1238,5kWh poupados 1238,5 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

Getty Images/iStockphoto

Getty Images/iStockphoto

"Querer viver todos os dias e conseguir foi um autêntico milagre"

A depressão pode afetar qualquer pessoa. Na história de Susana, houve luto, desespero, ideação suicida e anos de luta até encontrar na inovação terapêutica a resposta que lhe devolveu a esperança.

No estendal, as molas que prendem as peças de roupa têm cores diferentes. Há uns anos, Susana não conseguiria deixar passar esta ausência de ordem e de padrão. Teria de ir trocar as molas, garantindo que eram todas da mesma cor. Agora, ainda repara, mas consegue não corrigir o que aparenta estar fora do lugar. Parece pouco, mas é uma imagem que traduz o que Susana alcançou aos 39 anos, ao recuperar de uma depressão que a arrastou para várias crises, que a prendeu a uma cama e que lhe tirou a vontade de viver. “Agora estou a viver a vida e não só a deixá-la passar por mim”, diz.

“Agora estou a viver a vida e não só a deixá-la passar por mim”
Susana, paciente com depressão

A depressão não aconteceu de um dia para o outro. Havia já uma tristeza antiga, uma forma mais pesada de estar, uma tendência para acumular tudo em silêncio. Mas há alguns anos a doença ganhou outra dimensão. A mãe adoeceu novamente, Susana ficou a acompanhá-la em casa durante meses e a morte acabou por chegar. Dois dias depois do funeral da mãe, morreu também o avô. O que mais a marcou foi perceber que o seu mundo parecia ter acabado e, ainda assim, continuava igual para todas as outras pessoas.

Primeiro veio a falta de sono. Depois o desespero. Tentou fazer psicoterapia e quis acreditar que chegaria, mas não foi suficiente. O sofrimento foi-se tornando incapacitante: dias inteiros na cama, sem energia, sem vontade, sem conseguir fazer nada. As reações que já tinha tido em alguns momentos do passado agora tinham vindo todas de uma vez. “Querer viver todos os dias e conseguir foi um autêntico milagre”, diz hoje, já do outro lado de uma fase em que teve ideação suicida. Reconhece que a falta de vontade de viver pode ser um pensamento, mas já muito ténue. “Não é que não me passe pela cabeça, mas tenho a certeza de que não o vou fazer.”

Para Carolina Almeida, psiquiatra do Hospital Lusíadas Alfragide, é precisamente aqui que importa desfazer uma confusão ainda muito comum: depressão não é apenas tristeza. “Estamos a falar de uma tristeza patológica que se torna autónoma face ao acontecimento”, explica. “Começa a atingir a energia, o sono, o apetite, a vitalidade, a capacidade cognitiva, a motivação e o prazer.” A fronteira, sublinha, está na intensidade, na persistência e no impacto no funcionamento do dia a dia. Não se trata apenas de reagir mal a uma perda, mas sim de deixar de conseguir trabalhar, conviver, descansar ou reconhecer-se.

Essa distinção ajuda também a perceber porque é que tanta gente demora a procurar ajuda. Nem tudo o que antecede uma depressão é doença. Há traços de personalidade, histórias de vida e fatores de risco que podem tornar algumas pessoas mais vulneráveis: perfecionismo, introspeção, instabilidade emocional, trauma na infância, história familiar de doença mental ou acontecimentos marcantes, como perdas, doença física grave ou pressões financeiras. “Isto não é doença, mas pode colocar a pessoa em maior risco”, diz Carolina Almeida.

No caso de Susana, o gatilho foi a morte da mãe. Mas a história não começou aí. Começou muito antes, numa vida feita de perdas, mudanças abruptas e responsabilidades demasiado cedo. A mãe tinha sido operada a um problema de saúde complexo quando Susana tinha ainda 12 anos. O pai tinha Parkinson. Houve cirurgias, idas para casa dos avós mais ou menos prolongadas, uma infância e adolescência passadas a adaptar-se. Quando veio a nova doença da mãe, a verdade é que Susana já estava cansada há demasiado tempo.

Há um momento de que se lembra com nitidez. Estava sozinha no ginásio e começou a chorar. Não costuma ser uma pessoa que expresse emoções em público, mas “rebentou ali”. No dia seguinte, procurou ajuda e começou psicoterapia e mais tarde psiquiatria. Ninguém sabia, mas hoje considera que falar é o primeiro passo para reduzir o estigma e voltar a encontrar um caminho. Susana assume que, durante muito tempo, também achou que ser assim era normal. Que ser triste era apenas uma maneira de ser. Que não havia mal nenhum em viver em esforço.

Mas há sintomas que deixam de caber numa explicação como “é só uma fase” ou “é preciso reagir”. “Não é expectável que uma pessoa tenha mantidamente ideias sobre se deve continuar viva ou não. Não é expectável que deixe de sentir prazer nas atividades que antes eram prazerosas”, sublinha Carolina Almeida. Ainda assim, para muitas pessoas, a ajuda chega tarde. Porque custa reconhecer a gravidade do que está a acontecer.

Os dados mostram que o atraso na procura de ajuda está longe de ser raro nos casos de depressão. Em Portugal, a depressão resistente ao tratamento e a depressão com grave risco de suicídio atingem mais de 143 mil pessoas e representam um custo anual de 1,1 mil milhões de euros, sobretudo por custos indiretos, como absentismo, presentismo e incapacidade prolongada1. Num outro estudo, 35% das pessoas com depressão disseram ter demorado mais de um ano a procurar ajuda profissional, 73% viviam com o diagnóstico há mais de cinco anos e 32% apresentavam um perfil compatível com depressão resistente ao tratamento2.

Para Carolina Almeida, o atraso pesa muito no prognóstico. “Quanto maior o atraso na procura de ajuda, maior o risco de resistência terapêutica”, diz. Como noutras doenças, acrescenta, a resposta ao tratamento não é a mesma quando a pessoa pede ajuda ao fim de alguns meses ou quando arrasta sintomas durante anos. E há ainda um problema adicional: a culpabilidade, que é um sintoma frequente da depressão, leva muitas pessoas a acreditarem que deviam resolver sozinhas aquilo que estão a viver. Isso aprisiona-as e adia ainda mais os cuidados.

“Quanto maior o atraso na procura de ajuda, maior o risco de resistência terapêutica”
Carolina Almeida, psiquiatra do Hospital Lusíadas Alfragide

A história da Susana passou também por esse caminho de tentativas. Foi medicada várias vezes, com doses e esquemas diferentes, mas as melhorias eram poucas ou até inexistentes. Foi tendo recaídas. Em muitos casos, a pessoa melhora um pouco, mas não o suficiente para voltar a viver de forma estável. É isso que define a chamada depressão resistente ao tratamento, explica Carolina Almeida. Cerca de 30% dos doentes podem desenvolvê-la: são situações em que duas linhas de tratamento antidepressivo, em dose adequada e durante tempo suficiente, não conseguem resolver a maioria dos sintomas. Quando isso acontece, aumenta o risco de recaída, cresce a frustração e instala-se, muitas vezes, uma sensação de beco sem saída.

Também para as famílias o caminho se torna pesado. A companheira de Susana acompanhou tudo. Foi a base quando ela já não conseguia ser base para si própria. E é uma das pessoas que melhor percebe a diferença entre a Susana de antes e a de agora. Fala mais. Está mais desperta. Já não fica na cama. Continua a não ser uma pessoa de sorrisos fáceis, continua a ter dias maus, continua a precisar de acompanhamento e não romantiza nada disso. Mas voltou a estar presente. Sente-se “mais desperta”, “mais atenta”, “mais plena”. Os outros também lhe dizem isso. “Dizem que sou uma Susana diferente.”

A viragem, conta, aconteceu quando Carolina Almeida lhe propôs uma terapêutica inovadora, administrada em contexto clínico. “Não pensei duas vezes. Aceitei como próximo passo.” A confiança na médica foi decisiva. “O mais importante em todo o processo é confiar 100% no médico. Eu confio 100% na Dra. Carolina.”

A psiquiatra explica que estas terapêuticas inovadoras abriram um caminho novo porque atuam por vias cerebrais diferentes das dos antidepressivos mais antigos e podem complementar aquilo que já existia. “Pela primeira vez há décadas, temos uma terapêutica para a depressão que atua a níveis diferentes”, diz. Outra diferença é a rapidez. Enquanto com muitos antidepressivos é preciso esperar semanas para perceber se estão a resultar, aqui os sinais de melhoria podem surgir mais cedo. E isso, num doente que já tentou muita coisa e chega à consulta desmoralizado, tem um peso enorme. “É muito importante desenvolver esperança nestas pessoas.”

Na vida da Susana, essa esperança traduziu-se em coisas muito concretas. “Para mim, foi um milagre”, diz. “Agora quando caio, não caio fundo. Caio à superfície.” Nunca mais ficou de cama. Voltou a conduzi e a trabalhar – e o trabalho, diz, é também uma forma de não se deixar cair. Não trabalha apenas por necessidade financeira. Trabalha por sentido de missão. Está agora à frente da escola que foi criada pela mãe e sente que todos os dias lhe está a prestar uma homenagem ao manter viva e com alegria a instituição que a mãe tanto acarinhou.

“Agora quando caio, não caio fundo. Caio à superfície.”
Susana, paciente com depressão

Susana reforça que o percurso nunca é fácil, mas que vale a pena continuar a procurar solução. “Na depressão, como em qualquer outra doença, devemos ambicionar a remissão completa dos sintomas”, diz Carolina Almeida. Mas essa remissão nem sempre é linear nem rápida, sobretudo quando há comorbilidades, fatores de risco acumulados ou anos de sofrimento antes de chegar aos cuidados. O que a médica defende é que não pode haver inércia terapêutica: se o doente não está a melhorar, é preciso rever o diagnóstico, perceber o que está a falhar, ajustar rapidamente e não desistir das hipóteses de tratamento.

Isso inclui medicação, psicoterapia, estilos de vida e, nos casos mais complexos, outras respostas especializadas. Mas também aqui convém evitar o tom moralista com que tantas vezes se fala de saúde mental. “É impensável pedir a uma pessoa que está num estado tão grave que não sai da cama para ir fazer exercício físico”, lembra Carolina Almeida. Primeiro é preciso melhorar energia, motivação, prazer e vitalidade. Só depois é que conselhos como “devia sair mais”, “devia conviver”, “devia mexer-se” podem começar a ser mais do que frases bem-intencionadas.

Susana sabe isso melhor do que ninguém. Sabe também que estar bem dá trabalho. “Estar bem requer muito esforço”, diz. Em casa, explica, o sorriso desaparece muitas vezes porque já está cansada de fingir lá fora. E isso também faz parte da recuperação: poder relaxar, poder não representar, poder sentir. É por isso que Susana insiste tanto na palavra processo. “Temos de confiar no processo e saber que não dá à primeira nem à segunda, mas pode dar à terceira ou à quarta.” Continua a ir às consultas. Continua a tomar medicação. Continua a acreditar que talvez precise de psiquiatria para a vida toda. Mas já não vive isso como derrota. Vive-o como vida.

Referências:
1 – Estudo Custo e Carga da Depressão Resistente ao Tratamento e Depressão com Grave Risco de Suicídio em Portugal;
2 – Estudo TRD Patient Voice – A Perspetiva dos Doentes com Depressão em Portugal.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.