O caminho era o habitual e já repetido muitas vezes por Maria (nome fictício): percorrer a linha Verde do metro de Lisboa, sair depois de a voz repetitiva anunciar a chegada à estação do Martim Moniz, subir as escadas e, uma vez no ponto mais a norte da praça com o mesmo nome, caminhar os poucos metros que faltam até chegar ao n.º 6 da Rua do Arco do Marquês de Alegrete.
Aí, Maria, que nesse dia tinha a companhia de João (nome fictício), esperava participar em mais um ensaio de teatro da ‘Pais 21’. Contudo, a entrada habitual no prédio que dá acesso à associação que apoia mais de 60 pessoas (sobretudo jovens) com Trissomia 21 foi tudo menos normal.
Num ápice, já à porta do edifício, pelas 17h, João foi agredido com um murro no peito e, também ali, um homem ofereceu cocaína a Maria. O relato preocupado é feito ao Observador por Marcelina Souschek, presidente da associação que esta quinta-feira anunciou o seu encerramento por “falta de condições de segurança” — nos últimos tempos, acrescenta, muitos “sem-abrigo” e “toxicodependentes” têm pernoitado na entrada do edifício, dificultando o acesso.
“Comunicámos por diversos meios para a Câmara Municipal de Lisboa e para a Polícia de Segurança Pública, explicando a gravidade da situação e nada foi feito para a resolução da mesma”, denunciam. Ao Observador, a presidente da instituição admitiu que “a vereadora dos direitos sociais da Câmara de Lisboa entrou em contacto” com a ‘Pais 21’ depois de ter sido emitido o comunicado em que anunciavam que iam fechar portas, mas ainda não tiveram resposta por parte da PSP.
Dedicada a capacitar e incluir pessoas com Trissomia 21, como funciona a ‘Pais 21’?
Longe de imaginar o que passariam em 2025 estava o grupo de pais que, há 17 anos, criou a ‘Pais 21’, movidos pelo sentimento de que a sociedade continuava a não reconhecer o potencial das pessoas portadoras de Trissomia 21.
“A associação dedica-se à capacitação e inclusão de pessoas com Trissomia 21 em todas as fases da vida, desde o seu nascimento até onde pudermos ir”, explica Marcelina Souschek, que expõe a intenção de oferecer ajuda a pessoas mais velhas — neste momento, as idades das pessoas ajudadas situa-se entre os 12 e os 42 anos.
A ‘Pais 21’ tem uma proposta alargada de ofertas que vão desde atividades didáticas (com destaque para o ensino de línguas) à ajuda para encontrar emprego, “através de mediadores”. “Temos um foco académico, mas temos partes mais artísticas como tango, teatro, cinema. Temos algumas respostas muito centradas naquilo que as pessoas querem e gostariam de fazer. A nossa ideia é poder dar o apoio para a participação comunitária”.
Todas estas atividades da associação têm como ponto central a sede instalada desde 2019 no Martim Moniz, que é como “um espaço casa” para os jovens. Marcelina Souschek não tem dúvidas de que o ambiente na envolvência do espaço “cedido pela Câmara” tem “piorado bastante”. “Sempre tivemos sem-abrigo aqui, mas não interferiam com nada”. Isso mudou “no último ano” e culminou no encerramento anunciado esta quinta-feira.
Vidro partido foi o culminar de um clima de insegurança. “Se estivesse um miúdo ali, tinha levado com os estilhaços”
A gota de água para a direção da associação ocorreu na quarta-feira, véspera do anúncio do encerramento, quando Marcelina Souschek saía do elevador que dá acesso à entrada do edifício e ouviu um estrondo. “O vidro saltou quando a porta do elevador abriu. Estava eu, a minha colega e um miúdo no elevador. Foi uma sorte. Se estivesse um miúdo ali tinha levado com os estilhaços, aquilo é um vidro grosso, cortava toda a gente”, conta ao Observador.
A presidente da associação admite que “os acidentes acontecem”, mas reforça que esta situação foi fruto da violência, não do acaso. Assim que se aperceberam do sucedido, ligou à PSP, que a aconselhou a esperar pela polícia no local. Por medo, e por reparar que estava a Polícia Municipal perto da entrada do edifício, não esperou.
Reconhece que a PSP pode ter poucos recursos, mas reforça que é necessário “garantir a segurança das pessoas” e lembra que já ligaram muitas vezes para a esquadra a pedir para “passarem no local com regularidade” mas sem efeito, acusa.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]
O caso aconteceu perto da hora de encerramento da associação, às 19h30, e a decisão de suspender temporariamente o funcionamento surgiu de madrugada, poucas horas depois.
“Nós trabalhamos a autonomia, mas já não deixamos os miúdos saírem sozinhos. Há uma interferência desagradável na liberdade e na vida das pessoas. Temos sempre algum receio. A situação não está pacífica e as pessoas têm que andar com o mínimo de segurança. O nosso público também é vulnerável.”
De uma “miúda a quem foi roubado um telemóvel” a “outro que foi empurrado”: casos de violência sucedem-se
O vidro partido, o murro a João e a cocaína oferecida a Maria não foram casos isolados e, conta a diretora da Pais21, representam apenas o acumular de meses de momentos desagradáveis vividos com os “toxicodependentes” que se acumulavam na porta do prédio e impediam, inclusive, os jovens de acederem ao intercomunicador para marcar o código de entrada.
Uma vez, um pai que ia buscar o filho que estava na ‘Pais 21’ não conseguia marcar o código e um dos sem-abrigo amontoados, que conhecia a combinação para entrar, fê-lo por ele. “Nós para entrar temos que pedir licença. Não conseguimos passar. Temos uma miúda a quem foi roubado um telemóvel, outro que foi empurrado”, lamenta.
O prédio é dividido com outras empresas que “partilham as mesmas preocupações” e também já “chamaram a polícia várias vezes”. Com o surgimento de mais episódios violentos, a ‘Pais 21’ viu-se obrigada a tomar medidas: agora, os jovens já não saem sozinhos, há o cuidado de garantir que ninguém estranho ao mesmo entra no edifício e as pessoas da associação são aconselhadas a não ficar à conversa na porta.
“Temos algum receio. Há um certo desconforto, imagine entrar num sítio em que há aquela imagem toda de degradação, com eles a falar alto, assusta qualquer pessoa. Eu também já tive medo e não sou propriamente medrosa”, desabafa, antes de admitir que já viu “seringas” no local.
As saídas da associação durante a noite sempre foram mais acauteladas, como Marcelina Souschek diz que é habitual noutros locais, mas nos tempos recentes tem-se procurado acompanhar mais os jovens que, normalmente, se deslocam de transportes públicos e, ao contrário do que acontecia antigamente, já não devem ficar à espera dos pais à porta.
“Está incomportável, temos um grupo de toxicodependentes deitados à porta. Vestem-se e comem ali, fazem tudo. Também discutem alto. Temos tido situações desagradáveis. É uma situação difícil”, lamenta.
Apesar do agravar da violência nestes locais, a presidente admite que não equacionam, de maneira alguma, mudar a sede, que reúne os espaços necessários para albergar as várias atividades da associação e está em boas condições. “Nós não queremos sair daqui, temos um espaço agradável, foi renovado, conseguimos fazer o que precisamos aqui. Nós só queremos segurança, que é o que qualquer pessoa quer.”
▲ Associação fica perto de escadas onde nos últimos tempos, segundo relatos de moradores, se tem intensificado o consumo de droga
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
Associação queixa-se de falta de policiamento e Câmara de Lisboa diz estar preocupada
A 28 de fevereiro deste ano, quando a “situação se tornou incomportável”, surgiu a primeira denúncia da associação à Câmara Municipal de Lisboa, que tem reencaminhado os e-mails para a Polícia de Segurança Pública, responsável pela segurança na área.
“A Câmara disse-nos que ia mandar uma equipa da Polícia Municipal”, mas a presidente admite que não viu mudanças e que ninguém das forças de segurança entrou em “contacto direto com a associação”.
Contactada pelo Observador, a Câmara Municipal de Lisboa diz estar a acompanhar “com bastante preocupação os relatos que nos foram chegando da Associação ‘Pais 21′” e lembra que a responsabilidade pela segurança é uma “responsabilidade e competência da PSP”, a qual têm sensibilizado para o problema, defendem.
Têm sido inúmeros os apelos para a necessidade de mais agentes e meios na cidade. Apesar dos pedidos para o reforço de policiamento no local, a situação de insegurança mantém-se. Da parte da CML, não deixaremos de continuar a tudo fazer para que sejam garantidas a segurança a todos os que trabalham e frequentam as instalações desta associação, que faz um trabalho de reconhecido mérito numa área tão sensível e delicada”, lê-se no comunicado da Câmara.
Tal como confirmou a associação ao Observador, a Câmara Municipal adiantou que entrou em contacto com a ‘Pais 21’ depois de ter sido emitido o comunicado e já agendou para a próxima semana “uma reunião com os responsáveis da Associação para debater o problema e procurar soluções”.
Da PSP, porém, dizer ainda não ter recebido “qualquer feedback“. Ao Observador, fonte policial confirmou uma “denúncia relativamente à associação no passado dia 23 de maio”.
“Embora a PSP já patrulhasse aquela zona com frequência, foram dadas orientações ao efetivo da PSP para intervenções policiais no local, sempre que legalmente admissíveis e verificando-se comportamentos suscetíveis de gerarem suspeitas de atividades ilícitas, nomeadamente tráfico e consumo de droga.”
Fonte oficial da PSP explica que a zona em questão “tem sido alvo de elevada pressão por parte de pessoas em situação de sem abrigo e também por pessoas com problemas de adição”, que procuram o local, acredita a polícia, por conseguirem ter maior descrição e abrigo nas suas atividades e por terem “capacidade de observar a aproximação da Polícia e outras pessoas estranhas ao local”.
“A PSP vai continuar o seu reforço de policiamento, está atenta e em estreita articulação com a autarquia, para que de forma multidisciplinar, com vários organismos da Câmara Municipal de Lisboa, possamos dar a melhor resposta para resolução da situação”, acrescentaram na resposta enviada ao Observador.
Não admitindo a hipótese de mudar de local, a associação aponta uma única solução: mais policiamento — “isto é mesmo ao pé do elétrico, estão sempre aqui muitos turistas, é uma imagem péssima para a cidade de Lisboa”, reclama Marcelina.
“Esperamos poder andar com segurança e liberdade na cidade de Lisboa, acho que não é pedir muito”, remata.
[Notícia atualizada às 2h00 com a resposta da Polícia de Segurança Pública às questões anteriormente colocadas pelo Observador]