O que faz de “Em Busca do Tempo Perdido” um clássico?

24 Julho 2016

Não é apenas pela dimensão do romance. Miguel Tamen, Luísa Costa Gomes e Jorge Almeida escrevem sobre a obra de Marcel Proust, cujos sete volumes estão agora a ser reeditados pela Relógio d'Água.

Miguel Tamen: “As nossas memórias não são de fiar”

O historiador Isaiah Berlin, que tinha a fama de ter lido livros, perguntou ao filósofo Gilbert Ryle, sem hábitos de leitura conhecidos, se já tinha lido algum romance. Ryle respondeu que tinha lido os seis. Quem leu o romance de Marcel Proust reconhece-se e acha conforto nestas respostas. No entanto o romance é temido. Quem não o leu, ou não o conseguiu acabar, faz troça da extensão, das frases compridas, ou do número de duquesas; são aqueles que nunca têm paciência para o facto de os elefantes serem tão grandes. Posta desta maneira a questão parece uma questão de opinião. É porém justamente o contrário: os grandes romances, como aliás a maior parte das coisas grandes e importantes, têm o efeito de reduzir as nossas opiniões, os nossos gostos, e as nossas inclinações a muito pouco. Quando alguém manifesta reservas sobre o romance de Proust, quem o leu com entusiasmo sabe instintivamente que não adianta continuar a conversa.

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A capa do primeiro volume, “Do Lado de Swann”

O romance de Proust não é uma tentativa de ser amável com os leitores. Proust, como Berlin, era um bom conversador, e uma pessoa muito amável; mas era indiferente à ideia de que um romance tem de ir ao encontro do público. Ao contrário de Berlin nunca teve dúvidas sobre o que estava a fazer; e por isso não precisava de ter à mão quem concordasse com ele. Escreveu o livro de noite, durante os últimos quinze ou dezasseis anos de vida, fechado sucessivamente em dois andares em Paris, com as persianas corridas; raramente entrava alguém para o visitar. Aos poucos que apareciam não dava pormenores sobre o que estava a fazer; e quem o conhecia não o imaginava capaz de fazer nada de importante. O manuscrito foi recusado pela principal editora francesa, que aliás se viria a arrepender. Quando começou a ser publicado, em 1913, ainda o autor era vivo, muitos queixaram-se: um crítico reparou que ele escrevia como se sofresse de falta de ar; tinha asma.

Pede-se desculpa por ter de haver traduções do romance de Proust; e lamenta-se que quase ninguém saiba ler francês. Mas isto é como dizer que a Bíblia deve ser traduzida porque já quase ninguém sabe a maior parte das línguas em que foi escrita. Não saber línguas é porém uma situação normal. Há muitas traduções de Proust, e da Bíblia, mais estimadas e mais lidas que os originais. A verdade é que o romance nunca foi lido pela maioria das pessoas que sabem francês; e a maioria das que o leu não sabia uma palavra de francês; só aprendemos línguas estrangeiras em caso de necessidade. A única justificação que conta para traduzir um grande livro, como a única justificação que conta para ler um grande livro, é ser um grande livro. Um tradutor pode traduzir um grande livro por muitos motivos, como aliás um leitor o pode ler por motivos muito diferentes. Mas no fundo só um irá contar como justificação: ter traduzido um livro porque era grande, ou tê-lo lido porque era importante.

Apesar de quase toda a gente concordar que esta vida deve ser passada a fazer coisas importantes, ler mais de três mil páginas de um mesmo livro, ainda por cima uma história de pessoas que não existiram, não parece importante para quase ninguém. Na verdade, poucos hoje imaginam que alguém possa querer estar quieto durante muitas horas; e é por isso que não se imagina que a ideia de ler três mil páginas do mesmo livro tenha vantagens. A opinião geral é que as coisas só podem ser importantes se as pessoas se estiverem a mexer. Há uma repugnância partilhada, moral e política, por pessoas imóveis: os mortos, os acamados, e também os raros vivos que passam muito tempo quietos, por exemplo a ler, põem-nos nervosos.

Como é que se convence alguém a ler, pouco importa se no original ou em tradução, três mil páginas de um único romance? Há quem pense que a única maneira é contar a história do que lá se passa de um modo amável, por exemplo em quinze segundos. Com o romance de Proust, porém, este método de angariação não funciona. Não é porque não haja histórias nele, e por isso histórias a contar a terceiros. Há, e são várias. Mas nenhuma dessas histórias consegue fazer justiça aos motivos do nosso interesse por ele; e por isso saber o que se passa neste romance nunca nos consegue estragar a sua leitura.

Os grandes romances, como aliás a maior parte das coisas grandes e importantes, têm o efeito de reduzir as nossas opiniões, os nossos gostos, e as nossas inclinações a muito pouco.

O teste para saber aquilo que nos interessa, num livro ou numa pessoa, não é a informação fidedigna que coligimos a seu respeito mas aquilo de que nos iremos lembrar a propósito de outras coisas. Naturalmente pessoas diferentes lembram-se de coisas diferentes; no romance de Proust porém só poucas pessoas se lembram da história; e menos ainda se lembram da história toda. Alguém lembrar-se-á de uma senhora vestida de côr-de-rosa, ou de um senhor que decide que um primo não morreu porque tem um jantar nessa noite; outra pessoa, de um passeio por Paris às escuras, durante um bombardeamento; outra ainda, das cenas de humilhação pública, das discussões sobre vitrais, ou dos trocadilhos de um médico; uma quarta, de alguém que recebe um telegrama de uma namorada morta. Muita gente confundirá lembranças, aliás como a personagem principal confunde pessoas; ou perceberá que duas memórias diferentes se referem afinal à mesma pessoa.

O romance de Proust ficou associado à ideia de que nos conseguimos sempre lembrar de tudo; tem um aspecto intimidante de filosofia. E no entanto qualquer leitor descobre que, mais filosofia menos filosofia, o que se mostra no livro é que as nossas memórias não são de fiar: são parte do “erro perpétuo a que se chama vida.” Talvez Proust estivesse aqui a exagerar: mas talvez este romance seja importante por ser tão parecido com quem o consegue ler. E a confirmação disto é que quem o consegue ler percebe-o sempre, mesmo que não se lembre de tudo, que nunca tenha posto os pés em Paris, ou recebido um telegrama.

Miguel Tamen (professor, autor e tradutor)

Luísa Costa Gomes: “Irrespirável de bom, esmagador de bem feito”

Três vezes comecei a leitura da Recherche animada das melhores intenções. Três vezes a Recherche me venceu. Começo por Albertine Disparue, é o que apanho à mão. Nada a comentar, era nova demais. Du côté de chez Swann é um livro genial, já soube o princípio quase de cor. “Longtemps je me suis couché de bonne heure”, etc. Perfeito. A descrição musical do sono que se julga vigília. Imorredoiro. Inultrapassável.

Avanço para À l’ombre des jeunes filles en fleur. Começa a ser difícil. Passo para Le Temps Retrouvé. Tenho vinte anos, estou a ler ao mesmo tempo A Montanha Mágica, o paralelo é promissor. Proust tem para mim um problema só: é demasiado. É irrespirável de bom. É esmagador de bem feito. É preciso fazer tanto compromisso para tanta sensibilidade! Negociar sempre com ele este caminho, transformar a sensiblerie em sensibilidade, a susceptibilidade em fragilidade, o estético em interessante, o bonito em belo, o bem escrito em bem pensado… e acaba por ser estafante, como Stendhal em Florença, a síndrome instala-se, deixa-me ir ver televisão, uma coisa estúpida e ligeira…

Mas volto a Proust sempre, porque as descrições são extraordinárias, e aquelas tias (mas aqueles salões, as conversas nos salões!…) e a linguagem banha tudo, transforma tudo, empapa tudo, e o que se me impõe é apenas o fantasma de um homem fechado num quarto e em si próprio, a escrever.

Luís Costa Gomes (escritora e dramaturga)

Jorge Almeida: “Uma virtuosa declaração de guerra ao preconceito”

Os gurus do optimismo (defensores da teoria do ‘copo meio-cheio’ e inimigos da teoria do ‘copo meio-vazio’) alertam para a necessidade de ter ‘uma visão positiva sobre a vida’. Um dos muitos méritos pelos quais Em Busca do Tempo Perdido é um romance que deve ser louvado como poucos é o de mostrar que quem tem apenas ‘uma visão sobre a vida’, seja optimista ou pessimista, é sempre cego e que essa cegueira não se deve somente a problemas de ordem física ou intelectual, mas também à existência de um defeito moral a que Proust chama ‘cobardia’.

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A capa do segundo volume, “À Sombra das Raparigas em Flor”

Existe mesmo um passo do romance em que Proust mostra como a cobardia pode influenciar o juízo estético ou, pelo menos, a expressão pública desse juízo e, consequentemente, a possibilidade da formação de um padrão do gosto sustentada pela falta de coragem. Neste passo, o narrador conta que Charles Swann, um gentleman cobiçado pelas aristocratas parisienses, não permitia que as barreiras sociais o impedissem de desejar mulheres de uma condição social inferior à sua, acrescentando que Swann “não era como tantas pessoas que, ou por preguiça ou por uma consciência resignada da obrigação criada pela sua estatura social de permanecerem ligadas a um certo lado da vida, se abstêm dos prazeres que a realidade lhes oferece para além da posição mundana onde vivem acantonadas até à morte, limitando-se a acabar por chamar prazeres (…) aos divertimentos medíocres ou aos suportáveis tédios que essa posição contém. Quanto a Swann, não procurava achar bonitas as mulheres com quem passava o tempo, mas passar o tempo com as mulheres que previamente achara bonitas.” A acção que consiste em classificar ‘divertimentos medíocres e suportáveis tédios’ como ‘prazeres’ é, no fundo, um acto que parece seguir os preceitos da teoria que defende que se deve ver sempre o copo meio-cheio em vez de ver o copo meio-vazio, e a que Proust chama ‘falseamento do desejo’. As pessoas que Proust critica neste excerto são aquelas que olham para aquilo que as rodeia já com uma visão predefinida, com um gosto predefinido e que se deixam governar por preconceitos. Proust sugere, assim, que o preconceito é a maior das tentações para os cobardes.

Charles Swann aparece aqui como alguém com coragem suficiente para se livrar de alguns dos preconceitos que o obrigariam a ter de apreciar uma coisa em vez de outra. Neste passo, fica ainda claro que a coragem de Swann não só o leva a contrariar preconceitos de ordem social como também algumas das ideias que o próprio tem acerca da beleza feminina, pois as características físicas das mulheres que atraíam Swann “estavam em completa contradição com as que lhe tornavam admiráveis as mulheres esculpidas ou preferidas pelos mestres que preferia”. Na verdade, o que Swann faz é optar por escolher o caminho mais difícil, pois escolhe a tarefa árdua de procurar copos cheios em vez de fazer um mero esforço de imaginação que lhe permita transformar copos meio-cheios ou vazios em copos cheios. Quando a sociedade lhe diz que só pode amar duquesas, Swann não abdica de amar as operárias que o atraem; quando as magras e melancólicas figuras femininas que ele aprecia na arte lhe sugerem que esse deve ser o seu ideal de beleza feminina, Swann deixa-se ainda encantar por “uma carne saudável e abundantemente rosada”.

Um dos muitos méritos pelos quais Em Busca do Tempo Perdido é um romance que deve ser louvado como poucos é o de mostrar que quem tem apenas ‘uma visão sobre a vida’, seja optimista ou pessimista, é sempre cego e que essa cegueira não se deve somente a problemas de ordem física ou intelectual, mas também à existência de um defeito moral a que Proust chama ‘cobardia’.

Swann, contrariamente à maioria das outras personagens do romance, parece colocar em causa a ideia de guilty-pleasure precisamente porque tem coragem para assumir os seus gostos, mesmo que isso lhe traga problemas sociais ou acusações de incoerência a respeito de ideais de beleza. Do lado oposto, o lado da cobardia, Proust coloca personagens como o casal Verdurin, para quem os seus amigos são as pessoas mais ‘interessantes’ e para quem aqueles que não são seus amigos não passam de uns ‘maçadores’, o que implica que, perante uma inversão de papéis no campo da amizade, um ‘maçador’ rapidamente passe a ser ‘interessante’ e um ‘interessante’ se torne um ‘maçador’. Todavia, Proust estende o seu argumento e mostra como, por exemplo, as opiniões de Oriane de Guermantes a respeito do chic em matéria de mobiliário variam apenas conforme o que a moda parisiense dita. Deste modo, parece ser a coragem, ou a falta dela, para assumir determinadas preferências que acaba por ditar o padrão do gosto.

Não se pense, porém, que a coragem de Swann, tal como qualquer outra coisa no romance, é eterna. Mais à frente na narrativa dos amores de Swann, quando este conhece Odette, Swann acha-a “não, é claro, destituída de beleza, mas com um género de beleza que lhe era indiferente, que não lhe inspirava qualquer desejo”. Contudo, algum tempo depois, Swann acaba por descobrir em Odette semelhanças com uma figura de Botticelli e, imediatamente, a imagem de Odette ganha para Swann uma nobreza que até então não tinha. Desta forma, Swann acaba por se esforçar para transformar Odette numa mulher bonita em vez de ir procurar uma mulher que achasse realmente bela. Proust afirma que esta perda da coragem de Swann se deve à acção do tempo sobre o gentleman: “Dantes sonhava-se possuir o coração de uma mulher por quem se estava apaixonado; mais tarde, sentir que se possui o coração de uma mulher pode bastar para nos apaixonar”. Swann acaba também por falsear o seu desejo recorrendo a um preconceito, ao seu ideal de beleza feminina em arte. A acção do tempo é também devastadora no âmbito do desejo.

A coragem que Swann exibe na sua juventude e que irá perder com a passagem do tempo tem algo de muito parecido com o acto de coragem que é Em Busca do Tempo Perdido: a coragem de um autor que, mesmo sabendo que ter uma posição livre de preconceitos e de desejos falseados é uma posição impossível de ocupar, não deixa de ter a coragem de os enfrentar. Descrever o amor de Swann de uma forma e depois voltar a descrevê-lo de outra forma e depois de outra e ainda de outra (como, aliás, qualquer outro objecto do romance) é um acto de coragem na medida em que é uma declaração de guerra a todas as descrições simples, isto é, a todos os preconceitos.

Jorge Almeida (aluno de doutoramento em Teoria da Literatura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)

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