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Apesar da insistência do Observador, o gabinete de Marta Temido não confirmou ter recebido quaisquer queixas, nem respondeu sobre o que irá fazer com as que lhe chegam às mãos

Rui Oliveira/Observador

Apesar da insistência do Observador, o gabinete de Marta Temido não confirmou ter recebido quaisquer queixas, nem respondeu sobre o que irá fazer com as que lhe chegam às mãos

Rui Oliveira/Observador

Prioridade nas vacinas. Ministério não diz se vai investigar denúncias entregues por médicos e enfermeiros /premium

Queixas foram reencaminhadas para o Governo. Bastonários dos Médicos e dos Enfermeiros querem que a tutela garanta que não volta a acontecer. Centros hospitalares dizem que tudo foi resolvido.

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O telefone do bastonário da Ordem dos Médicos não tem parado de tocar. São mensagens, whatsapps e telefonemas de colegas de todo o país que não entendem o que se passa nos seus centros hospitalares. Sabem que são prioritários, mas nem por isso estão a ser vacinados contra a Covid-19, e não percebem por que é que outros estão a passar à sua frente. Miguel Guimarães também recebe denúncias sem sentido: não havendo doses para todos, é preciso saber esperar pela vez — diz muitas vezes a quem lhe liga. Não vai reencaminhar as mensagens recebidas para a ministra Marta Temido, mas vai dar-lhe conta, nos próximos dias, do que dezenas de médicos lhe têm dito. Por escrito, como é costume, mas, também “como é habitual”, não conta ter resposta, diz ao Observador.

A bastonária da Ordem dos Enfermeiros já deu um passo em frente. Também lhe chegam dezenas de denúncias sobre prioridades de vacinação que não estão a ser respeitadas, mas diz só poder valorizar as oficiais. Sabe que as mensagens nas redes sociais podem ter, ou não, fundo de verdade e, por isso, pede a quem se queixa que envie emails oficiais para a Ordem, fugindo ao anonimato. Dessas, recebeu quatro — Hospital de Santa Maria, Maternidade Alfredo da Costa, Hospital Garcia de Orta e Hospital Padre Américo. Todas foram enviadas às autoridades competentes, encabeçadas pelo Ministério da Saúde.

Mas apesar da insistência do Observador, o gabinete de Marta Temido não confirmou ter recebido quaisquer queixas, nem respondeu sobre o que irá fazer com as que lhe chegam às mãos. Fica também por explicar que consequências poderá haver para os centros hospitalares que passem por cima das prioridades estabelecidas pela Direção Geral de Saúde. Do lado dos médicos e enfermeiros, ambos os bastonários sabem o que pretendem: evitar que funcionários hospitalares não prioritários voltem a ser vacinados antes de quem está na linha da frente.

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“Isto acontece porque continuamos a ter má gestão na saúde em Portugal. Nestes casos, tão mau é quem faz esta gestão como aqueles que aceitam receber a vacina antes de chegar a sua vez. Estou no último grupo e só nessa altura serei vacinada”, diz Ana Rita Cavaco.

E o que gostava a enfermeira que acontecesse com as denúncias entregues à equipa de Marta Temido? “Se se confirmar que as prioridades não estão a ser respeitadas, é preciso que os processos sejam acompanhados mais de perto pela tutela e que quem cometeu os erros seja afastado da gestão. Deveriam ser eles próprios, Ministério da Saúde, a escolher quem vai coordenar os processos de vacinação para evitar que volte a acontecer”, defende a bastonária da Ordem dos Enfermeiros.

“O primeiro dia correu muito bem", diz o bastonário dos Médicos. O problema veio a seguir, quando se expandiu a vacinação a todos os centros hospitalares

Corbis via Getty Images

O bastonário da Ordem dos Médicos, desde o início crítico das prioridades definidas no Plano de Vacinação e defensor de que os mais velhos deviam ser os primeiros a ser vacinados, insiste que as regras não são claras. Deveria ser óbvio para todos quem são os primeiros da lista.

“O primeiro dia correu muito bem. A vacinação nos primeiros cinco centros hospitalares correu lindamente e cumpriram-se as prioridades definidas. O problema é a seguir, quando se expande a vacinação. Se está a ser assim agora, com tantas queixas num início tão precoce, como é que vai ser quando estivermos a vacinar toda a população?”, questiona Miguel Guimarães. Antevendo que haverá problemas mais sérios, o bastonário diz ser importante “corrigir já, criar um fio condutor” para que os erros não aconteçam.

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Admitindo que há falhas que podem acontecer, até porque os centros hospitalares fizeram tudo em tempo recorde, Miguel Guimarães defende que as normas têm de ser mais claras. “Têm de ser definidas regras, iguais para todos, e têm de ser tornadas públicas, com total transparência sobre a operacionalização do plano de vacinação. Isto permite que as pessoas possam protestar em consciência”, diz. O que está a acontecer atualmente, sublinha, é que cada centro hospitalar vai criando as suas próprias prioridades e fazendo à sua maneira, não havendo diretrizes claras a emanar da task force que coordena o plano de vacinação.

Se continuar assim, quando Portugal inteiro começar a ser vacinado, será “o desenrascanço”, diz o bastonário. “Uma coisa é as doses estarem preparadas, alguém falhar a marcação e termos de ir procurar alguém para ser vacinado, para aquela dose não acabar no lixo. Outra coisa é termos prioritários — os estomatologistas em Évora, por exemplo — que continuam à espera”, afirma. Estas situações, admite, podem levar aos pedidos de cunhas e situações igualmente complicadas.

“Tive um doente meu, com bastante idade, a pedir-me por tudo que lhe prescrevesse a vacina. Tem uma série de problemas e pela idade devia estar a ser vacinado, mas não posso fazer nada, tive de lhe explicar isso”, recorda Miguel Guimarães. O bastonário, médico urologista no Hospital de São João, foi vacinado logo a 27 de dezembro devido à sua atividade na área da transplantação renal. Tem defendido que a idade deve estar no topo das prioridades, antes mesmo dos profissionais de saúde, por ser o o fator que tem maior letalidade associada à doença.

Pelo contrário, a bastonária dos Enfermeiros acredita que o “plano de vacinação é um bom plano e está bem priorizado”. O problema, diz, “não é o papel, é o que se passa na realidade”.

Centros hospitalares alvo de denúncias dizem que tudo foi resolvido e que os prioritários estão a ser vacinados na medida das doses disponíveis

Getty Images

Cunhas ou desorganização? Da primeira, ninguém tem provas

Falar em cunha é tabu. Ninguém quer apontar o dedo sem provas, a começar pelo presidente do Sindicato Independente dos Médicos, que diz ouvir muitas queixas soltas, desvalorizando o que lhe tem chegado aos ouvidos.

“Um administrador foi vacinado? Se me disserem isso, pergunto logo: onde, quando e onde é que está a fotografia? É difícil provar cunhas e é preciso muita prudência quando se faz essas acusações. Ao sindicato não chegou nenhuma indicação credível”, diz Roque da Cunha.

Ao Sindicato dos Enfermeiros Portugueses também não chegaram queixas, garante a presidente Guadalupe Simões.

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Tal como o bastonário, Roque da Cunha acredita que um dos problemas para as queixas que se vão ouvindo entre os profissionais de saúde tem a ver com “a falta de transparência” dos critérios. “Não são públicos e devem ser. Os critérios devem ser técnicos e não políticos e não devem ser estabelecidos por pessoas que aconselharam pessimamente o Governo no início da pandemia. Deve-se começar por aqueles que estão mais expostos e pelos que têm mais necessidade. Devia haver um critério de vacinação geral, como o da idade, e aí vou concordar com o bastonário dos Médicos”, diz o presidente do sindicato.

Outro ponto em que Miguel Guimarães e Roque da Cunha concordam é que nenhum médico de serviços prioritários deve ficar fora do primeiro grupo a ser vacinado, trabalhe no público, no privado ou no setor social.

“É preciso vacinar os médicos do SAMS, da Santa Casa, da Cruz Vermelha. Os ortopedistas do Hospital de Sant’Ana, da Santa Casa da Misericórdia, prestam serviço no São Francisco Xavier e não foram vacinados. Os outros, porque trabalham no setor público, foram. Não estão todos expostos ao mesmo risco?”, pergunta o sindicalista.

São João (Rita Franca/NurPhoto via Getty Images)

NurPhoto via Getty Images

As queixas: demasiadas para não se apurar o que passa

Entre os bastonários, a prudência reina. Apesar disso, as queixas são muitas, chegam de vários pontos do país, para acreditarem que se tratam apenas de incidentes isolados. É preciso perceber o que se passa e agir.

“Não tenho dificuldade em acreditar que haja problemas em alguns locais. É preciso acompanhar o que está a acontecer no terreno sob pena de não estarmos a implementar a estratégia de vacinação que foi definida”, defende Ana Rita Cavaco. “O problema, para mim, não são as questões entre colegas do mesmo serviço. As doses podem não chegar para todos e se entre duas enfermeiras das urgências só uma foi vacinada, essa foi bem vacinada. O que me preocupa é ouvir dizer que estão a chamar quem está de baixas médicas prolongadas que não estão incluídas nos grupos de prioritários“, diz a bastonária.

Entre os enfermeiros, lembra que ficaram de fora — erradamente, a seu ver — os estudantes de enfermagem que fazem ensino clínico e que, por isso, andam nos hospitais como os colegas já formados. Estes, diz, vão ser vacinados quando o grosso da população for. “O que não podemos fazer é vacinar serviços não Covid e deixar de fora quem está exposto a estes doentes.”

Já o bastonário dos Médicos diz que em Évora os estomatologistas, grupo prioritário, não foram vacinados. O Observador contactou o hospital, mas não obteve qualquer resposta. Médicos tarefeiros, por todo o país, também ficaram de fora, mesmo trabalhando em serviços prioritários já que não são quadros dos hospitais. No Algarve, “por falta de organização ou outro motivo”, andaram à procura de pessoas para vacinar para que algumas doses não fossem desperdiçadas.

“O plano de vacinação não é um bom plano e aquilo que nos vai chegando é preocupante. O que se passa no terreno é o facilitismo: chega-se a um local e vacina-se toda a gente, prioritário ou não, e há unidades que estão a decidir à sua maneira porque os critérios não são transmitidos claramente”, argumenta o bastonário. E isso, acredita, gera desconfiança no plano de vacinação.

Bastonária dos Enfermeiros diz que o problema não é o plano, mas antes o que se passa no terreno. Urge resolver eventuais erros

AFP via Getty Images

Está tudo certo, dizem os centros hospitalares

Hospital de Santa Maria, Maternidade Alfredo da Costa, Hospital Garcia de Orta e Hospital Padre Américo. As denúncias recebidas pela Ordem dos Enfermeiros, e a que o Observador teve acesso, prendem-se com situações passadas nestas unidades. No entanto, os centros hospitalares rejeitam a ideia de que algo esteja a correr mal. Apesar dos pedidos do nosso jornal, nenhuma das unidades hospitalares divulgou o número de vacinados por categoria profissional e todas garantem não ter recebido qualquer queixa oficial. O Padre Américo, inserido no Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, não respondeu.

No Santa Maria, em Lisboa, a denúncia parte de enfermeiros que fazem diálise a doentes Covid. O seu argumento é que “segundo a circular informativa 32/2020 do dia 22/12/2020, o serviço estaria contemplado como prioritário para a vacinação”. Até 29 de dezembro, o último dia em que foram administradas as doses do primeiro lote a chegar ao Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN), não tinham sido vacinados, nem tinham sido oficialmente contactados para saberem se estavam interessados em sê-lo.

Após irem diretamente ao serviço de vacinação, foi-lhes dito que não faziam parte dos serviços prioritários e que seriam vacinados posteriormente. Fonte oficial do Santa Maria garante que, entretanto, já todos foram vacinados, nesta primeira semana de janeiro, com a segunda tranche de vacinas. Se não o foram antes, foi apenas por não haver doses suficientes.

Assim, em Lisboa Norte, entre 27 de dezembro e 7 de janeiro, “foi vacinado o grupo de profissionais de saúde considerado prioritário, com base nos critérios definidos pelo Ministério da Saúde”. Segundo fonte oficial, os 2.750 profissionais que receberam o fármaco representam “cerca de 50% do universo de profissionais de saúde a vacinar, de acordo com os critérios incluídos no plano de vacinação”, tendo sido inoculados entre 400 e 700 profissionais por dia, distribuídos por 7 a 8 postos de vacinação. O nível geral de adesão foi muito elevado, situando-se em muitos serviços acima de 90%.

“Os profissionais de saúde ausentes, desde que integrassem o critério de prioridade definido, foram novamente convocados, para que pudessem ser incluídos nestas primeiras etapas, caso assim o pretendessem. Cerca de 30 profissionais, alguns a tempo parcial, foram envolvidos na execução no terreno deste processo, coordenado pelo Serviço de Saúde Ocupacional, em estreita articulação com o Serviço de Gestão Técnico-Farmacêutica e a Direção de Enfermagem”, respondeu o hospital.

No Serviço de Puerpério da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, os denunciantes lembram que o serviço tem dois quartos de Covid-19, diariamente ocupados, e queixam-se de não ter sido vacinados. A resposta do Centro Hospitalar de Lisboa Central é de que os prioritários já foram, entretanto, vacinados.

“Há 640 profissionais na MAC e 242 já foram vacinados”, diz fonte oficial, esclarecendo que esse valor representa 40% do pessoal — alguns dos que não receberam o medicamento até agora não trabalham em serviços Covid.

No total, para as seis unidades do Centro Hospitalar de Lisboa Central foram entregues 3.750 doses — “num primeiro momento (27, 28 e 29 de dezembro) foram administradas 2.145 vacinas em dois locais do CHULC, abrangendo profissionais de todos os seis polos hospitalares”. No segundo momento (5, 6 e 7 de janeiro) foi administrado um total de 1.600 vacinas num único local de vacinação.

Para já, na resposta ao Observador, o centro hospitalar garante que “foram vacinados os profissionais de acordo com os critérios estabelecidos pela DGS e que priorizam aqueles que prestam assistência direta a doentes atingidos pela pandemia”, ficando, no final desta fase vacinados com a primeira dose da vacina cerca de 47% dos profissionais. Por vacinar ficam cerca de 4.000 profissionais. “Os profissionais vacinados envolvem todas as categorias profissionais: médicos, enfermeiros, farmacêuticos, técnicos de saúde, assistentes operacionais e outros profissionais, incluindo os das áreas de apoio — todos os que exercem atividade em unidades de assistência direta aos doentes vítimas da pandemia.”

Se em Lisboa Norte os contactos foram feitos, na sua maioria, diretamente nos serviços, em Lisboa Central os trabalhadores foram chamados por SMS, depois de expressarem vontade para tal, por ordem do respetivo número mecanográfico. O mesmo critério foi aplicado para a substituição dos faltosos e a vacinação registou uma adesão de 100% entre quem foi agendado ou aqueles que os substituíram. Foram vacinados apenas “os profissionais pertencentes aos serviços prioritários que se encontravam ao serviço”.

No Hospital Garcia de Orta, as denúncias relacionam-se com falta de vacinação dos profissionais do serviço de neurocirurgia, mas fonte oficial garante que “todos os profissionais do referido serviço que tenham declarado pretender receber a vacina foram vacinados”. No hospital de Almada foram recebidas e administradas 1.284 doses de vacinas — faltando vacinar cerca de 1.500 funcionários —, ou seja, “a maioria dos profissionais de saúde dos serviços clínicos considerados prioritários” no plano de vacinação.

Apenas os prioritários, garante o hospital, estão a ser vacinados. “Existem situações pontuais de médicos essenciais ao funcionamento dos Serviços de Urgências e que, por motivos de saúde, se encontram em situação de teletrabalho desde o início da pandemia Covid-19 que foram convocados para serem vacinados. Deste modo, estes médicos podem regressar de forma segura à normal atividade profissional e, assim, assegurar escalas dos serviços de urgência.”

No Garcia de Orta, depois de os profissionais indicarem, via intranet, se pretendiam ou não ser vacinados, “devido ao curto espaço de tempo entre o aviso de que iriam chegar as vacinas e a chegada das mesmas, o agendamento da vacinação foi efetuado por telefone, e através das chefias diretas, aos profissionais de saúde dos serviços clínicos considerados prioritários segundo informações da tutela”. A adesão à vacinação foi “massiva”.

Para além destas queixas, também foram noticiadas situações de ultrapassagens de prioridades no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, tendo o conselho de administração do hospital admitido a existência de erros. “É humanamente impossível ter um critério quando há seis mil pessoas que declaram interesse em ser vacinadas. Destes, a esmagadora maioria reúne critérios para ser vacinado. Mas houve apenas duas mil vacinas e diria que não haver críticas é uma equação impossível”, declarou Carlos Santos, presidente do Conselho de Administração em conferência de imprensa.

Ao Observador, fonte oficial referiu que dos cerca de 8.000 profissionais do centro hospitalar, mais de 6.000 profissionais responderam querer ser vacinados. “Na primeira fase da vacinação, que durou 3 dias, foram vacinados 2.309 profissionais. Nesta segunda fase, foram vacinados mais 1.400 profissionais”, refere o hospital, acrescentando que foram vacinados “profissionais dos vários grupos (médicos, enfermeiros, assistentes operacionais, técnicos, etc) de acordo com os critérios estabelecidos pela DGS”.

Em Portugal, desde o início da campanha de vacinação, já foram administradas 70 mil doses da vacinas, número que passa a ser disponível para consulta na plataforma online da Direção Geral de Saúde.

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