A tese

A porta-voz do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, confrontou na terça-feira Paulo Portas, do CDS-PP, com uma análise da balança comercial portuguesa em que afirmou que “apesar de se ter registado uma ligeira melhoria em 2014, a balança comercial do país voltou a descarrilar e, hoje, está negativa“. Paulo Portas reagiu rapidamente e desmentiu a bloquista, dizendo que esta “não tem de estar bem informada sobre tudo”. “Números são números, dados são dados”, afirmou o líder do CDS-PP, assegurando que “a balança comercial não está negativa – a balança comercial [compra e venda de bens e serviços ao exterior] está há três anos positiva”. Quem tem razão?

Os factos

O último Boletim Estatístico do Banco de Portugal dá a resposta a esta questão. O saldo da balança comercial de bens e serviços foi positivo em 698 milhões de euros no primeiro semestre deste ano.

Este é o número global, calculado pelo Banco de Portugal. Uma desagregação entre bens e serviços mostra, contudo, que Portugal continua a importar mais bens do que a exportar. Mas essa diferença é compensada pela balança dos serviços, onde Portugal exporta quase o dobro do que importa.

Vamos aos números do Banco de Portugal, começando pelos bens. No primeiro semestre de 2015, Portugal importou 30.089 milhões de euros em bens, 4,1% mais do que no mesmo período do ano passado. Nos primeiros seis meses de 2015 o país exportou, contudo, 25.247 milhões de euros, mais 5,7% do que no período homólogo.

A balança inverte-se, porém, com os números dos serviços, impulsionados pelo turismo. Portugal exportou 11.119 milhões em serviços no primeiro semestre (mais 5,3% do que no período homólogo) e importou 6.169 milhões, um valor que sobe 6,3% face ao mesmo período do ano passado.

Ao contrário do que disse Catarina Martins, a julgar pelos dados do Banco de Portugal referentes ao segundo trimestre, a balança comercial não só está positiva como está a crescer (dilatou-se em 27,4% no segundo trimestre). Para defender que não houve uma mudança do “perfil da economia portuguesa”, a porta-voz do Bloco de Esquerda afirmou que “quando houve um alívio no rendimento, nomeadamente graças ao Tribunal Constitucional, aumentou ligeiramente o consumo e aumentaram, logo, as importações”.

Para mais detalhes e para um registo de como estes indicadores têm evoluído, os gráficos do Banco de Portugal ilustram a evolução das exportações e das importações, na taxa de variação homóloga, desde o início do ano passado. Catarina Martins tem razão ao dizer que as importações aceleraram um pouco nos últimos trimestres, mas isso não chegou para superar as exportações.

exportações Edgar Caetano

Fonte: Banco de Portugal

Nas importações:

importações Edgar Caetano

Fonte: Banco de Portugal

Não só a balança comercial de bens e serviços está positiva, como a Balança Corrente e de Capital está a subir. Este indicador soma à balança comercial de bens e serviços outras componentes como juros, remessas de emigrantes e dividendos. Segundo os dados do Banco de Portugal, entre janeiro e junho esta balança (mais representativa do país de emprestar e pedir emprestado lá fora) soma quase 1.430 milhões de euros.

“Números são números, dados são dados”. Paulo Portas lembrou que Catarina Martins não é economista – “eu também não sou, não tem de saber tudo”. Mas pediu à líder do Bloco: “Não diga que a balança comercial está negativa porque não está. Em 40 anos só tivemos três anos – caminhamos agora para o terceiro – de balança comercial positiva. Isso é um extraordinário êxito do país e das empresas, não é do governo”.

Conclusão

Errado. A balança comercial (importações vs exportações) de bens continua negativa mas os serviços mais do que compensam esse registo. A balança comercial não só está positiva como se dilatou no primeiro semestre, segundo o Boletim Estatístico publicado pelo Banco de Portugal a 20 de agosto.

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