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Imóvel, de mãos atrás das costas, Vladimir Putin aguardava a entrada do seu terceiro convidado na sala do Kremlin onde estava a receber os líderes internacionais que se deslocaram a Moscovo para comemorar o 80.º Dia da Vitória. Quando este finalmente apareceu, o rosto do Presidente russo abriu-se num sorriso e deu dois passos na direção do seu homólogo. Luiz Inácio Lula da Silva abriu os braços de forma calorosa e os dois líderes abraçaram-se.
Apesar da receção quase efusiva, o Presidente brasileiro esteve longe de ser o convidado de honra. Esse lugar ficou reservado para o último líder a entrar no Kremlin: Xi Jinping. O Presidente chinês foi recebido por Putin e os dois seguiram juntos para a Praça Vermelha, onde se sentaram na primeira fila, à conversa com veteranos russos. Xi já tinha chegado a Moscovo na quinta-feira, onde assinou uma série de acordos com o seu homólogo russo. A cooperação entre os dois aliados ficou visível na postura próxima que ambos assumiram ao longo da cerimónia desta sexta-feira.
De qualquer forma, a presença do Presidente brasileiro — e também da ex-Presidente, Dilma Roussef — destaca-se, pois representa o maior país democrático a marcar presença nas celebrações da rendição do regime nazi alemão às mãos do Exército Vermelho, da União Soviética. O momento é celebrado anualmente e, até há alguns anos, contava com a presença de vários líderes ocidentais, número que foi diminuindo — de forma mais acelerada desde a invasão da Ucrânia, em 2022.
Este ano, verificou-se uma tendência inversa e o Kremlin reuniu a lista de convidados mais longa dos últimos quatro anos. Foram, ao todo, 25 líderes internacionais mais dois de regiões separatistas da Geórgia que a Rússia reconhece como Estados. O Brasil não é a única democracia na lista. A seu lado, Putin contou com Robert Fico, primeiro-ministro da Eslováquia e membro da União Europeia, que não se deixou demover pelas críticas de Bruxelas e viajou para Moscovo, enfrentando pelo caminho “constrangimentos” colocados por outros Estados da comunidade europeia.
Ásia. O convidado de honra e os abraços de Putin na Praça Vermelha
Ao longo das quase duas horas entre a chegada e a saída dos líderes internacionais da Praça Vermelha não houve qualquer dúvida sobre quem era o convidado de honra. Xi Jinping esteve sempre ao lado de Vladimir Putin, mantendo uma conversa animada entre os dois e os veteranos sentados à sua volta — por vezes, com recurso a um tradutor. No seu discurso, o Presidente russo mencionou apenas dois países diretamente: um deles foi a China.
A “amizade” e “estabilidade” da relação entre Pequim e Moscovo, que transpareceu no desfile, já tinha sido mencionada pelos dois chefes de Estado, que se reuniram na quinta-feira à tarde para assinar uma série de acordos de cooperação e fazer uma conferência de imprensa conjunta. Contudo, Xi também terá utilizado o encontro para se pronunciar pela primeira vez sobre os termos de um acordo de paz para pôr fim à guerra na Ucrânia.
▲ Xi Jinping esteve sempre ao lado de Vladimir Putin
Getty Images
O Presidente chinês terá declarado a Putin que espera um “um acordo de paz justo, de longo prazo e vinculativo”, que seja “aceite por todas as partes envolvidas”, relatou a agência noticiosa chinesa Xinhua. As declarações contrariam, ainda que de forma tímida, a posição que o Kremlin tem assumido nas negociações. Resta saber como o “amigo” Putin acolhe o conselho.
Apesar do destaque para Xi Jinping, a China não foi o único país asiático a marcar presença. O secretário-geral do Partido Comunista do Vietname, To Lam, já tinha chegado a Moscovo na quinta-feira, quando assinou um acordo de parceria estratégica. Esta foi a primeira visita oficial de Lam à Rússia e ficou sentado na primeira fila da tribuna de honra, ao lado da sua mulher. Já o Presidente da junta militar que governa Myanmar, Min Aung Hlaing, deslocou-se pela quinta vez em apenas quatro anos à Rússia, visitas frequentes que refletem uma aproximação forçada pelo alienamento do resto da comunidade internacional.
Apesar da presença chinesa, notou-se a ausência do outro grande aliado da Rússia na Ásia, a Coreia do Norte, que enviou apenas o embaixador no país e nenhuma delegação militar para desfilar na Praça Vermelha. Mas a relação entre Pyongyang e Moscovo revelou-se bem encaminhada no final do desfile. Vladimir Putin desceu à praça para cumprimentar os seus convidados e foi aí que abraçou Kim Yong Bok, um dos oficiais que comanda as tropas norte-coreanas a lutar ao lado dos russos na Ucrânia. O abraço e os agradecimentos efusivos a Kim e aos outros quatro militares do Exército de Pyongyang que também marcaram presença contrastou com a cordialidade que dirigiu à maior parte dos seus aliados.
JUST IN: ???????????????? Russia's President Putin pays respect and hugs North Korean soldiers. pic.twitter.com/HbwwtwW1SW
— BRICS News (@BRICSinfo) May 9, 2025
Europa. Um primeiro-ministro da União Europeia e um Presidente em processo de adesão
Depois de terem colocado flores na campa do soldado desconhecido, os 26 líderes — Putin e 25 convidados — alinharam-se em frente ao memorial. No segundo plano, logo atrás de Vladimir Putin estava o único político da União Europeia que marcou presença na cerimónia. Trata-se de Robert Fico, primeiro-ministro da Eslováquia que, a par com Viktor Órban da Hungria, tem sido um obstáculo em Bruxelas à ajuda a Kiev e à condenação da agressão russa.
Num novo desafio à posição comum da UE, definida por Kaja Kallas, Fico deslocou-se à Rússia, de quem a Eslováquia é dependente para as importações de gás. Os pares europeus procuraram responder. Na quarta-feira, a Lituânia anunciou que ia fechar o seu espaço aéreo ao voo de Fico, que se queixou sobre como isso “complicava de forma excecional o seu horário”. O líder eslovaco acabou por ter de fazer um desvio e só chegou à Rússia esta sexta-feira, perdendo assim o jantar de gala oferecido por Putin na quinta-feira à noite.
▲ Fico ao lado de Putin depois de colocarem flores na campa do soldado desconhecido
Apesar de ser o único líder da UE, Fico não foi o único líder europeu. Alexander Vučić, Presidente da Sérvia, também aceitou o convite russo e viu, igualmente, o espaço aéreo nos países Bálticos fechado à sua passagem. A Sérvia iniciou o processo de adesão à UE há mais de uma década, mas, sob a liderança de Vučić, o país tem trilhado um caminho cada vez mais autoritário e próximo de Moscovo.
Membro ou não da UE, a Sérvia foi alvo das mesmas críticas que a Eslováquia. A alta representante da UE, Kaja Kallas, acusou-os de estarem “do lado errado da História”, ao colocarem-se ao lado de alguém responsável por “tantas mortes desnecessárias”. Apesar de contar com o apoio de dois líderes europeus em Moscovo, Vladimir Putin não se mostrou particularmente efusivo: cumprimentou primeiro Vučić e depois Fico de forma meramente cordial e não lhes deu lugares de honra ao seu lado.
Por si só, a aparente indiferença de Putin revela a influência que tem nestes países europeus, que conseguiu levar para o seu lado, sem precisar de lhes prestar deferência — uma postura diferente à que assume face à China.
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Os aliados habituais. Lukashenko e as repúblicas soviéticas
O terceiro líder europeu que marcou presença em Moscovo é um visitante regular do Kremlin: Alexander Lukashenko. Quase três décadas depois da implosão da União Soviética, a relação do Presidente bielorusso com o seu homólogo russo difere pouco da que tinha enquanto uma república soviética: a Bielorússia de Lukashenko assemelha-se em tudo a um Estado satélite de Moscovo. Em mais uma passagem de Lukashenko pela Rússia, Putin mostrou-se bem disposto e sorridente, mas limitou-se a trocar umas palavras breves. Desta vez, a atenção do Presidente russo estava noutro líder que não o bielorusso. Ainda assim, a Bielorússia tem uma coisa em comum com a China: foram os únicos dois países mencionados diretamente no discurso de Putin.
A postura de Putin face a Lukashenko repetiu-se uma e outra vez com os líderes das antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central: Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão, assim como das duas regiões georgianas que a Rússia reconhece como Estados, a Ossétia do Sul e a Abecásia. A presença destes líderes é a menos surpreendente, já que são os únicos que nunca se escusaram a participar nas comemorações do Dia da Vitória, mesmo quando os restantes países não responderam ao convite, o que se explica pela pesada influência cultural e económica da Rússia na região.
▲ Lukashenko sentou-se à esquerda do Presidente da Arménia
Um pouco mais a oeste, os países do Cáucaso — Geórgia, Azerbaijão e Arménia — têm características semelhantes, no que toca à influência russa, mas a localização geográfica permitiu uma aproximação à Europa e à sua esfera de influência, que os restantes países da Ásia Central não alcançaram. Destes três Estados, apenas a Arménia marcou presença e o seu Presidente, Nikol Pashinyan, manteve um perfil discreto.
América. Dois amigos antigos e um líder democrático que regressa ao fim de 15 anos
A par com a Europa, o continente americano contou apenas com três representantes, todos eles acompanhados pelas respetivas mulheres. A presença de dois deles é pouco surpreendente, dados os laços históricos fundados na Guerra Fria com o bloco de leste liderado pela URSS e o facto de serem figuras assíduas nas comemorações do Dia da Vitória. Tratam-se de Cuba e da Venezuela.
Os Presidentes de Cuba, Miguel Díaz-Canel, e da Venezuela, Nicolás Maduro, já estavam na Rússia desde o início da semana e já se tinham reunido com Vladimir Putin na passada quinta-feira, para assinar novos acordos de parceria estratégica. Esta sexta-feira, marcaram presença no desfile militar. Ambos mantiverem um perfil discreto: cumprimentaram Putin, trocaram sorrisos, apresentaram as mulheres e retiraram-se. Já na primeira fila da tribuna de honra, Maduro manteve as mãos unidas, como quem reza, durante o discurso de Vladimir Putin.
A maior surpresa das Américas surgiu do Brasil. Ainda na quinta-feira, Putin recebeu o Presidente brasileiro e a mulher no jantar de gala em Moscovo. Na sexta-feira, o cumprimento animado repetiu-se, seguido de uma reunião bilateral depois do desfile militar. As críticas dos líderes europeus não demoveram Lula da Silva da visita, que definiu como “um compromisso com o multilateralismo”. Noutras ocasiões, o chefe de Estado brasileiro já defendeu o caminho do diálogo com a Rússia, principalmente em áreas como a Defesa e a Tecnologia, como destaca o El País.
Para além desta linha da política externa brasileira, Lula da Silva usufruiu ainda de uma outra ligação privilegiada com Vladimir Putin, já que ambos os países são membros fundadores dos BRICS e já privaram em múltiplas ocasiões. No entanto, esta visita marcou um regresso do líder brasileiro à Rússia ao fim de 15 anos, como o próprio lembrou durante o encontro com Putin, que disse marcar “um regresso aos planos” que têm vindo a desenvolver.
▲ Lula é recebido por Vladimir Putin num jantar de gala na quinta-feira à noite
SERGEY BOBYLEV /HOST PHOTO AGENCY RIA NOVOSTI HANDOUT/EPA
E a presença brasileira foi além do Presidente: Dilma Roussef, a ex-Presidente brasileira do mesmo partido de Lula (Partido dos Trabalhadores, PT), também se deslocou a Moscovo. A atual presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, fundado precisamente pelos BRICS, não foi recebida por Vladimir Putin como os restantes líderes internacionais, nem esteve na tribuna de honra, mas também colocou flores na campa do soldado desconhecido. Com a presença dupla em Moscovo, o Brasil parece traçar um caminho de aproximação, ao mesmo tempo que não se quer afastar de outros aliados tradicionais que, de forma inversa, se opõem à Rússia.
Entre esses aliados de Brasília também estão os Estados Unidos. Apesar da proximidade que a nova administração norte-americana tem cultivado com o Kremlin, nenhum representante oficial de Washington marcou presença no Dia de Vitória. Contudo, entre o público estiveram várias personalidades norte-americanas — entre eles Steven Seagal, o ator com nacionalidade russa que na primeira administração Trump assumiu o papel de enviado especial.
África (e Médio Oriente). Acordos militares e económicos, a presença palestiniana e a influência russa na esfera portuguesa
Com os olhos do mundo postos nos Presidentes chinês e brasileiro e nos líderes europeus que desafiaram a unidade continental, um outro grupo de líderes poderia passar despercebido: os africanos. Mas a verdade é que o continente africano esteve representado de forma bastante numerosa, quando comparado com outras partes do mundo.
Do norte de África, apenas um líder marcou presença: Abdul Fatah al-Sisi, Presidente do Egito. A União Soviética aproximou-se do Egito como um ponto de partida para alavancar a sua influência tanto no Médio Oriente como em África. Cairo e Moscovo acabaram por estabelecer uma relação mutuamente benéfica, assente principalmente em interesses económicos e estratégicos, analisam os especialistas do think tank Carnegie Endowment for International Peace. Os laços renovaram-se quando Sisi tomou o poder, já que o seu perfil autoritário fragilizou a relação do Egito com os Estados Unidos.
A aposta russa em “preencher as lacunas ocidentais” na região parece ter resultado. No Médio Oriente, isso traduz-se numa aproximação da Autoridade Palestiniana a Moscovo e na presença do Presidente Mahmoud Abbas nas celebrações. Rússia e Israel mantém uma relação ambígua: por um lado, os aliados de Moscovo são inimigos de Telavive; por outro, mantém laços económicos.
▲ Mahmoud Abbas marcou presença em Moscovo, apesar da relação ambígua da Rússia com Israel
Anadolu via Getty Images
Com os Estados Unidos muito próximos de Israel, as condenações do Kremlin aos ataques israelitas contra a Palestina e os apelos ao cessar-fogo parecem ser motivação suficiente para a AP procurar uma aproximação — o apoio tímido de uma grande potência mundial sempre é melhor do que nenhum apoio. Da parte de Moscovo, esta relação tem muitos menos relevância e os interesses na região estão mais focados na aliança com o Irão, o principal aliado na região.
Por outro lado, os investimentos de Moscovo no continente africano parecem estar a dar mais frutos. Um dos primeiros líderes a ser recebido por Vladimir Putin, IbrahimTraoré, é a prova viva desses investimentos. Traoré liderou, em setembro de 2022, um golpe de Estado no Burquina Faso e assumiu o cargo de Presidente interino. Agora, é neste país que a Rússia está a formar o Corpo de Exército de África, uma unidade do Ministério da Defesa russo, que analistas apontam como “as forças Wagner como um nova bandeira“.
O acordo com o Burkina Faso — e com outros países da região — permite à Rússia reconstruir o seu poder militar e a sua esfera de influência no continente. A relação direta de Traoré com Putin também se revelou diferente da que tem com outros líderes internacionais. O líder burquino veste sempre traje militar, de arma cintura. No Kremlin, não abdicou do uniforme camuflado — mas à cintura não tinha a sua habitual arma.
A área de influência russa também chega à Comunidade da Países de Língua Portuguesa (CPLP) — particularmente à Guiné-Bissau e Guiné-Equatorial. Os Presidentes dos dois países marcaram presença nas comemorações. Obiang Nguema Mbasogo, que lidera a Guiné-Equatorial desde a década de 1970, visitou o Kremlin ainda em setembro do ano passado e manteve-se próximo de Vladimir Putin. Para além da presença militar russa, Moscovo também substitui os Estados Unidos como o maior investidor na exploração e exportação de petróleo no país.
Os laços económicos repetem-se na relação entre a Rússia e a Guiné-Bissau — que, apesar da instabilidade política, está mais distante do cenário autocrático do seu vizinho. Umaro Sissoco Embaló já tinha estado em Moscovo este ano e, à data, investidores russos mostraram interesse em desenvolver portos e outras infraestruturas no país. No ano passado, os dois países já tinham acordado um perdão da dívida guineense, no valor de mais de 26 milhões de dólares.
▲ Os líderes africanos ficaram sentados na primeira fila da tribuna
Contudo, esta sexta-feira a relação entre Embaló e Putin pareceu marcada por mais do que um acordo económico. O Presidente guineense entrou no Kremlin com um alegre “Bonjour” e o líder russo caminhou ao seu encontro. Como com todos os líderes, a receção foi breve, mas suficiente para os dois terem trocado algumas rápidas palavras, sempre em francês.
Apesar de terem sido os mais visíveis nas imagens transmitidas pela imprensa russa, estes não foram os únicos líderes africanos que se deslocaram a Moscovo. Também sentados na primeira fila da tribuna de honra, estavam os Presidentes do Zimbabué, Emmerson Mnangagwa, da Etiópia, Taye Atske Selassie, e do Congo, Denis Sassou Nguesso. Um grupo numeroso que traduz de forma simples o aumento da influência económica e militar da Rússia em várias regiões africanas.