“Nunca se viu nada assim!”, estas são as palavras que Isabel Jonet (cara do Banco Alimentar Contra a Fome há muitos anos) não se cansa de repetir por estes dias. No Porto, as instituições no terreno afirmam que a procura de refeições solidárias triplicou. Em Lisboa, a Câmara Municipal, as Forças Armadas e a Santa Casa da Misericórdia viram-se obrigadas a montar uma resposta de 1.500 refeições solidárias adicionais por dia.

A verdade é que a crise sanitária que sobre nós se abateu gerou uma crise económica e social também repentina e de graves consequências humanitárias. Falamos de fome! Se a curva de infetados já atingiu um planalto, o mesmo não se pode dizer da curva dos que necessitam de apoio económico básico: está agora em crescimento exponencial, mas é ainda pouco conhecida.

As instituições do Terceiro Setor não têm mão a medir, estando elas próprias em risco de rutura da sua capacidade de resposta, ao qual se junta um temor diário de decréscimo de apoios.

Estaremos a entrar na “tempestade perfeita”. Com o Estado, empresas e famílias endividados acima do aconselhável, uma economia que gera baixos rendimentos e uma forte dependência externa, mesmo que desejemos o melhor, o pior pode acontecer e é para este cenário que devemos trabalhar nas ações a tomar.

De acordo com o último relatório da Conta Satélite da Economia Social portuguesa, resultado de uma parceria entre o INE e a Cooperativa António Sérgio para a Economia Social, o Terceiro Setor português conta com mais de 70 mil instituições com fins altruístas, nos mais variados setores de atuação (serviços sociais, educação, saúde, cultura, entre outros). Este setor privado social representa 3% do valor da nossa economia e emprega mais de trezentas mil pessoas (a que acrescem milhares de voluntários). É fácil de concluir que se trata, portanto, de uma peça fundamental e incontornável na resposta às necessidades sociais dos portugueses, ao qual o Estado não teria capacidade de se substituir (nem se deve pretender que assim seja) num curto espaço de tempo.

É neste contexto que precisamos do nosso Terceiro Setor mais forte do que nunca. As instituições de solidariedade social devem concentrar-se no seu papel de resposta ao acréscimo de solicitações e não no temor de estrangulamento financeiro e diminuição de bens doados. Isto quando se calcula que o Terceiro Setor tem, em anos ditos “normais”, um deficit anual superior a 600 milhões de Euros, ou seja, para que funcione normalmente e cumpra o seu papel, necessita de ser financiado pelos outros agentes económicos (Estado, empresas e famílias).

Se na relação com o Estado existe uma base de apoio estável (vem de 2011 o primeiro protocolo bienal de Compromisso de Cooperação para o Setor Social e Solidário, celebrado entre o Estado e os representantes do Terceiro Setor, estando em vigor o Compromisso para 2019-2020), o mesmo não se pode dizer na relação com as empresas. Aqui domina a consciência dos acionistas, naquilo a que chamamos responsabilidade social das empresas.

É evidente que a primeira missão das empresas neste momento é a sua própria sobrevivência e a preservação dos postos de trabalho que garantem, mas não podem esquecer o apoio ao Terceiro Setor, que luta de perto contra as situações mais extremas.

Na empresa onde trabalho queremos ser um exemplo. Entre várias outras iniciativas, temos vindo a desenvolver um trabalho próximo com o Banco Alimentar Contra a Fome, garantindo, nas últimas semanas, uma doação conjunta da Deloitte e dos seus colaboradores de 12 toneladas de bens de primeira necessidade feita totalmente online através da plataforma alimentestaideia.pt.

É neste sentido que apelo a que outras empresas portuguesas possam também ser um motor de dinamismo na resposta a esta “outra” emergência nacional e adotem iniciativas que envolvam as suas pessoas na resposta solidária tão necessária e imprescindível nesta altura.