Índice
Índice
Ninguém tocava naquela enxada. Não tinha qualquer inscrição no cabo, nenhuma fita vermelha com identificação. Não era preciso. Todos, na família de sete filhos, sabiam que a ferramenta para cavar a terra tinha um nome: Daniel Francisco Chapo. Era a mais comprida, a maior. O dono é muito alto, mas não era o único na família com estatura acima da média, garante ao Observador um membro da equipa do Presidente de Moçambique que tomou posse esta quarta-feira no meio da maior convulsão social desde a independência de Portugal. A razão era outra: “Não gostava de se curvar quando ia trabalhar para a machamba [campo agrícola]”, conta, sob anonimato, um colaborador próximo do homem que a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), o histórico partido que este ano completa 50 anos no poder, sentou no Palácio da Ponta Vermelha.
Passaram-se décadas, não muitas — porque o novo Chefe de Estado moçambicano, com dois metros de altura, tem 48 anos —, e Daniel Chapo já não vai à machamba cultivar arroz. Mas a razão que o levava a não deixar que alguém usasse a sua enxada encaixa bem numa característica consensual e numa dúvida menos consensual.
A primeira é apontada por adversários, apoiantes ou analistas: “É íntegro. Para o percurso e a idade que tem nunca veio a público uma situação que tivesse a ver com falta de transparência, corrupção, gestão danosa ou coisa parecida”, diz o politólogo Dércio Alfazema. A segunda é levantada também por analistas: “Vai continuar a ser controlado ou não pela máquina extremamente pesada da Frelimo, que não funciona em benefício do povo, depois de tomar posse?”, pergunta Egídio Chaimite, investigador do Instituto de Estudos Sociais e Económicos de Moçambique. “Se se conformar, então a perspetiva é pessimista: não vai ser o Presidente do povo”.
Na campanha eleitoral disse uma frase muito comentada na qual alguns não veem um bom augúrio: “Nós somos a madeira e a Frelimo o carpinteiro, faz connosco o que entender, o dono da obra é a Frelimo”. Se “é madeira para ser talhada pelo partido que mata e rouba o seu povo, não podemos estar muito otimistas”, avisa Roberto Tibana, reputado economista moçambicano, coordenador do manifesto eleitoral do adversário político Venâncio Mondlane.
As palavras e o tom usados no discurso de tomada de posse desta quarta-feira até parecem ir no primeiro sentido. Na cerimónia que decorria na Praça da Independência altamente vigiada, e enquanto a polícia disparava gás lacrimogéneo e balas reais contra manifestantes pacíficos, Daniel Chapo desfiou uma série de situações que estavam erradas e que “tinham de acabar”. Moçambique “não pode continuar a ser refém da corrupção, do compadrio, da inércia, do clientelismo, do ‘amiguismo’, do nepotismo, do ‘lambe-botismo’, da incompetência e injustiça e dos vícios e dos desvios da boa conduta que é exigida aos serviços públicos”, prometeu.
Pelo menos oito mortos nas manifestações desta quarta-feira em Moçambique
“A corrupção é uma doença que tem corroído o nosso povo, com funcionários públicos fantasma, cartéis que enriquecem à custa do povo, e isto tem de acabar; não haverá lugar para quem coloca os seus interesses acima dos interesses do povo moçambicano, seja no setor público, seja no privado”, sublinhou ainda Daniel Chapo, no que pareceu ser um sinal de que se estava a demarcar do anterior Presidente, Filipe Nyusi.
Mais: enumerou as medidas que queria tomar, como se estivesse a apresentar as grandes linhas de um programa de governo. Nada que impressionasse Paula Cristina Roque: “Tudo o que ele anunciou tirou do manifesto e de debates de Venâncio Mondlane. Pode até ser ótimo, mas é plágio, no papel vale tudo o que lá está escrito, vamos ver se vai ser implementado”, diz a especialista em estudo africanos. “Parece que uma exposição pública da arte de cabular”, comenta ao Observador Venâncio Mondlane enquanto nas redes sociais se multiplicam comentários e mesmo memes sobre a semelhança com o manifesto do candidato independente.
“É uma retórica útil, pré-planeada, para revelar algum distanciamento à anterior governação de Filipe Nyusi e que trouxe o Estado à falência”, continua a investigadora portuguesa.
Daniel Chapo “disse o que precisava de dizer, mas são palavras ocas, para mostrar distanciamento e agradar a diplomatas e investidores estrangeiros”, critica a também diretora da Intelwatch, organização de investigação e defesa. E “vai ser comandado por Nyusi ou Guebuza, vai ter de decidir qual dos dois vai deixar cair na questão das dívidas ocultas [escândalo a envolver 2.55 mil milhões de euros que já levou à condenação do ex-ministro das Finanças do governo do Presidente Guebuza em que Nyusi era também ministro da Defesa]”.
Para já, uma questão mais doméstica ter-se-à levantado entre Filipe Nyusi e Daniel Chapo: o Presidente cessante “não quer deixar a residência presidencial onde vive porque fez muitas obras de restauro e reabilitação e agora não a quer entregar ao sucessor”, adianta Paula Cristina Roque, citando uma fonte local.
▲ Daniel Chapo anunciou uma série de reformas na sua tomada de posse
LUISA NHANTUMBO/LUSA
A julgar pelo que todos os antigos colegas e colaboradores de Daniel Chapo disseram ao Observador, não será uma casa que indisporá o novo Presidente com o seu antecessor. “É uma pessoa muito humilde e muito cordata”, assegura Ricardo Antonio Nhacuongue, que foi secretário permanente provincial de Inhambane quando o Presidente foi o governador da província. “Não cresceu no luxo, não nasceu em berço de ouro”, sublinha Alberto Nkutumula, colega de faculdade, ex-vice-ministro da Justiça e depois ministro da Juventude e Desporto no governo de Armando Guebuza, antecessor de Filipe Nyusi.
Cativo da Renamo na vila do massacre português
“Já andei de pé descalço, já passei fome, já acordei sem saber o que comer, já vendi mangas na rua para poder comprar caril, já vendi petróleo de iluminação no final do dia depois de regressar da escola para poder comprar cadernos e lápis; nunca me esquecerei das minhas raízes simples e humildes como gostam de dizer”. Com um papel na mão, Daniel Chapo enumerou as dificuldades por que passou na infância, num discurso em dezembro, depois do anúncio da decisão do Conselho Constitucional que validou a sua vitória e a da Frelimo nas eleições de 9 de outubro, que há três meses são contestadas nas ruas de Moçambique onde já morreram mais de 300 pessoas.
Nasceu a 6 de janeiro de 1976 numa terra com nome de massacre, um dos maiores e mais bárbaros da guerra colonial portuguesa: Inhaminga, onde foram mortos mais de três mil moçambicanos, alguns enterrados vivos, acusados de apoiarem a Frelimo, entre 1973 e 1974. Uma tragédia “que sempre viveu na memória da minha família e do população”, referiu Daniel Chapo numa entrevista durante a campanha eleitoral à Rádio de Moçambique, TVM (televisão estatal) e Jornal de Notícias moçambicano.
A vila, que fica na província de Sofala, continuou a ser martirizada já depois da independência, “sempre dilacerada” pela guerra civil de 16 anos com os combates entre a Frelimo e a Renamo, frisou Chapo que realçou uma “história de superação”, embora perdendo-se um pouco nos períodos temporais. “Em 1983, eu e a minha família fomos capturados pela Renamo, teria cerca de cinco anos [deviam ser oito, aliás a mãe, num programa transmitido pela TVM na véspera da tomada de posse, disse que ele estaria na terceira classe]. Ficámos dois anos em cativeiro, depois fugimos de madrugada, demorámos dez horas até chegar a Inhaminga, que estava destruída, ficámos dois anos lá e em 1985 [terá sido 1987?] saímos para o Dondo”, relatou Chapo. Numa outra vez referiu que foram anos duros, a “dormir no mato, ao frio e ao sol”. A mãe, Helena dos Santos, confirmou: “Sofremos muito, fugimos, ficámos uns dois ou três anos no mato”, disse, com voz cansada, aos microfones da TVM.
Ouvidos disparos em Maputo, manifestantes fogem. Ouça aqui o momento
Este “seu passado, difícil e trágico”, lê-se no perfil oficial da Frelimo, deu-lhe “o sentido da valorização da vida humana, a importância da paz e a razão de nunca perder a esperança, mesmo quando as dificuldades são enormes”. Um passado que tanto Chapo como o partido têm referido algumas vezes, primeiro na campanha, mas também quando as manifestações, protagonizadas por uma maioria jovem desempregada, subiram de tom.
Apesar de ser o melhor aluno da escola primária Josina Machel, no Dondo — recebeu até o respetivo prémio —, não teve vaga para fazer o ciclo seguinte, da 7ª. à 10ª. classe (equivalente aos 7.º e 10.º anos portugueses) na escola secundária. Precisou de esperar um ano. O sexto filho de dez — “três não sobreviveram, crescemos sete, mas agora só somos quatro, sou o único homem entre três irmãs” — salienta a educação recebida. “Os meus pais, desde crianças, sempre nos ensinaram a determinação, o foco, a responsabilidade, a competência e respeito pelos mais velhos, mas sobretudo a preservar valores morais e éticos, por isso consegui superar isto e no ano seguinte entrei no Dondo”, justificou Chapo na entrevista de julho aos três órgãos de comunicação social.
No Dondo, lembrou a professora Teresa Laquiceme, numa turma de 45 alunos “onde não faltavam indisciplinados”, Daniel “era muito acanhado”. Já na escola secundária, uma outra enxada veio parar-lhe às mãos. Não tão comprida, não para a machamba da família, mas para “as atividades extracurriculares”, explicou o antigo colega Carlos Mponda à TVM. “Era para limpar a própria escola, tarefa difícil, mas ele cumpria a sua escala, empenhava-se, trabalhava muito bem”. Nessa altura, a timidez já seria passada. “Mobilizava tudo, foi co-fundador do jornal escolar A Parede, de um grupo de teatro e da equipa de basquetebol”, relata o amigo.
“Isso perguntam-me quando for Presidente”
O pai Francisco trabalhava como operador de compressão nas oficinas gerais dos Caminhos de Ferro da Beira e quando Daniel foi para essa cidade fazer a 11ª. e a 12ª. classes ficou, “por falta de recursos” — a mãe Helena, que tivera dez filhos e perdera três, não trabalhava fora de casa e do campo —, no lar da empresa.
Começou então a colaborar com a Rádio Miramar — apresentou um programa desportivo — enquanto acalentava um sonho: fazer Comunicação Social no ensino superior. Nunca aconteceu, e não foi por falta de vontade: o curso não existia. Acabou assim por entrar em Direito, na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, em 1999, sem deixar de lado o jornalismo. Integrado na Televisão Miramar, foi repórter e apresentou um programa televisivo, A Voz do Povo, que se tornou muito popular. Ironia: o homem que tem ensombrado os seus dias desde 9 de outubro, o candidato independente Venâncio Mondlane que, com o apoio das ruas, se auto-proclamou Presidente eleito pelo povo de Moçambique na quinta-feira passada, dia 9, foi o seu primeiro convidado.
A experiência de jornalista e a infância em circunstâncias difíceis são dois dos seis elementos que faz Regio Conrado considerar que “Daniel Chapo é a figura ideal para o contexto atual de Moçambique: conhece os problemas da pobreza e da desigualdade” e, como “homem da comunicação, tem sabe contactar com as pessoas, num momento em que os moçambicanos exigem um Presidente que saiba comunicar, se expresse bem, com coerência, destreza e firmeza e tenha capacidade discursiva apurada”.
Disso Elísio Macamo não duvida: “Fala bem, melhor do que o Nyusi, melhor domínio da língua portuguesa, boa capacidade de articulação”. E o curriculum oficial faz questão de dizer que o quinto Presidente de Moçambique, o primeiro nascido depois da independência, além de português fala “fluentemente xisena, xindau, xitsua e inglês”.
Em contra-mão, Roberto Tibana recorda dois episódios que indignaram alguns jornalistas. Um logo depois de ter sido nomeado candidato presidencial da Frelimo e outro numa conferência de imprensa posterior. No primeiro, os jornalistas fizeram-lhe uma pergunta e, quando vão fazer a segunda, respondeu: “‘Mas ainda vão fazer mais perguntas?’ e vira costas e sai”. No segundo, cujo vídeo circulou nas redes sociais, vê-se Chapo de semblante fechado a ouvir uma pergunta sobre aspetos da sua futura governação e a responder: “Isso perguntam-me quando for Presidente”. Depois levanta-se e sai também.
Um colaborador próximo de Chapo não se recorda da primeira situação e da segunda diz ao Observador que a conferência de imprensa já tinha terminado e que se estava na fase da conversa off record.
“Não se pode ler a personalidade integral de uma pessoa em dois momentos”, defende Conrado, lembrando que “este foi o candidato à presidência que mais entrevistas deu”. Também Ricardo Nhacuongue e Jaime Langa, diretor da Revista Negócios e antigo diretor do Jornal de Notícias que lidou muito com Chapo nos trabalhos em Inhambane, confirmam ao Observador uma “excelente relação com jornalistas”. Ricardo lembra mesmo que “promovia encontros informais com os profissionais da comunicação social em cafés, para conversarem e escutarem música”.
“A experiência de Chapo no jornalismo confere-lhe uma habilidade comunicacional diferenciada, acompanhada por um sentido de humor que o ajuda a lidar com questões complexas”, sustenta Jaime Langa. “Na sua mais recente reunião com agentes culturais, perante queixas relacionadas com a falta de uma política mais ativa por parte do Ministério da Cultura, respondeu com ironia. Referindo-se aos Estados Unidos da América, afirmou que ‘o país com os artistas mais ricos do mundo não tem Ministro da Cultura’”, relata Langa.
Arroz com couve, arroz com feijão e o manual de Freitas do Amaral numa noite
Em Maputo, enquanto estudava Direito na Universidade Eduardo Mondlane, a mais prestigiada instituição de ensino superior em Moçambique, Daniel Chapo ficou “num internato”, conta Ricardo Nhacuongue. “Era uma residência universitária. Daniel vinha de Sofala, era bolseiro integral, eu, orfão, sou de Tete, vivia em casa de uns familiares, tinha bolsa parcial, mas ia comer à residência”, explica ao Observador Alberto Nkutumula.
Não eram refeições de boas memórias, acrescenta o antigo colega da faculdade. Foi o tempo dos “submarinos Kursk”. Comiam quase sempre “arroz com feijão, arroz com couve, arroz com repolho, arroz de peixe… de vez em quando esparguete”. Nesta feijoada sem carne, “havia uns bichinhos pretos, a que chamávamos Kursk, por causa do submarino russo Kursk, notícia na altura [uma das maiores tragédias com submarinos, afundou-se com 118 tripulantes a bordo] que tínhamos de separar para o lado para conseguirmos comer o feijão e o arroz”.
O ex-governante aprendeu a apreciar Chapo nesses anos. “Eu trabalhava numa pizzaria italiana entre as 18h e as 23h e depois voltava para casa a pé, chegava já depois da meia noite, uma da manhã. No outro dia acordava e ia para a faculdade, se não ia comer à residência tinha de fazer o almoço, andar hora e meia até à Universidade, tinha muito pouco tempo para estudar”, começa por contar.
“Havia muita escassez de livros, dependia da biblioteca. Um dia, no primeiro ano, eu precisava de um manual de ciência política, tínhamos exame no dia seguinte. Só havia um e não podia, claro, sair da biblioteca. Quem chegasse primeiro ficava lá, a ler o manual e mais ninguém o podia usar. Quando cheguei nesse dia, o Daniel já lá estava com o livro nas mãos. Ou lia ele ou lia eu. Expliquei-lhe a minha situação. Ele deixou-me estudar e sacrificou-se por mim. Para se preparar teve que estudar depois de mim, pela noite dentro. No outro dia estava no exame cheio de sono. Ele passou mal por uma pessoa que praticamente não conhecia. Dispensámos os dois, mas isto marcou-me, vi ali um homem com coração”, conta.
Tal como Ricardo Nhacuongue, o jurista nunca o viu “aborrecido, exaltado, zangado”. Pelo contrário, sempre “sereno, sempre paciente, sempre aberto e a optar pelo diálogo, nunca o vi perder o controlo”.
JOSÉ COELHO/LUSA
Recorda-se de como jogavam basquetebol e futebol. Destacava-se no primeiro, mas não era “propriamente por ser um craque, com aquela altura, estava mais perto da tabela para encestar”, ri-se. No futebol jogava a defesa, médio, “não era um avançado” e “nunca foi guarda-redes, apesar da estatura”. O que pode ter mudado com o tempo, pois Ricardo diz que em Inhambane, onde jogava com os funcionários, o agora Presidente, que é canhoto, era avançado esquerdo, “marcava golos”.
Daniel lia muito, acrescenta Alberto. Na altura, os livros relativos ao curso. A noite em que o colega começou a ler o Manual de Direito Administrativo de Freitas do Amaral às 19 horas e o acabou às 6h da manhã na biblioteca da Faculdade de Medicina (a que ficava aberta 24 horas por dia) ficou-lhe na memória. Não é por acaso. O antigo vice-ministro de Justiça de Moçambique menciona a importância do equilíbrio entre um Estado de Direito forte que sabe impor o respeito pelos direitos de todos e um Estado de Direito que é limitado no seu poder, que seja um “Estado forte mas não opressor”. Como Daniel Chapo “é muito dado a leituras, terá o conhecimento necessário para construir esse equilíbrio, sabendo que tem de haver cedências”.
“Peço a orientação divina para decisões justas”
Ora aqui estão mais três das seis caraterísticas que o analista político Regio Conrado destaca em Chapo. “Por ter estudado Direito e feito um mestrado em Desenvolvimento é muito sensível às reformas e à forma como olha para as questões de desenvolvimento, tem uma capacidade académica, intelectual e de conhecimento destas matérias que lhe permitirão encetar as reformas necessárias e ter um discurso mais assertivo”, frisa o politólogo. “Estamos num momento em que queremos reformar as instituições, rever a Constituição da República, o sistema de administração eleitoral, a articulação entre os três poderes, por exemplo, nos próximos cinco anos”, assinala o analista.
▲ Daniel Chapo em campanha (imagens divulgadas no seu Facbook)
Por outro lado, “estamos numa sociedade razoavelmente mais educada, mais crítica, mais atenta e mais exigente em relação aos processos de participação democrática e precisamos de um Presidente cuja formação académica permite uma compreensão profunda e técnica dos vários modelos de participação mais inclusiva, incluindo provinciais, num Estado de Direito. E Chapo preenche esse requisito”.
E a leitura. “Como é possível no século XXI alguém governar bem sem saber ler e de forma crítica? Ler livros e ler situações”, sublinha Regio Conrado. “O Presidente é um leitor ativo, desde a ciência política à teologia, por exemplo”.
Católico praticante, “a questão de Deus ocupa um lugar importante na sua vida, que o leva à humildade e simplicidade, numa abertura permanente aos outros”, frisa o analista. Aliás, na quinta-feira, Chapo partilhou na sua página de Facebook um vídeo onde está de mão dada com a mulher, com quem tem três filhos, ajoelhados junto a um sofá branco e a rezarem, antes de partirem para a cerimónia. “Toda a honra, toda a glória”, lê-se no vídeo enquanto o conhecido hino se ouve, antes de aparecer o que terá sido o pedido de Chapo a Deus: “Peço a orientação divina para que as minhas decisões possam ser justas em benefício de todos os moçambicanos”.
Numa outra vertente, Regio Conrado assinala que Chapo soube ler o atual quadro de conflito social “ao ter uma atitude de diálogo com os outros presidentes dos outros partidos da oposição, com uma articulação que não crie tensões”.
Vai buscar declarações de Chapo na tomada de posse dos deputados, em que apenas a Frelimo e o Podemos, que apoiou e se afastou de Venâncio Mondlane, se sentaram na Assembleia da República na segunda-feira, dia 13, tendo a Renamo e o MDM optado por não assumirem os seus lugares por não aceitarem os resultados eleitorais que acusam de ser fraudulentos. “Disse que nós precisamos dos contributos de todos os partidos políticos, o facto de termos maioria não significa que os outros não têm a sua importância na construção da democracia”. O Presidente “tem grande sensibilidade, pensamento lógico e capacidade para ouvir”, realça.
Se assim é, porque é que não dialogou com Venâncio Mondlane? Regio Conrado julga que ainda não chegou o momento. RicardoNhacuonge não arrisca nenhuma resposta, prefere assegurar que Chapo “é o líder do diálogo”. Alberto Nkutumula não tem dúvidas: “Acredito 100% que irá dialogar com todos, até aqui ainda não tinha tomado posse, ainda não era chefe de Estado”, responde. Mas já lá vamos.
[Já saiu o quinto episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro e aqui o quarto episódio]
O grito de Inhambane e a mania da arrumação
Concluída a licenciatura em Direito, Daniel Chapo fez o curso de Conservador e Notariado, seguiu para Nacala-Porto, na província de Nampula, em 2009 foi nomeado administrador do distrito de Nacala-a-Velha, em 2015 administrador do distrito de Palma na província de Cabo Delgado e em 2016 chega a governador de Inhambane. Ricardo Nhacuongue tinha-o conhecido em 2009 quando era administrados em Gaza, num encontro de quadros em Nampula. “Com a altura que ele tem chama a atenção”, sorri. Não sabia que alguns anos depois o teria como chefe em Inhambane.
“É um líder muito empático, fala com toda a gente, recebe todas as pessoas. Um profissional exemplar. Não manda fazer, faz ele e a sua equipa. E ensina, mas não irritado ou zangado. É muito humilde”, elogia Ricardo Nhacuongue. A sua paciência por vezes irritava o seu secretário-permanente. “Havia situações que eu achava passarem dos limites mas ele muito calmo dizia ‘Não se preocupe, vamos resolver, vamos ensinar’”.
O antigo adjunto realça o seu “traço muito comunicativo, liga para todo o mundo com a sua gargalhada contagiante, e é muito atencioso”. Trabalhador, “não sei quando dorme, porque se lhe mandamos uma mensagem, um SMS, nem cinco minutos depois, temos a resposta e logo a seguir um telefonema”.
Pontual, “o primeiro a chegar, sempre”, organizado, gosta “de ter tudo arrumado, tudo no sítio onde deixou. Se alguém muda de lugar alguma coisa ele repara e vai logo perguntar quem mexeu nos papéis ou no que quer que seja que ele tinha colocado em determinado local”, acrescenta o seu colaborador próximo que prefere não ser identificado.
Dos cinco anos que trabalhou com Daniel Chapo em Inhambane, Ricardo Nhacuongue guarda o “foco permanente em resolver os problemas da população”. Uma ideia partilhada por Dércio Alfazema: “Fez um percurso marcado por lidar com as questões reais das pessoas. Em Nacala-a-Velha e em Palma liderou o processo de reassentamento da população no âmbito da implantação de projetos do sector extrativo. Na província de Inhambane trabalhou diretamente com as comunidades à volta do projeto de produção de gás de Pande/Temane e com a empresa Sasol, que explora o gás natural em Inhambane”.
Foi aí que Roberto Tibana ouviu falar dele pela primeira e última vez até se tornar no “acidental candidato presidencial da Frelimo”. Levantou a voz contra a Sasol, que não estava a cumprir a sua parte do contrato de concessão de exploração, a da responsabilidade social. “Todos ficaram admirados”, mas depois” desse clamor “muito justo, porque a população vive na miséria, desapareceu novamente do radar dos mass media”.
A escolha fora de cálculo e a quase profecia de um jovem
O anúncio do candidato presidencial da Frelimo “apanhou todos de surpresa. Todos, menos o sobrinho de Ricardo Nhacuonge. “Tio, não te falei que esse teu governador ia ser Presidente?”, ouviu o secretário-permanente assim que atendeu a chamada do jovem. “O meu sobrinho nem é de Inhambane mas tinha-me dito, há dois ano,s que Daniel Chapo iria chegar aonde chegou, que ele merecia, pois trabalhava para o povo”.
A maioria das vozes que se fizeram escutar então estavam muito longe do entusiasmo do jovem: tratava-se de um desconhecido.
Aliás, ainda agora, para muitos, como para o catedrático Fernando Jorge Cardoso, Daniel Chapo é um “ponto de interrogação”. Uma “incógnita”, secunda Elísio Macamo, professor na Universidade da Basileia que alude ao facto de “apesar de ter um ligeiro percurso político, o ser candidato tão cedo colheu todos de surpresa. “Não estava nos cálculos de ninguém. Havia candidatos com mais experiência, mais preparados dentro do partido, mas como a Frelimo é um partido totalmente disfuncional” escolheu Daniel Chapo.
Uma vez mais “foi um concurso de miss Universo. Escolhe-se pelo aspeto exterior e não pelo que a pessoa pensa. Na verdade, nem se sabe o que a pessoa pensa. Não se discutem projetos políticos. Em 50 anos a Frelimo não foi capaz de melhorar os seus procedimentos e mecanismos para encontrar o melhor candidato para o partido e para o país”, lamenta o académico. “Havia muitos candidatos informalmente a preparar candidaturas e manifestos que não tiveram oportunidade de apresentar, o partido não permitiu discussão para escolher o melhor candidato”.
LUISA NHANTUMBO/EPA
O processo de decisão foi polémico. O “Presidente Nyusi queria prolongar-se num terceiro mandato (inconstitucional). Foi recusado internamente. Tentou solução ‘a la Putin’ (com Medvedev), indicando o candidato Roque da Silva, o secretário-geral da Frelimo, seu homem de mão. Foi recusado, devido à oposição dos ex-presidentes Guebuza e Chissano, ainda cabeças de fações internas. Vários nomes haviam sido aventados, entre as antigas lideranças. Mas por influência da juventude do partido e com anuência surgiu, inopinadamente (e sem auto-proposta) Daniel Chapo”, diz o antropólogo português José Pimentel Teixeira, um conhecedor da realidade moçambicana.
“Ele nunca sonhou ser Presidente” assegura Ricardo Nhacuongue, seu braço-direito em Ihambane. “Foi só lá como mero delegado, mero votante. Não sabia que o seu nome estava numa lista, foi um surpresa para ele”, assevera aquele que foi o equivalente a vice-governador em Inhambane.
▲ Daniel Chapo em campanha, imagens partilhadas na sua página de Facebook
“Embora muitos digam que ele foi escolhido por Guebuza, Chissano e pela pressão dos jovens, não foi bem assim”, contrapõe ao Observador um interlocutor da Frelimo que esteve presente na conturbada reunião do comité central que deveria ter durado umas horas e se arrastou por dois dias. “Depois de alguma confusão, Nyusi apresentou uma lista com três nomes: Roque da Silva, Esperança Bias e Daniel Chapo, trazido pelo Celso Correia, homem forte de Nyusi. A ideia era Esperança desistir, o que veio a acontecer, e como Chapo não era muito conhecido, ser o Roque da Silva o escolhido” explica o membro da Frelimo sob anonimato.
Porém, levantou-se “uma quase rebelião” de um grupo que “não queria este nome, de que nem o povo nem o partido gosta e Roque da Silva, para não ser humilhado, desistiu”, adianta a mesma fonte. Pelo que ficou Daniel Chapo, que foi votado quase por unanimidade. A partir daí, “as diferentes alas dentro da Frelimo [quatro: Chissano, Guebuza, Graça Machel e familiares de Eduardo Mondlane, que não tem nada a ver com Venâncio Mondlane] uniram-se em torno de Chapo, ao mesmo tempo que começavam uma luta para ver quem o vai controlar”, diz ao Observador Roberto Tibana.
“Nunca ficou claro sobre a que ala é que Chapo pertence dentro do partido Frelimo”, reage Dércio Alfazema, que vê aí um sinal positivo. “Até agora, parece que ele é mesmo dos moçambicanos e ainda não está cooptado por nenhum grupo”, sublinha.
Roberto Tibana refere um acordo, não escrito, entre os mais antigos que estipula que o poder presidencial tem de rodar entre os principais grupos étnico-regionais do país. O sul esteve representado pelos primeiros Presidentes, o norte maconde por Chissano e agora “argumentam que chegou a vez do centro, com Chapo”.
No entanto, Jaime Langa “nega indícios de controvérsia no seu processo de escolha”. A FRELIMO “segue uma cultura de respeito pelos órgãos internos do partido”, argumenta. “Além disso, o facto de Chapo ter sido inicialmente apontado como uma segunda opção e, ainda assim, ter alcançado a presidência, demonstra o desafio que enfrenta ao procurar assegurar uma renovação geracional. Espera-se que traga uma nova perspetiva à liderança do país, promovendo políticas que reflitam as aspirações das gerações mais jovens.”
O diálogo com Venâncio Mondlane
A relação de forças dentro da Frelimo é apenas um dos desafios que esperam por Daniel Chapo: “Vai ter de em simultâneo fazer o seu caminho dentro do partido, construir o seu poder, e enfrentar imediatamente a situação relativamente caótica e complexa no país, respondendo com medidas concretas, para a reconstrução das infraestruturas que foram destruídas e pronunciar-se sobre os crimes cometidos, os assassinatos”, diz o economista Fernando Jorge Cardoso, que foi assessor do Ministro do Plano moçambicano entre 1977 e 1983. “Terá que ser muito hábil, vai ter que pedir emprestada alguma sabedoria diplomática de Chissano para conseguir agir no meio da confusão”.
Este governo “está ferido de ilegitimidade”, dizem Fernando Cardoso e Egídio Chaimite. “A situação de facto de fraude eleitoral demonstrada e reconhecida pelo próprio Conselho Constitucional leva a uma situação em que ninguém sabe se tem mesmo os votos que diz que tem”, nota Fernando Cardoso. Todavia, continua, “mais importante do que a legitimidade, é a confiança do povo”, avisa E para isso vai ter de negociar com Venâncio Mondlane, diz Fernando Jorge Cardoso. “É uma condição sem a qual não consegue governar” e “depois reconquistar a confiança dos investidores externos e nacionais para recuperar o país”.
Num cenário “em que ganhou a fraude, a legitimidade está em causa, e vai ter que ser temperada com alguma retoma de confiança. Para isso é absolutamente necessário um acordo com Mondlane”, explana o professor universitário.
“Daniel Chapo aparenta ser uma pessoa muito fria mas não sabemos. Tem de estabelecer uma ponte com Mondlane que é racional mas também é muito emotivo como todas as pessoas carismáticas com algum populismo”, acentua. “Em países onde as instituições são frágeis, é mais importante o papel das pessoas. Neste momento Mondlane é a pessoa mais importante do país, Chapo tomou posse formalmente como se fosse ele, mas para realmente o ser, tem de falar com quem realmente é”, defende Fernando Jorge Cardoso.
O que já estará a acontecer. Mondlane confirmou esta quarta-feira ao New York Times que tem estado em contacto com Chapo através de um “amigo comum”. De acordo com o jornal, Venâncio estará a negociar reformas concretas que incluem a construção de três milhões de habitações para os mais pobres e um fundo para startups lideradas por mulheres e jovens. “É preciso dar às pessoas algo crucial e tangível”, disse o candidato independente ao jornal norte-americano. “Não sei se as propostas vão ser cumpridas ou não, mas creio que temos de começar uma plataforma de diálogo.”
Um passo em que Chapo “vai ter que gerir claramente a opinião do Nyusi que nunca quis dialogar e nem a mediação do Vaticano nem da África do Sul aceitou”, recorda Fernando Cardoso.
Para já, pede Manuel Araújo, o nome mais forte da Renamo neste momento e o carismático autarca de Quelimane, “uma das primeiras medidas do novo Presidente deveria ser a humanização das forças de defesa e segurança!”. Numa mensagem enviada ao Observador que acompanha várias imagens duríssimas de jovens assassinados e um polícia a esbofetear uma mãe, diz: “Não se esbofeteia uma mãe… daquela maneira e nem se matam concidadãos como se de galinhas se tratassem. Isto é a barbárie!”, indigna-se, antes de concluir: “Há formas e regras mais civilizadas na gestão de crises e na gestão de multidões”.
Um perfil à la Chissano?
José Pimentel, antigo adido cultural em Moçambique vê em Chapo um perfil a “la Joaquim Chissano. Ponderado, escuta mais do que fala. E tende a produzir consensos, de modo pausado, um apaziguador com tendências reformistas”.
Porém, adiciona Egídio Chaimite, não deixa de ser um outsiderrelativamente jovem, com as vantagens e desvantagens que isso acarreta. “Pode ter mais energia, outra forma de ver as coisas e de agir, mas se não tiver alianças aos históricos do partido, duvido que tenha capacidade para fazer reformas e governar em prol da juventude, e fazer diferente”.
▲ Chapo com Joaquim Chissano em campanha, com a mulher num culto de domingo na Iurd e com os três filhos em imagens partilhadas na sua página do Facebook
Mais otimista, Dércio Alfazema, sublinha que Chapo nunca foi “colocado diretamente no centro das confusões, Venâncio ou os apoiantes não centraram os seus ataques nele, não foram manifestações anti-Chapo” e que o novo Presidente “é um sinal de mudança, de paradigma e uma esperança.
Tal como Alfazema, José Teixeira também destaca a “sua folha de serviço público decente, sem escândalos nem rumores de apropriação desbragada. E procura benefícios da população, contrastando com o atual comum da administração”. Tal como fazem Jaime Langa e Regio Conrado, aponta como vantagem (o sexto ponto deste último analista) a “experiência de serviço público” em regiões difíceis para a Frelimo”.
Mencionando que foi Guebuza quem o promoveu a administrador de Nacala-Velha, zona urbana complicada para o partido do poder, o professor universitário diz que Chapo promoveu “projetos de investimento que concederem hipóteses de trabalho para a juventude local e nisso abandonou o viés presente de preferências para os membros do seu partido, o que possibilitou o apaziguamento das relações com a oposição da Renamo”.
E em Palma, sede das grandes explorações de gás, o antropólogo salienta “um comportamento inverso ao da anterior administração (também do seu partido, como é óbvio), acolhendo preocupações das organizações não governamentais ambientais e que se debruçam sobre processos de reassentamento populacional. Pressionou grandes companhias para promoverem projetos de apoio ao desenvolvimento”.
Não cumpriu o seu mandato na totalidade. “Afiançam-me que terá sido afastado, porventura por pressão empresarial, sob a modalidade de ‘pontapé para cima’”, revela José Pimentel Teixeira. Foi “promovido” a governador provincial e constrangeu a Sasol para que promovesse efetivos sistemas de água destinados à população, em vez de meros “poços melhorados” anteriormente executados, verdadeiras minudências”.
Peixe com chima e a mania da arrumação
Contra os agouros dos que veem em Chapo apenas um homem que vai manter as práticas da Frelimo, José Teixeira aponta sinais em direção diferente. “Como candidato eleito e como secretário-geral do partido teve atitudes inovadoras. No assassinato dos dois dirigentes de Venâncio Mondlane exigiu — autonomamente — a investigação policial e lamentou os crimes, o que é uma atitude individual fora do comum”, salienta.
Também “os recentes comunicados do partido têm sido menos exaltantes e exaltados, nuances talvez incompreendidas por quem não vive no país. Estão a surgir comunicados — como os da Organização da Juventude — já a implicitarem críticas à governação anterior”, adiciona o consultor em projetos de desennvolvimento. Mais, adianta José Teixeita: “Forçou uma reunião do Comité Central já para 14 de fevereiro (e não para março, como queria Nyusi, que pretendia tempo para reforçar as suas posições e hostes)”.
▲ Daniel Chapo durante a campanha
JOSE COELHO/EPA
Ou seja, acredita José Teixeira, “está suavemente, em surdina, a preparar uma nova etapa interna no partido”.
“É um conciliador, e tem demonstrando repetidas vezes estar pronto para o diálogo com Mondlane, contrariamente a Nyusi. Vem surgindo lado a lado com Chissano, como forma pública de afirmar-se pronto a mimetizar a postura conciliatória do antigo Presidente. Enfim, se é o homem certo para liderar o país neste momento de caos… Será, pelo menos, o homem certo para liderar a Frelimo neste momento…”
Ricardo Nhacuongue não tem qualquer dúvida. Insiste na ideia de que o antigo chefe é um “líder do povo”, que gosta de comer peixe com chima (espécie de puré consistente feito com farinha de milho branca) e gosta de dançar afrobeats (ficaram virais os vídeos em que na campanha Chapo se transforma nos passos de dança).
E nunca se esquece do que diziam em Inhambane os diplomatas que visitavam a província: “Moçambique precisava era de um homem como este na Presidência da República”. Chapo ouvia, garante Ricardo, mas nunca comentou.