Rádio Observador

Mulher

A filha do feminismo

Autor
  • Daniela Silva
174

O insólito, inédito fardo que recai sobre a mulher exige repensar as prioridades valorizadas em sociedade e desafiar o paradigma igualitário que tem inspirado escolhas privadas e orientações políticas

A Fundação Francisco Manuel dos Santos acaba de apresentar um retrato do universo feminino português da actualidade, intitulado As mulheres em Portugal, hoje: quem são, o que pensam e como se sentem, proporcionando uma ocasião de reflexão acerca dos papéis desempenhados por homens e mulheres na nossa sociedade, em particular, sobre o que caracteriza a vida laboral, doméstica e afectiva das mulheres. Uma temática desta natureza é facilmente apropriada pela ala que interpreta a realidade feminina como uma luta permanente contra a desigualdade institucionalizada e pela alegada permanência de organizações hierárquicas e patriarcais no mundo ocidental. Por isso mesmo, importa conhecer os dados empíricos em vez de nos limitarmos à informação divulgada nos grandes títulos noticiosos.

O que nos dizem a maioria desses títulos e textos de opinião? Dizem-nos que há um cansaço generalizado entre as mulheres e que este se explica por existir ainda um longo caminho a percorrer no que concerne à emancipação feminina. Reclamam da falta de oportunidades de afirmação, quando muitas das desigualdades são geradas pelas próprias escolhas livres (educacionais, profissionais, familiares…) de cada uma. Indignam-se contra a força implacável do tempo que restringe o bom desempenho simultâneo em tarefas laborais e domésticas, quando o tempo sempre foi um recurso escasso que assombra todos por igual e que tem sido gerido habilmente por sucessivas gerações que nos antecederam. Imputam culpas à população masculina que, aparentemente, não se esforça para responder às solicitações da vida moderna e às aspirações femininas não realizadas.

Pelo bem das políticas natalistas e do equilíbrio social, a propagação destas ideias pode e deve ser desafiada. A resposta ao declínio da natalidade não pode ficar refém desta visão hedonista e egoísta que, não só aponta como ideal social o anulamento das diferenças naturais entre sexos, como favorece ainda a ideia de que só a mulher enfrenta frustrações, cansaços e infelicidade, tanto a nível físico como psicológico, na actual forma de organização da vida familiar e profissional.

As respostas alternativas passam por compreender, com frontalidade, o processo de fragmentação da família, e em que medida a fragilização dos compromissos legais leva a quebras de confiança mútua entre homem e mulher. Na mesma linha, importa entender o peso da insegurança material no compreensível medo face ao futuro, e a forma como a ausência de rede familiar próxima influencia, ou não, a decisão de ter filhos. Ainda em outros domínios, seria útil averiguar as eventuais distorções provocadas em organizações afectadas por leis de paridade e por outros tipos de discriminação positiva e, de uma perspectiva mais sociológica, a forma como a pressão social e o prestígio associado ao trabalho remunerado e aos graus académicos pode afectar a preferência pela carreira em detrimento da maternidade. Num enquadramento mais histórico, importaria ainda conhecer os contributos mais frequentes e bem-sucedidos da mulher no passado, nomeadamente num registo mais informal de intervenção na sociedade civil e em projectos comunitários. Estes são apenas alguns exemplos raramente abordados nestas discussões e que poderiam abrir novos horizontes de acção.

Mas enquanto isso não acontece, o discurso sôfrego de vitimização pode perpetuar-se infinitamente, pedindo compensações que nunca serão satisfeitas por completo. E o que move tal discurso? Nas suas formas mais toscas e agressivas, o discurso pode explicar-se por simples inveja de características e competências intrinsecamente masculinas, ou poderá ter explicações mais simples, trazendo consigo a marca de desilusões pessoais e ressentimentos acumulados. Mas nos seus pressupostos fundamentais, deve-se ao triunfo da concepção lockeana do indivíduo enquanto sujeito autónomo que reivindica a igualdade perante a lei abstracta. Nesse espírito, delineou-se uma linha clara entre o tratamento público, face ao Estado, e aquilo que se desenrola no domínio da vida privada/doméstica, conforme preconizado por John Stuart Mill. Através desse ambiente cultural e dos seus respectivos desenvolvimentos na esfera institucional, lançaram-se as sementes que têm vindo a alimentar a aspiração igualitária aplicada a questões cada vez mais substanciais, em defesa de uma igualdade material absoluta. Pede-se o possível e o impossível. Num grande salto temporal, naquele que foi um processo de sucessivos inconformismos e de guerra contra a identidade essencialista, diríamos que se passou da exigência de direitos no espaço público, para um activo apelo à divisão de tarefas na casa de cada um, por via de decreto ou de generalizada perseguição social. Não resisto a transcrever um trecho representativo dessa tendência e que podemos encontrar na versão resumida do estudo da FFMS.

É importante implementar medidas que, tanto quanto possível, promovam a co-responsabilidade entre os membros do casal, quer no que respeita ao cuidado da casa e dos/as filhos/as (caso existam), quer no que concerne as contribuições financeiras que deverão cobrir as despesas da família.

A forma de implementar tal desejo, deixo à imaginação do leitor.

Mas passemos em vista uma curiosa conclusão do presente estudo:

Em geral, as mulheres demonstram pouco entusiasmo pelo trabalho pago, sendo este estritamente encarado como uma forma de auferir rendimentos. Das que estão activas no mercado de trabalho, mais de um terço (36%) afirmam que não trabalhariam caso não precisassem de dinheiro para viver. No extremo oposto, quase um quarto (23%) das mulheres trabalhadoras demonstram entusiasmo pelo trabalho pago, afirmando que trabalhariam mesmo que não precisassem de dinheiro para viver. Mais uma vez, a escolaridade parece assumir uma enorme relevância na forma como as mulheres encaram o trabalho. Quanto maior é o nível de escolaridade da mulher, maior parece ser o seu entusiasmo com o trabalho pago.

Isto significa que o factor aliciante para as mulheres na sua participação no mercado de trabalho é a remuneração e não uma romantizada procura de realização pessoal ou o gosto feroz pela competição. Seria interessante colocar a mesma pergunta a uma amostra de homens portugueses e verificar o que mais os entusiasma no mercado laboral. E de caminho, aproveitar para lhes perguntar igualmente quais as razões de infelicidade em geral.

Prosseguindo: Aquilo que as mulheres desejam no seu trabalho ideal vai evoluindo com a idade, em função da sua vida pessoal ou familiar. A partir dos 28 anos, a possibilidade de «conciliar bem o trabalho pago com a vida pessoal ou familiar» torna-se a questão mais premente para a esmagadora maioria das mulheres. Ou seja, quando o relógio biológico dispara de forma mais implacável, a consciência racional das imposições temporais e as determinantes físicas constrangem no sentido de encontrar uma solução rápida para a maternidade. É pacífico reconhecer este fenómeno, sobretudo se confrontarmos o número de filhos idealizado com as reais taxas de fecundidade. O que acirra o debate são sem dúvida as soluções para este problema.

Um último aspecto que gostaria de salientar neste estudo – porque, creio eu, passará mais despercebido – refere-se aos motivos de insatisfação com a experiência de maternidade, nos casos (minoritários) em que esta parece não ter trazido felicidade. São eles, o facto de se sentirem pouco orientadas para a maternidade, em segundo lugar, casos em que as mulheres tiveram de enfrentar o desafio da monoparentalidade e, em terceiro lugar, terem tido um filho difícil de criar ou educar. Quanto a estes três motivos, parece-me evidente, não só a debilitação na transmissão de ensinamentos e a ausência de uma rede de inter-ajuda, para além de serem efeito de uma generalizada atomização social e de crise de autoridade.

Os diagnósticos nesta matéria são algo consensuais, mas as respostas não podem ser únicas e incontestáveis. Infelizmente, é raro ouvir alguma proposta que escape à agenda progressista que se compõe por uma defesa de estímulos artificiais ao emprego feminino, de subsídios à autonomização dos membros da família (das crianças aos idosos), leia-se, à desagregação familiar, ou à defesa de meros incentivos fiscais, pouquíssimo eficazes quando às decisões privadas já estão, há muito, culturalmente enviesadas.

Não deixa de ser curioso que, de uma ambição de autonomia absoluta (legal e moral) na escolha do percurso de vida pessoal, tenha surgido, tantas vezes, a predominância de uma atitude imatura que reclama soluções externas para todos os fracassos ou desilusões sociais, económicas, familiares e existenciais em geral. O indivíduo é responsável pelo seu sucesso ou desgraça conforme queira beneficiar de ensinamentos da experiência ou prefira, em desafio, perseguir objectivos irrealistas por conta própria, contra o passado, contra a biologia, e contra o seu próprio futuro.

O insólito e inédito fardo que recai sobre a mulher nos nossos dias exige repensar as prioridades valorizadas em sociedade e desafiar o paradigma igualitário que tem inspirado escolhas privadas e orientações políticas. Se a sociedade de bem-estar abriu maiores potencialidades de realização e de conforto, é desajustado ficarmos presos a uma situação fatal de infelicidade familiar e individual, imposta pela crua necessidade de subsistência básica ou por uma visão pejorativa da vida doméstica e da divisão especializada de funções em família.

Doutoranda em Ciência Política e Relações Internacionais

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)