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Racismo

A deficiência moral da esquerda branca e activista

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A esquerda branca cujos rostos andam pela universidade e pela comunicação social transformou a pobreza material das minorias, por tradição circunstancial, em miséria moral que torna a pobreza endémica

A troca de opiniões entre, por um lado, Maria de Fátima Bonifácio (crítica das quotas para as minorias raciais) e, por outro lado, Manuel Carvalho (Público), Marta Muckznic (Observador), Ferreira Fernandes (Diário de Notícias) e um rol de comentadores foi bastante sintomática da psicopandemia em que vivemos. As razões são tantas que abordarei apenas algumas.

Uma panóplia de brancos discutiu com vivacidade clubística o destino das minorias raciais sem que indivíduos que partilham essas identidades interviessem. Pelo menos, com ou sem a opinião de «pretos» e ciganos, nada se alteraria numa troca de argumentos entre brancos. A omnisciência branca ou, em rigor, o narcisismo branco basta-se a si mesmo.

Este novo paternalismo branco limitou-se a reciclar o do tempo colonial. Agora já não é o dever moral dos brancos «civilizar e cristianizar os pretos» mas proteger os ditos cujos, mais os ciganos, da «discriminação». As raças inferiores, essas, continuam no quintal, no recreio, infantilizadas.

Em dias de tempestade verbal como esta, se me sobra algum respeito (ainda assim muito) reservo-o a brancos que falam em nome próprio, em defesa da sua identidade branca, como Maria de Fátima Bonifácio. Não me sinto obrigado a respeitar brancos que usurpam sentimentos, identidades, representatividades de terceiros. Não por uma birra qualquer, mas porque usurpar identidades alheias é profundamente imoral. A representatividade social existe para ser tomada a sério. Os homens não representam as mulheres; os idosos não representam os jovens; os ricos não representam os pobres; logo, os brancos não representam negros, ciganos ou quaisquer outros.

Quem não respeita isto, não respeita os outros, não respeita a democracia, não reconhece dignidade às outras identidades, mesmo quando elas preferem o silêncio, ou sobretudo por isso. Há sempre razões para silêncios, mesmo quando não são óbvias. O silêncio pode ser a forma mais inteligente, em certas matérias, para os indivíduos pesarem custos e benefícios a longo prazo.

É preciso deixar muito claro que a questão racial tem uma dimensão de dor psicológica para a intimidade de negros, mestiços, mulatos, ciganos e outros mais, e pode não ser tanto pelas razões propaladas, antes por uma impossibilidade quase genética de os indivíduos se descartarem de responsabilidades próprias no seu destino, nos seus sucessos e falhanços. Trazer tais matérias para a praça pública pode ser justamente o contrário da solução que a sanidade mental dos indivíduos pode necessitar. Há matérias em que não se deve ser invasivo da intimidade, sensibilidade, identidade de terceiros. Se é para ser estridente, desbocado, deixem que as minorias o façam na primeira pessoa.

Ninguém tem o direito de forçar um indivíduo a tomar partido, a tomar posição ou a assumir assuntos que pode querer guardar para si mesmo, para a sua intimidade. Por que razões é que quando se discute racismo são quase todos brancos? O que hoje se passa é de tal modo grosseiro que equivale mais ou menos a questionar o filho de pais de pertenças raciais distintas: Olha lá, tu és do «clube» racial da tua mamã ou és do «clube» do teu papá? Afinal tu és branco como o teu pai ou «preto» como a tua mãe?

Por absurdo que possa parecer, é deste modo que se comportam os atuais sistemas sociais face a situações de miscigenação racial, e pertenças raciais das minorias em geral. As questões identitárias foram remetidas para o espaço público por vias de tal modo patológicas que as nossas sociedades necessitam de uma profunda reforma moral.

Deixar em aberto a questão das identidades raciais, não ser social ou, pior, politicamente invasivo na matéria para que cada um decida o sentido e relevância que lhes queira atribuir em função da sua própria identidade é, por norma, a opção mais digna e favorável à gestão do interior de famílias que integram identidades raciais distintas, uma realidade crescente nos dias que correm, mas também a opção mais favorável à gestão de questões inter-raciais que oriente a ação do Estado. O papel pedagógico do Estado é o de se demarcar do fator racial, regular-se por princípios universais permitindo que a vida social tenha autonomia na gestão por si mesma do que é complexo, íntimo.

Colocar sequer a hipótese de quotas raciais jamais libertará os seus defensores de propensões totalitárias, violentas, que atingirão os supostos beneficiados, além dessa atitude ser contrária à dignidade de qualquer moral social, o referente por excelência que faz funcionar as sociedades. Estas só escapam à anomia (uma forma polida de dizer loucura) se se orientarem por valores, normas, princípios e regras universais válidas do mesmo modo para todos. É tão perversa a discriminação negativa (do passado) quanto a discriminação positiva (do presente) porque num e noutro caso está-se justamente a perpetuar a discriminação social, a fragmentação das sociedades, a recusar a unidade do género humano.

Há outro detalhe da loucura dos tempos. Ao longo de quatro séculos, negros das mais variadas origens, estatutos (as comunidades ancestrais africanas organizam-se por linhagens, isto é, desde a origem que marcam diferenças sociais), línguas, crenças, hábitos, tradições em África eram, depois, amalgamados nos países de destino da escravatura como se fossem todos iguais. Bastava serem negros para se reconverterem numa massa coletiva indistinta homogénea, para desaparecerem enquanto indivíduos e, com isso, dissolvia-se a singularidade e subjetividade que a condição humana acarreta. Por ironia, esse passado está hoje bem vivo pela ação do igualitarismo de esquerda.

Faz parte do ativismo-progressista insistir em distribuir rótulos de negros vitimizados a todos os não-brancos. Nessa amálgama cabem o dr. António Costa e demais canecos, mulatos, mestiços das mais variadas ascendências, africanos de distintas proveniências, ricos e pobres, sul-americanos, asiáticos, árabes e berberes, animistas, cristãos ou islâmicos, nascidos dentro e fora do Ocidente, entre múltiplas diversidades que até podem alimentar conflitos entre elas, no entanto, enquanto minorias tuteladas pela esquerda ficam compelidas a amar-se entre si e instigadas a odiar os brancos, a sua nova carta de alforria. Os ativismos antirracistas e anti-discriminação fazem tábua rasa da multiplicidade de sentidos de pertença, interesses, hábitos de vida, atitudes, comportamentos, costumes, tradições, condições socioeconómicas dos não-brancos.

Em matéria de relações raciais existe, portanto, uma relação direta entre ignorância e defesa convicta de determinadas posições. E não me estou a referir a Maria de Fátima Bonifácio que teve a dignidade de se colocar na pele branca, a dela. Estou a referir-me aos que partilham essa mesma pertença racial mas que vestem sem pudor a pele de «pretos», ciganos ou de outras minorias. O tal Rui Pena Pires que espoletou a atual vaga em favor das quotas para as minorias no parlamento ou nas universidades faz parte de uma universidade que nunca me deu uma oportunidade, o que me fez bater com a porta. Há minorias e minorias, «pretos e pretos», pobres e pobres. O ISCTE-IUL havia de ter vergonha nesta matéria, uma universidade carregada de brancos especializados em África – a minha área de especialização – e que fez de mim um proscrito intelectual, felizmente o preço da minha liberdade. E vejam-se as barbaridades que se escrevem e dizem sobre África. As quotas não são para os «pretos» e «ciganos», são para fabricar esquerdistas.

Mas é importante clarificar ainda outra questão. O que marca as sociedades ocidentais é o primado do indivíduo sobre o coletivo, sendo o inverso na tradição islâmica ou na tradição soviética. Isso para sublinhar que, no mundo ocidental, nunca serão os negros ou os ciganos enquanto coletivos a «subir na vida», mas todos os indivíduos de todas as pertenças raciais, e cada um por si. Negros, brancos, mestiços, pobres, remediados e todos os demais. É por serem assim que as sociedades ocidentais articulam, melhor do que muitas outras, mobilidade social com coesão social.

Por isso, é do caminho cultural da descoberta do indivíduo enquanto tal de que mais necessitam os segmentos que mais recentemente se vão integrando na tradição ocidental, as minorias.

Acontece que só é possível libertar o indivíduo do seu grupo de pertença primário ou natural (racial, religioso, étnico) quando o meio social é favorável à crítica social, ainda que ela possa ofender. É tão fundamental a crítica social entre os mais variados grupos de pertença, quanto – como muito bem explicou Nietzsche – a crítica virada para o interior do próprio grupo de pertença. A última é a condição primeira da libertação do indivíduo do coletivo primário a que está filiado, isto é, nenhum indivíduo é livre se não partir de pressuposto de criticar sempre que entender o seu grupo de pertença, a sua religião (pessoal, familiar ou dos ascendentes), o seu estado, os que no quotidiano estão mais próximos de si, as suas origens. Sem isso não existe liberdade que, no Ocidente, ou é individual ou simplesmente não existe. E não existindo nas sociedades livres e dinâmicas, o indivíduo não se consegue afirmar.

A desgraça negra, cigana ou islâmica que há décadas as empurra para a guetização é justamente filha do paternalismo da esquerda. O texto de Maria de Fátima Bonifácio deixou isso a nu. A esquerda impede, e de forma dolosa, qualquer crítica vinda de fora às minorias raciais, étnicas ou religiosas. Quem o faz é logo «racista», «islamofóbico», entre outros rótulos que visam o seu silenciamento e, se possível, assassinato social da branca ou branco que arrisque tal ousadia. Desse modo, não apenas o indivíduo pertencente a minorias sensíveis não se liberta do seu coletivo guetizado, como ainda quem pertence a uma minoria está interditado de criticar os seus grupos de pertença ou, no mínimo, o aparelho ideológico em peso (imprensa, universidades, ensino, partidos políticos, intelectuais, meios artísticos) desincentiva fortemente tais ousadias.

Mesmo que tenha razões de sobra (querer estudar, viver tranquilo, trabalhar, estar em casa em segurança e sem ser incomodado pela música do vizinho, educar os filhos e filhas, entre outros), o pobre não pode criticar o pobre, o negro não pode criticar o negro, o cigano o cigano, o islâmico o islâmico, por aí adiante. Todos só podem criticar o branco. É assim que a esquerda, a nova escravocrata, os educa a afundarem-se nos seus bloqueios e traumas.

A esquerda branca cujos rostos andam pelas universidades e pela comunicação social – Rui Pena Pires, Boaventura Sousa Santos, Manuel Carvalho, Ferreira Fernandes, Daniel Oliveira, Fernanda Câncio, Isabel Moreira, Alexandra Lucas Coelho, entre tantos outros – transformou a pobreza material das minorias, por tradição circunstancial, em miséria moral que torna a pobreza endémica. Estamos perante um grupo de indivíduos com rostos e nomes concretos (fora os internacionais) que mais tem produzido pobreza, instabilidade social, violência, desintegração social entre as minorias. Sujeitos moralmente patológicos.

Claro que estas matérias não se esgotam aqui. Mas é por uma profunda diferença na orientação da moral social (matéria para outros textos) que são contranatura – e ainda bem! – as aproximações entre a direita e a esquerda. Não vejo qualquer problema moral, bem pelo contrário, na aproximação entre a direita moderada e ideias e movimentos que uns apressados rotulam de extrema-direita. Antes vejo um problema moral profundo na aproximação entre a direita moderada e a esquerda moderada e qualquer outra esquerda, as últimas moral e intelectualmente falidas e, por isso, nociva para as sociedades.

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