1230,6kWh poupados 1230,6 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Quatro tiros contra o cunhado, duas horas de negociações e uma arma no telhado. Como um homem se barricou no Barreiro durante quatro horas

Uma discussão e uma ameaça levaram a uma mega operação policial que bloqueou ruas no Barreiro. Homem foi detido pela PSP e levado pela PJ mais tarde.

Idalina escutou os disparos na rua Conselheiro Joaquim António de Aguiar, no Barreiro, cerca das 13h30 desta quarta-feira. Os cinco sons soaram na rua abaixo da sua nesta zona antiga da cidade e Idalina reconheceu os tiros, mas por ser “habitual”, manteve-se impassível: “Lá vamos ter ‘foguetes’ outra vez“, desvalorizou. Contudo, os disparos não tinham sido feitos para o ar: quatro atingiram Cláudio, nas costas e na nádega.

Momentos antes, na rua Almirante Reis, Cláudio tinha ameaçado o cunhado, Leonardo, em como denunciaria um armazém de produtos contrafeitos de que este último seria proprietário. Os disparos com uma arma de calibre 7.65 chegaram logo a seguir. O ferido ainda conseguiu arrastar-se até à porta da esquadra da polícia, a escassos metros do local do crime, mas acabou por cair à porta. Os agentes da PSP chamaram a ambulância que rumou ao hospital do Barreiro, enquanto Leonardo optou por barricar-se em casa para evitar ser preso. Dentro da habitação, estavam a mulher e as três filhas. E cá fora, rapidamente se montou um forte dispositivo policial.

Leonardo ficou cercado por “muitos” membros das várias forças policiais, adiantou ao Observador fonte oficial da PSP, sem conseguir precisar o número de elementos presentes no local. Seguiram-se duas horas de negociações com o Grupo de Operações Especiais (GOE), convocado para salvaguardar as vidas das possíveis reféns. Via telefone, os membros desta força especial demoveram Leonardo de escalar a situação e garantiram que as duas gémeas de seis anos e a rapariga de 13 subissem para o primeiro piso da casa, onde habita a avó das crianças. No rés do chão de uma antiga garagem convertida em habitação autónoma, ligada à casa de cima por uma escadaria exterior, ficaram apenas Leonardo, de 36 anos, e a sua mulher, irmã da vítima.

Com snipers em telhados e operacionais fortemente armados próximos de qualquer uma das possíveis saídas da residência, Leonardo acabou por ceder e entregou-se, de livre vontade e mãos no ar. Eram 17h25 e dentro da sua sala, estava ligada uma televisão na CMTV, cuja emissão mostrou a porta branca de alumínio da sua casa que acabaria por abrir.

Abandonada a casa voluntariamente e sem oferecer qualquer tipo de resistência à detenção, Leonardo e a mulher foram encaminhados para a esquadra, a 100 metros de distância, onde o suspeito ficou até ser detido pela Polícia Judiciária, sobre a qual recai a investigação da  tentativa de homicídio do cunhado. E poucos momentos após a detenção, os numerosos operacionais da Unidade Especial de Polícia (UEP) e as Equipas de Prevenção e Reação Imediata começaram a desmobilizar do perímetro de segurança montado para o “incidente táctico-policial”.

O local da ocorrência foi tomado pela Polícia Judiciária (PJ), que procedeu imediatamente a fazer as diligências. Os invólucros das balas utilizadas para atingir o cunhado foram encontradas nas traseiras da casa cor de rosa onde Leonardo esteve barricado durante cerca de quatro horas, mas a arma utilizada no crime só viria a ser encontrada pelas 20h37 — três horas mais tarde — no telhado da residência.

  • Forças de segurança estabeleceram um perímetro de segurança em torno da casa onde estava barricado o suspeito
    JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
  • Grupo de Operações Especiais lideraram as negociações que duraram cerca de duas horas
    JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
  • Forças de segurança estabeleceram um perímetro de segurança em torno da casa onde estava barricado o suspeito
    JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
  • Grupo de Operações Especiais destacou operacionais com snipers para telhados na periferia da casa
    JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O armazém com armas de fogo e os vídeos nas redes sociais a vender “material contrafeito”

Leonardo sempre foi visto como uma presença “calma” no bairro. Fátima vive numa rua paralela ao local do crime há mais de 50 anos e conta que, apesar de Leonardo viver diretamente por baixo da mãe, a relação deste com a família tem-se vindo a deteriorar com os anos. A irmã do barricado já não vive na mesma casa e o pai entretanto morreu, mas nos seus últimos momentos de vida já não existia qualquer contacto entre pai e filho. “Desde que se casou que se despegou da família“, explica Fátima ao Observador.

Apesar de ter sido baleado quatro vezes, Cláudio nunca perdeu a consciência. Até à chegada da ambulância, disse à polícia que durante a conversa com Leonardo, ameaçou denunciar a existência de um armazém onde o homem de 36 anos guardava uma variedade de produtos ilegais de armas de fogo a material contrafeito, como adiantou fonte oficial da PSP ao Observador.

De acordo com moradores do bairro do Barreiro Velho, Leonardo publicava vídeos com alguma regularidade nas suas páginas das redes sociais, onde exibia a sua “roupa de marca” e outros “produtos de luxo”. Foi a partir destas livestreams que os seus conhecidos começaram a desconfiar de algum tipo de atividade suspeita devido aos sinais exteriores de riqueza que mostrava, sem se ter o conhecimento de um ofício com que obtivesse rendimentos avultados. Fátima também estranhou o estilo de vida do vizinho.

▲ A casa onde o suspeito de 36 anos esteve barricado durante quase quatro horas

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Afinal, as autoridades descobriram que os produtos que Leonardo ostentava online eram, na verdade, material contrafeito, e os vídeos publicados eram o canal usado pelo homem para vender a sua mercadoria. Segundo a PSP, o cadastro de Leonardo não contava com crimes graves ou violentos. Agora não só é alvo de uma investigação por tentativa de homicídio ao cunhado, como as autoridades estão também a apurar as suspeitas de contrafação.

Sobre a existência de armas de fogo neste depósito de produtos falsificados, a PSP não conseguiu adiantar informações adicionais — nem como a localização do armazém — mas garante que, em conjunto com a Polícia Judiciária, estão a investigar o caso e que serão feitas todas as diligências necessárias para perceber exatamente os conteúdos do armazém de Leonardo e, se for o caso, quantas pessoas estariam envolvidas nesta operação.

Cláudio foi encaminhado para o Hospital de Nossa Senhora do Rosário. Ao Observador, as autoridades garantem que a vítima dos disparos encontra-se estável e a recuperar dos ferimentos.

▲ A PJ a reconstituir a cena do crime

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Moradores do Barreiro Velho receiam desacatos

Fátima trabalha no coração do bairro e, como tal, nem reagiu ao som emitido pela arma de Leonardo à hora de almoço. “Ouvi o aparato, mas nem liguei. Aqui, infelizmente, sempre houve ambulâncias [e tiros]”, conta ao Observador. Mas estremeceu ao saber que envolvido no desacato, estava Leonardo, alguém que conhecia.

O Barreiro Velho, como é chamado pelos moradores, é o núcleo original da cidade e onde se encontram as construções mais antigas. Contudo, a insegurança tem vindo a piorar, contam os moradores consultados pelo Observador.

“É tiros de caçadeira a toda a hora. Eu já nem ligo a isso”, acrescenta Idalina. Em mais de 50 anos de residência no centro do Barreiro, a situação de segurança tem vindo a ficar cada vez pior. Depois de Leonardo se ter barricado, a idosa diz acreditar que a situação “vai apertar por causa das vinganças”. O habitual, segundo a experiente moradora, é o “ajuste de contas” quando as autoridades abandonam o local.

Mencionando já ter visto cenários “muito agressivos” em diferentes ruas do bairro, explica que os habitantes do Barreiro Velho vivem com medo destes desacatos que se tornaram mais frequentes no decorrer dos anos. O caso de Leonardo não foi um incidente isolado numa zona pacata, mas sim um episódio que se tem vindo a repetir. Questionados pelo Observador sobre um reforço dos meios para prevenir um possível “ajuste de contas”, a PSP refere não ter essa hipótese em mente.

Depois de um dia em que passou cerca de quatro horas barricado, Leonardo esteve ao início da noite na esquadra da PSP no Barreiro, de onde foi levado pela Polícia Judiciária. Deverá ser presente a juiz para aplicação das medidas de coação esta quinta-feira.

Todos os nomes usados neste artigo são fictícios.

[Meses depois de confessar o crime, o assassino de Sartawi é finalmente julgado. Mas, numa reviravolta, o terrorista do quarto 507 garante que é inocente. Como vai tudo acabar? “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Ouça no site do Observador o sexto e último episódio deste Podcast Plus narrado pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Também o pode escutar na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E ouça o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto episódio aqui]

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.