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▲Sohei Kamiya fundou o partido em 2020 e ganhou palco por ser anti-vacinação

JIJI Press/AFP via Getty Images

▲Sohei Kamiya fundou o partido em 2020 e ganhou palco por ser anti-vacinação

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Sanseito. O partido japonês que admira políticas de Trump, mas não o seu "egotismo", e que pode preencher o vazio pós-Shinzo Abe

Teve uma subida acelerada nas eleições deste domingo, com o lema "Japoneses Primeiro", inspirado nos EUA. Anti-sistema e anti-globalismo, quer enfrentar as tarifas ganhando o respeito de Trump.

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“Se falharmos em resistir à pressão estrangeira, o Japão irá tornar-se numa colónia.” A declaração foi proferida por Sohei Kamiya, fundador do partido Sanseito, durante um comício a caminho das eleições legislativas no Japão. Kamiya era, até este domingo, o único deputado que o partido, fundado em 2020, tinha conseguido eleger para a câmara alta do parlamento japonês. A ida às urnas deste fim de semana cristalizou a ascensão do Sanseito, que conseguiu ser o quarto partido mais votado e consolidar uma bancada parlamentar de 15 deputados.

No centro da campanha eleitoral liderada por Kamiya está um lema que resume em apenas duas palavras a declaração nacionalista que fez neste comício em Kagoshima: “Japoneses Primeiro“. A semelhança com o lema de outro político da direita populista, do outro lado do Pacífico, não é coincidência. Pelo contrário, Kamiya inspirou-se diretamente no “estilo político arrojado” de Donald Trump, declarou o próprio à Reuters. No entanto, Sohei Kamiya limita a sua admiração à agenda política do Presidente norte-americano. “A visão do Sanseito é próxima do ‘America First’, mas não do seu estilo de liderança. O egotismo de Trump é demasiado egocêntrico para os japoneses”, afirmou durante um outro comício.

No equilíbrio entre a agenda política bem-sucedida dos Estados Unidos e a cultura e os problemas do Japão, o Sanseito desenvolveu uma narrativa anti-globalista, anti-imigração e com foco no desenvolvimento da economia interna. Este discurso nacionalista despontou à sombra de um enquadramento internacional desafiante: o da guerra comercial desencadeada por Donald Trump, que deu a Tóquio até ao dia 1 de agosto para assinar um acordo comercial com os Estados Unidos, sob pena da aplicação de tarifas de 25% (sob os 10% universais). Numa tentativa de evitar este cenário, uma delegação japonesa deslocou-se esta segunda-feira a Washington para a oitava ronda de negociações entre os dois aliados.

"Se conseguirmos ganhar 50 ou 60 lugares na próxima eleição para o parlamento, acho que, no futuro, seremos capazes de fazer algo como um governo de coligação de partidos minoritários como acontece na Europa. O LDP é tão abrangente da direita à esquerda que já não sabe os que as pessoas querem. Acho que o LDP pode fraturar-se no futuro e eu gostaria de criar um novo enquadramento."
Sohei Kamiya, numa reação aos resultados eleitorais

Se o equilíbrio não é fácil para a direita populista, é ainda mais difícil para o governo, cujos partidos sofreram este domingo um duro golpe eleitoral. A coligação de governo, composta pelo Partido Liberal Democrático (LDP) e pelo Komeito (centro), continua a ser o maior grupo no parlamento, mas perdeu a maioria de 125 lugares necessária para governar. O primeiro-ministro, Shigeru Ishiba, recusou demitir-se, mas Sohei Kamiya viu na fragilidade do governo uma oportunidade para as próximas eleições, em 2028, quando os restantes 124 dos 248 lugares do parlamento forem a votos.

“Se conseguirmos ganhar 50 ou 60 lugares na próxima eleição para o Parlamento, acho que, no futuro, seremos capazes de fazer algo como um governo de coligação de partidos minoritários, como acontece na Europa”, afirmou, em reação aos resultados eleitorais. “O LDP é tão abrangente da direita à esquerda que já não sabe os que as pessoas querem. Acho que o LDP pode fraturar-se no futuro e eu gostaria de criar um novo enquadramento”, rematou, em declarações à NHK.

Do YouTube ao parlamento, pela mão de Sohei Kamiya. Como cresceu o Sanseito?

O primeiro passo do Sanseito foi dado na internet, onde, em 2020, durante a pandemia de Covid-19, Sohei Kamiya “reuniu um grupo de pessoas”, descreveu o próprio. O grupo evoluiu para um partido mobilizando eleitores e financiadores em espaços online através da partilha de “teorias da conspiração sobre vacinas e cabalas das elites globais”, descreve a Reuters.

A partir daí, o partido conquistou alguns lugares em eleições locais e regionais, mas a entrada na política nacional aconteceu em 2022, quando Kamiya conseguiu ser eleito para a câmara alta do Diet, o parlamento japonês. As eleições para o Diet funcionam com os lugares individuais a irem a votos de forma rotativa, em mandatos de quatro anos, pelo que o lugar de Kamiya não se encontrava em disputa nas eleições deste domingo.

Em outubro do ano passado, o Sanseito conquistou três lugares na câmara baixa do Parlamento, descrita como a mais poderosa. Os resultados eleitorais mostram uma preponderância na capital, onde soma já três lugares na Assembleia Metropolitana de Tóquio, depois das eleições no final de junho, e onde, este domingo, foi o segundo partido mais votado. Ainda em junho, um deputado de outro partido minoritário desfiliou-se do seu partido original para se juntar ao Sanseito. O seu lugar foi reconquistado no domingo, juntamente com outros 13 lugares — totalizando, assim, uma bancada com 15 deputados.

Japan's Prime Minister Abe Announces Resignation

▲ Shinzo Abe, assassinado em 2022, apoiou a candidatura de Kamiya em 2012

Franck Robichon/Anadolu Agency via Getty Images

Como fundador e, durante muito tempo, deputado único, Sohei Kamiya é a cara do partido. Aos 47 anos, trabalhou num supermercado, foi professor de inglês, reservista do Exército do Japão e já tinha tentado entrar na política nas eleições de 2012, através de uma candidatura pelo LDP — apesar de ter obtido o apoio do então presidente do partido Shinzo Abe, não conseguiu o lugar, relembra a BBC.

A partir de 2020, a ascensão fez-se com um discurso nacionalista e “inflamado e controverso”, descreveu Rintaro Nishimura, consultor sobre o Japão na empresa norte-americana The Asia Group, ao canal britânico. Os elogios à direita populista não se esgotam nos Estados Unidos. Na mesma entrevista à Reuters, em que declarou a sua admiração por Donald Trump, Kamiya elencava também as semelhanças com a AfD na Alemanha e o Reform no Reino Unido — uma proximidade visível nas declarações deste domingo, em que admitiu o desejo de formar um governo semelhante ao de alguns países europeus.

[É sábado. No lobby de um hotel de Albufeira um assassino misterioso espera junto ao bar por um convidado especial: representa a Organização para a Libertação da Palestina. Quando o vê entrar, o terrorista dispara quatro tiros e foge. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Aumento da imigração e da inflação: a tempestade perfeita para a direita populista crescer

À semelhança dos partidos e dos líderes políticos que diz admirar, a agenda de Kamiya assenta num discurso nacionalista, anti-imigração. Entre as propostas para as eleições deste domingo, contava-se a limitação de estrangeiros no Japão — o partido propõe um máximo de 5% por localidade –, a imposição de mais regras para a obtenção de autorizações permanentes de residência ou para naturalização e a proibição de cidadãos naturalizados concorrem a cargos públicos.

Na verdade, o número de imigrantes no país representa apenas 3% da população de mais de 124 milhões de habitantes, segundo dados citados pela BBC. No entanto, este número é um recorde histórico. O Japão sempre se caracterizou por uma política migratória muito restrita que foi aliviada nos últimos anos, numa tentativa de dar resposta a outro problema sistémico: o envelhecimento da população e a necessidade de aumentar a população ativa para sustentar o Estado social.

No entanto, as medidas do atual governo não foram suficientes para dar resposta à atual crise económica e ao aumento da inflação. Neste cenário, formou-se uma tempestade perfeita para a ascensão de um partido de direita populista com uma retórica anti-imigração, argumentou Jeffrey Hall, professor de estudos japoneses, na Universidade Kanda, à BBC. No entanto, no caso japonês, a imigração é colada a uma outra questão que, em número absolutos, é bastante mais expressiva: a do turismo de massas.

"A noção de que as pessoas que querem discriminar e atirar os estrangeiros para fora [do Japão] estão a juntar-se ao Sanseito é um pouco errada. Não somos esse tipo de partido."
Sohei Kamiya, durante a campanha eleitoral

Se, em 2024, os imigrantes chegaram aos 3,8 milhões, os turistas também atingiram um número recorde de 36,9 milhões, segundo a Organização Nacional do Turismo. Os “comportamentos” dos turistas ajudaram a alimentar uma retórica que não é simplesmente anti-imigração, mas anti-estrangeiros em geral, considera o professor Jeffrey Hall.

No entanto, Sohei Kamiya recusou várias vezes que a agenda “Japoneses Primeiro” tenha um pendor xenófobo ou racista.  “A noção de que as pessoas que querem discriminar e atirar os estrangeiros para fora [do Japão] estão a juntar-se ao Sanseito é um pouco errada. Não somos esse tipo de partido”, defendeu o líder, citado pela Euronews.

A importação das ideias do Presidente norte-americano não terminam na imigração. Segundo o Okinawa Times, Kamiya elogiou as propostas de Trump para terminar com as estratégias de diversidade, equidade e inclusão. Noutra ocasião, foi alvo de polémicas por se ter oposto a políticas que promovem a igualdade de género e ter defendido que as mulheres se deviam focar em serem mães.

Os fracassos do governo e o descontentamento da população

Shinzo Abe foi assassinado há pouco mais de três anos. Mas a ausência do antigo primeiro-ministro da política japonesa deixou um vazio que a liderança de Shigeru Ishiba não conseguiu ocupar, apontam os especialistas. Esta leitura traduz-se nos resultados das eleições deste domingo, em que, coligado com o Komeito, caíram de 141 para 122, a uns escassos três lugares do número necessário para consolidar uma maioria. Assim, pela primeira vez desde a sua fundação, em 1955, o LDP faz parte da minoria em ambas as câmaras do parlamento.

Especialistas em política japonesa apontam que a morte de Abe resultou numa abertura que deixou órfãos os eleitores mais conservadores. “O LDP não foi capaz de manter os elementos revisionistas e xenófobos que estavam contidos na fação Abe”, avaliou Koichi Nakano, professor convidado na Universidade de Harvard, ao New York Times. Jeffrey Hall aponta outra característica do governo Ishiba que não foi bem recebida: as visões menos “fortes” face à China.

epa12244935 Japanese Prime Minister Shigeru Ishiba speaks to the media after meeting with U.S. Treasury Secretary Scott Bessent at the prime minister's office in Tokyo, Japan, 18 July 2025.  EPA/SHUJI KAJIYAMA / POOL

▲ O descontentamento com Shigeru Ishiba levou o LDP aos piores resultados desde a sua fundação

SHUJI KAJIYAMA / POOL/EPA

Nos últimos meses, a tensão entre Pequim e Tóquio tem crescido de tom, descreve Christian Caryl, antigo repórter em Moscovo, na revista Foreign Policy. Mesmo com a autorização inédita para as forças japoneses abaterem drones que entrem no espaço aéreo japonês e a condução de testes com mísseis, Caryl considera que o governo de Ishiba “falhou em formular uma resposta contra a assertividade militar chinesa”.

O fracasso do governo em dar resposta aos problemas atuais traduz-se no descontentamento de alguns cidadãos japoneses, ouvidos pelo New York Times. “Eu costumava votar no LDP, mas quero mudança“, disse Mika, de 49 anos. “O Japão já não está a crescer, a economia está numa tendência decrescente e não podemos continuar a apoiar o mesmo partido“, afirmou Hiroshi, de 68 anos. Os dois destacam uma questão particular que os fez mudar de voto, longe da xenofobia ou da tensão militar, elencada pelos especialistas: o preço do arroz.

Sondagens do canal NHK durante a campanha eleitoral mostram que 28% dos eleitores elegiam como preocupação principal para estas eleições o preço do arroz, um número apenas ultrapassado pelos 29% preocupados com o estado da Segurança Social, causado pelo envelhecimento da população. Outros 7% escolheram a imigração como principal causa — um número abaixo dos 8% que elencaram a guerra comercial com os Estados Unidos como a pior preocupação.

Tarifas: como Sohei Kamiya quer ganhar o respeito de Donald Trump

Os número de eleitores preocupados com o preço do arroz e o número de eleitores preocupados com as tarifas de Donald Trump está separado por 20 pontos percentuais. No entanto, os dois temas estão mais ligados do que pode parecer à primeira vista. Afinal, uma das exigências da Casa Branca para um acordo comercial entre Tóquio e Washington é a importação de arroz norte-americano. A administração de Ishiba recusa ceder a esta exigência, dada a preponderância do setor na economia japonesa.

A posição é partilhada com Sohei Kamiya e o Sanseito, apesar da sua admiração por Donald Trump. Apesar das críticas ao governo, Kamiya não defende uma cedência à pressão norte-americana. Em vez disso, o líder do partido da direita populista sugere uma renegociação dos acordos de comércio focados no consumo japonês de produtos tecnológicos norte-americanos, descreve a revista The Diplomat. Ao mesmo tempo, no setor automóvel — outro setor chave da economia japonesa com que Trump quer competir — o partido propõe o abandono das regras de descarbonização, para estimular a produção e a procura interna. Ora, isto é precisamente o que Donald Trump está a promover nos Estados Unidos.

"O Presidente Trump trataria um Japão mais independente com mais respeito."
Sohei Kamiya, durante a campanha eleitoral

Num comício durante a campanha eleitoral, Kamiya explicou a sua postura, argumentando que o Japão deve fortalecer a sua economia, de forma a poder negociar com os Estados Unidos a partir de uma posição mais igualitária. Ao mesmo tempo, defendeu que o fortalecimento da economia também tem de passar pelo fortalecimento do Exército e das capacidades militares.

Estas duas estratégias seriam, no seu entender, duplamente benéficas. Para além de darem resposta às crises internas que o país atravessa — como a crise económica ou a tensão com a China –, iriam fazer com que Donald Trump olhasse para o Japão com melhores olhos. “O Presidente Trump trataria um Japão mais independente com mais respeito”, defendeu, durante o comício citado pelo New York Times.

[É sábado. No lobby de um hotel de Albufeira um assassino misterioso espera junto ao bar por um convidado especial: representa a Organização para a Libertação da Palestina. Quando o vê entrar, o terrorista dispara quatro tiros e foge. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

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