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Culpa. Esse colete de forças que nos asfixia — até no Natal

01 dez. 2025, 22:30
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segunda, 01 dez. 2025
Fotografia de Paulo Farinha
Paulo Farinha
Editor de Inovação

O Natal é, no calendário católico, uma época de luz e felicidade, de alegria pelo nascimento do Messias e de reencontro de família em torno de uma tradição que há muito passou para lá da religião. A expressão “luz e felicidade” poderá trazer um desconforto a ateus e não crentes, mas a quadra encarrega-se de juntar a dose necessária de desconto pela utilização das palavras.

Hoje é dia 1 de Dezembro e muitas famílias terão aproveitado o fim-de-semana prolongado para montar a costumeira árvore de Natal. Quem já o fez (sim, há quem já o tenha feito há uma ou duas semanas) gosta mesmo da época e não resiste, quem deixou para o próximo fim-de-semana talvez não tenha tido hipótese de cumprir a tarefa no início do mês de Natal.

Mas esta não é a mais importante época do ano no calendário litúrgico de quem segue a religião do bispo de Roma — essa está reservada para a Páscoa, quando se celebra a morte e ressurreição de Cristo e a ascensão ao céu do filho de Deus. E aqui, crentes ou não, fervorosos cumpridores de rituais ou “não-praticantes”, todos encontram naqueles dias entre a sexta-feira santa e o domingo de ressurreição, passando pelo sábado de aleluia, um tempo em que vem à tona um dos mais marcantes conceitos definidores da nossa cultura, herdeira da matriz judaico-cristã: a culpa.

“A culpa é uma emoção autoconsciente que surge quando a pessoa perceciona ter tido um determinado comportamento, no qual transgrediu um valor e/ou regra importante, seja moral, social ou pessoal”, disse Cátia Rodrigues à jornalista Sara Dias Oliveira quando esta contactou a psicóloga para escrever este explicador sobre o tema — que ilustrámos justamente com uma imagem bíblica, representando a expulsão de Adão e Eva do paraíso por terem comido o fruto proibido.

“A emoção da culpa pode desenvolver-se através de um processo de socialização com os outros, onde a pessoa vai adquirindo valores, normas e regras”, diz a psicóloga. “Estas aquisições são interiorizadas através da cultura, da educação, da família ou da religião e podem influenciar e formar a experiência de culpa. ‘Nesse sentido, as situações em que a pessoa interpreta ter tido um comportamento que causou dano podem ser moduladas social e culturalmente.'”

É isso que justifica — ou melhor, que ajuda a explicar — todo o peso da culpa que tantos católicos transportarão ao longo da vida, desde que a ideia é ensinada na catequese até que é repetida constantemente em orações na missa.

Mas o sentimento revestido a construção social vai muito para lá da religião. E torna-se presente em tantos momentos da nossa vida, influenciando, claro, a saúde mental. “Quando a culpa continua a persistir de forma exacerbada, com pensamentos repetitivos sobre o comportamento, emoções como tristeza, ansiedade e vergonha, pode levar ao desenvolvimento de sofrimento emocional significativo”, diz a psicóloga Marisa Marques. “Não existe uma perturbação mental específica de culpa, mas os padrões excessivos e inadequados de culpa podem estar presentes em alguns quadros clínicos, como depressão, Perturbação de Stress Pós-Traumático ou Perturbação Obsessivo-Compulsiva.”

Há muitas razões pelas quais podemos sentir culpa, mas é sobretudo a importância que lhe atribuímos que nos pode desorientar. “As nossas emoções não refletem necessariamente a realidade daquilo que acontece à nossa volta, mas sobretudo o significado que lhe atribuímos”, disse João Moreira, professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, à jornalista Sofia Teixeira neste artigo que publicámos em agosto.

E depois, claro, há um vasto leque de caminhos pelos quais optar para lidar com a culpa: desde a motivação para o pedido de desculpas ou correção por alguma coisa má que fizemos a alguém (reforçando ou reparando laços sociais), até à aceitação de que não somos responsáveis por determinado acontecimento e que, por isso, não devemos penalizar-nos em excesso, tendo em conta o sofrimento que acarreta.

O Natal pode ser, também, uma época do ano, que puxa a culpa: culpa por não termos assim tanta vontade de passar tempo com aquele familiar, culpa por não estarmos felizes como os outros estão e desejam que nós estejamos, culpa por não ter dinheiro para prendas, culpa por não ir a casa dos pais, culpa por estarmos a celebrar uma época especial quando outras pessoas já não o podem fazer.

A culpa pode ser um terrível colete de forças. Por isso nunca é demais lembrar: uma vez que pode refletir algum desafio de saúde mental (doença ou não) ou levar a um problema emocional de relevo, a psicoterapia pode ser um caminho útil para lidar com o sentimento. Há evidência científica que mostra que os tratamentos para a depressão, stress pós-traumático ou outras questões de saúde mental podem ser importantes para lidar com a culpa. Na dúvida, não passe por isso sozinho.

Entretanto, estes foram os últimos trabalhos que publicámos no Mental, a secção do Observador totalmente dedicada à saúde mental:

Reportagens

Fotografia
Saúde

TPM. Como afeta as emoções das mulheres?

A Tensão Pré-Menstrual pode trazer ansiedade, tristeza, choro ou desconcentração. As flutuações hormonais, típicas do ciclo menstrual, influenciam o funcionamento do cérebro e do corpo.

Fotografia
Saúde Mental

Porque é tão difícil perdoar, mesmo quando queremos?

Fotografia
Saúde Mental

Culpa. Que emoção é esta e como afeta a saúde mental?

Associada a regras e valores instituídos (socialmente, culturalmente ou religiososamente), a culpa não é uma perturbação mental. Mas, em exagero, esta emoção pode causar ansiedade, depressão e stress.

Fotografia
Saúde Mental

As pessoas com doença mental são mais violentas?

Quando se fala de um crime violento, não é raro que surja associado a uma eventual doença mental do suspeito. Essa ideia corresponde à verdade ou tem mais a ver com as nossas próprias percepções?

Fotografia
Saúde Mental

As pessoas com doença mental são mais violentas?

Quando se fala de um crime violento, não é raro que surja associado a uma eventual doença mental do suspeito. Essa ideia corresponde à verdade ou tem mais a ver com as nossas próprias percepções?

Fotografia
Saúde Mental

Porque ficamos nervosos quando estamos a ser observados?

O medo do julgamento social leva-nos a sentir desconforto quando somos observados. A verdade libertadora, porém, é que os outros reparam em nós muito menos do que pensamos.

Opinião

Fotografia do Colunista
João Perestrelo

Da ansiedade à intolerância do sofrimento

A epidemia do nosso tempo não é de ansiedade, é de intolerância ao sofrimento. Não se trata apenas de um processo patológico, mas o reflexo de uma cultura que esqueceu que sentir também é viver.

Fotografia do Colunista
Gabriela Fidalgo

“Bullying não é uma “brincadeira que corre mal”

O que as escolas precisam de compreender para proteger verdadeiramente as crianças.

Fotografia do Colunista
António Pimenta de Brito

Saúde mental universitária, para além dos sintomas

Se lhes dermos exigência com afeto, empatia com verdade, talvez voltemos a encontrar o sentido da escola. E, com ele, uma saúde mental mais robusta e mais profunda. Não anestesiada. Mas conquistada.

Fotografia do Colunista
Nuno Medeiros Carrapatoso

Digital: proteger a saúde mental de crianças e adolescentes

Este texto constitui um apelo à ação dirigido a toda a sociedade, e especialmente aos atores políticos com responsabilidades, incluindo os membros do Governo, deputados e autarcas.

por falar em saúde mental

Como falar de abuso sexual infantil e deixar de perpetuar a cultura do silêncio
El País
ChatGPT não admite culpa no caso do adolescente que se suicidou
El País
Uma semana de pausa nas redes sociais: os benefícios para a saúde mental
New York Times
Três a quatro cafés diários podem atrasar o envelhecimento biológico
El Mundo
Será que sou chato? O que o meu comportamento diz sobre mim?
BBC News Brasil
As horas das refeições podem afetar a nossa saúde mental
Wall Street Journal
Quando a ansiedade fala mais alto, esta psicóloga recomenda um exercício
El Confidencial
Chamar "trauma" a tudo torna a recuperação mais difícil
Psychology Today
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