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Tanka Sapkota vai oferecer mais de 8.000 pizzas até meados de julho

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Tanka Sapkota vai oferecer mais de 8.000 pizzas até meados de julho

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Tanka Sapkota está na rua com um forno solidário. "As coisas boas fazem-se nas alturas difíceis" /premium

Tanka Sapkota diz-se louco, mas até meados de julho o seu forno andante vai entregar mais de 8.000 pizzas a quem mais precisa. Acompanhámos o chef que prefere ajudar do que fazer contas à crise.

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Talvez Tanka Sapkota seja mesmo louco. Um pouco menos, no entanto, quando se percebe que a ambiciosa empreitada de correr Lisboa com um forno a lenha atrelado e de confecionar do zero mais de 8.000 pizzas é possível e decorre sobre rodas. Em Benfica, a sexta freguesia a receber a pizzaria itinerante do reconhecido chef nepalês, a máquina surge já oleada. Ingredientes, bancada, lenha, frigoríficos e uma equipa experiente estão instalados em frente à junta de freguesia — em três horas, vão ser feitas aqui à volta de três centenas de pizzas. Têm como destino o Bairro da Boavista.

“São quase todos da minha família”, explica. Além da mulher, um braço direito na ginástica logística que vai manter o chef do Forno d’Oro na estrada até meados de julho, há um primo e um cunhado também a laborar — o primeiro organiza as entregas, o segundo manobra agilmente as entradas e saídas do forno. São mais de dez, só na equipa de Tanka, e suaram a camisola em turnos de 18 horas durante os primeiros quatro dias para que a ação fosse possível.

A ação dolidária do chef Tanka Sapkota começou no dia 16 de junho e já passou por nove das 26 freguesias do concelho de Lisboa

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

O milagre, também conhecido como cozedura, dura um minuto e meio. Para a rua, Tanka trouxe ainda um rigor quase científico. Depois de saírem, as pizzas têm, no máximo, um quarto de hora para chegarem ao destino. “Tínhamos de fazer alguma coisa boa”, justifica. A ação é solidária e apoia as famílias lisboetas que mais sofrem os efeitos da crise gerada pela pandemia, em particular à mesa, mas não é por isso que a qualidade do produto pode baixar. “A primeira grande dificuldade era levar a pizza às pessoas ainda quente. No restaurante, até vir a pandemia, nunca vendemos pizza por telefone. Só a quem aparecesse e esperasse para levá-la logo para casa. O segundo entrave: saber a quem entregar”.

A Câmara Municipal de Lisboa entrou em ação, com mais de 4.000 pessoas sinalizadas e a beneficiar do Mercado Solidário, um projeto criado já em plena pandemia. As redes já estavam montadas. Juntas de freguesia, instituições de apoio social e associações de moradores só tiveram de adaptar o modelo de distribuição de produtos frescos à entrega de pizzas quentes. “Recebemos esta proposta com muito agrado. É um sinal de que a sociedade civil está ativa e empenhada e de que é sensível ao que as pessoas mais carenciadas da cidade vivem”, afirma Carlos Castro, vereador da Proteção Civil de Lisboa.

O Estádio do Restelo foi o primeiro lugar a receber a cozinha improvisada de Tanka Sapkota, no dia 16 de junho, numa ação que serviu as freguesias de Ajuda e Belém. Água e eletricidade têm sempre de estar asseguradas onde quer que a estrutura estacione. O mapeamento prévio foi por isso tão importante quanto a própria itinerância da ação. Quanto ao curioso forno, sempre acima dos 400 graus, já fazia parte do arsenal do chef, peça chave no velho sonho de correr o país de norte a sul a cozinhar para quem mais precisa. Feito em Itália, revestido a calçada portuguesa e com rodas e matrícula, Lisboa precisou dele primeiro. A volta a Portugal vai ter de esperar.

“Não me conhece, mas eu sou louco”

O chef apresenta-se, mas a loucura em questão vem-lhe da responsabilidade social que lhe corre nas veias. Sita, a mulher, avalia os riscos com outra cautela. Começou por ter medo. Afinal, com os quatro restaurantes fechados há mais de três meses, neste momento devido a pequenas obras, a grande maioria dos 70 funcionários permanece em layoff. Nenhum dos dois adianta números, mas ter uma equipa durante o dia a preparar os ingredientes na cozinha e outra a confecionar dezenas de jantares para entrega a céu aberto é um “investimento avultado”.

“Não me conhece, mas eu sou louco”, declara o chef. Sita pensou o mesmo quando ouviu falar da ideia pela primeira vez, já depois de a família ter anunciado que ia doar 10% da faturação mensal dos seus quatro restaurantes — Forno d’Oro, Come Prima, Il Mercato e Casa Nepalesa — ao Banco Alimentar Contra Fome. Mas, citando o próprio Tanka, “as coisas boas fazem-se nas alturas difíceis” e com a determinação cega se convenceu uma mulher e uma equipa inteira.

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Esta também não é a primeira crise que o negócio atravessa. O chef relembra a recessão económica e os duros anos da troika, mas para reforçar uma visão otimista do futuro. “Sou sempre positivo, acho que vamos conseguir dar a volta. Em 2012, quando a crise era profunda, consegui bater o recorde de 13 anos de negócio — estava no Come Prima desde 1999. Os outros fecharam ou desceram os preços, mas nós subimos e aumentámos ainda mais a qualidade”, recorda.

As suas pizzas, servidas com distinção no restaurante Forno d’Oro, já foram certificadas pela Associazione Verace Pizza Napoletana. À técnica adquirida em Itália, junta-se a qualidade dos ingredientes. Apesar da receita simples que os seus pizzaioli têm estado a confecionar para alimentar as famílias mais carenciadas, Tanka garante que os produtos são os mesmos usados na cozinha do restaurante, onde o preço de uma pizza começa nos 12 euros e chega a ultrapassar os 30 euros. Em vez de perdas financeiras, o chef só vê a satisfação de quem recebe uma caixa destas.

A ciência aplicada é a mesma, não só na temperatura com que a refeição chega ao destino, mas na própria preparação da massa, que chega a Benfica após uma fermentação que pode ir das 36 às 48 horas. No processo, passa por três temperaturas diferentes — quatro, nove e, por fim, 16 graus, num frigorífico levado para o local. A pizza, receita única, sofrerá alterações pontuais. Será vegetariana quando o forno do chef estacionar na freguesia de Arroios, devido à presença da comunidade muçulmana, e na do Lumiar, dada a comunidade de refugiados do Médio Oriente que ali reside.

A pandemia e os seus efeitos numa freguesia de Lisboa

Só na freguesia de Benfica, em dois dias de entregas, cerca de 200 famílias receberam as pizzas certificadas do chef Tanka. São quase mil pessoas abrangidas pela ação, pelas contas de Ricardo Marques, o presidente da junta. O novo coronavírus e os seus efeitos nas finanças familiares e das pequenas empresas pôs à prova a responsabilidade social das estruturas locais. A junta de freguesia, que teve de redobrar a resposta que já dava, arregaçou as mangas e tomou a dianteira da intervenção solidária.

“Têm sido tempos difíceis”, admite o presidente. No início de março, entre junta e Santa Casa da Misericórdia, eram cerca de 4.500 as pessoas a receber apoio na freguesia, dos alimentos à assistência domiciliária. Atualmente, estão 12.200 identificadas, numa freguesia com cerca de 36 mil moradores. “Foi muito importante termos tido este trabalho logo no início de chegar aos casos mais preocupantes — os idosos, os doentes crónicos e as famílias já sinalizadas”, refere Ricardo.

Fala de um tímido regresso à normalidade, sobretudo no caso dos idosos que começam a retomar às suas rotinas, incluindo às estruturas que habitualmente lhes providenciavam os apoios necessários. “Mas também houve uma alteração do perfil de quem nos pede apoio. Pela primeira vez, desde o pico da crise, em 2011, temos famílias de classe média e com estudos. Muitos agregados monoparentais, sobretudo mães que não podem sair para trabalhar. Muitos jovens casais que não suportam a renda, que aqui em Benfica anda entre os 800 e os 900 euros, no caso de um T2”, explica.

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A restauração, a construção e a estética são as áreas de atividade que mais mossa estão a fazer nas famílias de Benfica. Em layoff ou mesmo sem contrato de trabalho, é o tardar e muitas vezes a falta de perspetiva do regresso à época pré-pandemia que está na origem daquilo a que o presidente chama “situações de desespero”.

“Aqui, não é só o apoio alimentar, é o mimo. Algumas destas famílias nunca pensaram sequer em ter condições financeiras para ir a um dos restaurantes do chef. Agora, sentem que estão a ter acesso a algo que está fora das suas habituais possibilidades”, adiciona. Mas é de facto na comida que assenta o apoio prestado pela câmara municipal e pela junta de freguesia.

A primeira criou há dois meses o Mercado Solidário, projeto responsável por entregar semanalmente, a dezenas de famílias, cabazes de produtos frescos, comprados a produtores que ficaram sem ter onde escoar a mercadoria. A segunda encarrega-se de fazer chegar a quem mais precisa os bens não perecíveis do Banco Alimentar Contra Fome, mas também de manter em funcionamento os cinco refeitórios escolares que continuam a alimentar crianças e não só. A resposta à pandemia levou entre 200 e 250 funcionários da Junta de Freguesia de Benfica para o terreno, incluindo as duas dezenas que formaram um call center para acompanhar pessoas em isolamento.

No total das freguesias lisboetas — 25, apenas Santa Maria Maior ficou de fora –, o trabalho envolve cerca de 500 pessoas. Não no perímetro da cozinha, é certo, pois só o chef Tanka e os seus ajudantes circulam aí, mas na operação logística que, em tempo recorde, faz chegar as refeições ao destino e as distribui pela população. No caso de Benfica, há duas carrinhas num vaivém constante. Cada viagem com cerca de 20 pizzas quentes a bordo.

“Como é que é a pizza? É congelada? Há três dias que não se fala noutra coisa”

Os moradores fazem fila. São na maioria mulheres e algumas crianças de olhar curioso. O cheiro a pizza acabada de sair do forno sente-se à medida que as caixas são levadas da carrinha para a sede da Associação de Moradores do Bairro da Boavista, o lugar que tanto serve de casa à marcha popular como recebe os produtos para distribuir por quem mais precisa.

Aqui, Tanka Sapkota é um ilustre desconhecido. Mas o jantar é recebido com satisfação, num dia da semana em que habitualmente ninguém faz fila à porta do centro. Quem recebe a caixa tem um primeiro impulso, o de se aproximar dela com o nariz. Vai morna, com a mozzarella no ponto e dois sumos a acompanhar.

Ana é uma das pessoas na fila. Ligaram-lhe no final da semana passada a avisar que haveria uma distribuição de pizzas no bairro e ainda no próprio dia a reforçar o apelo, ligeiramente diferente de quando aqui vem buscar legumes, ovos e pão. “Vim inscrever-me por causa da pandemia”, revela num tom prático e seco. Vive com a mãe e com os filhos menores e viu o ordenado subitamente encurtado por uma baixa de assistência à família. “O meu filho é que viu no telejornal” explica, sem reconhecer o chef que acaba de chegar com mais pizzas.

À medida que as pizzas são entregues na associação de moradores, são distribuídas por quem espera a sua vez

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Não é de hoje que este é um ponto de distribuição de bens alimentares, mas por estes dias os efeitos da pandemia sentem-se na quantidade de gente à porta. Segundo Bela Rebelo, presidente da associação, a lista de 60 famílias apoiadas mais do que duplicou. Rondam agora as 130 e com pequenos milagres de multiplicação pelo meio. “Se vier aqui a uma quinta-feira [dia em que são distribuídos os produtos do Mercado Solidário], vai ver que a fila chega ao fundo da rua. Tenho de tirar um bocadinho de umas para das às outras, porque não dá para contar só com as que estão inscritas, as que não estão são ainda mais”, admite a responsável.

“Como é que é a pizza? É congelada? Há três dias que não se fala noutra coisa”, continua Bela. “Depois de darmos a quem está na lista, vemos de sobra alguma coisa”. Com cerca de 4.000 moradores, este é o maior bairro municipal da freguesia, mas isso não faz dele o foco mais flagrante de Benfica. Segundo Ricardo Oliveira, é no Bairro do Calhariz, por onde a boa vontade do chef Tanka também já passou, que se concentra o maior número de situações de carência alimentar. “Aqui há estruturas familiares mais chegadas, apoiam-se mais. O outro bairro acaba por estar mais desprotegido nesse aspeto”, indica o presidente.

Para Bela Rebelo, também ela uma moradora do bairro, até a capacidade de entreajuda a pandemia afetou. “Está cada vez pior. Não sabemos como dar a volta. Há aqui muita gente que sempre precisou, mas que se ia aguentando de uma maneira ou de outra”, desabafa. Mesmo as famílias mais numerosas, que chegam a ter entre dez e 15 membros, deixam de ter forma de se apoiarem entre si, num empobrecimento sem fim à vista.

“Há toda uma economia informal — as pessoas que vão à venda, as que vendem nas feiras, que trabalham no ramo da estética, mas que recebem às unhas que fazem ou ao cabelo que arranjam. Foram estes trabalhos os mais lesados e não se podem habilitar a nenhum dos apoios porque não fazem descontos, não têm recibos”, explica o presidente da Junta de Freguesia. “E depois também ninguém estava preparado para este colapso da economia formal — trabalhadores da construção que recebem ao dia, pessoas da restauração. Não foi só o facto de ter encerrado, é a retoma que é muito lenta”, completa.

Este ano, não há marcha, mas há um menu de Santos Populares confecionado na cozinha comunitária do bairro, e entregue pela Uber Eats em toda a cidade. Empurrões que fomentam a ambição local de aqui montar uma panificadora e, curiosamente, uma pizzaria. Regra geral, os entregadores não entram no bairro, mas, depois da passagem de Tanka Sapkota, a vizinhança é bem capaz de lhe tomar o gosto. A Câmara Municipal de Lisboa já deu o aval e o presidente da Junta de Freguesia aponta para setembro. Quanto ao chef, para já ainda com mais três semanas de estrada pela frente, quem sabe se não poderá voltar ao Bairro da Boavista, mas com mais tempo.

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