Alguém vai ter de explicar a Alfredo Barroso a «gaffe», como escreve embaraçadamente o Público, de António Costa, escolhido pelo PS como o candidato que iria abrir as portas do céu ao partido e fechar as da «austeridade» ao país… Mas vai ser muito difícil, pois não se tratou de uma mera «gaffe». Foi a boca que fugiu para a verdade quando o candidato do PS a primeiro-ministro decidiu festejar o início do ano novo chinês agradecendo genericamente, a um grupo de residentes chineses, os investimentos feitos pelos capitalistas estrangeiros em Portugal nos últimos anos.

O importante para a vida política nacional não é a ironia de Costa ter admitido que «o país está numa situação muito diferente do que estava há quatro anos». Importantes são, isso sim, as divisões que continuam a crescer no principal partido da oposição, já antes de Costa chegar ao poder no partido e, sobretudo, depois das eleições gregas. A vitória do Syriza encheu a cabeça da liderança socialista de ilusões e de concessões à chamada «esquerda radical», às quais Vital Moreira, antigo deputado europeu do PS, foi dos primeiros a retorquir vigorosamente e que se consumaram na terça-feira passada, quando o governo grego teve de dar o dito por não dito ao Eurogrupo, a fim de obter dinheiro para pagar as contas dos próximos quatro meses. Depois de Junho ver-se-á.

Na realidade, Alfredo Barroso está a fazer em relação à direcção do PS o mesmo que o veterano Manolis Glezos fez ao Syriza e, do seu ponto de vista, tem toda a razão. Com efeito, as palavras registadas pelo vídeo são surpreendentes vindas de quem vieram. Disse Costa: «Numa ocasião difícil para o país, em que muitos não acreditaram que o país tinha condições para enfrentar e vencer a crise, a verdade é que os chineses, os investidores, disseram presente, vieram e deram um grande contributo para que Portugal pudesse estar hoje na situação em que está, bastante diferente daquela que estava há quatro anos».

Nada mais claro: não foram apenas os «chineses» que «disseram presente»; foram os «investidores» em geral. Portanto, se o país está «bastante diferente», neste contexto, só pode mesmo ser para melhor, a caminho talvez de «vencer a crise»! Não há semântica à moda do Syriza que altere o significado das palavras do líder PS, de resto reivindicadas todos os dias por Passos Coelho para não serem imediatamente reconhecidas pelo eleitorado. Assim como Glezos não se deixou enganar pela dupla Tsipras-Varoufakis, também Alfredo Barroso ouviu bem.

Resta saber o impacto que isto terá dentro do PS e, sobretudo, junto do eleitorado colocado por Costa perante as divergências internas de uma oposição cada vez mais fragmentada. É certo que a vitória une, conforme sucedeu com os múltiplos partidos que se aliaram no Syriza, assim como os radicais de direita que se juntaram a ele para formar governo, mas a sombra das eleições gregas e da inevitável submissão do Syriza às regras do euro continua a pairar sobre todos os partidos e mini-partidos da oposição portuguesa. Agora, resta-lhes apostar no mediático Podemos nas eleições espanholas, as quais também deverão reflectir a evolução da situação grega.

Ora, nada leva a crer que esta surpreenda pelo êxito. Não serão medidas passe-partout, como a intenção de lutar contra a corrupção e a evasão fiscal ao cabo de cinco anos de «ajustamento», que produzirão resultados palpáveis daqui a poucos meses. Pelo contrário, o contorcionismo a que o governo do Syriza será obrigado só provocará mais dificuldades e frustrações para o eleitorado grego. Por outras palavras, se há algum efeito de contágio a esperar da situação grega, será no sentido de os eleitorados do Sul da Europa se renderem à expectativa de melhorias, no sentido reconhecido pelo próprio líder do PS, trazidas pelo ajustamento às regras da moeda única e ao quantum necessário de austeridade.

Quem se apercebe muito bem disso é Marina Costa Lobo, ao chamar a atenção para o cisma que o PS tem estado a abrir no seio do eleitorado português acerca da nossa pertença à UE, mesmo antes da adesão formal, enquanto barreira que era e continua a ser contra os desvios autoritários. Portanto, o efeito Grécia pode estar a tornar-se mais prejudicial do que vantajoso, como alguns ideólogos desejavam ainda há muito pouco tempo, para as esquerdas pretensamente anti-austeritárias.

Talvez seja disso mesmo que António Costa se apercebeu ao reconhecer que «o país está bastante diferente». Ou então é mesmo o caso de o discurso do candidato a primeiro-ministro continuar a hesitar perante um rumo certo que teima em fugir-lhe. Com efeito, o ruído que tem circulado na comunicação social, segundo o qual o presidente da Câmara de Lisboa teria perdoado uns milhões de euros ao «glorioso», também não favorece o candidato do PS à governação junto dos não benfiquistas… Seja como for, Portugal está muito diferente do que era em 2011, quando um primeiro-ministro em fuga desordenada para a frente, Sócrates, se viu obrigado pela bancarrota a chamar a «troika». E daí para cá, se Portugal não está bem, como não está, encontra-se certamente melhor do que nessa altura e, sobretudo, muito melhor do que os adversários do actual governo vaticinaram durante três anos.