No próximo dia 18 de Janeiro teremos as eleições presidenciais mais abertas das últimas décadas mas também umas eleições em que o cenário mais provável é quase tudo ficar decidido já na primeira volta. Perante este quadro, parece-me oportuno apresentar como última reflexão pré-eleitoral neste âmbito as possíveis razões para votar em cada um dos 11 candidatos com candidaturas validadas pelo Tribunal Constitucional (importa recordar que os processos das candidaturas de Joana Amaral Dias, Ricardo Sousa e José Cardoso não foram aceites por terem sido detectadas irregularidades, apesar de os nomes constarem nos boletins de voto).
Apresentarei as razões pela ordem pela qual os candidatos aparecem na mais recente sondagem da Universidade Católica :
André Ventura: o candidato para quem acha que o regime está mal e acha que fortalecer o Chega é a melhor forma de enfrentar os seus problemas. Considerando a elevada taxa de rejeição de André Ventura, dificilmente vencerá uma segunda volta, mas a sua passagem será em si mesma um sinal que abalará o regime e validará as bandeiras e temas que o próprio André Ventura tem colocado na ordem do dia em Portugal.
António José Seguro: o candidato para quem deseja que a esquerda possa recuperar a Presidência da República e também para quem, não sendo necessariamente de esquerda, considera que António José Seguro tem o perfil de sobriedade e sentido institucional adequado para ser Presidente. Considerando a forma como foi afastado da liderança do PS, ver o partido a recuperar o controlo sobre a Presidência pelas suas mãos ao fim de duas décadas de afastamento seria também em certa medida uma forma de justiça poética.
João Cotrim Figueiredo: o candidato para quem acha que Portugal está muito aquém do seu potencial e imagina que é possível ter um Presidente da República que, sem destruir o regime, pode impulsionar mudanças estruturais no sentido necessário. Será também o candidato para quem, não sendo necessariamente liberal, considera que Cotrim tem o perfil de dinamismo e assertividade adequado para ser Presidente. Fruto de uma campanha excepcional, chega à recta final com a possibilidade de argumentar que só a concentração dos votos do centro-direita na sua candidatura poderá evitar uma segunda volta entre Ventura e Seguro com a consequente muito provável entrega da Presidência aos socialistas.
Henrique Gouveia e Melo: o candidato para quem deseja uma personalidade forte, independente dos partidos e com experiência de liderança militar. A ausência de experiência política torna-o na maior incógnita entre os cinco principais candidatos e ajuda também a perceber o fraco desempenho nos debates, mas simultaneamente reforça a sua marca de independência e suprapartidarismo. A campanha do Almirante fica marcada pelo forte e eficaz ataque contra Luís Marques Mendes, que classificou frontalmente como “lobista e facilitador de negócios”.
Luís Marques Mendes: o candidato para quem acha que o regime está bem e que Luís Marques Mendes tem o perfil, a experiência política e a trajetória profissional adequados para preservar o regime tal como está.
Catarina Martins: a candidata para quem, sendo de esquerda, rejeita completamente a possibilidade de votar em António José Seguro e considera importante a sobrevivência do Bloco de Esquerda.
António Filipe: o candidato para quem, sendo de esquerda, rejeita completamente a possibilidade de votar em António José Seguro e considera importante a sobrevivência do Partido Comunista Português.
Jorge Pinto: o candidato para quem, sendo de esquerda, esteve desatento durante o último debate entre os candidatos na RTP e não ouviu o próprio Jorge Pinto declarar que não seria por ele que António José Seguro não seria eleito Presidente da República.
Manuel João Vieira: o candidato para quem anseia por vinho canalizado em todas as habitações, fontes de bagaço nas ruas, patinadoras russas para todos os homens, dançarinos cubanos para as mulheres e um Ferrari para cada cidadão. Sem esquecer, claro, a criação das criptonotas de Santo António.
Humberto Correia: o candidato para quem deseja expressar um voto de protesto através de um cidadão comum não alinhado partidariamente.
André Pestana: o candidato para quem, sendo de esquerda, rejeita completamente a possibilidade de votar em António José Seguro e considera importante o aparecimento de novas forças políticas à esquerda.