O Natal é, no calendário católico, uma época de luz e felicidade, de alegria pelo nascimento do Messias e de reencontro de família em torno de uma tradição que há muito passou para lá da religião. A expressão “luz e felicidade” poderá trazer um desconforto a ateus e não crentes, mas a quadra encarrega-se de juntar a dose necessária de desconto pela utilização das palavras.
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Hoje é dia 1 de Dezembro e muitas famílias terão aproveitado o fim-de-semana prolongado para montar a costumeira árvore de Natal. Quem já o fez (sim, há quem já o tenha feito há uma ou duas semanas) gosta mesmo da época e não resiste, quem deixou para o próximo fim-de-semana talvez não tenha tido hipótese de cumprir a tarefa no início do mês de Natal. |
Mas esta não é a mais importante época do ano no calendário litúrgico de quem segue a religião do bispo de Roma — essa está reservada para a Páscoa, quando se celebra a morte e ressurreição de Cristo e a ascensão ao céu do filho de Deus. E aqui, crentes ou não, fervorosos cumpridores de rituais ou “não-praticantes”, todos encontram naqueles dias entre a sexta-feira santa e o domingo de ressurreição, passando pelo sábado de aleluia, um tempo em que vem à tona um dos mais marcantes conceitos definidores da nossa cultura, herdeira da matriz judaico-cristã: a culpa. |
“A culpa é uma emoção autoconsciente que surge quando a pessoa perceciona ter tido um determinado comportamento, no qual transgrediu um valor e/ou regra importante, seja moral, social ou pessoal”, disse Cátia Rodrigues à jornalista Sara Dias Oliveira quando esta contactou a psicóloga para escrever este explicador sobre o tema — que ilustrámos justamente com uma imagem bíblica, representando a expulsão de Adão e Eva do paraíso por terem comido o fruto proibido. |
“A emoção da culpa pode desenvolver-se através de um processo de socialização com os outros, onde a pessoa vai adquirindo valores, normas e regras”, diz a psicóloga. “Estas aquisições são interiorizadas através da cultura, da educação, da família ou da religião e podem influenciar e formar a experiência de culpa. ‘Nesse sentido, as situações em que a pessoa interpreta ter tido um comportamento que causou dano podem ser moduladas social e culturalmente.'” |
É isso que justifica — ou melhor, que ajuda a explicar — todo o peso da culpa que tantos católicos transportarão ao longo da vida, desde que a ideia é ensinada na catequese até que é repetida constantemente em orações na missa. |
Mas o sentimento revestido a construção social vai muito para lá da religião. E torna-se presente em tantos momentos da nossa vida, influenciando, claro, a saúde mental. “Quando a culpa continua a persistir de forma exacerbada, com pensamentos repetitivos sobre o comportamento, emoções como tristeza, ansiedade e vergonha, pode levar ao desenvolvimento de sofrimento emocional significativo”, diz a psicóloga Marisa Marques. “Não existe uma perturbação mental específica de culpa, mas os padrões excessivos e inadequados de culpa podem estar presentes em alguns quadros clínicos, como depressão, Perturbação de Stress Pós-Traumático ou Perturbação Obsessivo-Compulsiva.” |
Há muitas razões pelas quais podemos sentir culpa, mas é sobretudo a importância que lhe atribuímos que nos pode desorientar. “As nossas emoções não refletem necessariamente a realidade daquilo que acontece à nossa volta, mas sobretudo o significado que lhe atribuímos”, disse João Moreira, professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, à jornalista Sofia Teixeira neste artigo que publicámos em agosto. |
E depois, claro, há um vasto leque de caminhos pelos quais optar para lidar com a culpa: desde a motivação para o pedido de desculpas ou correção por alguma coisa má que fizemos a alguém (reforçando ou reparando laços sociais), até à aceitação de que não somos responsáveis por determinado acontecimento e que, por isso, não devemos penalizar-nos em excesso, tendo em conta o sofrimento que acarreta. |
O Natal pode ser, também, uma época do ano, que puxa a culpa: culpa por não termos assim tanta vontade de passar tempo com aquele familiar, culpa por não estarmos felizes como os outros estão e desejam que nós estejamos, culpa por não ter dinheiro para prendas, culpa por não ir a casa dos pais, culpa por estarmos a celebrar uma época especial quando outras pessoas já não o podem fazer. |
A culpa pode ser um terrível colete de forças. Por isso nunca é demais lembrar: uma vez que pode refletir algum desafio de saúde mental (doença ou não) ou levar a um problema emocional de relevo, a psicoterapia pode ser um caminho útil para lidar com o sentimento. Há evidência científica que mostra que os tratamentos para a depressão, stress pós-traumático ou outras questões de saúde mental podem ser importantes para lidar com a culpa. Na dúvida, não passe por isso sozinho. |
Entretanto, estes foram os últimos trabalhos que publicámos no Mental, a secção do Observador totalmente dedicada à saúde mental: |