Num mundo onde os conflitos proliferam quem serve de grande potência garante da ordem global? E será que estamos a assistir a um regresso dos grandes impérios predatórios na terra e no mar? Por fim, será que o terceiro partido mais votado em Portugal vai conseguir garantir a eliminação da corrupção do Brasil, ou Ventura anda a fazer fretes eleitorais?
China agora quer ser garante da ordem global
O líder chinês Xi Jinping foi claro: “não podemos permitir o regresso à lei da selva”. Mesmo que não se goste do regime chinês, é evidente que o Estado chinês tem mostrado visão estratégica de longo prazo. A frase de Xi contraria a visão errada de que a China só tem a ganhar com a guerra dos EUA contra o Irão. E é tanto mais relevante quanto Pequim tem jogado a cartada de defensor do Sul Global contra as alegadas injustiças da ordem internacional vigente construída pelo Ocidente. Xi Jinping sabe que a ordem vigente não sendo perfeita, é a melhor que se arranja, e é certamente muito melhor do que o caos. Claro que Pequim beneficia se Trump atolar os EUA novamente no Médio Oriente. Mas a China precisa de segurança de navegação, de estreitos abertos para poder continuar a exportar produtos e importar matérias-primas. Se uma economia do tamanho da China está preocupada, todos devemos estar preocupados. Como ficará o turismo em Portugal se milhares de voos forem cancelados ou passarem a ter preços incomportáveis? Entretanto, a China beneficia por poder apresentar-se como garante de estabilidade e defensora da ordem global por contraste com a incerteza permanente que Donald Trump se gaba de promover.
Regresso dos impérios e do mar fechado
Finalmente cheguei ao volume IV, à letra i, e à definição de império no dicionário de Rafael Bluteau, que, nesse início do século XVIII, era entendido como “monarquia ou região muito vasta dominada de um príncipe”. Dá vários exemplos que mostram que apesar de “se tomar por Alemanha”, ou seja, de na Europa o termo se ter tornado um quase sinónimo do império da dinastia Habsburgo, podia ser aplicado a outros grandes Estados como o africano “Império do Monomotapa” ou o “Império do Mogol” na Eurásia. Nisto dos primeiros dicionários Portugal não se atrasou face ao resto da Europa. E também não mostra um eurocentrismo preconceituoso que hoje é preconceito da moda presumir para esses períodos. Mas mais interessante para a crise global atual é o primeiro grande dicionário da língua inglesa, do famoso Samuel Johnson, de 1755. Também explica que um império “é geralmente de maior dimensão que um reino”, e como Bluteau também o define como autoridade suprema. E a este respeito dá um exemplo que parece pensado para comentar a crise que global que estamos a viver: “nenhuma nação tem o direito ao império dos mares”.
Para um inglês culto de meados do século XVIII – em Londres ou em Nova Iorque – era evidente que esse era um pilar da ordem global, indispensável para a prosperidade universal. Os EUA criaram a sua marinha para defender esse princípio de liberdade de navegação. A primeira guerra dos jovens EUA, entre 1801-1805, foi contra Trípoli que exigia uma espécie de portagem, de tributo para garantir a segurança de navegação de um determinado país, ou pirateava esses navios e escravizava as tripulações. Os EUA preferiram combater a aceitar esse sistema. Se o Irão sair desta guerra a controlar a navegação no estreito do Ormuz ou a cobrar uma portagem pela passagem será a maior derrota estratégica da marinha dos EUA, desde a sua fundação. Portugal, como grande império marítimo, começou por se opor à liberdade de navegação. Os portugueses cobravam pela passagem no estreito de Ormuz – controlavam as duas margens – com o chamado sistema de cartazes. Mas perdeu essa batalha no século XVII. E hoje a nossa economia, toda a economia mundial – muito dependente de
importações e exportações baratas e previsíveis por via naval – assenta nesse princípio.
O moço de fretes que queria ser Presidente
Por fim, o intervalo cómico. Esta semana um deputado e líder de um partido, recentemente candidato a Presidente da República (o segundo mais votado) decidiu vestir uma t-shirt e organizar uma pequena manifestação para gritar contra a alegada corrupção do presidente do Brasil, em visita oficial a Portugal. Foram poucos, mas deram um triste espetáculo e deixaram claro que o terceiro partido mais votado em Portugal não faz ideia do que seja política externa ou como defender os interesses do país no palco internacional. O presidente do Brasil vinha da Alemanha, pelos critério de Ventura um país fraco, onde nenhum líder partidário se atreveu a manifestar-se contra Lula, apesar de ele ter, no passado recente, criticado o chanceler Merz. Deviam estar ocupados a aplaudir novos acordos de investimento no Brasil. Acordos como o assinado, também nesta semana, por norte-americanos para a mineração de terras raras no Brasil (que tem as segundas maiores reservas conhecidas).
Considerei um disparate uma parte da esquerda defender que Portugal devia cortar relações com Jair Bolsonaro quando ele foi eleito presidente do Brasil. Os portugueses têm direito de gostar mais ou menos de Lula, Bolsonaro, Trump (algo que uns quantos fanáticos têm dificuldade em aceitar, mas numa democracia plena é assim). Até têm direito de se manifestar livremente. Mas uma coisa são opiniões pessoais, simpatias políticas, outra é política de Estado. É um disparate defender que o Estado português deve hostilizar um qualquer presidente brasileiro, legitimamente eleito, porque não gostamos politicamente dele. Se é muito, pouco ou nada corrupto é um problema para a justiça brasileira resolver. Pelo menos Lula, ao contrário de Bolsonaro, até mostra interesse em visitar regularmente Portugal e manter boas relações.
Eu sou crítico de um alinhamento automático com os governos dos países lusófonos ou de uma diplomacia excessivamente passiva. Podemos, de forma diplomática, assumir diferenças na nossa ação externa, mas quando isso faz sentido para defender os nossos interesses. Outra coisa é importar guerras políticas interna doutros países, comprar conflitos que não nos dizem respeito. E a defesa dos valores? Bem podemos optar por isso, mas se levarmos demasiado longe essa lógica cortamos relações com dois terços do mundo com regimes autoritários e só compramos petróleo à Noruega. E alguém acredita que será por causa da pressão de Portugal que haverá menos corrupção em Angola ou no Brasil? Prestar-se, como fez Ventura, a ser o moço de fretes do bolsonarismo não é defender os interesses, os valores, ou a honra de Portugal. Será, talvez, uma forma fácil de conquistar uns votos de emigrantes com dupla nacionalidade, mas isso é pôr o interesse do partido acima do interesse nacional.
E ainda havia quem tivesse dúvidas sobre quem devia ir para Belém, Ventura ou Seguro. Por enquanto, estes “patriotas” não têm poder para causar danos mais sérios aos interesses da pátria. Perguntem aos húngaros como é que correu para eles a experiência com este género de “patriotismo” no poder, parece que não gostaram.