No primeiro frente a frente de Rui Rocha e segundo de Pedro Nuno Santos, não podia haver mais motivos de divergência entre o secretário geral do PS e o líder da Iniciativa Liberal. Garantindo nunca ter sido “radical”, Pedro Nuno acusou a IL de querer levar “o país contra uma parede”. Já Rocha disse estar “disponível para ser uma solução de confiança para o país” e acusou o líder do PS de irresponsabilidade. Em troca, ouviu acusações de querer usar a “motosserra de Milei” e de “até para a calvície” achar que a “solução é baixar impostos” (a que o liberal respondeu: “ou mais Estado) numa discussão que incluiu “bolos”.
Montenegro também veio ao debate, pela mão de Pedro Nuno Santos, primeiro com o caso que provocou eleições antecipadas, depois com a frase do dia do primeiro-ministro — “precisamos de adultos na sala”: “Precisamos é de gente séria na sala”, repetiu o líder da oposição em diversas ocasiões, que apenas elogiou o reforço no Orçamento da defesa, mas criticou que as medidas anti-tarifas não tenham sido discutidas com o PS.
Mariana Mortágua e Inês Sousa Real, ambas vestidas de amarelo e preto, concordaram em quase tudo, desde chamar “bully” a Trump a dizer que a Europa não “precisa de mais armas” e “as decisões sobre investimento em armamento não cabem a Portugal”, o que levou a líder do PAN a criticar as medidas apresentadas pelo Governo esta quinta-feira. No debate no feminino, houve concordância também em relação aos problemas da habitação, com ambas a apresentar medidas para o sector.
Com a conversa a terminar sobre os direitos das mulheres e a violência no feminino, a descida do IRC foi o principal ponto de desacordo entre as duas líderes partidárias.
Amanhã, sexta-feira, a fechar a semana, a primeira grande polémica: a líder parlamentar e co-porta-voz do Livre Isabel Mendes Lopes vai representar o Livre, em vez de Rui Tavares, no debate com Nuno Melo, líder do CDS, que será o representante da AD, na TVI às 21h00. Às 22h00, Rui Rocha (IL) e Paulo Raimundo enfrentam-se na SIC Notícias. Pode ver o calendário completo dos debates aqui.
[Já saiu o quarto episódio de “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]
Tal como no ano passado, o Observador está a dar notas num “Vencedor é” — à semelhança do programa e podcast da Rádio Observador — dos debates, em que avalia quem ganhou. Assim, ao longo destes dias, um painel de avaliadores do Observador dará notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos frente a frente. E explicará porquê. A média vai surgindo a cada dia, no gráfico inicial.
Pedro Nuno Santos (PS)-Rui Rocha (IL)
Alexandra Machado —Há um ano, Rui Rocha foi acusado de só ter atacado a ação política de Pedro Nuno Santos, como ministro, tarde no debate. E talvez por isso não esperou muito este ano (foi aos 2,3 minutos) para confrontar Pedro Nuno Santos com as pastas da habitação, ferrovia e TAP. Mas o confronto não lhe correu bem nem neste ponto, até porque a maçã caiu de podre. E ainda correu pior a Rui Rocha na defesa do seu próprio programa. Não consegue explicar as contas, nas quais prevê uma redução de impostos de 6,25 mil milhões, que prevê compensar com um corte na despesa de 5 mil milhões (não se percebendo como; com Rui Rocha a falar apenas na redução dos funcionários públicos com reformas) e com o milagre do crescimento a por receitas de 1,25 mil milhões no Estado (e sem os dividendos da Caixa, que é para privatizar). Rui Rocha, acima de tudo, escorregou no seu próprio programa e ficou desconfortável quando confrontado com Milei – “está lá do outro lado”. Rui Rocha ainda fugiu à aliança com a AD, não tendo conseguido explicar como o fará se acusou Luís Montenegro de estar em fim de linha. E num debate que Rui Rocha não quis falar de Luís Montenegro, o eleitorado que ambos disputam pode ter ficado a pensar no primeiro-ministro. Foi o primeiro debate de Rui Rocha nestas legislativas. Correu-lhe mal. Já não olhou para o lado, como aconteceu há um ano, mas voltou a perder com Pedro Nuno Santos que, percebemos, não gosta nem de ser betinho nem de ser radical de esquerda.
Luís Rosa — Foi o melhor debate até ao momento e Pedro Nuno Santos ganhou claramente o debate. Não foi uma cabazada. Mas foi um 3-1 com domínio de jogo, posse de bola e com a lição muito bem estudada sobre os pontos fracos do adversário. Marcou golos nos momentos certos e sofreu apenas alguns contra-ataques perigosos que não colocaram em causa a sua vitória. Muito mais solto do que no debate com Mariana Mortágua, Pedro Nuno Santos conseguiu atacar no tom certo e ganhou igualmente o campeonato dos soundbites. “[A IL quer] resolver o problema da calvície em Portugal, baixando um imposto” ou a analogia com a motossera de Milei que quer “cortar o Estado Social ao meio” são apenas alguns bons exemplos — é demagogia mas é eficiente num debate com 30 minutos. Rui Rocha começou bem ao atacar Pedro Nuno Santos por só explorar o caso Spinumviva — teria sido melhor se o secretário-geral do PS não tivesse efetivamente deixado cair essa estratégia (só se ouviu Pedro Nuno Santos falar do caso cerca de 30 segundos). Também foi claro na sua estratégia de aliança com a AD e na estratégia económica com uma descida de impostos para as famílias (para potenciar o poder de compra) e para as empresas (para conseguir mais investimento estrangeiro) mas não conseguiu responder de forma eficaz aos ataques de Pedro Nuno Santos. Podia ter atacado, por exemplo, a demagogia do líder socialista ao atacar o reembolsos do IRS (ficou calado), mas o problema principal foi não ter conseguido explicar com eficiência como consegue baixar os impostos e aumentar a despesa pública na área da Saúde, Educação, Defesa e Segurança Social sem desequilibrar as contas pública. O resultado disso é que Pedro Nuno Santos pareceu responsável — e Rui Rocha o irresponsável. O ponto mais alto de Rui Rocha foi quando confrontou Pedro Nuno Santos com o seu próprio passado enquanto ministro de António Costa, tocando em todos os pontos certos de promessas falhadas e da irresponsabilidade da escolha do local do novo aeroporto nas costas do primeiro-ministro — o que fez o líder do PS olhar para baixo para dizer que “nunca fui um radical”, uma imagem que lhe está colada à pele por culpa própria. Mas que neste debate pouco se viu.
Pedro Jorge Castro — Incrivelmente, Pedro Nuno Santos conseguiu ser mais eficaz do que Rui Rocha, mesmo depois de o líder liberal lhe ter desferido um duro ataque, ao enumerar o seu cadastro político de escândalos — que culminaram na sua demissão de ministro há bem pouco tempo. O líder dos socialistas nunca vai conseguir defender-se bem de tantas trapalhadas, mas disfarçou, mantendo a compostura, sem se exaltar, e respondeu com golpes que também surtiram o seu efeito: não deixou cair a questão da seriedade do primeiro-ministro (tema que Rocha quis ignorar); expôs mais uma vez a dificuldade das contas da IL para compensar o dinheiro que se perde com a redução de impostos; deixou a ideia de que Rui Rocha se enganou no programa com as contas da CP; e ainda lhe atirou com a redução de impostos para baixar a calvície e com a motosserra de Milei — uma caricatura que assusta e ao mesmo tempo ignora a situação real em que a Argentina se encontrava, mas ninguém quer saber disso, nem o próprio Rui Rocha se atreve a tentar explicar. Pelo caminho, Pedro Nuno ainda aproveitou para atacar Montenegro com o truque do IRS, com o agravamento do problema na habitação e com a não consensualização (com o PS) deste pacote de medidas para responder às tarifas. Tudo muito bem aproveitado. Rui Rocha tem de preparar melhor as respostas a perguntas óbvias que lhe vão ser feitas. Quem estiver indeciso se vota PS não ficou mais longe de Pedro Nuno Santos. Quem estiver indeciso se vota IL não ficou mais perto de Rui Rocha e esperaria um ataque mais eficaz às propostas socialistas.
Ricardo Conceição — Rui Rocha não abriu o debate com uma frase ao contrário do que fez na “temporada” anterior. O líder da Iniciativa Liberal tentou atacar, criar soundbites e deixar propostas a cada 10 segundos e isso, já se sabe, quase nunca funciona. Não foi capaz de se distanciar inequivocamente da imagem da motosserra de Javier Milei. Poderá ter-se saído bem junto dos liberais, mas terá sido poucochinho para os eleitores do PSD que hesitam em renovar a confiança em Luís Montenegro depois do caso Spinumviva.
Pedro Nuno Santos mostrou-se confiante, sereno, sorridente e foi atacando, quase sempre nos momentos certos. Apesar de confrontado com os casos que traz colados à pele — ferrovia, CP, TAP, Alexandra Reis e aeroporto de Lisboa — tinha os contra-ataques estudados e aparentemente eficazes. O secretário-geral do PS conseguiu “atingir” Rui Rocha nos pontos fracos da Iniciativa Liberal, falar do programa socialista e ainda sair a sorrir do debate. Não precisou de correr como fez Rui Rocha. E salvou-se ainda a criatividade com os dois oponentes a criar imagens que ficam no ouvido. Rui Rocha falou de bolos e Pedro Nuno Santos de calvície.
Mariana Mortágua (Bloco)-Inês Sousa Real (PAN)
Alexandra Machado — O IRC é o que mais separa Bloco e PAN. E aí Mariana Mortágua, tal como há um ano, explora bem o que diz serem incoerências de Inês Sousa Real ao defender a descida do IRC, que beneficia, por exemplo, a Galp, a quem Inês Sousa Real quer retirar isenções de benefícios fiscais. A coordenadora do PAN ficou sem fala quando Mariana Mortágua a confrontou com a proposta de Sousa Real para fomentar greenbonds dando o exemplo da Altri, uma celulose. Neste embate de impostos, Inês Sousa Real saiu a perder, até no caso da habitação. Apesar de Mariana Mortágua ter fugido à questão sobre o tecto às rendas: como se previne o mercado paralelo e que fujam casas do mercado de arrendamento. Já tinha fugido à questão no debate com Pedro Nuno Santos, voltou a fazer o mesmo. Fugiu neste caso, mas a fuga de Inês Sousa Real, nas questões da defesa, foram mais salientes. E ainda por cima quando respondeu alguma coisa nesse capítulo foi para dizer que isso “não cabe a Portugal”… uma ideia genial para a nossa integração na Europa. Disputando algum do mesmo eleitorado, Mariana Mortágua fez bem em conduzir o debate para o que separa os dois partidos. No que as une ficou, no entanto, a ideia que o grande opositor de ambas é André Ventura.
Dulce Neto — Uma de preto e amarelo. Outra de amarelo e preto. A coincidência nas cores escolhidas por Mariana Mortágua e Inês Sousa Real (que as duas fizeram questão de notar logo nas primeiras palavras) foi um prenúncio de um quase debate. Não houve confronto, muito menos picardias mútuas ou farpas de adversárias políticas, mas sim uma conversa amigável com um moderador de tempos. A maior provocação que se ouviu de Sousa Real foram dois ou três lamentos porque o Bloco não acompanhou o PAN nas propostas apresentadas na Assembleia da República sobre a isenção do IMT ou IMI, na descida do IRS jovem e na inserção da proteção animal na revisão constitucional, por exemplo. E Mariana Mortágua também se limitou a apontar por uma ou duas vezes erros do PAN, como na questão da descida do IRC às grandes empresas ou na defesa de benefícios fiscais à Altri, por exemplo, a celulose que tem grandes campos de eucaliptos em Espanha. De resto, como Mortágua acentuou duas vezes, há mais convergências do que grandes divergências entre ambas. A bloquista esteve melhor do que a líder do PAN, escolheu, e bem, colocar a tónica nas soluções claras que apresenta para a crise da habitação, apontando-as como uma das razões para o eleitorado votar no Bloco, ao mesmo tempo que simplesmente não respondia à pergunta de um possível acordo com o PS. Já Inês Sousa Real, que luta pela sobrevivência no Parlamento, perdeu uma oportunidade para explicar porque é que alguém deve colocar uma cruzinha no PAN. Nem a defesa dos animais a distinguiu.
Ricardo Conceição — Entre o amarelo e preto e o preto e o amarelo foi preciso chegar aos 20 minutos de debate para encontrar pontos mais divergentes. Mariana Mortágua tinha um blazer preto e uma blusa amarela (mais mostarda na minha televisão) e Inês Sousa Real apresentou-se de blazer amarelo e blusa preta. E estamos quase quase conversados em relação às diferenças que resultaram do debate entre as representantes do Bloco de Esquerda e do PAN. As diferenças, já no último terço do embate, ficaram mais patentes em questões ligadas ao IRS e ao IRS Jovem do que em temas como a defesa ou habitação. Ambas falaram para os respectivos eleitorados, que vão encolhendo a cada eleição. Ambas têm como missão garantir a sobrevivência dos respectivos partidos e, para isso, precisam de reforçar a votação. Mariana Mortágua foi mais aguerrida na forma do que Inês Sousa Real e terá sido mais eficaz junto de um eleitorado mais jovem. A líder do PAN não conseguiu um momento de brilho que cativasse. Mortágua esteve sempre melhor, mas a ambas faltou um discurso realista, cativante com capacidade de angariar votos e recuperar os perdidos. E se os espectadores esperavam momentos de antagonismo… nem na roupa.
Sara Antunes de Oliveira — Debate que arranca com troca de elogios à escolha do outfit tem tudo para ser muito aborrecido — muito mais do que amarelo torrado ou mostarda conjugado com preto.
Sem grandes ataques — pelo contrário, com alguns acenos de cabeça de apoio mútuo —, mas com algumas distâncias, Inês Sousa Real foi mais clara, no conteúdo, a responder ao “erro” no IRS Jovem apontado por Mariana Mortágua, que foi sempre mais eficaz, na forma, a repetir as posições do Bloco de Esquerda.
A verdade é que, entre a insistência na ideia de que não precisamos de mais armas para nada (Mortágua) e a proposta de trocar a redução no imposto sobre os combustíveis por mais passes sociais gratuitos para resolver o problema de quem precisa do carro para viver (Sousa Real), ficamos com a sensação de que, de eleição para eleição, os candidatos parecem viver cada vez mais em países diferentes do nosso. Ou em Nárnia.
Mas, enfim, o que seria do mundo se gostássemos todos de amarelo?
Recorde aqui as notas dos debates:
Luís Montenegro-Paulo Raimundo e André Ventura-Inês Sousa Real
Pedro Nuno Santos-Mariana Mortágua e André Ventura-Rui Tavares