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Trump fez uma "grande mudança" na sua posição sobre a Ucrânia. Mas só "os seus sentimentos" não ajudam a "mudar o jogo" no terreno

Trump ainda quer pôr fim à guerra mas mudou de posição sobre o "como". No terreno, a guerra continua a ser travada devagar e com drones. Ameaças, sanções ou armas, por si só, não deverão mudar isso.

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“Toda a gente achava que a Rússia ia ganhar esta guerra em três dias, mas não foi bem assim. Não está a fazer com que a Rússia fique bem vista, está a fazer com que fique mal vista.” As palavras foram deixadas esta terça-feira por Donald Trump, a partir do púlpito das Nações Unidas. À sua esquerda, na segunda fila do anfiteatro, os membros da delegação russa, de telemóvel em punho, gravavam a intervenção. “Se a Rússia não estiver pronta para um acordo, os Estados Unidos estão totalmente preparados para impor uma ronda de pesadas tarifas”, continuou o Presidente dos Estados Unidos.

A pressão do chefe de Estado norte-americano sobre a Rússia durante a sua longa intervenção no 80.º debate da Assembleia Geral era, por si só, assinalável. Porém, foi já depois do seu discurso que Trump protagonizou uma verdadeira reviravolta na sua política externa em relação à guerra na Ucrânia. Depois de um breve encontro com o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, o líder dos EUA recorreu às suas redes sociais para declarar que “a Ucrânia está em posição de lutar e GANHAR de volta toda a Ucrânia na sua forma original”.

A declaração é absolutamente inédita. A administração norte-americana tem defendido que a Ucrânia não está em posição de combater a Rússia e que concessões territoriais são inevitáveis para pôr fim à guerra. Apesar de alguns ziguezagues nesta postura — desde a visita de Zelensky à Casa Branca, em fevereiro, quando foi acusado de “não ter cartas na mão”, ao encontro mais recente em agosto, em que Trump recusou a adesão de Kiev à NATO ou a manutenção da Crimeia —, nunca o Presidente norte-americano foi tão inequívoco no seu apoio a uma vitória ucraniana sobre a Rússia.

epa12308553 United States President Donald J Trump (R) meets President of Ukraine Volodymyr Zelensky (L) in the Oval Office of the White House in Washington, DC, USA, 18 August 2025.  European Leaders are at the White House in support of President Zelenskyy following President Trump’s meeting with President Vladimir Putin of Russia in Anchorage, Alaska, USA, on August 15, 2025.  EPA/AARON SCHWARTZ / POOL

▲ A posição de Trump em relação a Kiev tem-se alterado, mas nunca tinha sido tão inequívoca

AARON SCHWARTZ / POOL/EPA

Do outro lado da moeda, na mesma publicação, aumentou ainda mais a pressão sobre a Rússia, que classificou como “um tigre de papel” em vez de uma “Verdadeira Potência Militar”. “Putin e a Rússia estão em GRANDES problemas económicos e esta é a altura de a Ucrânia agir”, escreveu, acrescentando que além de recuperar “a forma original do país”, Kiev “podia, quem sabe, ir além disso”. Pela utilização simultânea das expressões “fronteiras originais” e “fronteiras a partir de onde a guerra começou”, não é claro se Trump refere também à manutenção da Crimeia — território ucraniano, mas que se encontra anexado de facto pela Rússia desde 2014, anos antes da invasão russa de 2022.

Em qualquer um dos casos, esta reviravolta na posição, por si só, não se faz sentir na frente de guerra, que continua bloqueada. “[Trump] precisa de investir mais e falar menos“, criticou Ihor Romanenko, antigo comandante adjunto das Forças Armadas ucranianas à Al Jazeera. Ou seja, passar das palavras aos atos. Mas as simples palavras do Presidente norte-americano foram suficientes para fazer Moscovo e Kiev reagir. A Rússia desvalorizou-as, mas, na Ucrânia, estas acenderam uma esperança de mudança concreta e de mais apoio — um pedido que Zelensky não tardou a reiterar.

A contraofensiva ucraniana no leste e os avanços russos em Kharkiv. A realidade militar que mostra que “a Ucrânia não está a perder”

No final da semana passada, nas vésperas de partir para Nova Iorque para a Assembleia Geral, Volodymyr Zelensky anunciou que as tropas ucranianas tinham recuperado o controlo de uma série de localidades na frente de combate a leste, na região do Donbass, num total de 360 quilómetros quadrados. Com o Presidente fora da Ucrânia, a contraofensiva continua a dar frutos, segundo a análise do Institute for the Study of War (ISW).

Esta semana, as forças ucranianas somaram avanços na direção de Borova, na região ocupada de Lugansk, e de Dobropillya, em Donetsk, onde as forças russas estavam a avançar rapidamente. De forma mais relevante, a Ucrânia continua a conseguir travar os ataques russos em Pokrovsk, uma cidade estratégica que a Rússia tenta tomar há já um ano, sem sucesso. Ainda que pequena, a contraofensiva é “importante”, defendeu Zelensky. “Não é uma vitória grande, mas significa que não estamos a perder“, declarou, em entrevista à Fox News esta terça-feira.

Apesar dos sucessos militares no Donbass, noutras regiões o cenário altera-se. A sul, a Rússia avançou recentemente em Zaporíjia, o que levou o Exército a demitir o comandante responsável pelas tropas estacionadas na região. Nos últimos dias, as forças ucranianas travaram novos avanços, mas sem conseguir inverter a situação no terreno. Também a norte, em Kharkiv, se verificaram avanços das tropas russas, que não obtiveram resposta ucraniana. Esta terça-feira, o Ministério da Defesa russo anunciou publicamente a intenção de capturar a cidade de Kupyansk, localizada em Lugansk, mas que funciona como “um portão importante” para a região de Kharkiv e para a “faixa fortaleza“, o último território do Donbass que a Rússia não conquistou.

“Faixa fortaleza”. A última linha ucraniana que Putin não consegue conquistar pela força e quer ganhar nas negociações

Trata-se de uma declaração controversa da Rússia, que assume publicamente o interesse pelas regiões de Kherson, Zaporíjia, Lugansk e Donetsk, mas não coloca Kharkiv na lista de territórios não-negociáveis para um acordo de paz. No entanto, o ISW argumenta que “o comando militar russo pode estar a delinear explicitamente o seu interesse operacional na área [de Kupyansk] de forma a justificar as baixas significativas e o tempo que as forças russas perderam ao longo do último ano” com os ataques à região. E reitera que, ao ritmo atual, as forças russas demorariam anos a conseguir ocupar Kharkiv.

Ora, esta realidade militar terá sido o foco da breve reunião entre Zelensky e Trump desta terça-feira. À saída, o Presidente Donald Trump declarou que, agora, “conhecia e compreendia totalmente” a situação militar e que, por esse motivo, acreditava na capacidade da Ucrânia para recuperar todos os territórios ocupados — mais de um quinto do seu território.

"Acho que o Presidente [Trump] sabe alguns detalhes [sobre realidade na frente de batalha], sabe mais detalhes do que antes. E estou feliz por isso e estou agradecido, a ele e às pessoas que o informaram."
Volodymyr Zelensky, à saída do encontro com Donald Trump

Trump pode “mudar o jogo”, mas para isso é preciso (muito mais) “armas”

Os tímidos sucessos da contraofensiva ucraniana no leste não inverteram totalmente a balança de forças entre Ucrânia e Rússia. O reconhecimento é feito por Zelensky, que continua a admitir que a Ucrânia permanece “numa posição muito difícil”. Um responsável militar da NATO, ouvido pelo New York Times à margem da Assembleia Geral, foi mais longe: se a Ucrânia não foi capaz de ganhar território de forma significativa quando a ajuda norte-americana estava “no seu pico” — ainda com a administração anterior —, como será capaz de o fazer agora, quando os Estados Unidos não apresentaram qualquer proposta concreta para restaurar essa dimensão de ajuda?

As palavras de Donald Trump não deram a entender sequer que o faria no futuro próximo. O sucesso ucraniano, escreveu, será alcançado com “tempo, paciência, e apoio financeiro da Europa”. “Trump está a referir-se à continuação do programa revisto de entrega de armas, em que através da NATO, os países europeus pagam por armas dos EUA para a Ucrânia”, interpreta Dan Sabbagh, editor de Defesa e segurança do The Guardian. “Ainda que isto ajude claramente a Ucrânia, não há grande reviravolta dramática no campo de batalha, numa guerra que é travada em grande parte através de drones“, elabora.

Para alcançar essa “reviravolta” que conduza à “vitória ucraniana” seria preciso não só muito mais armas dos Estados Unidos, como “provavelmente intervenção militar direta de parte do Ocidente”, argumenta. A leitura de Volodymyr Zelensky é bem mais otimista: o chefe de Estado ucraniano considerou que as declarações de Donald Trump podem mesmo “mudar o jogo” e apresentou algumas justificações para esta “grande mudança” na sua posição.

“Acho que o Presidente sabe alguns detalhes [sobre realidade na frente de batalha], sabe mais detalhes do que antes. E estou feliz por isso e estou agradecido, a ele e às pessoas que o informaram”, relatou, numa conferência de imprensa, já depois do encontro e da publicação de Trump nas redes sociais. Horas depois, em entrevista à Fox News, sugeriu outras justificações.

epa12401972 Ukraine's President Volodymyr Zelensky speaks during the General Debate of the 80th session of the United Nations General Assembly (UNGA) at the United Nations headquarters in New York, USA, 24 September 2025.  EPA/KENA BETANCUR

▲ Na Assembleia Geral, Zelensky reiterou a necessidade de "armas" para mudanças no terreno

KENA BETANCUR/EPA

“Acho que não tínhamos uma boa relação porque não tínhamos — talvez — tempo. É bom termos chamadas telefónicas e reuniões frequentemente”, declarou. E ainda: “O facto de Putin ter mentido ao Presidente Trump tantas vezes também fez diferença entre nós.”

Apesar do otimismo, Zelensky reconheceu que a visão de Donald Trump só pode ser concretizada através de garantias de seguranças, que continuam por fechar. “Não quero mentir, não tenho detalhes específicos”, declarou aos jornalistas na terça-feira. Esta quarta-feira, a partir do púlpito das Nações Unidas, Zelensky foi mais concreto e reiterou a necessidade de armas e apoio internacional de que o sucesso de Kiev depende.

“O Direito Internacional não funciona sem amigos poderosos que estão verdadeiramente dispostos a defendê-lo. E mesmo isso não funciona sem armas. É terrível, mas sem isso, as coisas vão ser ainda piores. Não há garantias de segurança a não ser amigos e armas“, declarou, insistindo, uma e outra vez, que isso é importante, mas é preciso ir além dos “amigos e armas” para garantir a segurança de cada Estado — a começar pela Ucrânia.

A “confiança calma” do Kremlin que não hostiliza o “empresário” Donald Trump

Apesar das evoluções no campo de batalha, a realidade militar não foi o foco do discurso de Trump nas Nações Unidas e da consequente publicação nas redes sociais. Em vez disso, o Presidente norte-americano focou-se na realidade económica da Rússia — e o retrato que fez foi bastante negativo. Trump ameaçou aplicar sanções e descreveu um cenário em que “é quase impossível obter gasolina nas longas filas que se formam (…) em Moscovo e em todas as Grandes Cidades, Vilas e Distritos e toda a Rússia”.

"A Rússia não é um tigre, está mais próxima de um urso. E não há ursos de papel. O Presidente Putin descreveu o nosso urso repetidamente e não tem nada de papel: a Rússia mantém a sua resiliência e estabilidade macroeconómica."
Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin

Em resposta, o Kremlin desvalorizou as ameaças. “Trump é um empresário; ele quer assegurar os interesses económicos dos Estados Unidos. A coisa mais simples é forçar o mundo inteiro a comprar petróleo norte-americano a um preço mais alto”, declarou Dmitry Peskov, porta-voz da presidência, esta terça-feira, em entrevista à rádio russa RBC. A resposta foi elogiada pelo jornal pró-Kremlin Komsomolskaya Pravda pela sua “confiança calma”.

Uma coluna de opinião no mesmo jornal acentua a posição russa, ao ler nas entrelinhas um apelo de Trump para que os ucranianos combatam pela sua própria terra, retirando-se da equação. “Claro que ninguém considera [Trump] um Pai Natal bondoso, mas não há necessidade de sobrevalorizar os seus sentimentos. ‘Palavras não significam nada’, como ele costuma dizer”, pode ler-se.

Peskov respondeu ainda às acusações de que a Rússia tinha perdido o seu estatuto de potência militar e se tinha transformado num “tigre de papel”, por estar a arrastar uma ofensiva que deveria ter demorado “menos de uma semana”. “A Rússia não é um tigre, está mais próxima de um urso. E não há ursos de papel”, ironizou. “O Presidente Putin descreveu o nosso urso repetidamente e não tem nada de papel: a Rússia mantém a sua resiliência e estabilidade macroeconómica”, retorquiu ainda, admitindo algumas “tensões e problemas” que estão “inevitavelmente ligados à miríade de restrições e sanções económicas”, mas que os canais entre Moscovo e Washington continuam “operacionais” e disponíveis para falar de forma honesta sobre o fim da guerra.

▲ Trump ameaça Putin, mas o Kremlin garante que as linhas de comunicação continuam abertas

AFP via Getty Images

Volodymyr Fesenko, diretor do think tank ucraniano Penta, argumenta que o foco de Trump na economia russa não é, necessariamente, um sinal de apoio à Ucrânia, mas um sinal de aviso a Putin. “Trump não quer ajudar a Ucrânia a ganhar a guerra. Ele quer que a guerra acabe. Os seus objetivos não mudaram”, declarou à Al Jazeera. “Ele vê e recebe informação que a situação económica da Rússia está a ficar pior” e utiliza essa informação. “Ele vai ajudar [Kiev], sim — mas indiretamente”, rematou.

Ou seja, sem anúncio de novas sanções à Rússia ou de novos apoios à Ucrânia, a “grande mudança” na posição norte-americana não terá qualquer reflexo no campo de batalha, argumentam os especialistas. “Não vai haver passos revolucionários e sensacionais, o jogo não vai mudar, não vai haver uma única decisão que mude tudo”, remata Fesenko. Nas entrelinhas das reações de Kiev e Moscovo, esse entendimento é visível. Peskov garantiu que Putin continua a valorizar o diálogo com Trump, recusando hostilizá-lo e forçá-lo a impor sanções. Zelensky insistiu: além das palavras, só armas concretas conseguem assegurar a segurança da Ucrânia.

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