Uma sociedade democrática e livre não pode conviver com a suspeita de interferência política na comunicação social. Os cidadãos confiam no jornalismo para escrutinar o poder político, não para se submeter a ele. Ainda menos tolerável se torna a suspeita quando em causa está a televisão estatal, por definição mais dependente financeiramente das opções do governo e, portanto, mais susceptível de ser instrumentalizada por este. Ora, essa suspeita hoje voltou e intoxicará o ar enquanto a situação não for devidamente esclarecida: o programa “Sexta às 9” da jornalista Sandra Felgueiras, da RTP, foi ou não impedido de emitir em Setembro, durante o período que antecedeu as eleições legislativas? E, se foi (como aparenta ter sido), quem é o responsável por essa decisão editorial e até que ponto esta foi (directa ou indirectamente) condicionada pelo governo? Os factos conhecidos legitimam estas duas perguntas e tornam-nas de resposta obrigatória.

Facto n.º 1: o programa “Sexta às 9” regressou da pausa de férias numa data muito posterior ao previsto. Na última emissão pré-férias de Verão, a 9 de Julho, a jornalista Sandra Felgueiras avançou que o programa retomaria em Setembro. De acordo com as redes sociais do programa, a data seria 13 de Setembro, uma data normal face à prática de anos anteriores, inclusivamente em períodos eleitorais – em 2015, o programa retomou a 11 de Setembro, em pleno período pré-eleitoral. Mas o que aconteceu em 2019 foi bastante diferente: a primeira emissão após a pausa de Verão surgiu somente a 11 de Outubro, exactamente na primeira sexta-feira após as eleições legislativas, atribuindo uma nova calendarização ao programa.

Facto n.º 2: deu-se a “coincidência” de a primeira emissão pós-férias do programa trazer ao conhecimento público dois casos muito graves de favorecimento indevido em negócios geridos por gabinetes do governo. Em causa estará a exploração de lítio em Montalegre (que envolve membros e ex-membros do governo) e outro negócio para o tratamento de resíduos que, aparentemente, terá por detrás um favorecimento a uma empresa do grupo Mota-Engil. É evidente que esta informação, se difundida previamente e em período eleitoral, seria danosa para a imagem do governo e do PS, eventualmente com consequências eleitorais. Aliás, as reacções de dirigentes do PS ao conteúdo dessa emissão explicitam o seu desconforto para com estes trabalhos de investigação jornalística. Portanto, a não-emissão das reportagens em Setembro constituiu uma vantagem objectiva para o governo.

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