Ensino Superior

A internacionalização das Instituições de Ensino Superior não é um concurso de misses

Autor
  • Magda Resende Ferro
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A internacionalização tornou-se uma declaração repetida nos planos estratégicos das Instituições de Ensino Superior, mas o problema é que tais projectos continuam a significar coisas muito diferentes.

A internacionalização é desde há alguns anos, uma palavra muito em voga nas Instituições de Ensino Superior (IES) em Portugal, nos últimos anos. Seja nos discursos dos responsáveis destas Instituições, seja nas conversas de corredor, não há ninguém para quem a internacionalização de uma IES não seja, no mínimo, muito importante.

A internacionalização tornou-se nos últimos tempos uma declaração repetida nos planos estratégicos das Instituições de Ensino Superior Portuguesas e a sua importância, uma presença assídua nos discursos dos seus responsáveis máximos que falam de internacionalização como qualquer respeitada candidata a Miss Universo falará da paz no mundo.

O problema é que apesar dessa aparente unanimidade do discurso em relação à importância da internacionalização, na prática, a internacionalização continua a significar coisas muito diferentes para pessoas diferentes, o que resulta usualmente em políticas de internacionalização pouco consistentes e sustentadas, seja por não serem as mais adequadas aos objetivos da instituição, seja porque não levam em consideração os respetivos recursos ou ainda porque decorrem de processos de tomada de decisão não sistematizados. Com uma natureza complexa que é afetada tanto pelo enviesamento institucional quanto pelo contexto, a unanimidade na importância atribuída ao conceito de internacionalização tende a desaparecer quando tentamos materializá-lo e fazer planos para a ação. Ou seja, “por causa da multiplicidade de conceitos e lógicas existentes, a internacionalização é referida como argumento para praticamente qualquer reforma do ensino superior” (Teichler, 2009), resultando em falta de consistência desperdício de recursos.

E se até há algumas décadas atrás, utilizar linguagem de gestão empresarial a propósito de Universidades, soaria de forma bizarra e levaria à sublevação de toda a comunidade académica, a verdade é que há quase duas décadas que a Educação faz parte do Acordo Geral sobre Comércio (Acordo de liberalização da exportação e importação de serviços educacionais) como um dos 12 setores de serviços. Por isto, é importante repensarmos a forma como olhamos para as Instituições de Ensino Superior, percebermos que a importação e exportação de programas e serviços educacionais é uma área potencialmente lucrativa de comércio e que consequentemente as IES são hoje também elas empresas de serviços e consequentemente serem geridas como tal.

É precisamente numa perspetiva de gestão a que deveremos utilizar quando pensamos em internacionalização.

Felizmente, muitas Universidades e Institutos Politécnicos em Portugal nos últimos anos compreenderam já isto, talvez em parte, motivados em grande parte pela necessidade de fazer face ao decréscimo no número de alunos portugueses que se candidata ao Ensino Superior nacional. É importante contudo fazer notar que a internacionalização das IES não se esgota na captação de estudantes internacionais e que existem muitos outros instrumentos de internacionalização disponíveis. E, que o importante é na prossecução dos diversos objetivos, tomemos decisões que otimizem recursos e maximizem os resultados dos investimentos realizados.

Infelizmente, tenho dúvidas que as IES Portuguesas sigam esta lógica quando se trata de internacionalização. Seja por falta de unanimidade no seu entendimento, seja por falta de uma abordagem de gestão no tratamento deste assunto.

Com o objetivo de otimizar recursos e maximizar os resultados dos investimentos realizados, devemos começar a olhar para a internacionalização a partir de uma perspetiva de gestão. E isso requer a sistematização de informações que permitirão aos Reitores de Universidades, Presidentes de Institutos Politécnicos, e gestores de IES tomarem decisões estratégicas informadas. A tomada dessas decisões implica responder a algumas questões- chave: (1) Porque queremos internacionalizar; (2) Quais são as ferramentas de internacionalização que temos disponíveis, e quais as suas vantagens e desvantagens? (3) Podemos usar essas ferramentas indiscriminadamente ou devemos adaptá-las às nossas motivações e objetivos específicos?

É importante compreender que a internacionalização das IES pode assumir muitas formas e que as suas várias dimensões estão intimamente interligadas. A internacionalização tem mais hipóteses de ser implementada e bem-sucedida se for baseada numa abordagem holística e abrangente e se depender de um processo de tomada de decisão sistemático. Porque a internacionalização das Instituições de Ensino Superior não é um concurso de misses.

Diretora de Relações Internacionais da Universidade Católica do Porto

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