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“Na manhã de 24 de fevereiro, a minha mãe acordou-me com a frase ‘Dizem que começou a guerra.’” Viktoriia Maryshchuk vivia com família na cidade de Kherson, no sul da Ucrânia. Ao longo dos dias seguintes daquele mês de fevereiro de 2022, passou o tempo todo na cave, enquanto do lado de fora ouvia a batalha que se desenrolava na sua cidade. O Exército russo tentava capturar a ponte Antoniskyi, que divide a cidade em duas, mesmo ao lado da sua casa. Viktoriia conta ao Observador que, ao longo dos meses seguintes, a sua família se mudou cinco vezes, vivendo entre caves, casas de amigos e o jardim de infância onde a mãe trabalhava.
Cinco dias depois do início da invasão em larga escala da Rússia, a cidade de Kherson foi capturada. Foi um de vários territórios que passaram a estar sob administração russa, a que, ao longo dos meses seguintes, se somaram não apenas as cidades de Donetsk e Luhansk — controladas por separatistas pró-russos desde 2014 —, mas várias aldeias na região do Donbass (leste da Ucrânia) e do sul (para além de Kherson, partes de Zaporíjia ficaram também sobre controlo russo). Atualmente, a Rússia controla cerca de 20% de território da Ucrânia. A parte de Kherson em que Viktoriia vivia acabaria por ser libertada pelo Exército ucraniano oito meses mais tarde. Mas o relato do que esta ucraniana viveu ao longo desse tempo é semelhante ao que se passa ainda nas regiões atualmente ocupadas.
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O padrão foi semelhante em todos os lugares. Um processo a que os especialistas chamam de “russificação” e que inclui os mesmos passos, como notou o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW na sigla original): um “teatro legal”; a “passaportização”; os serviços sociais tornados “num veneno”; os programas de patrocínio; as alterações demográficas; e a manipulação sociocultural e linguística. A estes, acrescentamos um sétimo: a repressão da resistência e a ajuda dos colaboradores.
O Kremlin declara que os territórios ocupados estão neste momento num processo de transição, que deverá ficar concluído até janeiro de 2026. Nessa altura, a Ucrânia ocupada passará a ser oficialmente chamada de “Novas Regiões” da Federação Russa. Mas os impactos da ocupação já têm reflexos no dia a dia destes ucranianos. Um dia a dia em que, como os de Viktoriia durante aqueles meses em Kherson, a Rússia tem tentado lentamente absorver parte de outro país.
1.º passo: O “teatro legal”
Viktoriia e a família recordam-se bem daqueles dias de setembro de 2022. “Não saíamos de casa, nem olhávamos pelas janelas. Tínhamos comprado comida e estávamos apenas à espera que o falso referendo acabasse. Sabíamos que eles estavam a patrulhar as ruas, incluindo a nossa, a obrigar as pessoas a votar e por isso ficámos em casa”, conta.
Do lado de fora, os militares russos punham em prática o primeiro passo da “russificação”: um referendo sobre se as regiões ocupadas tencionavam ser formalmente anexadas pela Federação Russa, onde oficialmente 87% dos residentes de Kherson votaram a favor.
▲ Habitantes de Donetsk assistem na televisão aos resultados do referendo sobre anexação do território pela Federação Russa
NurPhoto via Getty Images
Mas um referendo em tempos de guerra não é igual a um referendo em tempos de paz. “Aconteceu tudo em dois dias, sem listas, sem convites, sem notificações”, recordou à Radio Free Europe Iryna, professora na cidade de Donetsk. “Nos pátios [onde se votava] havia metralhadoras e representantes autorizados com urnas, sempre com armas apontadas aos eleitores, como se os estivessem a proteger.” Em Mariupol, as urnas iam sendo levadas porta a porta, ao som de músicas patrióticas como “A Minha Rússia”, do cantor Sergei Voitenko (“Rússia, Rússia / Minha Rússia / Grande potência / Terra natal”).
Na verdade, estavam a condicionar um processo eleitoral que não seria reconhecido como legítimo por nenhum país do mundo, com exceção da Coreia do Norte. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, descreveu os referendos como “uma violação da Carta da ONU”, por haver “ameaça de uso de força”. “Os chamados ‘referendos’ não podem ser considerados uma expressão genuína da vontade popular”, declarou.
No entanto, como seria previsível, os resultados divulgados davam conta de um “sim” retumbante à anexação por parte da Rússia. E o método foi sendo repetido, como deu conta a France Info, que assistiu à votação das eleições presidenciais russas de 2024 — vencidas por Vladimir Putin — na cidade de Avdiivka: mesas de voto instaladas em caves, com soldados de passa-montanhas a recolherem os votos.
Depois das votações, em todas as cidades começaram a ser criadas instituições estatais russas e trazidos alguns russos para ocupar cargos oficiais.
Konstantin Skorkin, investigador da fundação Carnegie Endowment especializado em história política do Donbass, não tem dúvidas em classificar o processo como “uma chacota da democracia”. “Foram referendos completamente falsificados, não houve controlo democrático e internacional e tiveram lugar em zonas ocupadas”, resume o analista (que nasceu e cresceu no Donbass) ao Observador.
Mas por que tem insistido a Rússia em realizar estes referendos em cada zona que ocupa, quando não são reconhecidos internacionalmente nem têm aplicação prática? O jornalista Dmitry Durnev arrisca uma explicação, em declarações à Radio Free Europe: “Putin e a sua comitiva são legalistas. Sempre houve rituais incoerentes e incompreensíveis para os estrangeiros — mas legais.” O objetivo principal, argumenta, é o de criar na população ocupada a ideia de que “a Rússia está aqui para sempre”.
Apesar de os referendos terem sido esmagadoramente rechaçados na comunidade internacional, o seu “teatro” começa a ter impactos. Recentemente, o enviado especial do governo norte-americano para as negociações no Médio Oriente (que também tem negociado sobre a Ucrânia), Steve Witkoff, declarou que estes atos eleitorais “indicam que [as pessoas] querem estar sob domínio da Rússia”. A afirmação pode ajudar a dar corpo a uma estratégia diplomática já insinuada pela administração Trump: a de que as negociações para a paz na Ucrânia devem incluir a abdicação dos territórios ocupados por parte do governo de Kiev.
2.º passo: A “passaportização”
Em março de 2025, o Presidente Vladimir Putin assinou um decreto que torna obrigatório um processo que estava em curso: todos os habitantes que vivem nas regiões ocupadas devem “resolver o seu estatuto legal ou abandonar o território até 10 de setembro de 2025”. Na prática, o decreto presidencial obriga todos os residentes da Ucrânia ocupada a obterem um passaporte russo e tornarem-se assim oficialmente cidadãos do país.
“O processo de impor passaportes russos aos cidadãos ucranianos começou em 2018”, explica ao Observador Konstantin Skorkiv, referindo-se ao que aconteceu nas repúblicas separatistas de Donetsk e de Luhansk e que está atualmente a ser aplicado em todos os territórios ocupados depois do início da invasão de larga escala, em 2022. “Neste momento, depois da anexação do Donbass, tornou-se numa prática direcionada de ‘assimilação administrativa’. As pessoas não recebem apenas cidadania russa, têm também de refazer toda a sua documentação civil — direitos de propriedade, contratos de serviços de luz e água, etc. — de acordo com a lei russa.”
Ao todo, as próprias autoridades ucranianas estimavam em março que mais de 80% dos residentes nos territórios ocupados têm neste momento passaportes russos. “É a sua única forma de sobreviver”, resumiu ao Le Monde o antigo vice-presidente da Câmara de Mariupol, Piotr Andriushchenko.
Em concreto, quem não tem um passaporte não tem acesso a serviços como ajuda social e habitação — mas já lá vamos. O maior impacto provocado pela “passaportização” é que, com o levantamento de dados de todos os habitantes, a Rússia tem assim conseguido mobilizar para a linha da frente homens entre os 15 e os 55 anos. Alvos de recruta, são enviados para combater ao lado do Exército russo, contra as tropas ucranianas.
▲ Passaportes militares da região de Donetsk
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Um vídeo a que o Washington Post teve acesso ainda em 2022 mostra um grupo de recrutas reunidos numa escola de Donetsk, onde um homem fardado lhes diz que a Ucrânia é “ensinada pelos professores americanos”. “Cada um de vocês vai completar honradamente o vosso dever para com a pátria”, diz-lhes o militar.
Segundo dados do Ministério da Defesa russo, citados pelo podcast The Global Jigsaw da BBC, dos 300 mil homens mobilizados pela Rússia em setembro de 2022, 80 mil eram do Donbass.
Alguns sentem-se profundamente arrependidos. “Querem enviar-me para lutar contra os ucranianos, o meu povo. Não irei disparar contra eles. Se for enviado [para a linha da frente], vou disparar sobre os russos e render-me às forças ucranianas”, garantia em 2022 Ivan, residente de Donetsk, ao Kyiv Independent.
Não sabemos o que aconteceu a Ivan ao longo destes três anos. Aquilo que sabemos é que as famílias de muitos mobilizados contam que estes homens estão a ser enviados para a frente de batalha e usados como “carne para canhão” — a expressão é de Anna, mulher de um dos recrutas, que falou com o site russo Meduza em 2022 e contou que o marido dizia estar a cavar trincheiras na região de Kharkiv. “O resto não é ‘conversa para se ter ao telefone’”, relatava a mulher, que pouco mais sabia do marido. À altura, o número de mobilizados do Donbass já atingia os 140 mil.
Entretanto, as autoridades russas têm alastrado o processo de “passaportização” e mobilização de homens nas regiões ocupadas para além do Donbass. No sul, o sistema foi formalmente instituído em Kherson em março de 2024. Em maio seguinte, alastrou-se a Zaporíjia.
▲ Vários homens das cidades ocupadas têm sido mobilizados para combater ao lado do Exército russo
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Skorkin traça o retrato da recruta que tem ocorrido nos territórios ocupados: “A maior e mais brutal mobilização no Donbass ocorreu em 2022, quando as pessoas foram chamadas em massa para se juntarem às fileiras dos ditos exércitos das repúblicas não reconhecidas. Um conhecido meu foi mobilizado para o exército de Luhansk, apesar de ter graves problemas de visão e de não ter um dedo na mão direita. Morreu a combater um mês depois.”
“Agora, este processo entrou no sistema de mobilização parcial de toda a Rússia. De qualquer forma, os mobilizados dos territórios ocupados são aqueles que têm menos direitos [entre todos os soldados]”, assegura.
Para além dos mortes e feridos, a decisão afeta as regiões ocupadas de outra forma: apesar de as empresas tentarem obter autorizações excecionais para que os seus funcionários não sejam recrutados, regra geral não têm conseguido — o que afeta a economia local, que se tenta por de pé. “A maioria dos engenheiros agrícolas, dos condutores de tratores, dos operários de máquinas e dos serralheiros foram recrutados; sem eles, a colheita da primavera pode estar em risco”, reconhecia o “ministro” da Agricultura de Donetsk ainda em 2022. Nesse mesmo ano, as autoridades oficiais de Luhansk informavam que 58% dos mineiros da região tinham sido mobilizados para a linha da frente.
Do lado das autoridades ucranianas, o conselho para os seus cidadãos sobre se devem ou não obter um passaporte russo divide-se. A vice-primeira-ministra Iryna Vereshchuk anunciou em 2023 que a sua recomendação era a de que “não obtenham passaportes russos, não colaborem com os ocupantes, fujam se possível e se ficarem esperem pelas Forças Armadas”. Mas o provedor dos Direitos Humanas Dmytro Lubinets tem um entendimento diferente: “Se por variadas razões não conseguirem sair e, para conseguirem sobreviver, forem obrigados a ter um passaporte russo, fiquem com ele e sobrevivam.”
No mês seguinte, o conselheiro presidencial Mykhailo Podolyak tentava uniformizar a posição: “Eles estão a falar de duas situações diferentes. A senhora Vereshchuk tem razão quando diz que o Estado não pode aceitar que as pessoas obtenham passaportes russos de livre vontade, por sua iniciativa, sem serem alvo de ameaças. Essa é uma situação desagradável que demonstra deslealdade por parte do cidadão, bem como a participação ativa com as autoridades ocupantes”, declarou à revista Foreign Policy. “Agora é claro que se alguém é forçado a abdicar do seu passaporte ucraniano e a obter um russo sob ameaça, então a sua vida é a coisa mais importante.”
Se recusarem tirar o passaporte russo, os habitantes dos territórios ocupados enfrentam uma situação difícil: são obrigados a registarem-se como apátridas, a serem alvos de um exame médico, são-lhes registadas as impressões digitais, fotografados e só podem manter-se em território russo durante 90 dias seguidos ou 180 ao todo num ano. Andrii Chernousov, advogado ucraniano da Fundação Vozes das Crianças, diz que estas pessoas estão “entre a espada e a parede”. “Por um lado, têm medo que, caso os territórios sejam desocupados, sejam alvo de processos judiciais; por outro, são pressionados pelos ocupantes, que lhes limitam tudo.”
3.º passo: Os serviços sociais tornados num “veneno”
Os passaportes russos não são só necessários para evitar a mobilização militar. Ao longo dos últimos anos, tornaram-se essenciais para sobreviver nos territórios ocupados.
Nos primeiros tempos da ocupação, quando ainda não havia estruturas montadas, a situação era caótica. “No início tínhamos sempre longas filas para comprar o que quer que fosse. Havia lojas [de prateleiras] vazias e, à medida que a comida começou a aparecer, era muita cara. Também havia um problema com o dinheiro, porque os multibancos não estavam a funcionar e era cada vez mais difícil pagar com cartão — eles queriam que pagássemos com dinheiro russo”, conta Viktoriia sobre os primeiros dias em Kherson. “Durante toda a ocupação, não conseguíamos comprar as coisas que queríamos. Doces ou chocolates, por exemplo, eram muito caros e de má qualidade.”
Uma residente de Starobilsk (Luhansk) conta como tudo ficou mais caro: as salsichas fumadas antes custavam 250 hrynias (cerca de 5€) o quilo; depois da ocupação, passaram a custar 400 ou 500 (cerca de 10€). Em Donetsk, em 2024 vários bairros continuavam a não ter água canalizada. “É preciso escrever várias queixas à administração ocupante ou até ao Presidente russo”, relata a Radio Free Europe. “No inverno, residentes de Tekstilnyk postaram vídeos a recolherem neve nas ruas e a derreterem-na para terem água.”
Durante o referendo em Kherson, eram dados frangos a quem fornecesse voluntariamente os seus dados. Com o tempo, para obter ajuda humanitária ou qualquer serviço, o passaporte passou a ser necessário e foram dados incentivos nesse sentido: com ele, os residentes podiam pedir compensação por bens destruídos na ocupação (100 mil rublos, cerca de mil euros); os mais velhos podiam ter acesso a pensões mais altas do que as ucranianas; alguns podiam mesmo ter direito a alguns programas de férias.
Os cuidados de saúde são outro tópico onde o acesso é limitado a quem tem passaporte. Oficialmente, a Rússia garante ter aberto unidades de saúde em Luhansk e Donetsk, que incluem equipamento que permite fazer exames como TAC, Raio-X e mamografias. Terão sido investidos oito milhões de rublos (cerca de 88 mil euros) na reconstrução de hospitais e centros de saúde e vários médicos russos foram enviados para as regiões. Mas o acesso às instalações só é permitido a quem for oficialmente cidadão russo e continua a haver falta de material, de medicação e de pessoal médico.
▲ Nos territórios ocupados, os habitantes estão dependentes do passaporte russo para terem direito a serviços
Global Images Ukraine via Getty
Obter medicamentos é outra dificuldade: só há receitas passadas a quem tiver passaporte. E há outros problemas com o seu funcionamento. “Agora compramos medicamentos que estão a um mês da data de validade e, muitas vezes, já estão fora do prazo”, contou Kateryna, de Mariupol, em 2024. “Se não se tem atenção e se nos tratamos com este lixo… Se notarmos na farmácia, temos sorte, porque aí são obrigados a mudar.”
O documento necessário para a cidadania é essencial para a vida, mas também para a morte. “Os cadáveres ainda lá estão”, dizia uma residente de Mariupol ao The Times. “Estão lá há dois anos, o cheiro é insuportável.” Para enterrar um familiar, é preciso ser-se cidadão russo, como explicou à European Broadcasting Union (EBU) Alexander Samoilenko, responsável regional da parte de Kherson entretanto libertada pelos ucranianos. “Só há enterros com um passaporte ou então é sempre negado com um pretexto qualquer”, resumiu.
4.º passo: Os programas de patrocínio e a reconstrução focada em Mariupol
Numa noite de março de 2023, o Presidente fez uma visita surpresa a uma localidade do Donbass: Mariupol (Donetsk), a cidade intensamente bombardeada durante o cerco dos primeiros meses da invasão, que durou até maio — altura em que os militares russos conquistaram definitivamente a cidade. De acordo com as Nações Unidas, cerca de 90% dos arranha-céus e 60% de casas em Mariupol foram destruídos ou danificados. Os efeitos da tomada da cidade foram arrasadores, como documentado por investigações de ONG como a Human Rights Watch.
▲ Mariupol foi uma das cidades mais afetadas pelos bombardeamentos russos. As Nações Unidas estimam que 90% dos edifícios foram destruídos
Anadolu Agency via Getty Images
Na sua visita a Mariupol, Vladimir Putin foi ao bairro Nevski, um dos bairros recentemente reconstruídos pelas autoridades russas, que representa o investimento massivo que o Kremlin deseja fazer nos territórios ocupados. “Mariupol tornou-se num símbolo dos crimes de guerra por todo o mundo”, declara Konstantin Sorkin ao Observador. “Agora tornou-se numa espécie de vitrine do chamado ‘Mundo Russo’ para efeitos de propaganda russa.”
Em abril de 2023, o Kremlin aprovou um programa de desenvolvimento dos territórios ocupados pela Rússia nas regiões de Donetsk, Luhansk, Zaporíjia e Kherson. O valor atribuído foi de um bilião de rublos (cerca de 11 mil milhões de euros) e Vladimir Putin espera que esteja concluído até 2030. O valor, como nota o think tank alemão SWP, corresponde a um oitavo do que a Rússia já gastou militarmente na guerra da Ucrânia e um quarto da economia russa num ano. A este financiamento junta-se o apoio de cidades russas específicas que “apadrinham” cidades nestes territórios: Mariupol, por exemplo, é patrocinada por São Petersburgo, que já ofereceu elétricos.
Para desenvolver a economia em Mariupol, a Rússia decidiu aplicar, através do banco VTB, um valor de hipoteca muito mais baixo do que os que se aplicam no resto do território russo para as novas casas compradas na cidade: 2% (por comparação, em São Petersburgo seria em média de 8%).
Na prática, essas novas casas estão na maioria a serem compradas por cidadãos russos, que procuram os preços mais baixos na cidade costeira, e não pelos locais — a maioria ainda a sentir os impactos de uma guerra, a maioria ainda sem ter emprego. Segundo uma investigação do site russo Meduza, na rede social russa VKontake (semelhante ao Facebook) há mais de 100 grupos com anúncios imobiliários de casas em Mariupol.
“Decidimos mudar-nos para aqui e comprar uma casa, já que uma hipoteca de 2% é bastante acessível”, contava uma residente de São Petersburgo que se mudou para Mariupol, num vídeo publicado nas redes sociais. “O nosso apartamento tem uma boa disposição. É grande, com dois quartos, 64 metros quadrados e duas varandas. Uma boa cozinha, casa de banho separada.”
A situação agrava-se para os ucranianos que ali vivem, já que as autoridades russas têm implementado um sistema em todos os territórios ocupados para tomar posse de casas “abandonadas”. Isto significa que muitos dos ucranianos que fugiram destas zonas durante os bombardeamentos estão agora a perder as propriedades que tinham. Para as manterem, têm de provar que foram habitadas recentemente, pagar serviços como eletricidade e água ao longo de todo o ano anterior e registar a propriedade no Registo Imobiliário do Estado Russo Unificado. Para além disso, têm de ser portadores de passaporte russo. Ao todo, só no Donbass, mais de 50 mil casas já terão sido na prática “nacionalizadas”.
Ao mesmo tempo, a reconstrução por empresas russas avança em Mariupol. O Moscow Times nota que há dezenas de anúncios de emprego no site russo Avito, onde se procuram pedreiros, pintores e soldadores para reconstrução de cidades na região de Donetsk. Para além dos salários mais altos do que os habitualmente pagos na Rússia, há várias vantagens como alojamento e alimentação, mais tempo de férias e bónus. O embaixador russo em Pyongyang também já abriu a porta à possibilidade de a Coreia do Norte enviar funcionários para contribuir na reconstrução do Donbass.
▲ Os esforços de reconstrução avançam em Mariupol, "cidade-modelo" para o Kremlin
AFP via Getty Images
As empresas que estão a levar a cabo essa reconstrução são na maioria ligadas ao Estado russo ou a empresas privadas próximas do Kremlin. Uma delas, a VSK, foi criada por decreto presidencial de Putin em 2019. Outra, como a GC “EKS” é oficialmente gerida pelo CEO Alexey Vlasov, mas uma investigação do site Proekt revelou que pertence na verdade ao filho de Nikolay Krylov, antigo colega de escola do vice-primeiro-ministro e do antigo vice-ministro da Defesa Yursi Borisov. Há ainda proximidade com os irmãos Rotenberg, amigos próximos do próprio Vladimir Putin que receberam já milhões em contratos públicos para construção na Crimeia. Outra empresa — a SPK Zeleny Gorod — foi fundada por um antigo sócio de Arkady Rotenberg.
Segundo o Ministério da Construção da região de Donetsk, havia em 2022 15 empresas russas a assegurar a reconstrução de Mariupol. O site russo iStories não encontrou qualquer anúncio de concursos públicos. Uma investigação da ONG Demonstração de Crime Organizado Grave e Anti-Corrupção (SOC ACE na sigla original) nota que a justificação invocada para a escolha destas empresas pelo próprio governo é o facto de estar em vigor a lei marcial naqueles territórios.
“A reconstrução do Donbass é uma boa fonte de corrupção”, nota Skorkin. “Os media independentes russos escreveram que responsáveis russos, que normalmente encaram a corrupção como habitual, ficaram chocados com a escala a que está a ocorrer nos territórios ocupados pela Rússia.”
Para além de empresas russas, há também empresas chinesas a operar em Donetsk e Luhansk, segundo o site ucraniano New Voice of Ukraine. A revista Monitor, do serviço de rádio-difusão público alemão, a ARD, descobriu também que há empresas alemãs envolvidas nesta reconstrução: a Knauf e a WKB Systems GmbH.
Os habitantes de Mariupol, porém, denunciam o que dizem ser construções baratas e de má qualidade. “Na melhor das hipóteses, são restaurados os interiores”, contou um dos trabalhadores ao Meduza. “Estão a construir casas, mas as ligações de água, luz e gás ainda são do tempo soviético, como na Rússia. Vai demorar anos a concluir este trabalho.”
Uma investigação do Financial Times dá o exemplo de um apartamento reconstruído por uma destas empresas, a R-Stroy — sancionada por ligações próximas a Putin: “Quando as novas janelas chegaram, em novembro, tinham o tamanho errado. Os construtores montaram-nas viradas do avesso e a sair das paredes. As portas de entrada foram removidas. Havia fugas de água, que congelou. Não houve aquecimento até fevereiro.” Um grupo de moradores lançou uma campanha dirigindo-se diretamente a Vladimir Putin, pedindo atenção para a sua situação. “Não somos ladrões, não precisamos das [casas] dos outros. Deem-nos as nossas”, diziam.
A reconstrução avança, mas é sobretudo de fachada. É o caso do teatro de Mariupol, onde centenas de pessoas (incluindo crianças) procuraram abrigo durante o cerco e cerca de 600 terão morrido quando este foi bombardeado. A antiga diretora do teatro, Lyudmila Kolosovych, garante que a reconstrução do edifício está a ocorrer em cima de vários cadáveres: “Taparam tudo com cimento. Não acho que possa haver aqui um teatro, como é que se pode dançar e cantar num túmulo?”, questionou. O antigo vice-presidente de Câmara ucraniano, Petro Andryushchenko, estima que vários edifícios perto da fábrica da Azovstal (último ponto de resistência ucraniana nas últimas semanas do cerco) têm ainda 50 a 100 cadáveres que nunca foram recolhidos, identificados e enterrados.
O ritmo de reconstrução acelerado em Mariupol contrasta com o de outras zonas do Donbass e do sul da Ucrânia, com muitos residentes ainda a viverem sem água, eletricidade e gás. É por exemplo o caso de Severodonetsk: em 2023, 60% a 80% da cidade continuava sem estes serviços.
O jornalista ucraniano Denys Kazanskyi apontou, em novembro de 2024, que muitos locais chamam a estas zonas “Repúblicas Populares das Mulheres”, por serem praticamente compostos apenas por mulheres mais velhas (muitos dos homens foram mobilizados para a linha da frente). “As áreas onde os russos lutam desde 2022 são desertos. Cidades que se estão a tornar em aldeias e aldeias que desapareceram completamente”, afirmou em entrevista ao Ukrainska Pravda. “Não vejo nenhum fator a curto-prazo que mude drasticamente a vida nestas áreas ou traga algum desenvolvimento. Estes são territórios negros que estão à beira da extinção.”
▲ No Donbass e no sul da Ucrânia, aldeias inteiras foram quase arrasadas. Na prática, a reconstrução só está a avançar em Mariupol
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Vejam-se os casos de cidades como Bakhmut, cuja população passou de 70 mil para pouco mais de 500 habitantes, ou de Popasna, que desceu de 20 mil para cerca de 200 pessoas. No caso de Popasna, as próprias autoridades russas já reconheceram que provavelmente a cidade não será recuperada: “Podemos não reconstruir Popasna, porque não vale a pena. A cidade está praticamente toda destruída.” Cerca de 96% dos edifícios da cidade terão sido destruídos durante a ofensiva militar.
Muitas cidades como Popasna estão a ser usadas como bases militares para continuar a conquista russa do Donbass. “Funcionam como uma espécie de zona-tampão no caso de haver uma contraofensiva do Exército ucraniano”, explicou à Radio Free Europe o observador militar Oleksandr Kovalenko, do grupo ucraniano Resistência de Informação.
O jornalista Denis Kazansky, que é também autor do livro Como a Ucrânia perdeu o Donbass, considera que não há perspetivas de a situação mudar, até porque não é muito diferente do que já se passa em algumas zonas da Rússia. “Acham que a Rússia vai estar ao vosso lado para construir uma Moscovo no Donbass? Não, só há uma Moscovo na Rússia e o resto trabalha para Moscovo”, afirmou numa entrevista. “Vão simplesmente abandonar [estas zonas]. Há muitas situações assim na Rússia, especialmente em regiões do norte, onde há cidades abandonadas que parecem cenários de um filme de terror. Portanto, eles podem facilmente não restaurar nada — seria uma paisagem banal russa.”
5.º passo: As alterações demográficas
Outro dos efeitos que se sentem nos territórios ocupados são as claras alterações demográficas, com grandes movimentações de pessoas: os que partem dos territórios ocupados para a Rússia, num movimento que alguns classificam como deportação forçada (um crime de guerra, segundo a Convenção de Genebra), e os que chegam da Rússia.
De acordo com os dados oficiais da Organização Internacional para as Migrações, em dezembro de 2022 quase três milhões de pessoas tinham abandonado os territórios ocupados desde o início da invasão, em fevereiro. As autoridades ucranianas e russas estimam que, em média, vivam neste momento nessas regiões cerca de três milhões de pessoas.
Para além disso, as autoridades ucranianas acusam a Rússia de ter promovido ações de deportação de milhares de cidadãos ucranianos para outros territórios, em particular cerca de 20 mil menores. O Laboratório de Investigação Humanitária da Universidade de Yale denuncia que mais de seis mil menores foram enviados para campos de reeducação e, em alguns casos, para o sistema de adoção russo.
Em 2022, o Instituto para o Estudo da Guerra encontrou uma publicação online do governo local de Krasnodar (entretanto apagada) onde se anunciava que mais de mil crianças foram transferidas de Mariupol para várias cidades russas, estando 300 ainda à espera “de conhecer as suas novas famílias”. O mesmo Instituto avançou em 2024, citando autoridades ucranianas, que há relatos de mães em hospitais de Luhansk que são ameaçadas de lhes serem retirados os filhos, a não ser que um dos pais obtenha cidadania russa.
Multiplicam-se os relatos de cidadãos ucranianos nos territórios ocupados a serem forçados a passar pelos chamados “centros de filtragem”, a partir de onde são enviados para o território reconhecido internacionalmente como Federação Russa. O Laboratório da Universidade de Yale identificou vinte e um destes centros apenas na região de Donetsk.
Ali são interrogados e fotografados, as suas impressões digitais são registadas e os seus telemóveis verificados. A Rússia afirma que é necessário fazê-los passar por este processo para detetar “pessoas ligadas aos serviços de segurança da Ucrânia, participantes em batalhões nacionalistas, grupos de sabotagem e reconhecimento, bem como os seus cúmplices”. Alguns são detidos, outros partem para a Rússia. Mas a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) considera que os ucranianos estão a ser forçados a partirem para a Rússia, já que “coação” não é apenas ter uma arma apontada à cabeça, é também “criar um ambiente em que o civis não tenham outra escolha senão partir para a Rússia”.
O próprio embaixador russo nas Nações Unidas já reconheceu a existência destes campos, que classificou de “procedimento militar normal”. O governo norte-americano estimava em 2022 que teriam sido deportados para a Rússia entre 900 mil a 1,6 milhões de ucranianos desde o início da invasão.
▲ Uma família ucraniana recebe o filho de volta, depois de este ter sido levado para a Rússia, numa das campanhas de deportação de menores
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Para além da movimentação de ucranianos em direção à Rússia, regista-se também o movimento inverso, com a chegada de gente de várias partes do país para Donetsk, Luhansk e cidades nas regiões de Kherson e Zaporíjia. Andriushchenko, o ex-autarca de Mariupol, considera que este é um plano de engenharia demográfica orquestrado pelo Kremlin: “Atualmente, a população [em Mariupol] não chega aos cinco milhões”, diz, referindo-se ao objetivo decretado pelo governo russo de a cidade chegar aos 10 milhões até 2030. “Onde é que eles vão buscar os outros cinco milhões? É mesmo isso, vão trazê-los da Rússia.”
Mariupol tem sido o epicentro desta chegada de russos, em parte motivados pelos contratos de trabalho lucrativos e pelo mercado imobiliário mais barato. As autoridades ucranianas estimavam em 2023 que a cidade já teria quase oito mil cidadãos vindos da Rússia, entre eles quase quatro mil crianças.
Muitos dos que chegam vêm para trabalhar em áreas como a saúde e o ensino. Moscovo reconhece que muitos dos contratados pelo Estado que partam para estas regiões receberão o dobro do salário que recebem atualmente na função pública russa. Um relatório da Human Rights Watch dá conta de que a Rússia tem enviado vários professores para esta região e há também relatos de médicos russos a trabalhar nos territórios.
Konstantin Skorkin afirma ao Observador não ter dados fidedignos relativamente às deportações de cidadãos ucranianos, mas não tem dúvidas de que “está a ocorrer uma grande substituição de população”. “Vivi em Luhansk até 2014 e muitos dos meus vizinhos sabem que há novos residentes nas suas casas — alguns apoiantes da República [russa] de Luhansk, outros russos, ou ainda trabalhadores da Ásia Central contratados pela Rússia”, diz.
Viktoriia Maryshchuk diz também ter assistido a este “espetáculo encenado” em Kherson, quando estava totalmente ocupada. “Algumas pessoas eram trazidas da Rússia e usadas para fazer uma lavagem cerebral às outras”, afirma. “Traziam pessoas para fingir que os moradores de Kherson queriam ser parte da Rússia.”
Mas a estes movimentos demográficos juntou-se recentemente um novo fenómeno: o de antigos residentes no Donbass que inicialmente fugiram para territórios controlados pelo governo ucraniano e que agora estão a regressar — terão sido já cerca de 130 a 150 mil. A motivação prende-se com a dificuldade de arranjar emprego e habitação noutras zonas da Ucrânia (só 40% dos deslocados internos em idade ativa estão empregados), mas também com dificuldades de integração. É o caso de Olha, uma ucraniana que regressou a Kramatorsk (Donetsk), que descreve ao Le Figaro situações de preconceito vividas pelo seu marido na Ucrânia ocidental: “Disseram-lhe ‘Falas russo, és de Donetsk, volta para casa, seu separatista. É por causa de ti que há uma guerra.’”
Em março deste ano, o El País esteve no centro da cidade de Donetsk e falou com residentes que notavam como há agora mais gente da cidade. “As pessoas estão a voltar”, asseguravam. “Agora temos filas de trânsito!”
6.º passo: A manipulação sociocultural e linguística
Quando se fala dos territórios ucranianos ocupados, em particular do Donbass, é habitual destacar-se como muitos dos seus habitantes são falantes de russo e parecem ter uma proximidade cultural e identitária com a Rússia. Mas os habitantes desta região não são um monólito e há diferentes sensibilidades, algumas até potencialmente alteradas por três anos de bombardeamentos russos sobre as suas casas. A Rússia tem tentado, por isso, cultivar uma proximidade cultural ao país, através sobretudo de dois meios: a cultura e a escola.
Para compreender a cultura do Donbass, é preciso recuar pelo menos ao tempo da União Soviética, quando as grandes reservas de minerais da região foram altamente exploradas e se tornaram um recurso-chave para a URSS. Não por acaso, entre 1924 e 1961, a cidade de Donetsk teve o nome de “Stalino”, em homenagem a Josef Stalin. “No imaginário soviético, o Donbass era a fornalha de toda a União Soviética”, resumiu à France24 a historiadora Gallia Ackerman. “Com o aumento da industrialização, muitos trabalhadores especializados e engenheiros russos chegaram à região.”
O colapso da União Soviética mergulharia a região numa crise económica profunda, que alguns classificam como ainda mais grave do que a sentida na Rússia. Essa crise alastrou-se também à identidade dos próprios habitantes, profundamente ligados à cultura soviética — com a separação entre Rússia e Ucrânia como países independentes, os habitantes ficaram divididos. De acordo com um censo soviético, citado pelo Meduza, em 1989 quase 64% dos habitantes de Luhansk e quase 68% dos de Donetsk consideravam o russo a sua língua nativa.
Poster de propaganda soviética com a frase “Donbass — até ultrapassarmos!”
Isso não se traduzia, porém, numa correlação direta com o desejo de ser parte da Rússia. Em 1991, no referendo sobre a independência da Ucrânia, mais de 80% dos habitantes de Donetsk e Luhansk votaram a favor da criação de um Estado independente. E, contudo, nas eleições seguintes os vencedores na região foram quase sempre partidos mais pró-russos.
“O sentimento pró-russo sempre foi forte no Donbass, mesmo antes de 2014 [altura da criação das repúblicas separatistas], mas a ideia de a região se juntar à Rússia não era popular”, nota Konstantin Sorkin. “Aponto-lhe um estudo sociológico que diz que o apoio à anexação direta estava [à altura] entre os 12% e os 18% na região.”
Tiia, uma residente de Makiivka (Donetsk), reconhece não ter grandes sentimentos nacionalistas ucranianos até 2020, altura em que os protestos na Bielorrússia a fizeram repensar sobre a proximidade à Rússia. Mas, como explicou ao jornal Ukrainska Pravda, a identidade do Donbass sempre foi mais complexa e a ideia de integração na Rússia era “uma construção artificial”. “Em vez disso, tanto a educação formal como a informal eram construídas em torno de uma identidade operária: o trabalhador e o mineiro.”
A região funcionava como uma espécie de “terra de ninguém” entre Ucrânia e Rússia, com sentimentos contraditórios. O sentimento de pertença não era ajudado por aquilo que o historiador Hiroaki Kuromiya, especializado na História do Donbass, classifica como “preconceitos de alguns políticos e intelectuais ucranianos”, que mantinham “desconfiança, desdém e desprezo pela população e cultura do Donbass, como uma espécie de parvónia incivilizada da Ucrânia”.
Atualmente, é impossível ter uma noção de como a invasão de larga escala pode ter influenciado os sentimentos nacionalistas dos habitantes do Donbass. “Os sociólogos europeus e ucranianos foram forçados a trabalhar sobre uma ocupação de facto e, pessoalmente, não confio nos dados russos”, nota Skorkin.
Mas não há dúvida que, durante a invasão, assim que uma cidade é ocupada pelos russos, há um cuidado particular em isolar culturalmente os habitantes da Ucrânia. Viktoriia conta o que aconteceu em Kherson durante os primeiros dias da ocupação: “Não tínhamos eletricidade, internet, nem sequer rede móvel. Fomos afastados do mundo e não conseguíamos ligar à família, nem ver as notícias.”
Rapidamente esses serviços foram substituídos por canais de televisão e rádios russos, bem como por cartões SIM russos. “Não podíamos ver a televisão deles, era só propaganda”, conta Viktoriia sobre a experiência da sua família. “Havia Wi-Fi, mas obrigavam os fornecedores a usar o sinal russo. Nós conseguíamos usar uma VPN para ter acesso e tudo e, quando saímos à rua, apagávamos tudo o que tínhamos no telemóvel, porque eles verificavam os telefones de toda a gente. Se encontrassem algo que parecesse pró-Ucrânia, a pessoa podia estar em apuros.”
Um dos principais serviços de radiodifusão a estabelecer-se no território é, curiosamente, parte de uma empresa francesa, a NRJ, que opera com uma licença da russa GPM (que pertence à empresa pública russa de gás, Gazprom). Na estação, como conta o site russo The Insider, é possível ouvir música de artistas como Lady Gaga e Ed Sheeran, ao mesmo tempo que são passados anúncios a promover a recruta de soldados para combater na “operação especial”.
Boris, um soldado da 59.ª Brigada Motorizada do Exército ucraniano que tem responsabilidades em ações para aumentar o moral, lamentou ao Le Monde como os russos “venceram a batalha das ondas de rádio”. “Aqui já está tudo ocupado pela propaganda russa. Televisão ou rádio, é tudo o mesmo”, afirmou.
A isso somam-se as redes sociais, com múltiplos canais de Telegram com mensagens pró-russas, e jornais, como o russo (e próximo do regime) Komsomolskaya Pravda, que chega a ter 750 mil cópias distribuídas.
As autoridades russas não se limitam ao uso dos media para influenciar as populações. Os valores russos vão sendo promovidos de outras formas: a Freedom House, que dá nota negativa ao índice de liberdade nos territórios ocupados, destaca leis aprovadas pela Rússia que se estendem a estas zonas como “a proibição de intervenções médicas para mudar de sexo” e a declaração do “movimento internacional LGBT” como “organização extremista”.
A religião é outra das áreas onde a Rússia pretende uma uniformização com aquilo que se passa no resto do seu país. Todas as igrejas e formas de culto que não estão associadas à Igreja Ortodoxa Russa “são sujeitas a perseguição”, de acordo com a Freedom House, que nota efeitos sobre “testemunhas de Jeová, batistas, membros da Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Kiev, a Igreja Greco-Católica e algumas comunidades muçulmanas”.
Ao mesmo tempo, as autoridades russas têm-se desdobrado em esforços para derrubar monumentos considerados pró-Ucrânia e substitui-los por símbolos russos e, por vezes, até soviéticos, como estátuas de Lenine — fenómeno que o historiador Serhy Yekelchyk explicou à Economist com o facto de, “na Ucrânia, Lenine não representar o comunismo, mas antes o controlo russo”. “As ruas são renomeadas, os monumentos culturais e arquitetónicos são demolidos”, declarou Dmytro Lubinets, provedor de Direitos Humanos da Ucrânia. “Rasgam todos os símbolos do Estado: o nosso tridente, bandeiras, tudo o que esteja relacionado com a Ucrânia, incluindo a língua ucraniana.”
Mariupol, como “cidade-modelo” para o Kremlin, tem sido palco de transformações evidentes. O memorial às vítimas do Holodomor (a fome provocada pela União Soviética de Estaline que matou quase quatro milhões de ucranianos) foi retirado e o mural da Avenida Myra — que retratava uma menina agarrada a um urso de peluche, como símbolo dos ataques separatistas de 2015 que quase mataram Milana Abdurashitova, de seis anos, protegida pela mãe que morreu — foi substituído por uma bandeira russa. O teatro de Mariupol, o tal onde 600 pessoas morreram durante o cerco de 2022, está agora reconstruído e é palco de espetáculos de autores russos e concertos patrióticos.
▲ O processo de "russificação" é feito culturalmente, através da destruição de monumentos, doutrinação nas escolas e realização de eventos culturais russos
Corbis via Getty Images
Mas o maior local de transformação cultural é no ensino, como testemunhou uma aluna num liceu de Luhansk ao site moldavo NewsMaker: “A escola está agora coberta de posters russos. Estão em todo o lado: nos corredores, no anfiteatro. Entra-se na escola e há posters com bandeiras tricolores [russas], monumentos, elogios aos líderes russos. Por exemplo, há um poster [que diz] ‘Putin é o nosso Presidente, a Rússia é o nosso país’.”
Os programas das disciplinas são agora iguais aos ensinados na Rússia, com manuais russos. Numa reportagem da France Info numa escola da aldeia de Volnovakha (Donetsk), a professora perguntou aos alunos, em frente às câmaras: “O Ocidente global, os países europeus e os Estados Unidos estão a tentar fazer o quê? Consideram que o modelo democrático liberal deve ser universal e estão a tentar impô-lo a toda a gente. É o único que existe?” Os alunos responderam em coro que não.
De acordo com um relatório da Human Rights Watch, é agora ensinado que o atual governo ucraniano é um “Estado neo-nazi” e o uso do ucraniano como língua é reprimido. A ONG relata o caso de um rapaz na cidade de Melitopol que foi levado de carro com um saco a tapar-lhe a cabeça e abandonado numa zona remota. O seu crime? Ter falado ucraniano na escola. O relatório também dá conta de que, durante a ocupação da região de Kharkiv, houve professores alvo de “coerção, detenção, maus-tratos, espancamentos e tortura com eletrochoques” para que fornecessem dados de estudantes e da escola.
Para além das alterações de currículo, as escolas dos territórios ocupados são também palco de programas geridos pela Guarda Nacional russa, onde os estudantes são ensinados a mexer em armamento e é incentivado aos alunos que prossigam para uma carreira militar. A isso soma-se a organização juvenil Yunarmia, de caráter militarista, onde os jovens de Luhansk, por exemplo, são obrigados a participar. No ano de 2024, a Yunarmia recebeu do Estado russo cerca de 270 milhões de rublos (quase três milhões de euros) para promover “a educação patriótica”.
“As escolas nos territórios ocupados são vistas como instrumentos de doutrinação ideológica das crianças e de controlo ideológico sobre os pais”, declara Konstantin Skorkin ao Observador. “Todos estes métodos são aplicados com toda a força, como se fosse uma distopia de Orwell.”
A repressão da língua ucraniana vai para lá do que acontece nas escolas. Num caso revelado na revista Economist, os soldados russos invadiram a casa de um professor, Vyacheslav Borodavka, e procuraram todos os “livros proibidos” que detinha — ou seja, os escritos em ucraniano. O homem foi depois levado, preso e torturado, sendo-lhe exigido que prometesse cumprir o novo currículo escolar.
Dentro do Kremlin, há uma noção de que os esforços de doutrinação são particularmente necessários nos territórios ocupados, mais ainda do que no resto da Rússia. “A ideia de que as crianças ucranianas são potenciais terroristas paira sobre as nossas conversas”, declarou uma fonte do governo russo ao Meduza. “Não somos idiotas — sabemos que a Rússia não entrou na Ucrânia com ‘paz e bondade’. E as crianças que foram levadas de lá para um ambiente hostil podem começar a resistir.”
A educação é, por isso, o pináculo daquilo que muitos, como Skorkin, descrevem como “russificação” dos territórios ocupados. “Não é apenas o impor da língua russa, é um esforço alargado de apagar a identidade ucraniana.”
7.º passo: A repressão da resistência e a ajuda dos colaboracionistas
A História demonstra que em todos os territórios ocupados há sempre movimentos de resistência e a Ucrânia não é exceção. Os movimentos de guerrilha são vários: “O Movimento de Melitpol”, “O Exército de Guerrilha de Berdyansk”, o SKROK (“Morte aos Ocupantes Russos e Colaboradores”), o “Atesh”, o “Laço Amarelo” e o “Zla Mavska” são alguns dos grupos já identificados.
Alguns, como o Atesh, reivindicam ações de sabotagem como a explosão de um caminho de ferro em Luhansk, em abril deste ano. Outros, como o Zla Mavska, deixam panfletos e símbolos como o laço amarelo (associado à Ucrânia) pelas ruas. E muitos colaboram diretamente com os serviços de informação ucranianos.
Alguns já funcionavam ainda antes da invasão de larga escala, como o de Volodymyr Zhemchugov, que relatou à Der Spiegel como recolheram informações ao longo dos últimos anos: “Comprámos aos soldados russos cervejas e cigarros, agradecemos-lhes pela sua proteção e vigiámo-los durante todo o processo”. Outros funcionam de forma isolada, com cada contacto dos serviços secretos a não conhecer os colegas: “As pessoas muitas vezes imaginam os movimentos de guerrilha como algo dos filmes da II Guerra Mundial, mas [em Donetsk] não é nada assim, porque se apanham uma pessoa tudo fica comprometido”, explicou ao Kyiv Independent um agente dos serviços ucranianos.
A sua escala e eficácia são difíceis de medir, como explica Skorkin: “Tenho a certeza que há resistência popular e operações dos serviços de segurança apoiadas por ela, mas depende muito do território. Aqueles que foram capturados antes de 2022 já foram infiltrados pelos serviços especiais russos e estão intimidados pelo terror. Os que foram capturados depois disso, onde ainda não há agentes russos, são um território mais conveniente para a Resistência.” Petro Andryushchenko, antigo vice-presidente da autarquia de Mariupol, desencorajou os cidadãos da sua cidade a participarem nesses movimentos, dizendo que ali a situação histórica e o “nível de controlo” são diferentes: “Neste momento, temos de pensar em manter as pessoas vivas.”
▲ As ações de resistência nos territórios ocupados incluem gestos como pintar laços amarelos (símbolos associados à Ucrânia) em edifícios como este, em Kherson
Global Images Ukraine via Getty
O receio não é de todo infundado. As Nações Unidas denunciam que só nos anos de 2022 e 2023 registou 687 casos de civis detidos arbitrariamente por se oporem à ocupação. 91% dos prisioneiros dizem ter sido alvo de “tortura e maus-tratos”. A relatora para a Tortura da ONU afirma que os métodos sugerem “um nível de coordenação, planeamento e organização, bem como autorização direta, de uma política deliberada de tolerância oficial por parte das autoridades superiores”.
Viktoriia Maryshchuk confirma como ouviu relatos de situações dessas quando Kherson estava ocupada: “Havia muitos voluntários que davam comida e medicamentos, mas os russos levaram-nos para a ‘cave’”, diz, referindo-se à expressão usada na Ucrânia ocupada para as prisões improvisadas pela Rússia naqueles territórios. Konstantin Skorkin também diz “não ter dúvidas” da “crueldade” aplicada, citando o que aconteceu após 2014. “Nessa altura”, revela, “muitos dos meus amigos foram vítimas de detenção e tortura pelos russos ou pelos separatistas ligados a eles. Havia métodos [dignos] da Gestapo nazi.”
Os relatos são crus. Como o de Nikita Cheborat, da cidade de Hola Prystan (Kherson), que foi baleado na perna com uma pressão de ar e obrigado a retirar os chumbos da própria perna. Ou o de Andryi Anisimov, detido por ter combatido no Donbass pelo Exército ucraniano entre 2018 e 2021, que foi marcado na perna com um ferro quente: “Disseram-me que era um souvenir da Rússia.”
Um relatório de 2022 do Instituto Dinamarquês Contra a Tortura confirma que as autoridades russas detiveram nos territórios ocupados “funcionários públicos, incluindo professores e líderes na comunidade, soldados e polícias no ativo e reformados, e civis comuns, incluindo crianças, conhecidos por terem sentimentos patrióticos ou por suspeitas de apoio ao Estado ucraniano”. A mesma organização diz haver provas de que a tortura foi usada como recurso de coação para obrigar civis a “aceitarem a cidadania russa, participarem nos referendos fraudulentos e para os forçarem a trabalhar em propósitos militares como cavar trincheiras e construir fortificações”. Os métodos aplicados incluem espancamentos, choques elétricos, asfixia, execuções falsas (em que a pessoa pensa que vai ser morta, mas os tiros são disparados para o lado), sujeição a sons de explosões e tiros, humilhação, entre outros.
De acordo com um documento do governo russo divulgado pela Associated Press, a Rússia tenciona criar mais 25 colónias penais e seis centros de detenção nos territórios ocupados, até 2026.
▲ Sasha Sitnik foi um dos ucranianos presos pelas autoridades russas, em Trostyanets
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Perante este nível de repressão e, como em todas as ocupações, também surgem muitos colaboradores. “Pessoas que antes vendiam maçãs no mercado de repente estavam a trabalhar em altos cargos na administração [regional]”, notou um local ao Instituto Global de Políticas Públicas. Um habitante de Kherson entrevistado pela mesma organização diz ter sido denunciado às autoridades por um conhecido da sua filha. No teatro de Mariupol, vários dos atores e trabalhadores estão a colaborar com as novas autoridades — “Abriram-se tantas portas para mim”, afirmou um ao Wall Street Journal.
A agência Reuters revelou um caso emblemático da tensão que se vive nestes territórios. Em Kherson, uma mulher de 74 anos, Valentyna Haras, teve a sua casa pintada de graffiti a identificá-la como colaboradora, incluindo vários “Z” associados à “operação especial”, depois de a cidade ser libertada pelo Exército ucraniano. Entrevistada, disse em lágrimas não compreender as acusações. Já uma das vizinhas afirmou que “ela apoiava abertamente os russos, dizia a todos que a Rússia era ótima”.
Viktoriia, que é precisamente de Kherson, diz que é preciso distinguir as situações. “Alguns só estavam a tentar sobreviver, especialmente se não tinham trabalho. Outros viram [isto] como uma oportunidade de fazer dinheiro ou subir de cargo, como chegar a diretor.” Conta como no jardim de infância onde a sua mãe trabalhava (e onde a sua família procurou refúgio), “havia pessoas que aceitaram colaborar com os russos enquanto continuavam a receber o salário ucraniano”. “Espero que agora percebam que foi um erro”, sentencia.
A resposta das autoridades ucranianas a estas situações é complexa e não há orientações claras. O provedor Lubinets declara que tem de haver algum tipo de punição para os colaboradores: “Têm a escolha de trabalhar para as autoridades ocupantes ou para o setor privado, portanto tem de haver uma diferença”, disse à EBU. “Não podemos [dizer] que não vamos castigar ninguém por ter feito parte de um governo ilegal, contribuindo assim para a violação da integridade territorial do Estado ucraniano.”
Ao todo, segundo dados de março de 2024, mais de mil pessoas foram condenadas por tribunais ucranianos por “atividades colaboracionistas”, muitos deles professores e diretores de escola. A advogada Antonina Shostak, que tem defendido alguns destes casos, alerta que a Justiça tem sido demasiado cega. “Alguns podem ter sido torturados ou forçados”, nota. O facto de alguns serem julgados in absentia é outro problema destacado por esta jurista: “Foi-lhes retirada a oportunidade de se defenderem ou de providenciarem provas de que estavam sob pressão. Na minha opinião, essa é uma violação clara de direitos humanos.”
Konstantin Skorkin reconhece ao Observador que esta é uma situação “complexa” e que tem motivado muito “discussão entre a sociedade ucraniana”. “Acredito que aqueles que receberam um passaporte russo para poderem sobreviver e salvar a sua vida não são criminosos, são vítimas de agressão. Penso que o mesmo se aplica àqueles que garantiam a vida da comunidade, como médicos e funcionários de serviços básicos. A situação dos professores é mais complicada”, alerta, pedindo atenção ao contexto de cada caso. “Se uma pessoa ensinava matemática ou biologia, dificilmente poderia transmitir propaganda. Mas se houver provas suficientes de que tornou as suas aulas de matemática em agitação pró-Putin, então deve receber pelo menos um castigo simbólico.”
A desconfiança do resto da Ucrânia relativamente aos sentimentos pró-russos do Donbass mantém-se e se, no futuro, estas zonas vierem a ser libertadas, não há garantias de que possa haver paz social. Boris, o oficial ucraniano responsável pelo moral que falou ao Le Monde, não tem dúvidas de que “90% dos civis que continuam nas suas casas que foram bombardeadas são pró-russos”. Os soldados chamam-lhes shduny, um termo pejorativo que pode ser traduzido como “aqueles que estão à espera” — da Rússia, naturalmente.
Andriy Dikhtyarenko, editor do site do leste da Ucrânia Realna Gazeta, considera que é preciso compreender como para muitos foi fácil aceitar o domínio das autoridades russas. “Quando as pessoas estão a passar por momentos difíceis na sua vida, não pensam muito em bandeiras, independentemente de quão cínico isto possa parecer”, declarou o jornalista à Radio Free Europe. “Há muita gente que está indiferente ao que se passa, que não quer perceber quem tem razão e quem deve ser culpado, só querem viver normalmente.”
Nos territórios ocupados onde a “russificação” segue a todo o gás, para muitos a única forma de resistir é fazer a vida normal — e, por vezes, pontuá-la com pequenos atos privados de rebeldia. Como o de um ativista da organização de resistência Laço Amarelo, da cidade de Tokmak (Zaporíjia), que apesar de fazer parte da “Resistência” só encontrou uma forma de se opor às celebrações do 9 de Maio deste ano: “Sair não é uma opção. Fizemos o download de O Senhor dos Anéis e vamos vê-lo em vez de assistir à celebração do Dia da Vitória.”