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Enquanto os líderes europeus demonstravam o seu apoio ao Presidente ucraniano e lamentavam a discussão na Sala Oval na passada sexta-feira, houve um chefe de governo que destoou desta onda de suporte a Volodymyr Zelensky. No X, o primeiro-ministro húngaro saiu em defesa da postura do líder norte-americano. “Homens fortes fazem paz, homens fracos fazem a guerra”, saudou Viktor Orbán, que aproveitou ainda para mandar uma farpa à Europa: “Hoje, o Presidente Donald Trump defendeu corajosamente a paz, mesmo que isso seja difícil para muitos de digerir”.
Strong men make peace, weak men make war.
Today President @realDonaldTrump stood bravely for peace. Even if it was difficult for many to digest. Thank you, Mr. President!
— Orbán Viktor (@PM_ViktorOrban) February 28, 2025
As declarações não são propriamente surpreendentes. Desde o início da guerra, Viktor Orbán tem sido a principal voz contra a ajuda militar entregue à Ucrânia pela União Europeia (UE). Acusado de adotar posicionamentos pró-russos, o primeiro-ministro da Hungria sabotou por várias vezes os esforços europeus de apoio aos ucranianos nos últimos três anos. No final de 2023, após ter ganhado as eleições na Eslováquia, o primeiro-ministro Robert Fico também se tornou um dos principais antagonistas à estratégia de Bruxelas — que se guia pela ideia de que é necessário dar força a Kiev antes de chegar a umas eventuais negociações, bem como de que a Rússia deve sair derrotada por ter começado uma guerra.
Se durante três anos Robert Fico e Viktor Orbán estiveram sozinhos numa União Europeia que sempre esteve na primeira linha no apoio à Ucrânia (e que contava com o apoio da administração Biden), a história mudou a 20 de janeiro de 2025. Desde que regressou à Casa Branca, Donald Trump tem defendido a aplicação de um cessar-fogo o mais rapidamente possível, mesmo que isso implique fazer algumas concessões à Rússia. Os líderes da Eslováquia e da Hungria ganharam, portanto, um importante aliado do outro lado do Atlântico para concretizar as ideias na política externa.
▲ Viktor Orbán e Donald Trump
Getty Images
Num momento em que a União Europeia se está rearmar e se mantém inequivocamente do lado ucraniano, as divergências do bloco comunitário com a Hungria e a Eslováquia ganham destaque, ainda para mais na véspera da reunião extraordinária do Conselho Europeu, marcada para esta quinta-feira. Durante o encontro, Budapeste já avançou que pondera bloquear um pacote de apoio avaliado em 20 mil milhões de euros que seria enviado para Kiev, isto numa altura em que o auxílio militar norte-americano está suspenso.
Por conta da pressão que Donald Trump está a fazer à Ucrânia, o país está numa posição de debilidade como nunca esteve desde fevereiro de 2022. Sem o suporte europeu, os ucranianos ficam praticamente sozinhos. Neste sentido, vão a Eslováquia e a Hungria conseguir travar a estratégia da UE para apoiar Kiev?
[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
Apoiado por Trump, Orbán vai ser mais “obstrucionista” do apoio — e já escreveu carta a Costa
No passado sábado, o primeiro-ministro da Hungria enviou uma carta ao presidente do Conselho Europeu, António Costa, com quem sempre manteve uma boa relação. Na missiva, revelada pela Euronews, Viktor Orbán escreveu que “se tornou evidente que há diferenças estratégicas na abordagem sobre a Ucrânia” entre Budapeste e Bruxelas, numa altura em que já se estava a discutir quais seriam os resultados da reunião extraordinária.
▲ Orbán enviou a Costa uma carta sobre o apoio à Ucrânia
ZOLTAN FISCHER / HANDOUT/EPA
Para Viktor Orbán, a UE devia seguir a abordagem de Donald Trump: “Deve entrar em negociações diretas com a Rússia para um cessar-fogo e uma paz sustentável na Ucrânia”. “Eu não vou adotar as conclusões escritas no Conselho Europeu extraordinário”, adiantou o primeiro-ministro da Hungria, deixando um aviso: “Qualquer tentativa de adotar uma conclusão escrita pelo Conselho Europeu seria a projeção de uma imagem de União Europeia dividida”.
António Costa respondeu ao líder húngaro, notando que efetivamente “há uma divergência no caminho para alcançar a paz” entre a UE e Budapeste. “Na Ucrânia, nós todos queremos pôr um fim à guerra da agressão com um ‘cessar-fogo e uma paz sustentável'”, salientou o presidente do Conselho Europeu, que também indicou que se deve trabalhar em conjunto “com os aliados transatlânticos” nas negociações de paz.
Neste momento que vários líderes europeus declararam ser muito importante para o futuro da Europa, o primeiro-ministro da Hungria continua, como se vê pela carta, a adotar a mesma estratégia de bloqueio à ajuda à Ucrânia. Sob o argumento de ser pelo “lado da paz”, Viktor Orbán tem criticado todos os esforços que tenham como objetivo fortalecer Kiev. Por exemplo, sobre a cimeira de Segurança em Londres, o chefe de executivo disse que os “líderes europeus decidiram que quer prosseguir a guerra em vez de optar pela paz”: “Eles decidiram que a Ucrânia deve continuar a guerra. É mau, perigoso e um erro”.
European leaders decided in London today that they want to go on with the war instead of opting for peace. They decided that Ukraine must continue the war.
This is bad, dangerous and mistaken. Hungary remains on the side of peace. Ceterum censeo.
— Orbán Viktor (@PM_ViktorOrban) March 2, 2025
Por tudo isto, o primeiro-ministro da Hungria continua a ser uma voz ativa na Europa que desafia publicamente as posições adotadas por Bruxelas sobre a Ucrânia. Aliás, alguns especialistas notam que Viktor Orbán tem subido o tom. Em declarações ao Observador, Maria Popova, professora de Ciência Política na Universidade de McGill, explica que o chefe do executivo húngaro tem as costas quentes “pelo alinhamento dos Estados Unidos em direção à Rússia”. “Antecipo que [Viktor Orbán] vá ser ainda mais obstrucionista do que tem sido desde 2022”, preconiza.
Fico é mais cauteloso — mas também deixa ameaças
Já Robert Fico, apesar de ser contra a ajuda militar à Ucrânia, tem mantido uma postura mais cautelosa nas críticas. Essa abordagem menos interventiva do que a de Viktor Orbán deve-se, em primeira instância, à ideologia. O partido do primeiro-ministro da Eslováquia, o Smer-SD, caracteriza-se como sendo de esquerda nacionalista, logo, não tão próxima do Partido Republicano como o Fidesz chefiado pelo líder húngaro, que é abertamente conservador e de direita radical.
Mas existe outra diferença. Enquanto o Fidész domina praticamente a política húngara, o Smer-SD dispõe de uma frágil maioria no Parlamento da Eslováquia. “A posição interna de Fico é precária e não pode forçar nada”, clarifica Maria Popova. Nos últimos meses, milhares de manifestantes saíram às ruas para protestar pelo que dizem ser uma “viragem à Rússia” — e o primeiro-ministro eslovaco não tem tanta margem de manobra uma retórica agressiva contra a Ucrânia e a União Europeia.
▲ Líder eslovaco, Robert Fico, sempre foi contra a ajuda militar à Ucrânia
OLIVIER MATTHYS/EPA
Ainda assim, apesar das dificuldades internas, Robert Fico tem deixado claro que não passar cheques em branco e vai continuar a defender o que acredita. Num comunicado publicado X, o líder do executivo eslovaco assegurou que a “Eslováquia não vai apoiar a Ucrânia nem financeira, nem militarmente para continuar a guerra”. Pediu também um “cessar-fogo imediato”, lamentando, contudo, que o “Presidente Zelensky e um grande número de Estados-membros da UE não o desejem”.
Robert Fico colocou igualmente o foco das suas divergências com Kiev no fornecimento de gás natural russo, que transitava por território ucraniano até ao final de 2024. No início deste ano, no entanto, as autoridades ucranianas interromperam o fluxo desde a Rússia, o que irritou profundamente o primeiro-ministro eslovaco. “A situação é absurda”, reiterou no comunicado no X publicado este domingo, acrescentando que é “impossível garantir a competitividade da Europa sem o fornecimento de gás russo através da Ucrânia”.
“A assistência que a UE e a Eslováquia providenciam à Ucrânia não é um bilhete só com um sentido”, avisou Robert Fico, ameaçando que se a reunião extraordinária “não respeitar outras opiniões além de simplesmente continuar a guerra, o Conselho Europeu pode não ser capaz de concordar nas conclusões sobre a Ucrânia na quinta-feira”.
REGARDING YESTERDAY’S TRUMP – ZELENSKY MEETING pic.twitter.com/T9C4aHdXDh
— Robert Fico ???????? (@RobertFicoSVK) March 1, 2025
Vão conseguir os dois líderes gerar danos ao apoio à Ucrânia? “Seria loucura” e “pressão” europeia é possível
Os dois primeiros-ministros foram transparentes sobre as suas exigências — pedem um cessar-fogo imediato, o início de negociações de paz da UE com a Rússia e o fim do apoio militar a Kiev, se bem que Robert Fico tenha sublinhado no X que “se os outros escolherem esse caminho, respeita”. Existe agora uma questão: será que podem mudar as suas opiniões?
Nesse sentido, o Presidente francês, Emmanuel Macron, já entrou em cena e convidou Viktor Orbán para o visitar em Paris, com quem se encontra esta quarta-feira à noite. Os dois líderes falarão sobre a guerra na Ucrânia na véspera da reunião extraordinária do Conselho Europeu. Tendo em conta o contexto, tudo parece indicar que o chefe de Estado francês tentará convencer o primeiro-ministro a ceder nas suas posições.
Para Maria Popova, será “possível pressionar a Hungria para que a posição dominante europeia ganhe o dia” na reunião extraordinária do Conselho Europeu. A especialista recorda ao Observador que “o governo húngaro precisa de fundos da UE e não pode levantar a bandeira do Hunexit [designação da saída da Hungria da União Europeia], porque não seria popular entre o eleitorado húngaro”.
▲ Macron convidou Orbán para ir a Paris falar sobre a guerra na Ucrânia
Zoltan Fischer HANDOUT/EPA
Tal como acontece na Eslováquia, as questões internas poderão moldar a posição de Viktor Orbán. A professora de Ciência Política na Universidade de McGill frisa que o “governo de Orbán enfrenta a oposição doméstica mais bem organizada numa década”, o que pode “constranger o quão obstrucionista Orbán pode ser na reunião extraordinária” do Conselho Europeu. Maria Popova refere-se ao movimento da oposição liderado por Péter Magyar — cujo movimento político, segundo as sondagens para as eleições parlamentares de 2026, está à frente do Fidesz.
Ao Observador, Alexander Duleba, cientista político e membro do think tank Slovak Foreign Policy Association, concorda que a UE “tem os meios para pressionar quer Orbán, quer Fico, para não vetarem as conclusões da cimeira”. “Se eles o fizerem, entrarão em conflito direto com a maioria dos aliados europeus de que dependem a prosperidade e a segurança da Hungria e da Eslováquia. Seria uma loucura da sua parte.”
Plano de rearmar a Europa pode também sofrer oposição?
Para além do apoio à Ucrânia, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apresentou um novo plano destinado a aumentar o investimento nas indústrias da defesa e segurança europeias, que será discutido pelos 27 Estados-membros na cimeira extraordinária desta quinta-feira.
▲ Von der Leyen apresentou o plano Rearmar Europa
OLIVIER MATTHYS/EPA
Este reforço não é problemático nem para Viktor Orbán, nem para Robert Fico. Na carta que António Costa escreveu, o presidente do Conselho Europeu “saudou o facto de não haver objeções” ao plano para a defesa europeia. No comunicado no X, Robert Fico enfatizou que a “Eslováquia respeita a necessidade de a Europa aumentar as suas capacidades defensivas”.
Mesmo assim, existe um problema para os dois líderes: parte do equipamento militar pan-europeu que vai ser adquirido através do empréstimo total de 150 milhões, anunciado esta terça-feira por Ursula von der Leyen, poderia ser emprestado à Ucrânia. Considerando o que os primeiros-ministros defendem, este ponto vai gerar desacordo.
De qualquer forma, Alexander Duleba acredita que a presidência de Trump “fortalece as posições de Orbán e Fico na sua política contra a União Europeia” na questão da guerra da Ucrânia. Com mais força, o especialista conjetura que os dois líderes podem tornar o funcionamento da “iniciativa de defesa e de segurança europeia mais problemática”.
Porém, o membro do think tank Slovak Foreign Policy Association sublinha que a Hungria e Eslováquia “não vão conseguir parar o plano”. “Nem Trump quer; pelo contrário, Trump quer” reforçar o investimento da defesa na Europa. Aliás, uma das queixas mais frequentes do Presidente norte-americano consiste no quão pouco a Europa, no quadro da NATO, gasta na sua própria segurança. “Se Orbán e Fico bloquearem a iniciativa, isso não seria pró-americano, mas seria antes uma movimentação pró-russa dentro da UE.”
Perante essa ameaça e num contexto geopolítico incerto, alguns eurodeputados estão a planear uma movimentação ousada, mas que estará muito longe de ser aprovada: retirar o direito de veto à Hungria no Conselho Europeu. Segundo apurou o Politico, o partido federalista Volt, membro da família europeia dos Verdes, enviou um plano de ação aos líderes dos Estados-membros para retirar os “direitos de veto húngaros”.
▲ Volt quer tirar o direito de veto à Hungria
IGOR KOVALENKO/EPA
Em contracorrente com a maioria dos Estados-membros, a Hungria e a Eslováquia continuam a ser países que, para Maria Popova, ainda estão “isolados” face à vontade maioritária da União Europeia no que toca à ajuda à Ucrânia. Ainda que possam bloquear algumas iniciativas, a sua influência está longe de determinar todas as políticas europeias. “Se podem fazer algo, passa por eventualmente influenciarem alguns líderes europeus e convencê-los a que abandonem a Ucrânia e forçar o país a um acordo desvantajoso”, remata a especialista.