O cartão de cidadão diz André Ferreira, mas no pelotão todos o conhecem por Xico, a alcunha de infância que um tio lhe colou à pele, Xico da Gafanha. Um metro e setenta, mais alguns centímetros de altura, é um dos que mais se destacam no pelotão, não pára um segundo. Tem agora pouco mais que os 52 quilos com que entrou no curso de paraquedistas, há seis anos. Nesse dia, olharam-no de lado. “O que é que estás aqui a fazer?”, provocavam os outros recrutas. Tinha 19 anos. “Eu dizia-lhes: ‘Vou-te mostrar quem sou’”, recorda ao Observador. E mostrou. É um dos “bravos” do grupo, quer fazer mais tiro e mais tiro e ainda mais tiro. E no meio deste entusiasmo perde, por momentos, a noção. No treino de hoje tem de atacar uma casa onde estão três inimigos que a equipa tem de abater.  Mas já não tem munições nem recargas quando cruza a porta. O chefe de pelotão — um robocop de uniforme, pose rígida e expressão de aço –  perde as estribeiras e sai disparado, voz agressiva, na direção da equipa. “Passaste três vezes com a arma nas costas do Jesus! O teu camarada morreu!”, grita para um dos homens. Silêncio no largo descampado do Campo de Tiro de Alcochete, silêncio de espanto,  que ninguém está habituado a ver o sargento Rui Carvalho exaltado.

Ao lado do colega de equipa, Xico não tira os olhos do chão. Fez asneira e vem aí castigo na certa. Mas a punição sai ao contrário. “É até ao campo”, grita o sargento. Afinal, não é com ele que o chefe de pelotão fala. Como ficou sem munições, acabou por também ser abatido e é Flávio Santos quem sentirá, literalmente, o peso dessa responsabilidade. O soldado levanta o corpo do Xico, encaixa-o nas costas e começa a carregá-lo rampa acima. São quatro quilómetros até às tendas onde estão instalados. Entre as armas, o colete, o capacete, e as munições, Flávio transporta sozinho uns 80 quilos. “É assim que eles aprendem”, diz o comandante do pelotão do segundo batalhão de infantaria de paraquedistas.

Flávio Santos paga o castigo: 80 quilos às costas porque o colega de equipa foi abatido depois de ficar sem munições

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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