Quase sete anos depois de fugir de Portugal, acusado de crimes sexuais contra menores, Matthias Schmelz continua em parte incerta, com o julgamento à espera para arrancar. O empresário alemão, conhecido como “Rei dos Aspiradores”, ainda está a ser procurado pelas autoridades e os mandados de detenção internacionais mantêm-se abertos e ativos, mas a Polícia Judiciária (PJ) admite que “não há avanços” no caso, continuando o paradeiro desconhecido.
Matthias Schmelz, que se fixou em Portugal em 1993, está acusado pelo Ministério Público (MP) de um total de 26 crimes: 21 de recurso à prostituição de menores agravado e cinco de aliciamento de menores para fins sexuais, de acordo com o despacho de acusação, datado de maio de 2022.
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Os factos remontam a 2018 e 2019 sendo que, de acordo com a acusação, o alemão aproveitava-se do “estatuto socioeconómico elevado que detinha” para aliciar “jovens com idade inferior a 18 anos para consigo manterem relações sexuais”. Pagaria às menores “quantias situadas entre os 200 e os 400 euros” e também recorreria às redes sociais para as aliciar. Schmelz oferecia ainda quantias monetárias às raparigas que lhe apresentassem outras menores. Os alegados encontros sexuais com raparigas, que incluiriam orgias, terão ocorrido num hotel em Lisboa e na residência de Matthias Schmelz, em Cascais.
PJ fez buscas na Rainbow e em casa de milionário suspeito de organizar orgias com menores
O empresário conhecido como “Rei dos Aspiradores”, por ser dono da empresa Rainbow Portugal, que vendia estes aparelhos em Portugal, fugiu do país a 13 de novembro de 2019, na sequência de notícias divulgadas na comunicação social ainda durante a investigação. A Justiça portuguesa considera por isso este cidadão alemão “contumaz”, ou seja, fugitivo. Foi assim declarado em fevereiro de 2024, há exatamente dois anos. Depois de sair de Portugal, terá estado em Espanha, África do Sul e Emirados Árabes Unidos. Mas o rasto perdeu-se e Matthias Schmelz continua fugido, sem novas informações há quase sete anos.
Investigação ao paradeiro sem avanços, mas autoridades atentas e com mandados ativos
A Polícia Judiciária admite ao Observador que, nos últimos anos, “não houve avanços” no caso. Fonte oficial da PJ ressalva, no entanto, que o mandado de detenção internacional pedido pela polícia mantém-se “aberto e ativo”, sendo que a investigação ao paradeiro continua.
Em 2025, chegou a ser noticiado pelo Correio da Manhã um alegado avistamento de Matthias Schmelz em Cabo Verde. Na altura, “houve múltiplos contactos” entre a PJ e as autoridades cabo-verdianas, mas “nada foi confirmado”, adianta a mesma fonte da polícia.
Sendo o suspeito detetado noutro país, há um alerta que recai sobre ele e de imediato a polícia portuguesa é contactada por esse país e pelas autoridades locais. Mas isso ainda não aconteceu até agora e o paradeiro do cidadão alemão continua a ser desconhecido.
O Observador sabe também que o caso está inserido na Diretoria de Lisboa e Vale do Tejo da Polícia Judiciária, na secção de crimes sexuais.
Pode o julgamento avançar na ausência do arguido?
A advogada Vânia Costa Ramos, especialista em Direito Penal Internacional, Europeu e da União Europeia, explica que no fundo o processo está “suspenso”. “Há uma declaração de contumácia. No fundo, primeiro, é preciso localizar o arguido, antes de poder prosseguir com o processo”, explica ao Observador.
Ouvida na rubrica de investigação “Onde Pára o Caso”, a advogada sublinha que Matthias Schmelz “não foi alvo de uma diligência processual com contacto direto, não terá sido notificado da acusação e, como tal, não é possível notificá-lo da data designada para a audiência de julgamento”.
Já questionada sobre se as autoridades portuguesas têm instrumentos para manter uma investigação desta natureza aberta, Vânia Costa Ramos afirma que sim, mas deixa uma ressalva.
“Os mecanismos existem, mas não são usados da mesma forma em todo o tipo de casos. O tipo de crimes que está aqui em causa não é irrelevante, mas não têm uma moldura penal muito elevada. Portanto, em termos de prioridades, de alocação de recursos humanos ou de meios, poderá não ser um caso altamente prioritário”, considera.
Vânia Costa Ramos, admitida a exercer perante o Tribunal Penal Internacional, explica ainda que em casos de fuga, os arguidos podem ser detetados noutros países em situações como “a passagem de uma fronteira, o check-in num hotel ou num alojamento que tenha a obrigação de comunicar a presença de pessoas estrangeiras”. “Nestas situações, o paradeiro da pessoa é detetado e depois vai-se gerar uma comunicação entre as autoridades. E aí é que, de facto, há uma atitude mais proativa: ou para pedir a detenção ou, se não for caso disso, para notificar a pessoa do processo”.
Efetivamente, a comarca de Lisboa confirmou, através do Conselho Superior da Magistratura, que o processo está pendente no juiz 1 do Juízo Central Criminal de Lisboa, com mandado de detenção europeu e internacional ativos. O Observador questionou sobre as diligências que foram tomadas desde a declaração de Matthias Schmelz como “contumaz” em 2024, com vista a um eventual julgamento, mas até à publicação deste artigo não foi possível obter mais esclarecimentos.
“Andei bastante descontrolado nos relacionamentos com mulheres. Quantas? Perdi a conta”, disse Matthias Schmelz em 2020
Um ano depois de fugir de Portugal, Matthias Schmelz deu uma entrevista à TVI através de videochamada, em parte incerta. Nestas declarações, o alemão diz que a situação ficou “descontrolada”: “Admito que, nos últimos cinco anos, andei bastante descontrolado em relação a relacionamentos com mulheres, que depois me apresentavam outras mulheres. Era uma reação em cadeia”, explica. Quantas mulheres? “Já perdi a conta”, revela.
Matthias Schmelz explica, nesta entrevista à TVI, que foi o fim do casamento que o fez entrar nesta situação. O alemão foi casado com Fernanda Alves, uma sul-africana que chegou a ser candidata a Miss Portugal, em 1996. Os dois geriam o negócio da Rainbow Portugal, que se tornou uma empresa de sucesso.
Em 2005, Matthias Schmelz chegou a publicar um livro considerado o mais caro de sempre sobre finanças pessoais. Chamava-se “The Millionaire Maker” e custava 995 dólares, cerca de 840 euros.
O casal teve três filhos, mas separou-se em 2017. De acordo com Matthias Schmelz, foi este divórcio que o fez começar a ter relacionamentos com várias mulheres. “Isto começou depois da minha separação”, explicou na entrevista à TVI.
Emocionado, o empresário alemão admite arrependimento por ter envolvido a família na polémica.
O que me arrependo mais profundamente foi ter envolvido e penalizado gravemente, sem querer, a minha própria família: a minha ex-mulher e os meus três filhos. É o maior arrependimento da minha vida inteira. A dor causada a pessoas ligadas a mim completamente inocentes é insuportável”, diz.
Matthias Schmelz terá também assumido uma relação com uma menor, como admitiu a própria numa entrevista na TVI, e terá tido um relacionamento com uma concorrente do reality show Casa dos Segredos.