Reportagem dos enviados especiais do Observador a Israel
Não há mapas que indiquem o caminho para Gaza.
Para chegar perto do enclave, é preciso saber exatamente para onde se vai. Não surgem rotas no Google Maps, nem há placas de sinalização que indiquem qual a estrada por onde seguir. Partimos com uma informação privada de como nos aproximarmos da parte norte do enclave. A coordenada que nos foi dada foi suficiente, mas talvez nem fosse precisa. Ao chegar à cidade israelita de Sderot, muito perto do norte da Faixa de Gaza, já se veem algumas colunas de fumo ao longe.
Na estrada de alcatrão a vida em volta parece seguir normalmente. Há pessoas que levam sacos com compras, soldados nas paragens de autocarro e uma bomba de gasolina onde os habitantes abastecem os carros. Mas basta virar para uma estrada de terra batida para se chegar muito rapidamente perto da fronteira do enclave.
Seguimos pelo caminho de terra até ao ponto que nos foi indicado. Sabemos que não podemos entrar: desde o ataque do Hamas a 7 de outubro de 2023 e o início da invasão israelita em resposta, não é permitido a nenhum civil ou jornalista atravessar a fronteira. A única exceção é para os camiões de ajuda humanitária — atualmente apenas geridos pela organização GHF, de origem norte-americana, cujo sistema de funcionamento tem sido criticado por já terem morrido vários palestinianos perto dos centros de distribuição.
Dali estamos a cerca de um quilómetro da chamada “linha verde”, a zona de fronteira delimitada no armistício de 1949 que acabou por ditar onde acaba o Estado de Israel e começam os territórios palestinianos (Faixa de Gaza e Cisjordânia) e que é assinalada por grades de metal que contornam o canto nordeste do enclave e se prolongam em direção ao sul. É possível encontrar nos mapas os kibbutz mais perto, onde 1.195 pessoas morreram no ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, mas não conseguimos vê-los daquele local.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Estamos também a apenas três quilómetros da primeira linha de casas na zona norte da Faixa de Gaza. A olho nu não é possível ver nada a não ser uma mancha de prédios encavalitados uns nos outros, naquela que é uma das zonas mais densamente povoadas de todo o mundo. Através de uma lente fotográfica de alta resolução, porém, conseguimos ver perfeitamente os prédios totalmente destruídos, na cidade à nossa frente, Beit Hanoun. Sabemos que algures à nossa esquerda, mais a sul, estará o que resta do campo de refugiados de Jabalia, que foi bombardeado pelas IDF no final de outubro de 2023, num ataque que terá matado dezenas de pessoas e um comandante do Hamas.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 7.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui, o quinto aqui e o sexto aqui]
Aquilo que vemos num dos cantos norte do enclave são escombros atrás de escombros. Daquela distância, não há ali qualquer vestígio percetível de vida. Ao longo do último ano, os civis de Gaza foram sendo concentrados na zona sul do enclave, perto da fronteira com o Egito. Mas as operações no norte — onde o Exército israelita acredita estarem ainda escondidos responsáveis do Hamas — continuam.
A prova disso é um dos primeiros sons que ouvimos quando chegamos ao nosso ponto de observação. À frente, estende-se a Faixa de Gaza em toda a sua largura e é possível ver o mar Mediterrâneo ao fundo. Da nossa direita, na direção norte, ouve-se o som de um projétil a ser disparado. Esperando alguns segundos, olhamos para a esquerda e vemos uma coluna de fumo a formar-se no exato sítio onde caiu, no meio dos prédios. O ritual da guerra vai-se repetindo, a uma cadência de cerca de dez em dez minutos. Há alguns intervalos pelo meio, mas não há 20 minutos que passem sem se ouvir mais uma explosão.
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Duas israelitas tomam café e bolos a ver Gaza em homenagem aos reféns
Não é proibido estar no local onde estamos, a ver à nossa frente um dos vários ataques a Gaza. Por toda a estrutura de madeira daquele miradouro há autocolantes de homenagem a soldados que morreram, como um onde se lê, ao pé da foto do jovem de kippah e óculos escuros, “Viver, Ser Feliz, Acreditar”. Há também uma placa onde está escrito em hebraico “Com base na resolução da Assembleia Geral das Nações, por este meio declaramos a criação de um Estado judaico na terra de Israel”.
A prova de que é possível estarem ali civis é a chegada de duas jovens, que nos cumprimentam com um ligeiro abanar de cabeça e que se sentam num dos bancos de madeira. Trazem consigo cafés e bolos. Vão comendo e conversando baixinho, enquanto se vai ouvindo a cadência dos sons das explosões, uma e outra e outra vez.
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Acabam por nos perguntar de onde vimos e o que estamos ali a fazer. Uma delas explica que é da cidade próxima de Sderot e que vai àquele local todos os dias, em homenagem aos reféns israelitas que ainda estão em Gaza. “Só os queremos de volta”, repete várias vezes. “Quando estou deitada à noite e tenho frio, vou buscar um cobertor e penso sempre: ‘E eles, como estarão? A serem mal tratados e abusados, alguns sexualmente’”.
A jovem mostra o pin que traz sempre na camisola: o laço amarelo que representa a campanha para que os reféns sejam trazidos de volta para Israel. Quando lhe perguntamos se acha que será assinado um cessar-fogo em breve e que os reféns voltarão para casa, diz que mantém sempre a esperança, mas não está confiante. “Acho que vou ter de usar este pin para sempre”, diz emocionada.
Não é possível falar diretamente com ninguém que esteja do outro lado da cerca, em Gaza.
A interação com três soldados e uma explosão a menos de três quilómetros
Saímos do miradouro, pegamos novamente no carro e tentamos aproximar-nos um pouco mais da “linha verde”, a partir de um ponto alto. Lá em baixo, na estrada que segue paralela à rede, vão passando vários carros militares. Jipes e tanques pesados seguem a uma velocidade considerável. Alguns trazem em cima deles soldados com metralhadoras visivelmente apontadas para cima.
As explosões continuam. Ouve-se o som de cada disparo, contam-se os segundos e depois vê-se o fumo a começar a subir — primeiro cinzento escuro, depois tornando-se gradualmente branco — e a ser arrastado pelo vento até se desvanecer. Não há mais nada que possamos fazer a não ser olhar. Os únicos sons que se ouvem são os barulhos dos projéteis a serem disparados e de alguns pássaros que trinam mais perto de nós.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Ao fim de duas horas, decidimos ir embora. Não há forma de entrar em Gaza e aquele é um exercício inútil, a não ser para olhar e confirmar que a guerra continua, indiferente às notícias que falam num possível cessar-fogo para breve. Entramos no carro, mas apercebemo-nos de que não é possível fazer inversão de marcha, porque entretanto chegou um jipe militar que nos bloqueou a passagem.
Saímos do carro e aproximamo-nos dos três militares das IDF que vêm na nossa direção. Estendemos imediatamente os passaportes e o documento que prova que somos jornalistas, enquanto um deles nos pergunta de onde somos. Explicamos que viemos de Portugal e que queríamos testemunhar o que se passa na fronteira com Gaza. Os militares entreolham-se e sorriem. “Vieram ver a vista?”, pergunta um, em tom descontraído. Outro é mais direto: “Vieram para ver o espetáculo, não foi?”, pergunta, antes de soltar uma pequena gargalhada.
Num tom educado e até simpático, sublinham que temos de sair dali, para garantir a nossa própria segurança. “É perigoso”, repetem. Nesse preciso momento, ouvimos um barulho ainda mais alto do que qualquer outro que ouvimos desde que ali chegámos. Viramo-nos e vemos que esta explosão está a acontecer muito perto da fronteira, mesmo atrás de nós. Assistimos ao subir da nuvem de cogumelo cinzenta escura, quase preta. Estamos tão perto que conseguimos ver uns lampejos laranja das chamas. “Veem?”, comenta um dos soldados.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Regressamos ao carro. De volta à estrada de terra batida, não se vê mais ninguém, e o silêncio é apenas interrompido pelo som de um ou outro explosivo que vai sendo lançado. Até chegarmos à bomba de gasolina por onde entrámos: aí já se ouvem os barulhos da vida quotidiana, como o motor de um carro a arrancar e uma buzinadela de um condutor apressado.
Saímos pela estrada principal, que no sentido contrário também não tem qualquer placa a assinalar onde fica a Faixa de Gaza. Voltamos a passar por Sderot, onde os autocarros trazem pessoas a regressar dos seus empregos e levam alguns soldados, talvez de licença, de volta às suas casas em cidades como Haifa, Telavive ou Jerusalém.
Mais tarde, ao final do dia, lemos as notícias nos nossos telemóveis e ficamos a saber o que esteve verdadeiramente a acontecer no enclave. Segundo os números dados pelas IDF e pelo Hamas, respetivamente, em Gaza terão morrido naquele dia um soldado das IDF e 139 palestinianos. Entre eles estava o diretor de um dos hospitais da Faixa de Gaza, o Hospital Indonésio. Fica nos arredores de Beit Hanoun — a cidade que esteve mesmo em frente aos nossos olhos ao longo daquela tarde.