A refinaria de Sines é maior unidade industrial do país e disputa a liderança das exportações com a Autoeuropa, mas é também a unidade recordista na emissão de dióxido de carbono, um ranking que passou liderar depois de encerradas as centrais a carvão em 2021 e 2022.
O cenário poderá mudar a partir do próximo ano, para quando está prevista a entrada em operação dos primeiros dois projetos de descarbonização industrial de grande escala em Portugal. O investimento total de 650 milhões de euros é o maior realizado em Sines em mais de dez anos, desde que em 2013 a empresa concluiu a instalação de um hidrocracker para aumentar a produção de gasóleo e de jetfuel, um projeto que mobilizou mil milhões de euros.
Segundo os números avançados pelo responsável de hidrogénio e combustíveis renováveis da Galp, numa visita de jornalistas à refinaria, os dois projetos vão permitir reduzir o CO2 em 900 mil toneladas. É um valor que equivale, compara Sérgio Machado, a retirar 700 mil carros (a gasóleo ou gasolina) de circulação.
O início da produção de hidrogénio verde com uma capacidade de 100 megawatts vai representar um investimento de 250 milhões de euros. Só essa mudança do hidrogénio cinzento para verde permitirá eliminar 20% a 25% das emissões de CO2 da refinaria que são geradas pelo hidrogénio que hoje é produzido com recurso a combustíveis fósseis.
Galp avança com dois projetos de 650 milhões para descarbonizar Sines
A Galp precisa de hidrogénio para o processo de refinação e a instalação de um eletrolisador desta dimensão coloca a empresa na vanguarda da descarbonização industrial de larga escala na Europa.
“Somos a segunda empresa europeia (de refinação) a tomar a decisão de investimento (em 2023) e, muito provavelmente, vamos ser a primeira empresa na Europa a ter operacional uma capacidade de produção de hidrogénio verde com esta escala”, afirmou o Sérgio Machado. A maior unidade de hidrogénio verde que entrou recentemente em produção está na Alemanha e tem uma potência instalada de 52 megawatts. A segunda maior unidade fica em Espanha e há outros projetos anunciados, mas muitos ainda não passaram do papel.
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O outro projeto de reconversão do processo industrial é a instalação de uma unidade de biocombustíveis avançados, um investimento de 400 milhões de euros que também tem o início da produção previsto para o próximo ano. Com uma capacidade de 270 mil toneladas, esta unidade está orientada para a procura do mercado e para o cumprimento das exigências europeias de redução de CO2 no setor dos transportes e combina a produção de SAF (combustível avançado para a aviação) e de HVO (biocombustíveis avançados produzidos a partir de óleos usados ou de hidrogénio verde).
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Esta é a terceira grande reconfiguração do aparelho produtivo na história da refinaria de Sines que, apesar dos seus quase 47 anos, é a mais jovem da Europa. É também uma forma de assegurar que a unidade se mantém competitiva no universo da transição energética e sobrevive a uma onda de encerramentos que se anuncia para as refinarias europeias. A única alternativa é a conversão tecnológica.
Numa conferência realizada esta semana por iniciativa do Financial Times sobre o setor, uma especialista citada pela Reuters — Ruth Herbert — avisou que nos próximos 10 anos, a maioria das refinarias vai seguir o caminho dos biocombustíveis ou da eletrificação de forma a mudar para combustíveis de baixo carbono. “Quem não seguir estes caminhos corre o sério risco de fechar”.
Umas das primeiras vítimas da pressão sobre as margens e das exigências da transição energética (agravadas pela pandemia) foi a refinaria de Matosinhos que fechou as portas no final de 2020. A Galp apostou todas as fichas que Sines que abastece mais de 90% do mercado de combustíveis e é uma das maiores exportadoras nacionais.
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Não é só a sobrevivência da indústria, é também a segurança energética que está em causa
Para o administrador da Galp com o pelouro industrial, o tema não é só de sobrevivência da indústria mas também de segurança de abastecimento. As refinarias, defende Ronald Doesburg, são fundamentais para essa segurança. Não são apenas uma indústria do passado, “mas são catalizadoras de mudança”. Com cerca de metade da procura por hidrogénio a passar pela refinação, são as unidades que mais têm incentivo em investir na reconversão. Remetendo para a perda de competividade da indústria europeia automóvel nos últimos anos, “temos de atuar como uma indústria para assegurar a independência energética da Europa” e para ajudar “a descarbonizar os nossos clientes”.
Para além dos projetos para a reconversão industrial, a unidade recebe este ano 200 milhões investimentos de manutenção de 200 milhões de euros que vão obrigar uma das unidades a parar durante 50 dias.
Apesar de alguns contratempos — a própria Galp teve de desligar a ficha à construção de uma refinaria de lítio em Setúbal — e da necessidade de estar atento “aos sinais do mercado”, o caminho para a descarbonização “é claro”, afirmou Sérgio Machado, ainda que o ritmo possa ser mais rápido ou mais lento.
Parte da mudança é voluntária e movida pela vontade dos consumidores, diz. Por outro lado, a inovação está a tornar estas tecnologias mais baratas, ainda que descarbonizar no geral ainda seja mais caro — a não ser que o custo da eletricidade seja muito baixo. A Europa optou por regulamentar e também é para cumprir os regulamentos que a Galp está a investir em novos combustíveis.
Na aviação, as companhias têm de incorporar cada vez maior percentagem do SAF (combustível sustentável) e a marinha mercante é obrigada a cortar no CO2. Para cumprir a exigência de fornecimento de 2% de SAF em 2025 para todo o combustível consumido pelas companhias, a Galp está a recorrer a importações que serão substituídas pela produção própria a partir de 2026.
TAP admite aplicar taxa ambiental para financiar custo de combustível sustentável a partir de 2025