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epa12227506 Two soldiers from a Ukrainian Army anti-aircraft artillery brigade scan their sector for Shahed drones on Ukraine's southern frontline on the night Russia launched the largest combined airstrike since it began its full-scale invasion of Ukraine, 08 July 2025. The unit operates a truck-mounted ZU-23-2 air defence system with a twin 23-calibre gun capable of targeting objects flying below 2,500 metres.  EPA/Maria Senovilla
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A guerra obrigou a Ucrânia a investir nos seus sistemas de drones

Maria Senovilla/EPA

A guerra obrigou a Ucrânia a investir nos seus sistemas de drones

Maria Senovilla/EPA

Quatro respostas sobre o "muro de drones" que divide a União Europeia

Depois de drones russos terem entrado no espaço aéreo europeu, UE quer fazer "muro de drones" para se defender. Mas plano tem oposição de Paris e Berlim e financiamento incerto. Como seria este muro?

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Copenhaga transformou-se, esta quarta-feira, numa fortaleza. No porto, está atracada uma fragata alemã, no ar, circula um helicóptero francês. Na capital dinamarquesa encontra-se ainda um sistema de radares sueco e forças nacionais, norueguesas, britânicas, neerlandesas e até ucranianas. Tudo organizado no âmbito da reunião informal de líderes europeus que decorreu no palácio de Christiansborg. Na sede do Governo dinamarquês (e também do Parlamento), chefes de Governo e de Estado dos 27 discutiram o apoio à Ucrânia e a construção de um “muro de drones” no flanco leste.

O segundo ponto da discussão — que, na verdade, foi abordado primeiro na ordem de trabalhos — também ajuda a perceber o invulgar aparato de segurança na cidade, que contou com a contribuição de vários Estados. Em causa estão os recentes voos de drones sobre aeroportos e bases militares da Dinamarca, cuja origem não foi confirmada por Copenhaga e que se seguiram a uma série de incursões da Rússia no espaço aéreo do flanco leste da União Europeia (UE).

As ações russas, que se tornaram mais frequentes ao longo do mês de setembro, já tinham levado a NATO a reagir e a anunciar um nova missão, a Sentinela Oriental. Mas os nove países mais a leste do bloco europeu exigiam que Bruxelas também desse resposta às violações russas e propuseram, na semana passada, a criação de um “muro de drones”, que se estenda desde a Finlândia até à Bulgária, ao longo de todas as fronteiras mais a leste da UE. A estes, juntou-se a Dinamarca, que ocupa neste momento a presidência do Conselho da União Europeia e organizou, por isso, a reunião informal desta quarta-feira.

O tema já tinha sido mencionado, de forma mais vaga, pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no seu discurso do estado da União no mês passado, mas a proposta ganha materialidade com o apelo dos países de Leste e a discussão desta quarta-feira. O carácter informal deste encontro significa que não serão apresentadas conclusões, mas o momento é útil na mesma para acelerar uma eventual ação europeia nesta nova direção.

epa12408393 A mobile radar installation stands at the Danish military's area on Amager, Pionegaarden, near the village of Dragoer and on the coast of Oresund, the sea between Denmark and Sweden, in Dragoer, Denmark, 26 September 2025. The radar installation comes after drones were spotted near Copenhagen Airport on the evening of 22 September, leading to the airspace over Copenhagen being closed for four hours on the night leading to 23 September.  EPA/Steven Knap  DENMARK OUT

Um radar sueco foi instalado na Dinamarca, depois da incursão de drones nos últimos dias

Steven Knap/EPA

O que é e como funciona um “muro de drones”?

Ao contrário de um outro muro em Berlim que marcou as relações entre a Europa Ocidental e a União Soviética durante a Guerra Fria, o “muro de drones” não é uma barreira física, mas um sistema tecnológico complexo que procura detetar e intercetar drones antes que entrem no espaço aéreo europeu. O sistema inclui drones com sensores de som e movimento, radares e bloqueadores de sinais, mas também defesas para os intercetar.

Este sistema, como nota o New York Times, já existe em vários países e outros estão a trabalhar para os construir. Mas o que diferencia o “muro” é o facto de funcionar como uma rede interligada entre os vários Estados europeus. Esta interconexão é uma das características que dificulta a sua aplicação na prática, por dois motivos. Por um lado, pela questão política e burocrática, de tornar necessário articular os interesses soberanos de 27 capitais e destes com a NATO. Por outro lado, por uma questão técnica.

“A integração técnica é um desafio. A Europa precisa de garantir que os vários sensores de deteção, sistemas de guerra cibernética e redes de comando podem comunicar sem falhas através de vários países”, escreve Miriam McNabb, editora da publicação especializada DroneLife. A autora compara o “muro” à “Cúpula de Ferro” utilizada por Israel, mas numa versão “mais pequena, mais barata e mais proliferada”. Em vez de sensores e mísseis colocados em terra, todo o sistema pode funcionar em veículos aéreos não tripulados — os drones.

“Cúpula de Ferro”, “Flecha” e “Funda de David”. Como funciona o sistema que protege Israel de ataques aéreos

Na prática, mais do que uma parede, o sistema assemelha-se a um “enxame” de pequenos drones, como se pode ler num artigo de análise publicado pelo Center for European Policy Analysis (CEPA). Este sistema é mais eficaz do que um simples radar pois consegue detetar não apenas uma aeronave, mas os drones mais pequenos, como os que têm sido utilizados pela Rússia, como destacou o professor e militar Francisco Proença Garcia, no programa História do Dia da Rádio Observador.

A Europa está a entrar numa guerra de drones?

Este modelo adequa-se, portanto, ao tipo de guerra que está a ser travada na Ucrânia, que, apesar de incluir mísseis, jatos e tanques, assenta, principalmente, em ataques com drones, como se pode ver nas dezenas de aparelhos russos intercetados quase todas as noites pelas Forças Armadas ucranianas.

"A experiência da Ucrânia é a mais relevante na Europa hoje e é precisamente a nossa experiência, os nossos especialistas e as nossas tecnologias que podem tornar-se um elemento chave do futuro Muro de Drones da Europa."
Volodymyr Zelensky, numa mensagem publicada nas redes sociais

Foi neste contexto que a Ucrânia investiu na sua indústria de drones e se tornou a maior produtora da Europa. As metas de produção para 2025 apontam para 4,5 milhões de aparelhos, ultrapassando mesmo as metas estabelecidas pela Rússia. Por comparação, o investimento do bloco europeu continua a ser praticamente inexistente. Por isso, e ao contrário do que tem acontecido ao longo dos últimos três anos e meios de guerra, Bruxelas vira-se agora para Kiev à procura de ajuda.

O que é que a Ucrânia pode ensinar à União Europeia?

“O nosso grupo de especialistas começou a sua missão na Dinamarca”. O anúncio foi feito esta terça-feira à tarde por Volodymyr Zelensky. Apesar de a Ucrânia não estar representada na reunião em Christiansborg, um grupo de ucranianos contribuiu para o aparato de segurança que se fez sentir na cidade. O seu trabalho na Dinamarca não termina esta quarta-feira. Os especialistas ucranianos continuam no país para realizar “exercícios conjuntos com os parceiros”.

“A experiência da Ucrânia é a mais relevante na Europa hoje e é precisamente a nossa experiência, os nossos especialistas e as nossas tecnologias que podem tornar-se um elemento chave do futuro Muro de Drones da Europa”, escreveu o Presidente ucraniano nas suas redes sociais, acrescentando que pediu aos líderes políticos e militares ucranianos para “trabalharem rapidamente” ao lado dos aliados europeus.

Entre as tecnologias utilizadas pela Ucrânia conta-se o desenvolvimento de sonares para deteção de drones, destaca o Washington Post. Estes sonares estão integrados numa rede, o que permite que sempre que um aparelho é detetado, a informação seja partilhada por toda a rede para que estes sejam abatidos — seja por soldados no terreno, por sistemas terrestres de defesa ou a partir do ar. Esta rede foi desenvolvida por empresas ucranianas e, aplicada na União Europeia, ajudaria a ultrapassar o obstáculo da coordenação entre os 27.

epa12212749 Ukrainian servicemen from the anti-drone mobile fire team shoot at a Russian drone flying toward Kharkiv, with a ZU-23 anti-aircraft twin-barreled autocannon in the Kharkiv region of Ukraine, late evening of 02 July 2025 (issued on 03 July 2025), amid the ongoing Russian invasion.  EPA/SERGEY KOZLOV

Os drones de interceção passam a informação a soldados no terreno, que destroem os drones russos

SERGEY KOZLOV/EPA

No entanto, é preciso ainda olhar para a possibilidade de um ataque cibernético. No caso de o sistema em rede funcionar a partir de um único canal onde é partilhada a informação, isso pode torná-lo alvo de um ataque cibernético, alerta o CEPA. Mas este ataque funciona nas duas direções e, no âmbito dos desenvolvimentos, a Ucrânia também tem apostado no bloqueio de sinais, afastando os drones da rota.

Os avanços da Ucrânia não foram feitos apenas na área da deteção. Na etapa da interceção, Kiev desenvolveu uma estratégia que tem sido bem-sucedida: a construção de drones semi-automáticos, mais pequenos, que explodem em contacto ou em proximidade de outros drones. O jornal norte-americano explica que os drones ucranianos estão programados para “abalroarem” os drones russos — “uma espécie de luta de cães com drones“, compara. Esta solução não é apenas eficaz, como é muito mais barata.

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Como é que a UE pode financiar o projeto?

Quando, no início de setembro, drones russos entraram no espaço aéreo polaco, Varsóvia e a NATO puseram no ar jatos F-35, F-16, F-35 e helicópteros MI-24, MI-17 e Black Hawk. Cada aparelho deste custa vários milhões de euros, com um míssil disparado de um destes jatos a poder ultrapassar um milhão de euros. Já a produção de um drone Shahed — os mais utilizados pela Rússia — custa cerca de 35 mil dólares, segundo dados do Center for Strategic and International Studies.

Não podemos gastar milhões de euros ou dólares com mísseis para abater drones que só custam um par de milhares de dólares”, avaliou o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, esta terça-feira. Apesar de ser uma opção visivelmente mais barata — e eficaz — utilizar drones para abater drones (em vez de jatos), o investimento da UE em drones teria de ser feito quase totalmente de raiz, exigindo um esforço financeiro de Bruxelas com que alguns líderes não estão confortáveis.

À saída da reunião da semana passada, o comissário da UE para a Defesa disse que o bloco “iria construir uma caixa de ferramentas financeiras da UE abrangente para tornar o escudo numa realidade”. A interpretação do lituano Andrius Kubilius foi subscrita pelos líderes dos restantes países que integraram a reunião — Bulgária, Estónia, Dinamarca, Hungria, Letónia, Lituânia, Polónia, Roménia, Eslováquia e Finlândia — e que acreditam que o muro pode estar concluído no espaço de 12 a 18 meses. A decisão não é surpreendente, dada a proximidade geográfica destes países com a Rússia.

epaselect epa12390088 An employee of the Kharkiv regional prosecutor's office inspects military debris, including missiles, drones, and ammunition, collected and stored as evidence of Russian shelling, in Kharkiv, northeastern Ukraine, 19 September 2025. Kharkiv and its surrounding areas have been under heavy shelling since Russia launched its full-scale invasion of the country in February 2022. According to the United Nations, Ukraine is one of the most mined countries in the world, with over 20 percent of its land at risk of contamination.  EPA/SERGEY KOZLOV

Na Polónia, foram mobilizados caças e helicópteros para abater estes drones

SERGEY KOZLOV/EPA

O projeto poderia ser financiado pelo Programa de Defesa Industrial Europeu, que prevê um investimento de 1,5 mil milhões de euros para assegurar o cumprimento da estratégia de defesa europeia, segundo diplomatas europeus ouvidos pelo Politico. Contudo, a ideia não é unânime, uma vez que que o Programa ainda não foi aprovado e isso atrasaria a implementação prática do “muro de drones”.

A julgar pelas declarações dos líderes de leste na chegada a Christiansborg esta quarta-feira, existe uma preferência por um mecanismo novo, que não tenha de esperar pela aprovação do Programa, nem esteja limitado pelo orçamento da União Europeia. Acima de tudo, estes os países de leste consideram que este é um gasto que deve recair sobre a UE e não sobre o Estados membros. “Apreciamos as discussões, mas queremos ação. Os documentos não defendem, os documentos não detetam drones“, declarou o Presidente da Lituânia, Gitanas Nausėda, que alertou que a UE não se pode “dar ao luxo” de esperar pelo próximo orçamento.

Porém, o apelo que vem de leste esbarra diretamente com a leitura bem menos alarmista das duas maiores economias da União Europeia. Em Berlim e Paris, não só não há particular interesse em abrir o cofre da UE para financiar o projeto, como se chega a questionar se o “muro de drones”, nos termos em que foi apresentado, é mesmo necessário.

Que oposição existe à construção do “muro”?

Na semana passada, o ministro da Defesa alemão já tinha procurado “gerir as expectativas” em relação à construção do muro. “Eu aprecio a ideia, mas (…) não estamos a falar de um conceito que possa ser concretizado nos próximos três ou quatro anos”, declarou Boris Pistorius, afastando-se completamente da cronologia proposta pelos outros países. O líder alemão considerou que a aposta na defesa com drones é necessária, mas que não precisa de passar por um “muro”.

Passada uma semana, França mostrou que a Alemanha não está isolada nesta posição. Na chegada à reunião, o Presidente Emmanuel Macron disse estar “cauteloso” com os termos que estão em cima da mesa. O chefe de Estado francês apoiou o investimento em sistemas de deteção, mas considerou que “as coisas são um bocadinho mais sofisticadas” e defendeu a aposta em sistemas de dissuasão: mísseis de longo alcance e sistemas de defesa anti-aérea.

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O eixo franco-alemão apresentou reservas ao desenvolvimento de um "muro de drones"

Getty Images

A leitura de Pistorius e Macron sobre os ataques com drones russos aproximou-se daquela que é feita por analistas independentes. Alexandr Burilkov, diretor assistente do think tank GLOBSEC, comparou a situação à Guerra Fria, em que as “provocações” aconteciam “de forma regular”. “E, ainda assim, a Guerra Fria permaneceu fria. Manter a cabeça fria e ser pragmático é crucial. As lições que [estes incidentes] nos ensinam é a não reagir de forma histérica”, argumentou à Euronews. Neste caso, a lição é que vale a pena investir na indústria dos drones e estar preparado, sem ignorar uma ameaça. E esse investimento pode continuar a ser feito em parceria com a Ucrânia, dados os seus avanços na área.

Já Daniel Hegedüs, diretor regional na Europa Central do German Marshall Fund, considera que a aposta no “muro de drones” “cumpre a lógica da estratégia russa”. A estratégia do Kremlin, escreve num artigo de análise, é testar o apoio dos países ocidentais à Ucrânia e semear o medo e a divisão no seio das alianças ocidentais. Ainda que também reconheça que o investimento em drones é necessário, argumenta que, neste caso, está a ser utilizado como forma de desviar “recursos financeiros e militares da Ucrânia”. A ajuda a Ucrânia “continua a ser a utilização mais eficiente de recursos para conter e dissuadir a Rússia. O ‘muro de drones’, por oposição, existe em primeiro lugar para acalmar públicos agitados”, remata.

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