Primeiro-ministro “Kinder Surpresa”. Aos 35 anos, Sergei Kiriyenko foi nomeado líder do executivo russo pelo antigo Presidente, Boris Yeltsin. Numa altura em que a Rússia vivia uma profunda crise económica, esteve no cargo apenas cinco meses, tendo sido demitido. Mas isso não significou o fim da sua vida política. Décadas depois, o antigo líder do executivo transformou-se num dos homens mais influentes do núcleo duro de Vladimir Putin. Lidera a política para a Ucrânia a mando de Putin e estará por detrás de muito do que vai ser falado esta sexta-feira no Alasca entre o Presidente russo e Trump. Porque depois terá de cumprir decisões. Afinal é um tecnocrata que cumpre ordens da presidência sem pestanejar, o que o tornou muito poderoso. E um nome a ter em consideração na sucessão do Kremlin.
Entre os mais próximos de Vladimir Putin, o agora vice-chefe de gabinete da presidência russa foi, aliás, ganhando influência durante a guerra na Ucrânia. Sergei Kiriyenko tem ido às regiões ocupadas pela Rússia em território ucraniano e tenta mobilizar a opinião pública para apoiar o prolongamento do conflito. Além de executar ordens do Kremlin na questão militar, o político de 63 anos é um dos principais responsáveis por manter viva a máquina que sustenta a autocracia liderada por Vladimir Putin.
Sergei Kiriyenko apertou a malha aos críticos do regime, limitou a liberdade de expressão na Rússia e até moldou a educação para propagandear valores patrióticos. “Ele é o perfeito tecnocrata no pior sentido. Se há ordens para matar a liberdade de expressão, ele fará isso com a maior eficácia possível”, disse Alexander Gabuev, membro do think tank Carnegie Russia Eurasia Center, em declarações ao Wall Street Journal.
“Sou um soldado de Putin”, reconheceu Sergei Kiriyenko. Na Rússia de Boris Yeltsin, o agora vice-chefe de gabinete fundou um partido político que defendia que a Rússia devia seguir o caminho do Ocidente. Agora, é uma das vozes mais críticas dos países ocidentais. Sem grandes convicções ou ideologia, é apenas um dos homens próximos do Presidente e quem coloca em prática os planos do Kremlin.
O primeiro-ministro numa Rússia perto da bancarrota
Nascido em Sukhumi, na Abecásia (região georgiana que foi invadida pelas tropas russas em 2008), Sergei Kiriyenko cresceu em Sochi, uma cidade banhada pelo Mar Negro. Estudou engenharia e gestão, filiando-se na Juventude Comunista. Chegou a ser secretário regional da Komsomol — a Liga Comunista Leninista da Juventude de toda a União Soviética.
Aos 29 anos, quando a União Soviética se dissolveu, Sergei Kiriyenko entrou na política regional, mas cedo mudou de planos e converteu-se diretor-executivo de um banco e depois presidente de uma empresa petrolífera. Na altura, tal como muitos dos seus pares na Rússia, defendia uma economia de mercado e a abertura a investimentos estrangeiros.
▲ Sergei Kiriyenko e Boris Yeltsin em 1998
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A sua chegada à política foi fulminante. Pela experiência que acumulou a liderar a empresa petrolífera NorSea, Sergei Kiriyenko foi nomeado, em abril de 1997, vice-ministro e depois ministro da Energia. Menos de um ano depois, Boris Yeltsin nomeou-o primeiro-ministro aos 35 anos. Por causa da imprevisibilidade da decisão e de o ex-Presidente confiar em alguém tão novo, Sergei Kiriyenko ganhou a alcunha de “Kinder Surpresa”.
A passagem pelo cargo de primeiro-ministro foi breve e não correu de feição. As dificuldades a governar eram muitas: a Rússia vivia uma profunda crise económica, com a dívida pública a aumentar rapidamente, o rublo a desvalorizar e a confiança dos investidores a cair a pique. Poucos dias antes de ser demitido, o governo russo teve de optar por declarar uma moratória parcial da dívida, o que estilhaçou ainda mais a economia russa — e o sistema bancário entrou em colapso.
Apesar das dificuldades que vivenciou para gerir um país praticamente falido, Sergei Kiriyenko conheceu e privou com vários nomes influentes na Rússia. Um deles foi o de Vladimir Putin. Aliás, o ex-primeiro-ministro contribuiu para que o atual Presidente russo liderasse o Serviço de Segurança Federal (FSB), o principal ramo das secretas russas. Desde aí, os dois homens mantiveram sempre uma boa relação.
▲ Sergei Kiriyenko e Vladimir Putin numa reunião no final dos anos 90
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Mesmo tendo saído do governo, Sergei Kiriyenko não abandonou a política ativa. Fundou um partido que se inspirou nas forças partidárias de centro-direita do Ocidente. Em 1999, o político de 36 anos candidatou-se à Câmara Municipal de Moscovo. Perdeu ao obter apenas 11,3% dos votos. Candidatou-se depois a deputado com várias críticas ao governo de Boris Yeltsin.
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O “soldado de Putin” que conheceu um dos melhores amigos do Presidente
Em 2000, a Rússia mudou. Vladimir Putin passou a ser o Presidente do país. O chefe de Estado tinha gostado de trabalhar com Sergei Kiriyenko e deu-lhe uma prova de confiança, nomeando-o representante da presidência da região do Volga. Depois de ter criticado o regime e de ter criado um partido, o antigo primeiro-ministro voltava a integrar a máquina estatal.
Em declarações ao New York Times, Marat A. Guelman, o antigo diretor de campanha de Sergei Kiriyenko, descreveu-o como alguém que “muda rapidamente” conforme soprem os ventos políticos. Tornou-se, assim, o tal “soldado de Putin”, que respeitava o Presidente e que cumpria cegamente as suas ordens.
▲ Sergei Kiriyenko considera-se um "soldado de Putin"
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Em 2005, Vladimir Putin tinha novos planos para o antigo primeiro-ministro russo: ofereceu-lhe a liderança da Agência Federal de Energia Atómica. Dois anos depois, o chefe de Estado transferiu-o para o cargo de diretor-geral da empresa estatal de energia nuclear, a Rosatom, onde esteve até 2016. Ficou conhecido por a modernizar, inspirando-se em negócios japoneses.
À frente da Rosatom, Sergei Kiriyenko conheceu e trabalhou de perto com uma personalidade do mundo financeiro e um dos melhores amigos de Vladimir Putin: o magnata Yuri Kovalchuk. Este multimilionário conseguiu mais tarde influenciar o Presidente russo para que o ex-primeiro-ministro regressasse ao Kremlin, desta vez enquanto vice-chefe de gabinete da presidência russa, cargo que mantém até hoje.
Luta contra as redes sociais, a invasão da Ucrânia e a sucessão de Putin
Quando chegou aos gabinetes da presidência russa, Sergei Kiriyenko percebeu que teria um cargo que serviria para consolidar o poder de Vladimir Putin. Travou inicialmente uma batalha contra as grandes tecnológicas e foi gradualmente restringindo o acesso à internet na Rússia. Alguns dirigentes de redes sociais contaram ao Wall Street Journal que exigia até dados dos utilizadores.
“Ele falava suave e respeitosamente, mas sabia-se que tipo de poder tinha”, confidenciou ao Wall Street Journal uma fonte que privou com Sergei Kiriyenko. A rede social VK, uma espécie de Facebook russo, foi severamente restringida. Apesar disso, não o fazia por uma questão ideológica. A impressão que ficava de quem trabalhava com o vice-chefe de gabinete era a de que simplesmente “punha em prática” as ordens emanadas por Vladimir Putin.
A invasão da Ucrânia abalou as dinâmicas de poder no Kremlin. Ao que tudo indica, segundo o New York Times, Sergei Kiriyenko não terá estado envolvido no processo de invadir o país vizinho e não partilhava das convicções de Vladimir Putin para atacar território ucraniano. Mesmo assim, o ex-primeiro-ministro camaleónico viu uma oportunidade para se destacar na presidência — e tornou-se num dos apoiantes mais vocais do que a Rússia designou como “operação militar especial”.
Foi nomeado enviado especial da presidência aos territórios ucranianos ocupados. Visitou a linha da frente. Foi um dos principais responsáveis pelas leis que puniam todos aqueles que se atreviam a criticar a invasão. Manipulou a opinião pública para apoiar o conflito. Começou a aparecer na televisão e a falar sobre assuntos militares.
▲ Sergei Kiriyenko foi escolhido por Vladimir Putin para ser o "enviado especial" da presidência às regiões ocupadas na Ucrânia
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Sergei Kiriyenko soube ler na perfeição a obsessão de Vladimir Putin pela Ucrânia, vendo nela uma forma de provar a sua utilidade e lealdade. E não cumpria apenas o que lhe mandava. Passou também a dar soluções. Uma das mais conhecidas, em setembro de 2022, consistiu na organização dos referendos (ilegais à luz do Direito Internacional) em quatro províncias ucranianas: Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporíjia.
Os referendos seriam, no seu entender, uma forma de consolidar os avanços russos na Ucrânia, numa altura em que as tropas ucranianas tinham em marcha uma contraofensiva que estava a ser bem sucedida. O Departamento de Estado norte-americano acusou-o mesmo de levar a cabo um “exercício fraudulento que violou a Constituição ucraniana e a Carta das Nações Unidas”.
O respeito pelo Direito Internacional era secundário; o mais importante consistia em satisfazer Vladimir Putin. Organizados pelo Kremlin, os referendos foram o primeiro passo para a consolidação de Sergei Kiriyenko no núcleo duro de Vladimir Putin. Ao longo dos últimos três anos, o ex-primeiro-ministro foi tendo iniciativas idênticas.
▲ Referendo em quatro regiões ucranianas ocupadas pela Rússia foi considerado pelo Kremlin um grande sucesso de Sergei Kiriyenko
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Foi, por isso, ganhando a confiança do líder russo. Nos últimos meses, Sergei Kiriyenko substituiu o ainda conselheiro, Dmitri Kozak, que criticou em privado a invasão da Ucrânia. Bastante mais flexível e descrito como “oportunista” pelos críticos, o antigo primeiro-ministro foi ocupando o seu lugar, sendo o responsável por supervisionar a política externa russa não apenas na Ucrânia, como em todos os países que pertenceram à União Soviética. E, portanto, Putin deve já tê-lo chamado para o ouvir antes do encontro com Trump e até sobre se esse encontro devia acontecer, onde e como.
Agora, o vice-chefe de gabinete chegou mais alto do que nunca no Kremlin e tem efetivamente capacidade de influenciar Vladimir Putin. “Ele é muito flexível, nunca vai contra o rumo do vento”, classifica ao Le Figaro um antigo aliado, Vadim Prokhorov. O dissidente russo, Ilya Yashin, concede ao New York Times que Sergei Kiriyenko é bastante “eficaz” no seu emprego — mas denuncia que é “totalmente oportunista”. Se um dia o Presidente russo quiser restabelecer ligações com o Ocidente, “Kiriyenko vai certamente concordar com isso e encontrar uma justificação”.
Existe ainda uma hipótese para o futuro deste ambicioso vice-chefe de gabinete: chegar a presidente da Rússia. Apesar da profunda modificação que sofreu — de alguém que defendia uma economia de mercado para um político nacionalista e apoiante de uma invasão —, existe a teoria de que Sergei Kiriyenko poderá estar a preparar terreno para substituir Vladimir Putin.
▲ Sergei Kiriyenko pode querer ser o próximo Presidente russo
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O dissidente russo no exílio, Mikhail Khodorkovsky, citado pelo Wall Street Journal, admitiu que existe uma tentativa de Sergei Kiriyenko “conquistar o estatuto de sucessor de Vladimir Putin”. E o Presidente russo parece estar a “reagir de forma bastante positiva” a essa hipótese, atribuindo-lhe uma grande responsabilidade, sendo o responsável pelos “territórios ucranianos anexados”.
O passo em falso na política durante os cinco meses em que foi primeiro-ministro de uma Rússia perto da bancarrota ficou enterrado no passado. Agora, Sergei Kiriyenko é uma das vozes mais influentes da política russa, em particular a guerra na Ucrânia agora numa fase que pode ser decisiva. Bastante próximo de Vladimir Putin, o antigo primeiro-ministro pode agora querer empreender voos mais altos — e sucedê-lo na presidência.