Paraquedistas na República Centro Africana. Treinar para descer ao inferno /premium

31 Julho 20181.573

Risco permanente e "imprevisível". A República Centro Africana é o mais duro cenário com militares portugueses. Em setembro, uma força parte em missão. Acompanhámos o treino desta unidade especial.

O cartão de cidadão diz André Ferreira, mas no pelotão todos o conhecem por Xico, a alcunha de infância que um tio lhe colou à pele, Xico da Gafanha. Um metro e setenta, mais alguns centímetros de altura, é um dos que mais se destacam no pelotão, não pára um segundo. Tem agora pouco mais que os 52 quilos com que entrou no curso de paraquedistas, há seis anos. Nesse dia, olharam-no de lado. “O que é que estás aqui a fazer?”, provocavam os outros recrutas. Tinha 19 anos. “Eu dizia-lhes: ‘Vou-te mostrar quem sou’”, recorda ao Observador. E mostrou. É um dos “bravos” do grupo, quer fazer mais tiro e mais tiro e ainda mais tiro. E no meio deste entusiasmo perde, por momentos, a noção. No treino de hoje tem de atacar uma casa onde estão três inimigos que a equipa tem de abater.  Mas já não tem munições nem recargas quando cruza a porta. O chefe de pelotão — um robocop de uniforme, pose rígida e expressão de aço –  perde as estribeiras e sai disparado, voz agressiva, na direção da equipa. “Passaste três vezes com a arma nas costas do Jesus! O teu camarada morreu!”, grita para um dos homens. Silêncio no largo descampado do Campo de Tiro de Alcochete, silêncio de espanto,  que ninguém está habituado a ver o sargento Rui Carvalho exaltado.

Ao lado do colega de equipa, Xico não tira os olhos do chão. Fez asneira e vem aí castigo na certa. Mas a punição sai ao contrário. “É até ao campo”, grita o sargento. Afinal, não é com ele que o chefe de pelotão fala. Como ficou sem munições, acabou por também ser abatido e é Flávio Santos quem sentirá, literalmente, o peso dessa responsabilidade. O soldado levanta o corpo do Xico, encaixa-o nas costas e começa a carregá-lo rampa acima. São quatro quilómetros até às tendas onde estão instalados. Entre as armas, o colete, o capacete, e as munições, Flávio transporta sozinho uns 80 quilos. “É assim que eles aprendem”, diz o comandante do pelotão do segundo batalhão de infantaria de paraquedistas.

Flávio Santos paga o castigo: 80 quilos às costas porque o colega de equipa foi abatido depois de ficar sem munições

Faltavam dois meses para o grupo partir em missão para a República Centro Africana (RCA) quando o Observador acompanhou o treino da força especial, e ainda havia muitas arestas por limar. Nessa semana, o grupo desceu da Base de São Jacinto, em Aveiro, até ao Campo de Tiro da Força Aérea, em Alcochete. Treinavam em contra-relógio e com a pressão em alta — a partir de setembro, não há margem para deslizes. Estão a preparar-se para o “pior” dos cenários. “O ambiente é volátil, muito incerto, com uma ameaça por vezes muito difícil de identificar”, resume o tenente-coronel Óscar Fontoura. É ele o topo da hierarquia na força portuguesa que esta sexta-feira recebeu o estandarte nacional.

Flávio Santos já se afastou uns bons 100 metros do descampado quando Rui Carvalho dá nova ordem: pode voltar. “Porra, como é que eu vou pegar naquilo?”, desabafa Xico, já de pés no chão e com os olhos postos na G3. O cabo está abalado, sabe que o seu erro podia ter custado a vida a um companheiro de equipa. Mas o ar de desânimo também significa que a mensagem das últimas semanas está a fazer o seu caminho, através da cadeia de comando. “O meu farol desde o início do aprontamento foi sempre um: tenho a certeza de que a questão não é ‘e se nos acontecer’, a questão é ‘quando nos acontecer’, e nesse momento quero ter a certeza de que estamos preparados”, diz o tenente Pedro Fragosa.

Pedro Fragosa comanda o primeiro pelotão da força que parte em setembro para a missão. A vida de 30 homens depende das decisões que o tenente tomar

O treino é duro. Para perceber o que o justifica, é preciso desviar o olhar para quase sete mil quilómetros a sudeste. É preciso ver o que é a República Centro Africana. Fragosa comanda um dos três pelotões que parte em missão daqui a poucas semanas. Tem 30 homens à sua responsabilidade, um terço dos paraquedistas que vai atuar num cenário de ameaça constante e em que o inimigo já mostrou ao que vem. “Quero ter a certeza de que tenho a minha tropa pronta e confio nos homens que levo”, diz o oficial paraquedista.

Os mecanismos têm de estar afinados quando os paraquedistas pisarem solo centro africano. Usar um capacete ou uma bóina azuis na RCA é trazer um alvo ao peito. Sobretudo, a partir do momento em que o comandante da missão atribuiu à força portuguesa a responsabilidade de erradicar os grupos armados que ameaçam a estabilidade no país. Os cerca de 90 paraquedistas são a Força de Reação Rápida da missão das Nações Unidas, o braço-direito do general senegalês.

Os militares que estiveram em aprontamento desde fevereiro foram recebendo informações da força na RCA, e isso permitiu-lhes adaptar o treino em Portugal à realidade que vão encontrar na missão: emboscadas, ataques surpresa em bairros críticos da capital — como o de abril, que acabou numa troca de tiros durante quatro horas — e uma população controlada por grupos armados que rapidamente se torna hostil. Fora de Bangui, a capital, há ainda missões de alto risco que obrigam a força portuguesa a deslocações internas de 30 dias. Nessas semanas, em que dormem em “burros de mato” dentro de tendas de campanha, os militares mergulham no silêncio. Não há comunicações, não há contacto com ninguém de fora do grupo.

Fora da capital, Bangui, vai ser assim. Dormir em "burros de mato" dentro de tendas em missões de alto risco que podem estender-se por 30 dias

Treinar para sobreviver ao inferno

Não foi fácil o momento em que Hugo Pinto teve de contar à mãe a sua decisão. Mas difícil, mesmo difícil, foi quando teve de dizer à namorada que ia para a guerra, seis longos meses na República Centro Africana. “Ela não gostou muito ao início”, conta. Pinto tem 20 anos, é o “cheka”, o mais novo do grupo — e é a primeira missão internacional em que embarca, dois anos depois de se juntar à força de tropas paraquedistas.

A família do soldado já estava habituada à vida de militar, a namorada não. “Ela está a estudar, quer ir de Erasmus e vamos tentar conciliar as coisas da melhor maneira, temos internet no aquartelamento, vamos tentar manter o contacto e comunicar sempre que possa”, diz o militar. “Temos de estar preparados para tudo.”

Na República Centro Africana, a vida vale muito pouco. É um dos mais pobres e mais violentos países do mundo, e tem sido incapaz de se encontrar com a estabilidade política duradoura. É o país onde ainda se vive a ressaca de um golpe de Estado que, há cinco anos, afastou do poder o general François Bozizé. Os Séléka (“coligação”, traduzindo da língua local) são uma aliança de grupos rebeldes maioritariamente muçulmanos (pelo menos, na sua origem) que foi crescendo em número, com fileiras reforçadas por traficantes de diamantes e contrabandistas que, fora de Bangui e são, em muitas regiões, os verdadeiros donos de largas parcelas de um território sem lei. Do outro lado estão os anti-Balaka, uma milícia de inspiração cristã que nasceu por oposição ao primeiro. Nos últimos anos, o conflito entre os dois grupos escalou para um clima de guerra civil.

Pedro Fragosa não tira os olhos do seu pelotão. Deu sete minutos aos homens para se equiparem e estarem prontos a arrancar e o grupo falha a missão. "Eu não estou aqui para vos f..., mas isto é um treino!". Na República Centro Africana, o erro pode pagar-se caro. E tudo conta.

Num ambiente explosivo como este, as mesmas redes sociais que Hugo Pinto espera poder usar para matar saudades de casa são usadas por alguns agitadores nacionais para difundir as imagens do terror. Verdadeiras carnificinas e atos de canibalismo escapam ao controlo do algoritmo do Facebook, como a fotografia de um homem que posa para a câmara com um sorriso que mostra, entre os seus dentes, e separada do resto do corpo, a perna de um inimigo que matou minutos antes.

Nada disto passa despercebido aos militares portugueses que se estão a preparar para render os camaradas já em setembro. “É algo que nos preocupa, mas tentamos manter o mesmo espírito e trabalhar da melhor maneira para evitar essas situações, porque o risco vai estar sempre lá. Mas temos de confiar no nosso trabalho, nos comandantes que estão ali, que nos querem proteger, temos de confiar uns nos outros e em quem está à nossa frente”, diz Hugo Pinto.

Passam poucos minutos das oito da manhã. O pelotão esteve até às primeiras horas da madrugada a rever os exercícios do dia e já está pronto para retomar o treino. O comandante está de costas para as tendas de campanha onde os 30 homens estão instalados nessa semana para finalmente treinarem com fogo real. Pedro Fragosa dá a ordem: as equipas têm de passar em revista os jipes com que vão sair para o terreno — muito diferentes daqueles que vão encontrar na missão da ONU — e preparar-se para arrancar. Tinham sete minutos, mas já esgotaram esse tempo. O tenente reage frustrado. “Eu não estou aqui para vos f…, mas isto é um treino e eu dei-vos sete minutos, quando lá não vão ter mais de cinco!”

Fragosa faz questão de não esconder nada aos seus “meninos”. É preciso que vejam o que os espera para saber como devem agir quando a ameaça se concretizar. Treinar o corpo, treinar a mente.

O grupo recolhe todo o armamento que já tinha instalado nos jipes, desequipa-se e volta à estaca zero. Segunda tentativa. Deste vez, em passo acelerado, voltam a colocar os coletes anti-balísticos, apertam os capacetes, pegam nas G3 — as armas que vão usar na RCA, mas que eram praticamente estranhas quando o aprontamento começou —, verificam as luzes do jipe, o nível do óleo, instalam as metralhadoras ligeiras na traseira, testam o sinal dos rádios. O cronómetro marca exatamente cinco minutos e vinte segundos. Estão todos prontos. Durante aquele tempo, Pedro Fragosa não desviou o olhar dos seus homens, e sabe que nem todos vão passar na prova. “Porque é que não abriste o capot?”, pergunta a um dos militares. Conhecem-se há anos, mas mesmo assim as mãos do cabo tremem. Não há resposta, há castigo: “30 cangurus.”

A punição do erro é sempre física. O cabo ainda está aos saltos — perna à frente, perna atrás, vai abaixo e troca, sempre com a arma junto ao peito. “É agora que eles têm de interiorizar os procedimentos”, explica o comandante do pelotão. E a regra aplica-se quando os militares têm de avaliar o estado do jipe que lhes está atribuído, quando aprendem como se aplica um torniquete na perna de um camarada ferido em combate ou quando revêm os passos a cumprir depois de um ataque contra um grupo armado. “É importante que o erro aconteça”, reconhece o sargento Mário Silva, chefe de uma das seis equipas do pelotão comandado por Fragosa. É que aqui, há segundas hipóteses.

A vida de todos nas mãos de cada um

Pedro Fragosa tem, sob o seu comando direto, um pelotão. São seis equipas, cada uma com o seu chefe. Rui Carvalho, Bruno Fontoura, Nelson Pego, Marco Silva e Mário Silva são os cinco sargentos que o comandante conhece há mais de uma década, desde o tempo em que estiveram juntos em S. Jacinto — ainda como soldados –, antes de Fragosa entrar para a Academia Militar e de os seus “homens” optarem pelo curso de sargentos. São os seus homens de confiança. Num certo momento, seguiram caminhos diferentes, acabando por reencontrar-se em papéis diferentes. Mas a origem comum está sempre presente. “Eu estive lá [como soldado], sei o que eles pensam”, sublinha Pedro Fragosa.

159

A quarta Força Nacional Destacada tem 159 militares. A esmagadora maioria (156) pertence ao Exército e, nesse grupo, há 126 paraquedistas da Brigada de Reação Rápida. Há, ainda, outros três militares da Força Aérea, que se vai dedicar ao controlo aéreo tático.

Cada um dos chefes de equipa comanda outros quatro militares. E aí começam a notar-se contrastes dentro do pelotão. Hugo Pinto, o soldado que este ano se estreia numa missão, nasceu em 1998. Por essa altura, Rui Carvalho, chefe de outra equipa, já tinha regressado da sua primeira missão na Bósnia e preparava-se para uma segunda incursão internacional. Depois, somou mais cinco missões, entre Timor (duas), Uganda e Kosovo (outras duas). Rui Carvalho tem 41 anos. Em algum momento, na RCA, a vida do sargento vai depender das decisões tomadas por um militar com menos de metade da sua idade e que, pela primeira vez, vai experimentar a sensação de um combate real, com riscos igualmente reais.

“Cabe-me a mim ensinar-lhe o que tenho vindo a aprender ao longo do tempo”, diz o sargento. “Mas também aprendo com eles, porque têm sempre alguma coisa a ensinar-me”, admite, relativizando a distância que o separa da maior parte dos militares do pelotão que estão às ordens dos sargentos. Isso “implica que uma pessoa tenha maior preocupação com aquilo que pode ensinar-lhes e que eles possam assimilar”, mas Rui Carvalho garante que não perde o sono com o assunto. “Preocupações [com aquilo que pode acontecer] no terreno, não, porque se houvesse essa preocupação, esse homem já não ia, ficava cá. Lembro-me de que em 1996 eu era como ele (um cheka), na primeira missão em muitos anos em que Portugal enviava alguém para fora.”

As "relações interpessoais" são uma das maiores ameaças à estabilidade do grupo. Vão passar seis meses juntos e qualquer "quezília" pode transformar-se num obstáculo e ameaçar a segurança da força. O sargento-chefe Luís Neves, o veterano do grupo, vai estar atento aos sinais. “Como eu lido mais com eles, apercebo-me de coisas que escapam aos oficiais, rapidamente me dou conta quando há qualquer coisa que não está a bater certo.”

Se Pedro Fragosa é o comandante de um pelotão, Óscar Fontoura é o comandante da 4ª Força Nacional Destacada, o conjunto de três pelotões de paraquedistas e pessoal de apoio de diferentes unidades do Exército que, no início de setembro, vão render os militares atualmente na RCA. Ao Observador, o tenente-coronel põe a tónica nas “relações interpessoais”, o alfa e o ómega de uma missão bem sucedida. “Nas unidades, se não houver nada em contrário, às cinco horas vamos para casa. No dia a seguir voltamos e aquilo que era uma chatice sem importância, nesse dia já não é nada”, explica. Lá é diferente. “Lá é H24 [24 horas por dia] durante muito tempo, e o que pode ser uma pequena chatice, se não for cuidada, se as pessoas não estiverem atentas, se não forem amigas, cordiais umas com as outras, passados seis meses transforma-se num obstáculo”, explica. “Quando, no final, se diz que a missão correu bem ou correu menos bem, este ‘menos bem’ está sempre relacionado com questões de pessoas que tiveram algumas quezílias”, sublinha o comandante da força.

Para evitar “quezílias” — ou para antecipar essas situações de tensão —, Óscar Fontoura apoia-se no sargento-chefe Luís Neves. Com 50 anos de idade, 30 de vida militar, é o veterano. E, também por isso, é um psicólogo, um olhar e um ouvido atento, uma ponte entre praças, sargentos e oficiais. É, numa ideia, o maior garante da estabilidade do grupo. “Como eu lido mais com eles e como sou o mais velho, por vezes apercebo-me de coisas que escapam aos oficiais, dou conta rapidamente quando há qualquer coisa que não está a bater certo”, explica.

Luís Neves fala com a experiência de quem já soma mais de meia dúzia de missões na carreira. A RCA, admite, é uma “incógnita” para si. É um teatro “imprevisível”, onde “uma situação normal pode escalar” para uma troca de tiros intensa como aquela em que, há dois meses, a força portuguesa se viu envolvida e que acabou com a morte de 25 membros de um grupo armado. Para já, os militares em aprontamento revelam-lhe outras preocupações com a partida.

“O contacto com a família é muito importante”, sublinha o adjunto do comandante Óscar Fontoura. “Se eles conseguirem ter todos os dias um bocadinho de Skype e ver família ou a namorada, isso dá-lhes um equilibro interior muito grande e consegue apaziguá-los para a missão que vão ter a seguir.” Esse “equilíbrio” significa muito mais do que uma mera satisfação pessoal. “Quando se trabalha em equipa, se um não está focado, vai desguarnecer um lado”, explica Luís Neves. É a segurança de todo o grupo que fica ameaçada.

Mas, num grupo de 90 homens que podem ser chamados para o combate, onde é que podem encontrar-se os sinais de algo que não está bem? “Basta estar presente na linha de alimentação ou passando por ali quando estão a limpar uma arma ou num período mais soft de descanso, nota-se logo”, garante Luís Neves. E dá um exemplo: “Se repararmos que estão todos na conversava, a jogar ou a dormir e virmos um dos homens lá fora, mais encostado a uma árvore, mais cabisbaixo, com o telemóvel, e que não se está a ligar com o grupo, há ali qualquer coisa que não está a funcionar bem, nota-se perfeitamente”.

Jipes, armas e o day after da missão

A noite já se instalou no Campo de Tiro de Alcochete e um grupo de seis militares paraquedistas está reunido à entrada de uma das seis tendas de campanha, do lado de dentro. Há um burburinho no ar, o ambiente é tranquilo: trocam-se piadas sobre miúdas, os homens cortam fatias de presunto diretamente de um pernil pendurado ao canto — um presente de um camarada do pelotão — e antecipam-se os exercícios do dia seguinte.

Um "mimo" de um dos militares para os camaradas do primeiro batalhão da 4ª Força Nacional Destacada

A boa disposição das bases contrasta com a apreensão do comando em relação a certos momentos do aprontamento. Durante alguns meses, na força alimentou-se a esperança de que, ao contrário do que aconteceu com as primeiras três forças destacadas (que usaram a G3, a arma dos Comandos, mas não dos paraquedistas), fosse dada luz verde para que essa arma desse lugar à Galil.

Implicância? “Eu estou há seis anos no batalhão e só dei duas vezes tiro de G3”, diz André “Xico” Ferreira. O sargento Rui Carvalho tem dados mais técnicos que ajudam a perceber as razões da “batalha” interna. “Quando estamos a falar de uma arma mais leve [a Galil], se tiver que me empenhar em vários alvos, consigo fazê-lo rapidamente”, diz. Além disso, “estamos a falar de cinco carregadores de Galil que levam 35 munições cada, enquanto um carregador da G3 leva 20 munições”. Este ponto é relevante, diz o chefe de pelotão, porque “o que está a acontecer lá, agora, é muito combate de áreas edificadas, em zonas urbanas, em que o gasto de munições é muito elevado”. Por tudo isto, “era importante termos uma arma que nos desse muito mais segurança e muito mais autonomia”.

As preocupações chegam ao comando da força. “Não é aquilo que queríamos, não é aquilo que eu acho que seriam as melhores condições para a força. À partida, sentia-me mais confortável com outra plataforma, mas não posso dizer que vai comprometer a missão. Só podemos dizê-lo se, de facto, acontecer alguma coisa e depois se chegar a essa conclusão”, diz o tenente-coronel Óscar Fontoura. O Exército recusou entrar neste debate e, por isso, prevaleceu a decisão do Comandante das Forças Terrestres: fica tudo como está.

Na semana em que o Observador esteve no Campo de Tiro de Alcochete com o pelotão de Pedro Fragosa, as equipas treinavam com cinco jipes Toyota Land Cruiser. Não são blindados, têm apenas duas portas (os Humvee têm quatro) e a disposição dos lugares não tem semelhança com as viaturas usadas na missão. “O Humvee é uma viatura importantíssima para trabalharmos o apontador, para saberem manusear a torre, a proteção, o desembarque das forças, para treinarmos até a retirada de um ferido”, explica Rui Carvalho. No caso dos Toyota, os militares têm de sair pela mala do jipe.

Semanas mais tarde, quando os três pelotões de paraquedistas se juntaram naquelas instalações da Força Aérea para uma semana de treino da força completa, já havia Humvees disponíveis. Nem todos eram blindados, é certo, mas isso permitiu aos militares ter uma noção das condições com que vão atuar na República Centro Africana — pelo menos, durante uma semana inteira, daqueles seis meses do aprontamento.

André Ferreira, o Xico da Gafanha, é um "bravo" do pelotão de Pedro Fragosa. O treino é duro? "É, mas tem de ser, temos de estar preparados"

A força parte em breve e, se tudo correr como previsto, em março os 160 militares estão de regresso a Portugal. “Estivemos a formá-los durante seis anos, ganharam competências fantásticas e, de repente, voltamos ao zero, temos de recomeçar com miúdos de 20 anos”, lamenta Luís Neves. Em três décadas de casa, o “psicólogo” da quarta força destacada já viu chegar muitos homens aos paraquedistas que, passados alguns anos, viu partir. “Há alguns a quem custa muito sair, militares que tiveram muitas dificuldades de adaptação”. Alguns juntaram-se à Legião Francesa. Xico não tem planos para quando regressar de Bangui. Assim que acabar a missão, conta passar três meses de férias. Depois, acaba o contrato que o liga ao Exército. E já não volta a São Jacinto.

Texto de Pedro Raínho, fotografia de João Porfírio.

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