados — com mais custos, menos garantias de resultados positivos e mais dificuldade em angariar dinheiros públicos — conseguem avançar. Larry Ellison, fundador da empresa de tecnologia Oracle e um dos homens mais ricos do mundo, tem 74 anos e quer viver para sempre. A criação da Ellison Medical Foundation pode aproximá-lo desse objetivo. Desde 1997, a fundação já distribuiu cerca de 500 milhões de dólares (cerca de 450 milhões de euros) em projetos independentes sobretudo focados no combate ao envelhecimento, segundo a Deutsche Welle. Um dos projetos financiados foi a parabiose de Amy Wagers (já referido) que descobriu o papel da proteína GDF11.

Larry Ellison é um dos homens mais ricos do mundo, tem 74 anos e não quer morrer — Justin Sullivan/Getty Images

Justin Sullivan/Getty Images

Outro grande impulsionador da investigação em gerontologia é a SENS, de Aubrey de Grey, que entre os projetos próprios e os de investigadores independentes que financia investe cerca de cinco milhões de dólares (quase 4,5 milhões de euros) por ano. E não é só a investigação que é financiada, mas a promoção da importância dessa investigação, o que justifica que Peter Thiel tenha doado, em 2006, 3,5 milhões de dólares (3.1 milhões de euros) à Fundação Matusalém (Methuselah Foundation), também fundada por de Grey.

Peter Thiel, que para além de co-fundador do PayPal foi também um dos primeiros investidores do Facebook, gostava de viver até aos 120 anos, um objetivo modesto comparado com outros investidores de Silicon Valley. Mas o desejo de ser criogenado depois de morto pode explicar o desejo pouco ambicioso em termos de longevidade, porque quem é congelado tem esperança de ser acordado quando os problemas da mortalidade estiverem resolvidos. Até lá, o empreendedor de 51 anos vai tomando uma hormona do crescimento, segundo a revista MIT Technology Review — mais uma das promessas para aumentar o tempo de vida que nunca demonstrou ser eficaz.

Uma empresa que imprime ADN a laser, a Cambrian Genomics, outra que está a desenvolver medicamentos contra o cancro, a Stem CentRx, ou ainda uma que faz screening de ADN (uma leitura do que dizem os genes) estão entre as empresas que Thiel apoiou financeiramente através das suas fundações. O capitalista de risco e Jeff Bezos, fundador da Amazon, também investiram na Unity Biotechnology, uma start-up que trabalha para desenvolver tratamentos (senolíticos) contra células senescentes (células mais velhas que perderam a capacidade de se multiplicar) e as proteínas que produzem e causam inflamação dos tecidos. A empresa já começou os ensaios clínicos para testar a segurança destes fármacos.

Larry Page e Sergey Brin, co-fundadores da Google, também estão interessados na investigação e tecnologia que tenta contornar o envelhecimento. Daí que não seja de espantar que a Google tenha criado a Calico (California Life Company) com esse objetivo, em 2013. A parceria entre a Calico e a farmacêutica AbbVie previa um investimento que podia chegar a 1,5 mil milhões de dólares (1.3 milhões de euros), segundo The Verge. Em 2015, a Calico estabeleceu uma parceria com o Instituto Buck (Buck Institute for Research on Aging), o mais antigo na investigação em gerontologia, mas sem revelar os valores envolvidos. Um dos projetos financiados pela Calico no Instituto Buck permitiu reproduzir a experiência da parabiose e identificar o fator MANF.

A verdade é que a maior parte dos projetos e do que está a ser desenvolvido pela Calico continua envolto em secretismo, a empresa não se mostra disponível para falar sobre eles ou sobre os resultados. Sem mais informação, fica apenas a especulação de que estejam a trabalhar num fármaco que possa mimetizar um gene da longevidade. A revista The Atlantic justifica esta ideia com uma das primeiras contratações da Calico, a bióloga molecular Cynthia Kenyon. A investigadora na Universidade da Califórnia em São Francisco é conhecida por ter conseguido manipular os genes de vermes e ratos para lhes aumentar a longevidade. O gene foxo3 nos humanos também já foi associado a longevidades excecionais. Falta saber se é sobre isto que a Calico está a trabalhar.

Muitos outros apoios têm sido dados à investigação em envelhecimento e longevidade, incluindo os Breakthrough Prize em Ciências da Vida, que atribuiu até seis prémios anuais de três milhões de euros a cientistas que tenham feito avanços na cura de doenças que atualmente ainda não têm tratamento adequado ou que tenham dado novos passos no aumento da esperança vida. Entre os fundadores e financiadores estão Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, e a mulher Priscilla Chan, Sergey Brin, da Google, e Anne Wojcicki, fundadora da empresa de testes genéticos 23andMe e ex-mulher de Brin, e ainda Yuri Milner, um investidor russo formado em Física.

O que fazer com uma população que não pára de crescer e não morre?

O investimento milionário em busca da imortalidade não tem sido imune a críticas. Na plataforma Reddit foi lançada uma pergunta a Bill Gates, fundador da Microsoft: “O que pensa da investigação em aumentar a longevidade e imortalidade?” “Parece-me bastante egocêntrico que as pessoas ricas financiem coisas para viverem mais tempo, tendo em conta que ainda temos malária e tuberculose.” A Fundação Bill & Melissa Gates tem financiado inúmeros projetos que pretendem melhorar as condições de vida nos países mais pobres. Mas o fundador da Microsoft admite: “Seria bom viver mais tempo”.

“Parece-me bastante egocêntrico que as pessoas ricas financiem coisas para viverem mais tempo, tendo em conta que ainda temos malária e tuberculose.”
Bill Gates, fundador da Microsoft

A censura aos multimilionários que investem na investigação em longevidade e imortalidade porque querem usufruir dos resultados não é a única. Outras críticas prendem-se com o facto de muitas empresas estarem a tirar proveito deste desejo de viver para sempre das pessoas e estarem a enriquecer à custa de tratamentos que não demonstraram ser eficazes e que, muitos deles, nem sequer demonstraram ser seguros. Outro problema é saber quem é que vai poder ter acesso a estes tratamentos: só quem tem dinheiro para os pagar ou todas as pessoas?

Uma outra questão se coloca também: e se uma pessoa não quiser? Elon Musk diz que ninguém tem de se sentir obrigado a colocar elétrodos no cérebro, mas vão sentir-se tentados a fazê-lo quando se virem a ser ultrapassados no mercado de trabalho.

Pode ser tentador ter capacidades potenciadas pelas máquinas ou não depender sequer de um corpo para usar o poder da mente. Mas até que ponto podemos manter o controlo do nosso cérebro? Como os computadores que temos hoje em dia, as máquinas de alguma forma ligadas aos neurónios humanos podem ser alvo de pirataria informática, erros ou avarias. E, até ver, nada impede que alguém invada a tecnologia e que assuma o controlo dos nossos pensamentos e ações. Mais, as ideias são tão recentes — e, naturalmente, não testadas em humanos — que ninguém faz ideia de como esta tecnologia pode afetar o desenvolvimento cerebral.

Apresentar os potenciais benefícios sem fazer referência aos prejuízos é comum entre as soluções inovadoras que prometem aumentar o tempo de vida. Se voltarmos à parabiose, quando dois organismos fundem o sistema circulatório, o mais velho rejuvenesce, mas o mais novo tem um envelhecimento precoce. Como as moscas-da-fruta, é possível aumentar a longevidade com uma dieta rica em açúcar e pobre em proteína, mas o resultado é que tem menos descendentes, com menor capacidade de lutar contra as infeções. A inibição do sistema imunitário também é um efeito secundário do jejum intermitente que promete reduzir o crescimento celular e a morte celular (logo o envelhecimento das células).

Viver para sempre levanta muitas outras interrogações. Imaginemos que todas estas dificuldades e efeitos secundários são ultrapassados ou que abdicamos facilmente dos prazeres físicos, como a comida, a música e o sexo, por exemplo, para sermos máquinas a receber impulsos virtuais: o que acontece se nos cansarmos de viver para sempre? Viver muito mais tempo traz o risco de a nossa vida se tornar aborrecida, até porque já não teremos uma lista de coisas para fazer antes de morrer.

E o que fazer com aqueles que não queremos que tenham acesso a ela, como os ditadores? E se pudermos viver para sempre, até quando vamos continuar a trabalhar? E se não trabalharmos, que Estado vai poder suportar pensões de velhice eternas? Como vamos controlar a explosão demográfica? O que vamos comer ou onde vamos encontrar água potável para tanta gente? Controlar o crescimento da população pode passar por ter menos filhos, claro mas aí passamos a ser uma civilização de velhos imortais.

Com os pés mais assentes no presente, Paul Root Wolpe, do Centro de Ética da Universidade Emory, acha que primeiro devíamos olhar para os idosos que temos no presente antes de tentarmos viver mais tempo. “Quando ouvimos as pessoas a favor do aumento da longevidade falar da maior fonte de conhecimento, de experiência e de perspectivas que criamos ao prolongar a vida, bem, nós já temos várias pessoas com 70 a 90 anos na sociedade hoje em dia e não tentamos aprender com eles”, diz citado pela Newsweek. “Já duplicámos a esperança média de vida dos humanos e tudo o que conseguimos criar na sociedade moderna foi um culto da juventude.”

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