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epa12208092 Members of the media report from a damaged section of Evin Prison after recent Israeli airstrikes, in Tehran, Iran, 01 July 2025. Iran's judiciary stated that at least 71 people were killed in Israeli airstrikes on Evin Prison, which occurred on 23 June 2025. This incident took place during the 12-day Iran-Israel conflict, which started on 13 June. A US-mediated ceasefire between Iran and Israel was announced on 24 June.  EPA/ABEDIN TAHERKENAREH
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▲Jornalistas estrangeiros documentaram a destruição em Evin, a convite das autoridades iranianas

ABEDIN TAHERKENAREH/EPA

▲Jornalistas estrangeiros documentaram a destruição em Evin, a convite das autoridades iranianas

ABEDIN TAHERKENAREH/EPA

"O tiro saiu pela culatra". Como o ataque de Israel à prisão "símbolo de opressão" uniu a oposição iraniana à "volta da bandeira"

Israel atacou Evin, onde estão centenas de presos políticos, e reclamou a "libertação" do povo iraniano, mas foi recebido com críticas. A sobrevivência sobrepõe-se à ideologia, explicam analistas.

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Faltavam poucos minutos para o meio-dia quando a primeira bomba israelita atingiu a prisão de Evin no dia 23 de junho. Perante o impacto, a assistente social Zahra Ebadi saiu do seu gabinete e correu para a zona dos visitantes, onde deixara Mehrad, o filho de cinco anos, a brincar – tinha levado o filho para o trabalho por não ter encontrado quem ficasse com ele nessa segunda-feira. Zahra foi morta por uma segunda explosão, assim como Mehrad, um colega que o tentou proteger dos estilhaços e outras quatro assistentes sociais que trabalhavam na prisão. O ataque de Israel à prisão iraniana foi reconstituído pelo New York Times, baseado em relatos de testemunhas a diferentes media iranianos.

Ao todo, em poucos minutos, Israel terá lançado seis ataques aéreos contra quatro áreas do complexo prisional. O ataque matou pelo menos 71 pessoas, incluindo vários funcionários e guardas, mas também reclusos e civis que se encontravam na prisão durante o horário de visitas. Localizada no norte de Teerão, Evin foi construída em 1971, pelo regime do Xá Reza Pahlevi, mas ganhou notoriedade internacional sob a República Islâmica, pela detenção de opositores políticos e cidadãos internacionais (muitas vezes sujeitos a julgamentos sumários) pelo recurso à tortura contra os prisioneiros e por levar a cabo execuções.

A justificação israelita para os ataques a este alvo foi dupla: por um lado, o porta-voz do Exército israelita, Effie Defrin, declarou que a prisão era de “operações dos serviços de informação contra o Estado de Israel, incluindo contraespionagem”. Já o ministro dos Negócios Estrangeiros classificou o ataque como uma resposta aos ataques iranianos contra alvos civis em Israel. “Avisámos o Irão uma e outra vez: parem de visar civis! Eles continuaram, incluindo esta manhã. A nossa resposta: Viva la libertad, carajo!”, escreveu Gideon Sa’ar no X.

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▲ O edifício onde Zahra e as restantes assistentes sociais trabalhavam ficou destruído

Getty Images

Mas a “liberdade” que Telavive reclamou através do ataque a um dos símbolos de opressão do regime dos ayatollahs não encontrou o mesmo eco entre o povo iraniano, nem mesmo nos mais críticos do regime. “O ataque à prisão de Evin saiu-lhes pela culatra”, argumenta Mehrzad Boroujerdi, diretor da faculdade de Artes, Ciências e Educação da Universidade do Missouri de Ciência de Tecnologia, ao Observador. Os especialistas no Irão apontam dois motivos para este efeito. Por um lado, porque Evin não é vista apenas como um símbolo de opressão, mas como “um bastião da resistência” iraniana. Por outro lado, porque vitimou civis, o que pode legitimar mais violência contra os iranianos.

Dias depois do ataque, Narges Mohammadi, ativista iraniana laureada com o prémio Nobel da Paz em 2023 e prisioneira durante longos anos em Evin, temia que essa violência recaísse novamente sobre as principais vítimas do regime de Teerão: “Ativistas da sociedade civil, ativistas políticos e principalmente jovens ativos em atividades sociais”. “Infelizmente, acho que a repressão se vai intensificar nos próximos dias“, declarou ao Wall Street Journal.

Os medos de Mohammadi parecem estar a confirmar-se, segundo um relatório de especialistas do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas que aponta que entre os dias 13 de junho — data do primeiro ataque israelita — e 4 de julho — data da publicação do relatório — foram executadas seis pessoas e detidas várias centenas, acusadas de espiarem para Israel. A repressão e a violência que se tem feito sentir contra opositores políticos afetou também todos aqueles que estavam detidos em Evin, que foram deslocados para outras prisões com “condições abismais”.

A ala 209, a restrição a cuidados médicos e a tortura: o retrato da prisão de Evin

Nos subúrbios de Teerão, numa colina junto ao sopé das Montanhas Alborz, fica o complexo prisional de Evin. A norte da prisão, com capacidade para 15 mil reclusos, estende-se um campo de minas antipessoais, que funcionam como último recurso para impedir fugas. Evin está longe de ser a única prisão do Irão, mas é a mais famosa, por ser o centro do sistema de repressão a opositores e ativistas políticos. A justificação para essa realidade remonta à revolução de 1979, quando a República Islâmica a utilizou para prender as pessoas fiéis ao regime do Xá, que poderiam ser vistas como “ameaças” ao novo regime dos ayatollahs.

A partir daí, as autoridades iranianas construiram novas alas, desenvolveram novos complexos e novas formas de tortura, consolidando Evin como uma prisão política no início do século XXI. Pelos seus blocos passaram políticos, ativistas, figuras da sociedade civil, jornalistas e empresários. Num relatório de 2004, a Human Rights Watch relatava que quase todos os antigos reclusos do sistema prisional iraniano tinham passado por Evin — e denunciado as más condições e repetidas violações de Direitos Humanos. Mais de duas décadas depois, continuam a passar por Evin prisioneiros nacionais e estrangeiros: da ativista iraniana laureada com o prémio Nobel à jornalista italiana, libertada no início deste ano, passando pelo casal francês, que se encontrava na prisão à data do ataque de Israel.

No centro do complexo prisional fica a ala 209. Ao contrário dos restantes blocos da prisão, a ala 209 é controlada pelo Ministério da Informação do Irão e destinada aos prisioneiros políticos de mais alto perfil. A maior parte das celas deste bloco são celas de confinamento solitário — onde os prisioneiros são sujeitos a tortura psicológica, como a “tortura branca” que deu nome ao livro da Nobel Narges Mohammadi e que consiste em manter as luzes das celas acesas 24 sobre 24 horas, sem qualquer outro estímulo ou distração para os prisioneiros. Já a cave é utilizada para torturar fisicamente os prisioneiros.

No passado dia 23, a ala 209 foi um dos edifícios atingidos pelo ataque israelita. Do outro lado de um pátio, ficava o hospital, que ficou inoperacional. A Amnistia Internacional denunciou o facto de os prisioneiros serem privados de cuidados médicos como forma de tortura e de não terem acesso a cuidados básicos de higiene. Mas Louis Arnaud, turista francês que foi detido em 2022 e esteve preso em Evin dois anos, recorda “a bondade das enfermeiras, a sua coragem silenciosa enquanto passavam notícias clandestinas às famílias dos desaparecidos”. Pelo menos um médico foi morto e uma médica voluntária perdeu um braço e uma perna no ataque.

Do outro lado do centro médico ficava um edifício administrativo, onde terá sido morto Ali Ghanaatkar, procurador-chefe da prisão e principal responsável pelos casos judiciais contra os presos políticos. Pelo menos 43 funcionários foram mortos. Nesta parte do complexo, verificaram-se ainda danos na porta principal, visíveis nas imagens partilhadas pelo ministro israelita Gideon Sa’ar nas redes sociais. Aqui morreram dois soldados, que estavam a cumprir o serviço militar obrigatório.

No lado oposto do complexo, a entrada dos visitantes e o centro de visitas também ficaram destruídos, assim como um outro edifício administrativo. Foi aí que Zahra, o filho, os colegas, quatro visitantes, incluindo duas crianças, e uma mulher de 61 anos que passava na rua à porta da prisão foram mortos. A contagem das vítimas mortais foi feita pelo Washington Post, que também reconstruiu o ataque, com base em imagens de satélite e relatos de testemunhas.

Contudo, o número de mortos pode ser muito mais alto do que os 71 confirmados pelas autoridades iranianas. O fotógrafo do New York Times que visitou o local descreveu “um cheiro a carne queimada e em decomposição entre os destroços”, que pode apontar para mais vítimas. Reza Shafakhah, advogado de direitos humanos, relatou ainda ao jornal que continuam desaparecidos uma centena de prisioneiros transgénero, presos numa ala diferente da prisão que também foi destruída.

O rescaldo dos ataques: ausência de cuidados, telecomunicações e transferências forçadas

Ao longo dos anos, maior parte das informações sobre a prisão de Evin foi compilada a partir de antigos reclusos, que relataram a sua experiência. Contudo, no passado fim de semana, as autoridades iranianas abriram portas, pela primeira vez, a meios de comunicação internacionais, para que documentassem a destruição causada pelos ataques israelitas.

"Os responsáveis da prisão recusaram mandar os feridos para fora [da prisão] e deixaram os prisioneiros feridos basicamente sem tratamento. Entretanto, as forças de segurança e os guardas, com a sua presença extensiva dentro das alas, tornaram o ambiente extremamente repressivo, em vez de garantirem assistência. Ameaças, intimidação e pressão sobre os prisioneiros aumentaram."
Carta de um grupo de prisioneiros que descreve os momentos após o ataque

As imagens recolhidas pela Sky News e pela NBC News mostram principalmente a destruição no edifício hospitalar e administrativo, onde se veem destroços, sangue nas paredes e recursos inoperacionais. Mas as imagens não mostram as celas dos prisioneiros na ala 209 e muito menos o cenário nas horas imediatamente a seguir ao ataque, relatado pelos prisioneiros de Evin. Num primeiro instante, todas as linhas telefónicas foram cortadas, assim como os acessos à prisão. Sem acesso ao mundo exterior, prisioneiros, visitantes e alguns funcionários tentaram retirar corpos dos destroços e ajudar os feridos, sem recurso a material médico.

“Os responsáveis da prisão recusaram mandar os feridos para fora [da prisão] e deixaram os prisioneiros feridos basicamente sem tratamento. Entretanto, as forças de segurança e os guardas, com a sua presença extensiva dentro das alas, tornaram o ambiente extremamente repressivo, em vez de garantirem assistência. Ameaças, intimidação e pressão sobre os prisioneiros aumentaram”, descreveu, posteriormente, um grupo de prisioneiros, numa mensagem partilhada pelo Comité pela Libertação dos Presos Políticos no Irão.

Quando a noite caiu, os prisioneiros começaram a ser transferidos para Fashafouyeh, também conhecida como Grande Prisão de Teerão. Foi-lhes permitido que levassem os seus pertences que coubessem num único saco de plástico e foram algemados nos pulsos e tornozelos e levados para autocarros. Os prisioneiros da ala 209 foram ainda vendados — como costuma acontecer de cada vez que saem das suas celas, descreve o Washington Post. O caminho entre as celas e a entrada, até aos autocarros, deveria demorar cinco minutos. Entre destroços e cadáveres, durou uma hora, continuam os testemunhos.

As alas das mulheres só foram evacuadas na manhã seguinte e as reclusas transferidas para a prisão de Gharchak, um complexo sobrelotado, onde as condições básicas sanitárias e de saúde são ainda mais precárias — e onde vivem várias crianças até aos dois anos, antes de serem transferidas para o sistema público. Durante a madrugada, quando os prisioneiros eram transferidos, Teerão foi alvo de novos ataques israelitas. “Quem me dera que tivéssemos morrido com os mísseis“, confessou a filha de uma prisioneira política à BBC Persa.

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Repressão iraniana ou bombas israelitas? Iranianos presos “entre as lâminas da tesoura”

Os relatos das primeiras horas depois do ataque israelita vão ao encontro da descrição que o antigo preso francês, Louis Arnaud, fez de Evin. “Não era apenas uma prisão, mas um bastião de resistência. Era ali, no coração da opressão, que a solidariedade surgia“, escreveu. Este entendimento do complexo prisional contribuiu para que a ofensiva israelita não tenha tido o impacto esperado no povo iraniano, consideram os especialistas ouvidos pelo Observador.

"Nem consigo pensar no regime ou em deitá-lo abaixo. Temo pela minha vida e de todos à minha volta."
Ativista política que participou nos protestos de 2022

“O enquadramento de Israel do ataque como um golpe contra a opressão não foi visto assim por muitos iranianos. Evin é certamente um símbolo da repressão estatal, mas é também um local onde muitos iranianos perderam entes queridos”, argumenta Narges Bajoghli, professora na Universidade Johns Hopkins. Em vez de “libertação”, os iranianos viram no ataque a morte de civis — como os médicos, as assistentes sociais e os familiares de visita. “Em vez de unir a oposição [iraniana], complicou as coisas e gerou muita raiva entre os dissidentes contra os israelitas“, continua a especialista iraniana.

Isto não quer dizer que os ataques israelitas tenham transformado os opositores da República Islâmica em seus apoiantes. Contudo, o facto de se terem tornado alvos de uma potência estrangeira criou um “um efeito de ‘união à volta da bandeira'”, considera Mehrzad Boroujerdi, em tudo oposto à revolta contra o regime que Telavive tinha idealizado. “A ideia de uma ação militar estrangeira, outrora vista como o possível caminho para a libertação, é vista cada vez mais como um perigo para a população”, elabora Narges Bajoghli, que critica a “legitimação” da violência contra o povo iraniano, perpetrada quer por iranianos, quer por israelitas.

No Irão, o sentimento traduz-se de forma semelhante. “O que oiço de prisioneiros e amigos é que se sentem presos entre as duas lâminas de uma tesoura“, exemplifica Siamak Namazi, um empresário iraniano e norte-americano que esteve preso em Evin durante oito anos ao New York Times. Uma lâmina é a ameaça interna, “o regime cruel que aprisiona e tortura”; a outra, a ameaça externa, “a força estrangeira que larga bombas nas suas cabeças em nome da liberdade”.

Mas nem sempre foi assim. Os primeiros ataques israelitas, 12 dias antes do ataque a Evin e que mataram vários líderes da Guarda Revolucionária, chegaram a ser bem-recebidos. Isso foi principalmente notável entre os jovens, que protagonizaram os protestos “Mulher, Vida, Liberdade” em 2022, na sequência da morte de Mahsa Amini, às mãos da polícia iraniana. Os protestos resultaram em mais de 500 mortos e milhares de detenções — muitas destas pessoas passaram pela prisão de Evin, mas a maior parte acabou por ser libertada em fevereiro do ano seguinte, por decisão do Líder Supremo, o ayatollah Ali Khamenei.

Amir, de 23 anos, disse à BBC que apoiava os ataques de Israel “a 100%”. “Eles mataram-nos nas ruas. Fico feliz quando as pessoas que esmagaram as nossas vidas sentem o sabor do medo. Merecemos isso”, afirmou. Contudo, à medida que os ataques continuaram, matando civis iranianos e instalando o risco de uma guerra mais prolongada, a “felicidade” deu lugar ao “medo” e à “preocupação”. “Nem consigo pensar no regime ou em deitá-lo abaixo. Temo pela minha vida e de todos à minha volta“, relatou uma jovem de 24 anos à Atlantic. Outra, com 26 anos e com a experiência de uma passagem pela prisão em 2022, destacou que a guerra não tinha apenas efeitos diretos sobre os civis.

Protestors Take To Streets Of Tehran After Death Of Woman In Police Custody

▲ Ativistas da sociedade civil lideraram os protestos anti-regime em 2022, depois da morte de Mahsa Amini

Getty Images

“Está a destruir a economia. Pode levar à fome, falta de medicação, corte de ligações ao estrangeiro. É um desastre total”, comentou, também ela de forma anónima, com a revista norte-americana. Depois dos primeiros ataques, Benjamin Netanyahu gravou um vídeo com uma mensagem para o povo iraniano. “À medida que atingimos os nossos objetivos, também estamos a deixar o caminho aberto para vocês alcançarem a vossa liberdade”, declarou o primeiro-ministro israelita. O efeito parece ter sido o contrário. E o caminho está mais fechado do que esteve nos protestos de 2022.

A oposição dividida contra o sistema “repressivo” e “institucionalizado”

Logo nos primeiros dias de ataques israelitas, o Conselho de Segurança Nacional do Ministério da Administração Interna iraniano (SHAK) ordenou a ativação de todo o sistema de segurança regional da Guarda Revolucionária. O sistema envolve a coordenação dos vários quartéis-generais deste ramo das Forças Armadas, com o objetivo de impedir protestos anti-regime, descrevem Kasra Aarabi e Saeid Golkar, que estudam o aparelho militar iraniano, num artigo na revista Foreign Policy.

A ativação deste mecanismo traduziu-se, na prática, em checkpoints nas fronteiras entre distritos e bairros e bloqueios nas estradas. Nestes postos, as autoridades revistam veículos e pessoas à procura de propaganda anti-República Islâmica ou pró-Israel e confiscam telefones e outros aparelhos de comunicação, que possam pôr em causa o sistema de segurança iraniano. Ao mesmo tempo, são mobilizadas forças em cada bairro, descrevem os especialistas, citando relatos nos media e nas redes sociais iranianas. Outra medida que entra em vigor quando este aparelho é ativado é a mesma que se verificou imediatamente a seguir ao ataque à prisão de Evin: a restrição de todas as telecomunicações.

Esta rede de segurança, que se estende ao nível mais local possível, cobre todo o Irão e cumpre múltiplos objetivos: intimidar a população, demonstrar a força do regime, mesmo quando está sob ataque, e prevenir o desenvolvimento de “ameaças” internas (que seriam protestos como os de 2022). O resultado está visível nos números detalhados pelos especialistas das Nações Unidas: “Execuções, desaparecimentos forçados e detenções em massa”. “Situações pós-conflito não podem ser utilizadas como uma oportunidade para suprimir dissidentes e aumentar a repressão”, criticam no relatório. O documento destaca que as transferências forçadas em Evin, que levaram ao desaparecimento de alguns reclusos, fazem parte deste sistema repressivo.

Narges Bajoghli argumenta que é precisamente este sistema que afasta qualquer possibilidade de uma mudança de regime. “A República Islâmica mostrou uma e outra vez que não é frágil. É repressiva, sim, mas profundamente institucionalizada“, afirma ao Observador. A este contexto, soma-se a ausência de uma oposição organizada, destaca, por sua vez, o professor Mehrzad Boroujerdi.

"A preocupação imediata é a sobrevivência, não a ideologia. Os iranianos continuam a opor-se à República Islâmica e querem mudanças internas significativas, mas essa oposição é abafada pela ameaça da guerra."
Narges Bajoghli, professora na Universidade Johns Hopkins

“A oposição não tem conseguido canalizar a insatisfação para um movimento coeso”, argumenta. Entre os críticos do atual regime conta-se “o campo monárquico” — ou seja, os descendentes do antigo Xá –, e alguns grupos organizados, cujos líderes também estão fora do Irão e entre os quais se destaca o Conselho Nacional de Resistência do Irão, liderado por Maryam Rajavi a partir de França e do Irão. Dado o distanciamento destes líderes dos acontecimentos no terreno, os especialistas iranianos na diáspora apontam, de forma unânime, que a mudança, a acontecer, virá dos grupos da sociedade civil, que têm liderado os protestos e sido presos por isso.

Contudo, um novo olhar sobre este grupo não deixa antever que a ambicionada “mudança de regime” esteja mais próxima. “A preocupação imediata é a sobrevivência, não a ideologia. Os iranianos continuam a opôr-se à República Islâmica e querem mudanças internas significativas, mas essa oposição é abafada pela ameaça da guerra”, resume Narges Bajoghli.

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