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Antes de começar a ler esta newsletter, deixamos uma pergunta simples e de resposta rápida: sabe os valores do seu colesterol? E outra pergunta: sabe que isso pode ser a diferença entre viver ou morrer? Temos um inquérito rápido (demora menos de trinta segundos) cujas respostas podem ser úteis para nós e para a sua saúde. As linhas que se seguem ajudam a explicar porquê. Responda AQUI. |
Marina Boavida sofreu um enfarte aos 40 anos. Não tinha fatores de risco, era cuidadosa com a alimentação e evitava o sedentarismo, controlava a pressão arterial . tendencialmente mais baixa do que o oposto — não tinha colesterol elevado. O único senão era o stress e alguma herança genética, desconhecida até então, pois a mãe morreu há muitos anos, vítima de enfarte, e o pai também tinha um problema de coração. A jornalista Paula Sofia Luz ouviu a sua história, em sua casa, junto da família e de uma rede de amigos que a têm ajudado a recuperar a vida. Com ela seguiu o fotojornalista Francisco Romão Pereira. |
Com uma vida profissional intensa, dois filhos gémeos e uma rotina atarefada foi num momento em que estava a cuidar de si que teve os primeiros sintomas. Onde? No ginásio, enquanto caminhava na passadeira. Ignorou a indisposição que pensou ser passageira, certamente devido a alguma virose que os filhos — com então cinco anos — teriam trazido do jardim de infância. Não parou o exercício, continuou e conforme caminhava mais depressa mais nauseada ficava. “Decidiu abandonar o treino, foi ao balneário mudar de roupa e, no trajeto até ao carro, começou a sentir também uma dor no peito”, descreve a jornalista. Não era uma dor qualquer. Nas palavras de Marina, era “agonizante, ia do peito às costas.” |
Marina fez o que muitas pessoas que têm um enfarte ou AVC fazem por não se aperceberem logo da gravidade da situação: esperam algum tempo e ignoram o impulso de contactar desde logo o 112 — que ativa posteriormente a Via Verde Coronária e a Via Verde AVC e permite um socorro mais rápido e direcionado para este evento súbito — e telefonam a algum familiar. Marina ainda voltou para casa, a conduzir, e ligou ao marido que, perante a descrição da gravidade da situação, aconselhou-a a contactar o 112. Assim fez. Também a equipa que foi a sua casa se enganou: achou tratar-se de uma crise de ansiedade. Os sintomas relatados eram muito semelhantes, o que pode induzir a dúvida. |
Chegada ao Hospital do Montijo tudo foi muito rápido, qual filme de ação. Estava em paragem cardíaca e foi levada diretamente para a sala de reanimação, momento que considera como traumatizante. Foi depois reencaminhada para o Hospital de Setúbal para ser submetida a um cateterismo [procedimento que permite observar as artérias coronárias, confirmar o diagnóstico e, se necessário, realizar a desobstrução das mesmas]. O susto, afinal, era algo mesmo grave, que a obrigou a estar internada durante dois meses no Hospital do Barreiro. “O meu coração estava tão debilitado que o simples transporte de sair de uma cama com uma cadeira de rodas e de uma cadeira de rodas para uma maca… deixava-me exausta”, partilha. Quando voltou para casa começava uma jornada de recuperação demorada mas necessária. Afinal, não conseguia percorrer três metros sem parar, era muito difícil levantar-se, tomar banho, fazer esforços. O enfarte trouxe-lhe medos que nunca experimentara, como andar de carro ou ficar sozinha. |
A ajuda dos filhos, de amigas, de médicos cardiologistas foi essencial. E o marido Paulo Lopes nunca a deixou vergar. Esteve presente em tudo, tratava de todas as tarefas — sobretudo com os filhos — e acompanhava a mulher nas consultas. Até que ele próprio, em outubro de 2020, sofre um ataque cardíaco fulminante, em casa depois de um passeio de bicicleta. Morreu na sala, nos braços da mulher Marina e com os filhos presentes. Um duro golpe para quem ainda estava a reapreender a viver. E a rede é hoje uma parte essencial dos dias em família, a quem todos se socorrem quando necessário. Pode ler a reportagem na íntegra aqui. |
Quando custa tratar um enfarte em Portugal? E preveni-lo? Foi o que quisemos saber na rubrica Números primeiro, assinada pela jornalista Susana Marvão com infografias da designer gráfica Marina Chen. Em duas décadas, estes e outros problemas cardíacos graves custaram ao Serviço Nacional de Saúde mais de 1,8 mil milhões. “O número torna-se ainda mais relevante quando se percebe que as hospitalizações representaram, em média, quase 1% de toda a despesa anual em saúde ao longo das últimas duas décadas”, pode ler-se na reportagem, que destaca um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública que analisou analisou 61.440 episódios clínicos de síndromes coronárias agudas (situações graves causadas por coágulos nas artérias coronárias, com risco de obstruir a irrigação cardíaca) registados no sistema público de saúde durante 20 anos, entre 2002 e 2022. Em particular, o enfarte representou a maior fatia de encargos ao sistema público de saúde. |
Ouvimos especialistas e reunimos a sua visão sobre as políticas de saúde recomendadas para a tomada de melhores decisões, mas também as prioridades de investimento que devem ser seguidas no país, incluindo a prevenção, e fomos conhecer a posição de Portugal entre os 27 países da União Europeia, no que respeita às despesas com doenças cérebro-cardiovasculares por cada cem mil habitantes. |
O episódio deste mês da rubrica “Quando a minha vida mudou” dá voz a José Pato. Nasceu com uma doença rara intitulada Tetralogia de Fallot, responsável por vários sintomas na infância e, mais tarde, pelo desenvolvimento de insuficiência cardíaca. O testemunho de todo o percurso, das várias cirurgias a que foi submetido, da medicação que toma diariamente e do que esta odisseia de tratamentos tem representado na sua vida de marido, pai e profissional pode ser visto aqui. |
Também foi sobre insuficiência cardíaca que falei com Luís Filipe Pereira, ex-ministro da Saúde e presidente da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca (AADIC) em mais um episódio da entrevista “Se eu fosse ministro da Saúde”, disponível no site do Observador e nas plataformas de podcast, com transmissão na Rádio Observador, aos sábados à tarde. “É preciso haver um cuidado especial na preparação da alta e no seguimento dos doentes com insuficiência cardíaca após o internamento”, disse o também economista e professor universitário, alertando para a necessidade de haver uma melhor comunicação entre os hospitais e os centros de saúde. “Damos muita atenção ao tratamento, mas gastamos muito pouco em prevenção”, defendeu. |
Luís Filipe Pereira alertou também para a necessidade de alertar para os fatores de risco das doenças cérebro-cardiovasculares, como a hipertensão, a obesidade, a diabetes, o tabaco, entre outros. E como se pode fazer isso? “Através de ações de divulgação e de sensibilização que custam dinheiro, mas que são absolutamente essenciais.” |
Estamos em tempo de férias e as doenças não vão a banhos. Apesar de estes meses de verão serem mais leves e representarem a pausa desejada para muitos de nós, tente manter hábitos de vida saudáveis, como a alimentação equilibrada e a prática de exercício físico. Não se esqueça também de levar toda a sua medicação na bagagem para garantir que não falha nenhuma toma. |
O tempo convida também a participar em atividades e a fazer algo pela primeira vez. E isso pode ser responder ao nosso questionário. Queremos perceber se tem a preocupação de saber mais acerca dos seus fatores de risco e se considera que os meios de comunicação social podem ajudá-lo a conhecê-los melhor e a sensibilizá-lo para uma vida mais saudável. As suas respostas importam. Participe AQUI. |