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Lembro-me ainda da “invencibilidade” de Aníbal Cavaco Silva. Foi solenemente declarada nas eleições legislativas de 6 de Outubro de 1991, quando, a seguir a uma primeira maioria absoluta, o PSD atingiu uns astronómicos 50,6% do eleitorado. Nesse momento, o país achou Cavaco Silva politicamente eterno, uma espécie de fim da História do regime de Abril, julgando-se que o homem e o seu partido repetiriam continuada e infinitamente  resultados semelhantes àqueles.

Menos de três anos depois, camionistas e automobilistas fecharam a Ponte 25 de Abril em protesto contra o encarecimento das portagens. Foi esse único motivo para a contestação ao cavaquismo? Certamente que não. O país, ou uma parte significativa dele, saturara-se do “invencível” Cavaco, da arrogância com que lidava com as pessoas, dos seus trejeitos progressivamente autoritários, do enfado com que se dizia apolítico, do “deixem-me trabalhar” e do “raramente me engano e nunca tenho dúvidas”. A 1 de Outubro de 1995 o PSD foi a legislativas, mas já sem “o invencível”, e perdeu-as. Aníbal Cavaco Silva atirara, literal e despeitadamente, a toalha da liderança ao chão, que Fernando Nogueira e o aparelho laranja apanharam, mais por reflexo pavloviano do que por convicção num eventual sucesso de um projeto político que não tinham. Nogueira arderia nessa fogueira e Cavaco nas eleições presidenciais de 1996, onde é derrotado por um pardacento Jorge Sampaio, candidato socialista à revelia, ou até contra, a vontade da quase totalidade de direção do seu partido.

Se outras não tivesse, a grande virtude da democracia moderna é negativa: a destituição pacífica dos governantes por via do voto, sem necessidade de recurso à violência. Entre nós, na Europa Ocidental, parece coisa pouca, mas vão lá perguntar a um russo, um checheno, a um cubano ou a um venezuelano o que estariam eles dispostos a sacrificar por um sistema eleitoral verdadeiramente democrático e livre. É que, nesses sistemas, quando as pessoas se cansam de quem as governa elegem outros, fazendo-o tranquilamente, sem sobressaltos, nem militares ou polícias nas ruas e sem oposicionistas na prisão. Tem-nos ensinado a História que, em regra, dois mandatos seguidos saturaram os votantes, e que, salvo raras exceções, o ciclo seguinte será confiado a outros com capacidade de renovação e de novidade. Alguns ainda conseguem aguentar mais uns anos, mas não resistem muito mais. E nem grandes líderes, como Churchill ou Thatcher, escaparam a esse princípio da física política, segundo o qual quando se começa a descer, muito dificilmente se consegue inverter o sentido da marcha. Até se chegar, com estrondo, ao chão.

É isso que está a suceder a António Costa: o país e, sobretudo, o PS parecem estar cansados dele. Pode o Primeiro-Ministro argumentar com os números de votantes e de municípios conquistados, que dificilmente conseguirá reverter a perceção de declínio pessoal com que o país o olha desde domingo. O tempo demasiado no poder e a forma trauliteira e sobranceira como trata aqueles que ele acha que o ensombram já maçam muita gente. Mesmo os que (ou, sobretudo os que) ainda lhe tecem loas e lhe recitam louvores em forma de verso, coitados, quase todos por razões de pura sobrevivência e necessidade existencial.

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Mas Costa entrou em queda e nem o dinheiro da bazuca, que o seu novo-riquismo político achou que taparia todas as bocas e lhe daria todos os votos de que precisasse, foi suficiente para manter Lisboa e muitas outras praças por esse país fora. Costa está em queda e o PS profundo, fora da corte lisboeta, anseia pelo seu novo “menino de ouro”, o ministro Pedro Nuno Santos. Ainda que o Primeiro-Ministro chegue politicamente vivo às eleições de 2023, do que duvido, só um compromisso, assinado com sangue – provavelmente o seu – com o seu challenger, lhe permitirá permanecer por mais algum tempo à frente do Governo, até que o país tenha de ir antecipadamente a votos, ou, se as coisas se proporcionarem e o Presidente da República for na conversa, consiga passar o poder internamente ao seu adversário. O PS quer que Pedro Nuno, novo e carismático, lhe traga a novidade que Costa já é incapaz de lhe dar. E poder, claro.

Acontece que quem manda no país há seis anos não é exatamente o PS. Esse é um erro de perceção que será fatal a quem tiver pretensões de lhe suceder. Quem manda no país e no Governo é uma frente de esquerda liderada por António Costa, onde o PCP e o Bloco, ainda que não tenham titulares de pastas ministeriais (o que não significa não estarem bem instalados nos ministérios…), são incontornáveis e têm um incomensurável poder. Por isso mesmo, apesar de estarem a perder votos e mandatos em eleições sucessivas, nenhum desses dois partidos quebra o pacto de sangue feito pessoalmente com o chefe socialista. No momento em que o fizerem, depois da sangria eleitoral a que a geringonça os tem sujeitado (não se pode estar simultaneamente no Governo e na oposição por muito tempo…), arriscam-se à pulverização e à perda total do muito que conquistaram nestes últimos anos. E se o histórico do PCP ainda poderá dar alguma sobrevida ao partido que foi de Álvaro Cunhal, fora da geringonça, sem poder local e reduzido a um número de deputados inúteis para assegurar a governação, o Bloco estará condenado à inexistência política dos outrora PSR e UDP. Nem um táxi lhes fará falta. Por conseguinte, enquanto formarem maioria absoluta na Assembleia da República – nesta ou na que lhe vier a suceder – PCP e Bloco viabilizarão a maioria de esquerda que oxigena os seus corpos políticos depauperados. Fazem-no hoje com António Costa, fá-lo-ão, no futuro, com Pedro Nuno Santos, até com maior facilidade, porque o delfim socialista é-lhes muito próximo.

Deste modo, o único objetivo que poderá orientar politicamente todos os partidos que não queiram contribuir para manter o PS no poder não será apenas ganhar-lhe eleições. Por si só, isso não chega, como Pedro Passos Coelho infelizmente demonstrou. É necessário agregar eleitoralmente as forças não socialistas e conquistar 115+1 deputados da Assembleia da República. Contra uma frente de esquerda que está por várias razões moribunda, mas longe de morta, e um método de Hondt que castigará severamente a pulverização dos partidos que apelam ao voto do povo da direita. Desde domingo à noite que aqueles que querem tirar o PS e a frente de esquerda do Governo só podem ter duas certezas: é preciso que alguém federe os seus votos e que quem reduzir o número de deputados para atingir aquele número mágico será um aliado objetivo do Partido Socialista.