Foi dada à estampa a nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSS), e nela se condensa não apenas a visão do Presidente, mas o espírito inteiro da sua  Administração. A sua crueza  revela a transformação silenciosa do mundo.

Está lá, preto no branco, sem ambiguidades nem véus diplomáticos: a América regressa à sua velha pulsação continental, à Doutrina Monroe que lhe serve de instinto primário; volta-se para o Pacífico, onde mede forças com a China; e tudo o que não gravita nesses eixos, incluindo a Europa, torna-se periférico, lateral, quase irrelevante.

Não se trata apenas de um reordenamento de prioridades, mas de algo mais profundo: os Estados Unidos, que até aqui sustentavam, qual Atlas, uma ordem internacional baseada em regras, declaram o fastio por essa tarefa.

O mundo muda. Os documentos oficiais apenas o anunciam.

Há quem desperte com um alarme, há quem se levante com o barulho do camião de lixo, e há quem, como a Europa, seja forçado a acordar com a voz distante de Trump, anunciando, sem pudor e sem hesitação, que se está nas tintas para o Ocidente, e para a NATO. Não é um alarme, é uma sentença.

A Europa, que durante tanto tempo viveu confortavelmente instalada nesta protecção, olha para esta NSS como quem contempla um oráculo sombrio e sente um desconforto difuso, uma espécie de saudade antecipada da tutela que julgara eterna.

A resposta europeia, abalada pelo choque, revela ainda pouca substância.

Porque a substância exige responsabilidade, e nada há mais custoso ao espírito contemporâneo europeu do que admitir que o tempo da adolescência política acabou.

Avizinham-se horas difíceis: o nosso período em órbita de Vénus terminou. Somos compelidos a gravitar novamente para Marte, a recordar que a História é uma força que cobra sempre juros sobre a distração dos povos. A Leste, cresce uma sombra, e não podemos fingir que não a vemos.

A nova NSS norte-americana é um golpe profundo, hostil e sem anestesia. Fala da Europa com desdém, quase com rancor, descrevendo um continente culturalmente esvaído, economicamente convertido em passatempo de burocratas, politicamente à mercê de elites fracas e cobardes.

Não obstante a frieza da mensagem, há nela inquietantes verdades. As aspirações kantianas de paz perpétua, a imigração massiva, conduzida sem critério nem prudência, e as políticas “woke” que dissolvem identidades e hierarquias naturais, conduziram-nos de volta a um mundo que julgáramos superado. Um mundo onde a segurança não é um dado, mas algo por que é preciso lutar.

A paisagem, vista de qualquer janela europeia, é a que é: fronteiras permeáveis, populações nativas em contracção, governos que medem a virtude pela quantidade de “refugiados” e imigrantes ilegais, que podem acolher, um antissemitismo que regressa, imundo e grosso, forças armadas simbólicas, incapazes sequer de suportar uma tarde intensiva de ginástica para seniores.

Vance já dera o sermão; a NSS apenas o verteu em letra. Estamos a viver um daqueles momentos em que a História muda de pele, quando os quadros mentais que nos serviram por décadas se tornam obsoletos.

Trump diz-nos, sem rodeios, que tem outras prioridades. E a bolha em que nos abrigámos, aquela fantasia de que os americanos assegurariam eternamente a nossa defesa enquanto discutíamos as emissões de aspiradores e o alfabeto do género neutro, rebentou. A realidade entra a tropel pela porta.

Urge abrir a carteira e os olhos. Um continente de 450 milhões de habitantes que não consegue pôr de lado o suficiente para garantir a própria defesa, está condenado.  A História não poupa os povos que renunciam à responsabilidade de ser. Cada povo, cada bloco, cada comunidade histórica vive ou morre pela sua própria energia interior.

A parte da NSS que menciona a Rússia é ignominiosa, mas é o que é.  Trump entende que é mais proveitoso manter a “estabilidade” com Putin do que preservar a ligação transatlântica com a Europa. E dá um ultimato: têm um ano para se armarem e organizarem. Lava as mãos e deixa-nos a contemplar a nossa nudez estratégica.

Não temos escolha. Os recursos que devotámos à vigilância de “discursos de ódio” no Facebook ou à gramática inclusiva, terão de ser reorientados para o essencial: olhar para o mapa e verificar que tem países, forças, exércitos, apetites territoriais e vontades.

A UE, sem exército, sem meios nucleares, sem fronteiras sólidas, sem autoridade estratégica, é um edifício conceptual sustentado por retórica e esta, quando sopram os grandes ventos da História, de nada vale. Passado o choque, resta-nos amadurecer, e depressa.

Trump despreza a Europa por muitas razões, mas uma delas é que a Europa se tornou desprezável aos olhos de uma certa América. Por exemplo, durante anos, votámos na ONU como adolescentes que desafiam, apenas para sentir o prazer do desafio.

Sim, esta NSS é também um tiro no pé da América. Mas são assim as separações históricas: cada parte tenta ferir a outra, ignorando que ambas ficam mutiladas.

“Eles que se amanhem”, diz o europeu ressentido. Mas essa frase esconde uma verdade mais amarga: também nós teremos de nos amanhar. E talvez isso seja a única migalha de esperança neste cenário cinzento. Porque tempos difíceis fazem homens fortes. E nós precisamos deles com urgência.

Precisamos de líderes que reconstruam as indústrias de defesa, que armem a Europa até aos dentes, que varram da nossa paisagem moral a fragilidade woke que nos emasculou; líderes que tenham a altivez necessária para erguer a mão, não para saudar grandes potências, mas para lhes fazer o gesto altivo que marca os povos que se reencontram consigo mesmos. Precisamos de produzir a própria energia, de armas nucleares, de aço na espinha. Precisamos de orgulho no que fomos, e de determinação para voltar a sê-lo.

E sobretudo, precisamos de um dever interior, de um estoicismo íntimo, que nos obrigue a entregar aos vindouros um futuro que resgate o que desperdiçámos na lassidão e na moleza a que a hegemonia cultural progressista nos conduziu.

Este é o momento. Ou nos erguemos ou somos apagados. A escolha, pela primeira vez em muito tempo, é inteiramente nossa. A começar pela ajuda à Ucrânia.